Entre Dois Mundos

5 CORRENTES E CONVITES


A manhã de Sábado nasceu cinza em Seattle, mas não pesada como a noite anterior. Havia um tipo de leveza fria no ar, como se a cidade estivesse apenas respirando devagar depois de uma semana longa.

Alex abriu os olhos com o som insistente de batidas na porta.

— Se você estiver dormindo, eu vou considerar isso uma traição à amizade — a voz de Adam veio do outro lado.

Alex passou a mão pelo rosto, ainda cansado.

— Eu não estou dormindo.

— Mentira. Mas tudo bem, eu te salvo dessa.

Quando abriu a porta, Adam já estava pronto, roupas de corrida, energia absurda e um sorriso irritante de tão cedo.

— Orla de Seattle. Agora. Vamos.

Alex olhou para ele por alguns segundos.

— Você não cansa de existir assim?

— Não.

A orla estava fria, úmida, viva. O som do mar batendo contra o concreto tinha algo que reorganizava pensamentos. Alex sempre gostou disso — não pela paisagem em si, mas pelo silêncio interno que ela criava.

Adam corria ao lado dele, como se aquilo fosse uma competição imaginária.

— Você está estranho — ele comentou, depois de alguns minutos.

— Eu sempre sou estranho pra você.

— Não. Hoje é diferente.

Alex não respondeu. Adam reduziu o ritmo.

— Vai me dizer que é trabalho?

— Não.

— Então é mulher.

Alex lançou um olhar rápido para ele.

— Você tem uma obsessão em transformar tudo em romance.

— E você tem uma obsessão em fingir que não sente nada.

Alex desviou o olhar para o mar. O vento frio bateu no rosto dele.

— Não é nada.

Adam riu, desacreditado.

— Certo. Então você não vai se importar de ir comigo ao boliche hoje à noite.

Alex parou de correr por meio segundo.

— Boliche?

— Sim.

— Não estava nos seus planos.

Adam deu de ombros.

— Agora está.

— Com quem? – Alex quis saber de forma curiosa.

Adam sorriu de lado.

— Combinei mais cedo com a Maceli Jones.

Alex franziu o cenho.

— Você combinou isso sem me falar?

— Eu te conheço. Se eu perguntasse, você diria não.

Alex voltou a correr, mais devagar.

— E por que eu iria querer ir?

Adam olhou para ele de canto.

— Porque ela disse que a Isabelly também vai estar lá.

O nome atingiu o ar como algo inesperadamente concreto. Alex não respondeu imediatamente. Só o som das ondas preencheu o espaço entre os dois.

Na outra ponta da cidade, a casa dos Velloci estava em movimento controlado.

O ambiente era elegante, mais leve naquele sábado. Menos tensão formal, ainda que a presença de Helena Velloci continuasse a dar o tom de autoridade silenciosa pela casa.

A campainha tocou. Helena abriu a porta e, ao ver Maceli Gerrard Jones, abriu um sorriso perfeitamente treinado.

— Maceli Jones, querida. Que surpresa agradável.

— Eu tentei ser discreta — Maceli respondeu, entrando com naturalidade.

Lorenzo apareceu logo em seguida, mais caloroso.

— Seja bem-vinda.

Maceli sorriu para ele.

— Obrigada, senhor Velloci.

Helena observou a interação com atenção, mas não disse nada.

Poucos minutos depois, passos leves desceram a escada.

Isabelly apareceu. Cabelos ainda levemente soltos, expressão de quem não esperava companhia tão cedo.

— Maceli? — ela perguntou surpresa.

— Em carne, osso e péssimas decisões sociais — Maceli respondeu com um sorriso debochado.

Isabelly soltou uma risada curta.

— O que você está fazendo aqui?

— Te salvando do tédio da sua casa.

Helena arqueou uma sobrancelha.

— Ela não estava entediada. – respondeu firmemente.

Maceli ignorou com sua educação impecável.

— Claro que não.

Lorenzo observava a cena com leve diversão.

— Vocês duas continuam inseparáveis desde o internato.

— Infelizmente para alguns, sim — Maceli respondeu.

Isabelly balançou a cabeça, já mais relaxada.

— Você veio por algum motivo específico?

Maceli cruzou os braços.

— Almoço.

— Isso não parece motivo suficiente pra vir até aqui.

— Boliche mais tarde. – Completou

Isabelly franziu o cenho. Maceli sorriu de forma perigosa.

Isabelly piscou surpresa.

— Boliche?

Helena imediatamente interveio.

— Isabelly não

— Eu vou — Isabelly disse antes que a mãe terminasse.

Silêncio. Lorenzo quase sorriu. Helena a encarou. Maceli observava tudo com satisfação silenciosa.

— E antes que você pergunte — Maceli continuou — vai ser só um encontro entre amigos – completou educadamente olhando para Helena.

Isabelly cruzou os braços.

— Quem vai?

Maceli hesitou meio segundo a mais do que deveria.

— Eu… Adam…

Ela fez uma pausa.

— E aquele outro amigo dele, Alex.

O nome dele caiu no ambiente como na noite anterior: sem alarde, mas com impacto. Isabelly sentiu algo estranho no peito — não medo, não exatamente surpresa. Mas reconhecimento.

Helena apertou levemente os lábios.

— Quem é esse Alex?

Isabelly respondeu antes de pensar demais.

— Apenas um colega de trabalho.

Maceli sorriu discretamente.

— E sua dupla de gincana.

Lorenzo observava em silêncio, atento ao modo como a filha reagia ao nome. Isabelly desviou o olhar. Helena não gostou da resposta. Mas não conseguiu impedir. E isso, por si só, já dizia muito.

Mais tarde, enquanto o dia seguia em direções diferentes para cada um deles, uma coisa se formava silenciosamente entre as distâncias de Seattle;

Dois caminhos sendo empurrados, sem que nenhum dos dois percebesse totalmente. E um encontro que já não parecia mais casual… Mas inevitável.