Entre Dois Mundos
18 REFÚGIOS
Notas iniciais
Por alguns minutos após o pedido negado de Arnold, a festa inteira pareceu suspensa em constrangimento. Mas Margot Vaz era experiente demais para permitir que um escândalo destruísse seu evento. Sem perder a pose, ela voltou ao centro do salão sorrindo elegantemente, incentivando os músicos a retomarem o repertório.
— Nada de rostos tristes hoje! — anunciou teatralmente. — Ainda temos uma festa maravilhosa acontecendo!
E, aos poucos, os convidados fizeram exatamente o que a elite sempre soube fazer melhor: fingiram que nada havia acontecido.
As conversas retornaram. Taças voltaram a tilintar. Casais dançavam novamente ao som da banda. Como se minutos antes uma proposta de casamento pública não tivesse terminado em humilhação.
Helena permanecia parada próxima à mesa principal, ainda sem reação.
O orgulho havia sido atingido diante de pessoas importantes demais.
Lorenzo observava tudo em silêncio. Por um instante, cogitou subir imediatamente para ver a filha. Mas sabia que Isabelly precisava respirar.
Precisava de espaço. Arnold, por outro lado, parecia perdido entre o orgulho ferido e a obsessão crescente.
Depois de algum tempo, aproximou-se novamente de Helena e Lorenzo para se despedir.
— Peço desculpas por qualquer constrangimento — disse tentando manter a elegância. — Talvez… não tenha sido o momento certo.
Helena ainda estava desnorteada demais para responder adequadamente. Já Lorenzo apenas o observava.
Então Arnold completou algo que fez Lorenzo sentir um desconforto imediato.
— Mas Isabelly ainda será minha.
A frase saiu calma demais. Convicta demais.
O silêncio que veio depois foi estranho. Arnold ajeitou o próprio terno antes de partir. Mas enquanto caminhava até o carro a imagem de Isabelly naquele vestido permanecia fixa em sua mente.
A mulher em que ela havia se tornado. A beleza. A postura. A distância.
Ele suspirou lentamente ao entrar no carro. E percebeu algo perigoso: não queria apenas casar com Isabelly. Ele a desejava profundamente.
Na manhã seguinte, Isabelly demorou a sair do quarto.
Quando finalmente apareceu, encontrou apenas Margot sentada na varanda da casa tomando café.
A tia abriu um sorriso suave ao vê-la.
— Dormiu alguma coisa?
Isabelly sentou-se devagar.
— Um pouco.
Margot segurou delicadamente a mão da sobrinha.
— Você não precisa se desculpar comigo.
Os olhos de Isabelly marejaram discretamente.
— Eu estraguei sua festa.
— Aquilo foi exagero do Arnold, não seu.
Margot suspirou.
— Pedido de casamento em público… sinceramente, homens ricos adoram transformar sentimentos em espetáculo.
Isabelly soltou um pequeno riso triste. Margot então acariciou o rosto dela com carinho.
— Você se tornou uma mulher incrível, Isabelly.
A jovem baixou os olhos.
— Sua mãe ainda vai perceber isso um dia.
Mas, no fundo ambas sabiam que Helena talvez nunca enxergasse a filha além das expectativas que criara para ela. As duas se abraçaram longamente.
E Isabelly percebeu que precisava daquele carinho mais do que imaginava.
A viagem de volta para Seattle foi silenciosa. Helena e Isabelly sequer conseguiam se olhar. Lorenzo dirigia enquanto o peso da tensão ocupava todo o carro. Mas Helena permanecia presa aos próprios pensamentos.
Porque, para ela, aquilo ainda não havia acabado.
Isso vai passar, pensava consigo mesma.
Isabelly só está confusa.
E Helena Velloci definitivamente não pretendia desistir de um “bom partido” para a filha.
Assim que chegaram à residência dos Velloci, Isabelly praticamente correu para o quarto. E a primeira coisa que fez foi pegar o celular.
Ligou para Maceli. A amiga atendeu imediatamente.
— O que aconteceu?
E então Isabelly contou tudo. O pedido. A humilhação.
A discussão silenciosa com a mãe. O desespero que sentira diante de todos aqueles olhares.
Do outro lado da linha, Maceli ficou completamente indignada.
— Eu vou aí agora.
Naquela mesma tarde de domingo, Alex tentava se distrair da própria maneira. Ou pelo menos tentava. Sentado no sofá do apartamento, jogava partidas online de Call of Duty com Adam, que aparentemente já havia superado completamente a derrota do Seattle Sounders.
Na verdade Adam descontava toda frustração nos jogadores online.
— COMO VOCÊ NÃO VIU ESSE CARA?! — gritava no headset.
Alex ria baixo enquanto recarregava a arma no jogo.
— Você está assustando até os servidores.
Adam era absurdamente bom jogando.
Irritantemente bom. E claramente competitivo demais.
— Aprende comigo, Oliveira.
— Prefiro manter minha sanidade.
Mesmo distraído pelas partidas, Alex ainda pensava nela nos intervalos silenciosos.
Pensava se Isabelly estava bem. Se o fim de semana dela havia sido tão ruim quanto parecia.
Enquanto isso, Maceli literalmente resgatava Isabelly da casa dos Velloci.
Assim que chegou, nem fez questão de esconder o descontentamento ao cruzar com Helena. Pouco depois, as duas já estavam no apartamento luxuoso de Maceli. Isabelly finalmente parecia respirar melhor longe daquele ambiente.
Maceli caminhava de um lado para o outro indignada.
— Sério quem pede alguém em casamento no meio de uma festa cheia de desconhecidos?! Pior! Numa festa de outra pessoa!
Isabelly estava sentada no sofá abraçando uma almofada.
— Arnold sempre foi… intenso.
— Intenso? Isso foi praticamente uma emboscada emocional!
Apesar da irritação da amiga, Isabelly acabou sorrindo de leve.
— Já passou.
Maceli parou diante dela.
— Não passou completamente.
O silêncio confirmou isso.
Então Maceli perguntou:
— Você falou com o Alex?
Isabelly negou devagar com a cabeça. O rosto dela mudou imediatamente só de ouvir o nome dele.
E Maceli percebeu. Claro que percebeu. Então um sorriso lentamente surgiu em seus lábios.
Aquele sorriso perigoso de quem acabava de ter uma ideia.
— Quer ir ver ele?
Isabelly levantou os olhos imediatamente.
Sem palavras. Sem reação instantânea. Mas o brilho diferente em seu olhar já era resposta suficiente.
Maceli cruzou os braços satisfeita.
— Eu sabia.
— Maceli…
— Nada de “Maceli”. Você precisa disso.
Ela pegou a bolsa e as chaves do carro.
— E por sorte… eu sei exatamente onde ele mora.
Isabelly ficou imóvel por alguns segundos.
O coração acelerando de um jeito que ela não conseguia controlar.
Porque, naquele momento… ir ao encontro de Alex parecia exatamente o que ela queria.
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