Entre Dois Mundos
16 DISTÂNCIAS NECESSÁRIAS
Naquela noite, Alex ficou vários minutos encarando a mensagem de Isabelly antes de tomar uma decisão. Então ligou. O telefone chamou algumas vezes até que ela atendesse.
— Oi… — a voz dela saiu baixa, cansada.
Alex fechou os olhos por um instante ao ouvi-la.
— Oi.
Silêncio. Os dois pareciam procurando as palavras certas sem realmente encontrá-las.
— Eu não queria cancelar — Isabelly disse primeiro.
— Eu sei.
Mas a insegurança ainda estava ali. Ela percebeu.
— Alex…
— É só estranho.
A sinceridade dele a fez apertar mais forte o celular.
— Parece que sempre aparece alguma coisa tentando afastar a gente.
Do outro lado da linha, Isabelly respirou fundo.
— Minha mãe…
Ela parou por um instante.
— Ela nunca foi o tipo de pessoa que aceita perder controle das situações.
Alex ouviu em silêncio.
— E esse final de semana é importante pra ela — Isabelly continuou. — Mais do que eu gostaria.
Ele encostou-se no para peito da varanda.
— Você vai ficar bem?
A pergunta saiu genuína. E aquilo mexeu com ela.
— Vou.
Houve outro silêncio. Pesado. Mas honesto.
Porque os dois odiavam a ideia de passar o final de semana longe um do outro depois de tudo que haviam vivido. Mesmo assim… parecia inevitável.
Então Alex disse algo que a fez parar completamente.
— Você lembra-se do que falou na orla?
Ela fechou os olhos lentamente.
— Sobre o quê?
— Sobre sua família não mudar quem você é por dentro.
Isabelly ficou em silêncio.
E Alex continuou:
— Eu acredito nisso.
Os olhos dela marejaram discretamente. Porque, naquele momento, ele estava escolhendo acreditar nela acima de todas as diferenças.
— Obrigada… — ela respondeu quase em um sussurro.
A voz falhou um pouco antes de continuar:
— Eu queria muito estar com você esse final de semana.
Alex sorriu de leve sozinho. Mesmo sentindo falta dela antes da ausência começar.
— A gente combina algo quando você voltar.
— Promete?
— Prometo.
Mais tarde, já na suíte principal da casa dos Velloci, Lorenzo observava Helena retirar algumas joias do closet para o evento do dia seguinte.
— Você está exagerando — ele comentou calmamente.
Helena nem levantou os olhos.
— Não estou.
— Está transformando esse aniversário em uma negociação social.
Ela finalmente virou o rosto.
— Porque oportunidades importantes precisam ser aproveitadas.
Lorenzo suspirou.
— Você ainda insiste nisso?
Helena aproximou-se devagar.
— Arnold provavelmente estará lá.
O nome trouxe imediatamente um peso diferente ao ambiente.
— Helena…
— Ele sempre gostou da Isabelly.
A voz dela carregava convicção absoluta.
— Eles cresceram juntos. Se conhecem desde crianças. Existe carinho, história, compatibilidade.
Lorenzo passou a mão pelo rosto.
— Existe escolha da nossa filha nisso tudo?
Helena desviou o olhar apenas por um instante.
— Esse reencontro pode fazer Isabelly entender o que realmente importa.
Mas Lorenzo já começava a perceber algo que Helena ainda ignorava completamente: talvez a filha já tivesse escolhido outro caminho.
O Sábado amanheceu ensolarado. Raro para Seattle. Os Velloci partiram logo cedo em direção à casa de campo de Margot. A propriedade era imensa. Elegante. Daquelas herdadas de famílias antigas que carregavam dinheiro há gerações.
Desde a morte do marido, George Vaz, Margot vivera confortavelmente sustentada por uma pensão milionária — e, sem o marido para limitar seus gastos extravagantes, ela transformava qualquer encontro em um verdadeiro evento social.
E aquela festa seria exatamente isso. Funcionários organizavam mesas enormes no jardim. Bebidas sofisticadas. Comida refinada. Música ao vivo. Carros luxuosos chegando pouco a pouco. Seattle importante estava prestes a aparecer ali.
Margot recebeu Helena e Lorenzo com entusiasmo exagerado. Mas ao ver Isabelly… abriu um sorriso genuíno.
— Meu Deus… olha você!
Margot segurou delicadamente o rosto da sobrinha.
— Como cresceu bonita!
Isabelly sorriu educadamente.
— Você sempre exagera tia...
— Exagero nada! Alguém vai ficar completamente bobo quando te vir de novo.
Isabelly imediatamente percebeu o rumo do assunto. E fugiu dele antes que precisasse ouvir o nome.
— Eu vou subir um pouco antes da festa começar.
Margot soltou um pequeno riso.
— Continua escapando de conversas inconvenientes igual quando era adolescente.
Isabelly apenas sorriu sem graça antes de seguir para o quarto de hóspedes. Mas o coração já começava a ficar inquieto.
Enquanto isso, naquela tarde, Seattle parecia mais cinza do que o normal. E Alex sentia o apartamento silencioso demais. Vazio demais. Milu dormia tranquilamente no sofá enquanto ele tentava ocupar a mente com qualquer coisa.
Queria ligar. Queria ouvir a voz dela. Mas também não queria ser inconveniente. Tinham prometido conversar quando ela voltasse. Então ele apenas esperava. Mal.
Até que alguém bateu na porta.
Adam.
— Você está com cara de protagonista abandonado de drama romântico — comentou assim que entrou.
Alex lançou um olhar cansado.
— Obrigado pelo apoio emocional.
Adam ignorou completamente.
— Levanta. Vamos sair.
— Não.
— Sim.
— Pra onde?
Adam abriu um sorriso.
— Futebol.
Alex imediatamente pareceu menos interessado.
— Você sabe que isso não é muito minha praia.
— Justamente por isso você precisa ir.
Algumas horas depois, o estádio estava completamente lotado. O barulho da torcida vibrava nas arquibancadas enquanto o Seattle Sounders, time local, entrava em campo precisando apenas de um empate. Adam gritava como se a própria vida dependesse da partida.
Alex permanecia mais contido. Mas, aos poucos… o ambiente começou a funcionar. Os gritos. A tensão do jogo. A energia coletiva. Por um breve instante, ele conseguiu distrair a mente. Conseguiu parar de pensar na distância entre ele e Isabelly. Conseguiu esquecê-la. Mesmo que só por alguns minutos.
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