Entre Dois Mundos
9 DISFARCES DE UMA SEGUNDA-FEIRA
O apartamento de Maceli Gerrard Jones era exatamente como ela: elegante sem esforço e grande demais para uma única pessoa. As janelas amplas deixavam Seattle entrar em tons frios e sofisticados. Cada móvel parecia ter sido escolhido mais por estética do que por necessidade — e, de certa forma, era verdade. Um presente de seu pai, Steve Gerrard Jones, dono da Publisher Stars.
Isabelly caminhava devagar pelo ambiente, observando tudo com curiosidade contida.
— Faz tempo desde a última vez que estive aqui. Sente falta deles? — ela perguntou, sentando no sofá.
Maceli jogou a bolsa em uma cadeira e se jogou ao lado dela.
— Como não sentir. Na prática, esse lugar soa mais como um hotel pessoal.
Isabelly soltou um pequeno sorriso.
— E grande demais para uma pessoa.
— Confortável demais para dividir — Maceli respondeu, piscando.
Houve um breve silêncio entre elas.
Até Maceli quebrá-lo.
— E então… — ela virou o rosto para a amiga — como foi à conversa com ele?
Isabelly desviou o olhar por um segundo.
— Normal.
— “Normal” não combina com o jeito que você está evitando me olhar.
Isabelly suspirou.
— A gente conversou… só isso.
Maceli arqueou a sobrancelha.
— Só isso?
Isabelly hesitou.
— Você armou aquilo não foi?
A pergunta veio direta.
Maceli não se ofendeu. Apenas sorriu de canto.
— Imagina
— Maceli…
— Tá, em partes, sim, mas...
Isabelly a observou com atenção.
Maceli então continuou enquanto deitava no sofá.
— Eu só aproveitei o caos que o Adam Riveras cria naturalmente.
Isabelly relaxou um pouco, mas ainda desconfiada.
— Minha mãe não gostaria disso.
— Sua mãe não precisa gostar de tudo que acontece na sua vida.
Isabelly baixou o olhar.
— Ultimamente… Ela tem tentado controlar mais as coisas.
Maceli então voltou a sentar no sofá ficando de frente pra a amiga.
— Ela sempre foi intensa. Mas agora está diferente – continuou Isabelly.
— Diferente como? – Pergunta no mesmo instante em que Isabelly a olha nos olhos.
Ela hesitou. Fez uma pausa curta e concluiu em seguida.
— Como se tudo estivesse sendo decidido por mim, mas sem mim.
Maceli observou a amiga por alguns segundos, sem brincadeira agora.
— Não permita isso!
Isabelly preferiu não responder, mas isso já soava como uma resposta suficiente.
Do outro lado da cidade, Alex estava deitado na cama de seu apartamento.
Milu dormia ao lado, completamente despreocupado com qualquer coisa que envolvesse sentimentos humanos. Alex, por outro lado, não conseguia desligar a mente.
O boliche. A conversa. O jeito como Isabelly olhava para o ambiente como se estivesse sempre um pouco distante, mas nunca ausente. E, principalmente o jeito como ela olhava para ele quando achava que ele não estava percebendo.
O celular vibrou.
Adam: Eu devia receber um prêmio por esse reencontro. Melhor, deviam erguer um monumento em minha homenagem!
Alex leu a mensagem.
Olhou para o teto.
E pela primeira vez em dias riu.
Digitou:
Alex: Você sempre insuportável.
A resposta veio quase imediata:
Adam: Um pouquinho, mas funcionou.
Alex não respondeu.
Mas ficou encarando o celular por mais alguns segundos do que o necessário.
O Domingo passou rápido para todos eles.
Isabelly voltou para a casa dos Velloci, para o ambiente onde tudo parecia organizado demais e, ao mesmo tempo, controlado demais. Maceli passou o dia alternando entre encontros com outras amigas da alta sociedade e uma vida social que parecia sempre estar em movimento.
Alex decidiu passar aquele dia em casa. Organizou coisas que não precisavam ser organizadas. E cuidou de Milu como se aquilo fosse o único ponto realmente estável do seu dia. Adam jogou futebol com o pessoal do clube, rindo alto, vivendo como se nada no mundo fosse pesado o suficiente para prendê-lo por muito tempo.
E assim a Segunda-feira chegou a Seattle como todas as outras: inevitável.
Na Publisher Stars, o ambiente já pulsava com reuniões, prazos e vozes atravessando corredores. Alex entrou no prédio com seu habitual silêncio. Isabelly já estava lá.
Ela passou por ele no corredor. E, por um segundo breve demais para ser coincidência os olhares se cruzaram. Nenhum sorriso. Nenhuma pausa.
Apenas reconhecimento silencioso. E depois, distância. Na reunião com os diretores, ambos estavam presentes. Sentados em lados diferentes da mesa. Profissionais. Controlados. Discretos. Alex respondia quando necessário. Isabelly tomava notas com precisão impecável. E Adam, encostado de forma relaxada na cadeira, observava tudo com um sorriso de canto — como se estivesse assistindo a um experimento que só ele entendia completamente.
Ele percebeu primeiro. O pequeno atraso antes das respostas. Os olhares que evitavam se encontrar diretamente, mas se procuravam sem querer. E principalmente o esforço visível para parecer que nada havia acontecido. Mais tarde, no refeitório da empresa, o acaso fez o que a reunião não conseguiu evitar. Alex entrou primeiro. Isabelly veio logo depois. Ela parou por um instante ao vê-lo. Ele também. Houve aquele segundo suspenso no ar. Então ambos seguiram em frente como se fosse coincidência normal.
— Oi — ela disse, educada.
— Oi — ele respondeu.
Simples. Controlado. Mas havia algo ali. Algo que não precisava de palavras longas.
Eles se serviram em silêncio por alguns segundos. Até Isabelly comentar, quase casualmente:
— Sempre almoça aqui?
Alex olhou para ela.
— Quando não estou evitando reuniões.
Ela sorriu leve.
— Isso parece inteligente.
— Ou preguiçoso.
— Talvez um pouco dos dois.
Um pequeno silêncio confortável se formou entre eles. E, por baixo da aparência profissional, algo continuava crescendo. Discreto. Mas constante. Como se, mesmo tentando se afastar… eles sempre acabassem no mesmo lugar.
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