Entre Dois Mundos

6 DECISÕES EM MOVIMENTO


O almoço no Shopping Plaza Norte tinha um brilho diferente do habitual. O restaurante era elegante sem ser intimidador, com grandes janelas de vidro que deixavam a luz de Seattle entrar suavemente. O tipo de lugar onde conversas pareciam sempre um pouco mais importantes do que realmente eram. Isabelly mexia lentamente no talher, mas sua atenção estava longe do prato.

Maceli a observava com um sorriso de quem já sabia exatamente onde aquilo ia parar.

— Você não está comendo — ela comentou.

— Estou — Isabelly respondeu automaticamente.

— Não, você está pensando.

Isabelly suspirou, finalmente largando o garfo.

— Esse boliche… — ela começou.

Maceli ergueu as sobrancelhas, como se estivesse esperando exatamente isso.

— O que tem?

Isabelly hesitou.

— Não é exatamente o tipo de evento que você organiza do nada.

Maceli sorriu, apoiando o queixo na mão.

— E não é.

Isabelly estreitou os olhos.

— Adam?

Maceli nem tentou negar.

— Ele foi o responsável pela ideia brilhante de juntar adultos funcionais em um boliche.

Isabelly soltou uma leve risada.

— Isso parece ele.

— Ele é pior pessoalmente — Maceli respondeu.

Isabelly ficou em silêncio por um instante, encarando o copo à sua frente.

— E o Alex… — ela disse, tentando parecer casual, mas falhando um pouco — ele vai mesmo?

Maceli observou com atenção o pequeno detalhe na voz dela.

— Provavelmente vai.

Isabelly apenas assentiu, como se aquilo não tivesse impacto algum. Mas teve.

Em outro ponto da cidade, Alex caminhava ao lado de Adam pelas ruas movimentadas, sem pressa.

— Você tem certeza que isso é uma boa ideia? — Alex perguntou.

— Você está questionando um boliche? — Adam respondeu, divertido.

— Estou questionando sua capacidade de organizar qualquer coisa sem transformar tudo em caos.

Continuaram andando quando Adam voltou a confirmar de forma mais convicta.

— Então boliche hoje à noite.

Alex suspirou.

— Esta bem...

— E você ainda não parece feliz com isso.

— Eu não fico feliz com eventos organizados por você.

Adam sorriu.

— Vai ser interessante.

Alex olhou de lado.

— Isso significa o quê?

Adam apenas deu de ombros.

— Significa que algumas coisas tendem a acontecer quando você mistura pessoas certas no lugar errado.

Alex não respondeu. Mas algo naquelas palavras ficou com ele.

Na casa dos Velloci, o ambiente estava mais silencioso do que de costume. Helena Velloci caminhava pela sala com passos firmes, enquanto Lorenzo estava próximo à janela, observando o jardim.

— Você está pressionando demais ela — Lorenzo disse finalmente.

Helena então parou.

— Estou protegendo.

— Você chama isso de proteção, mas está controlando cada passo da nossa filha.

Helena virou o rosto lentamente para ele.

— Controle é necessário quando o futuro está em jogo.

Lorenzo suspirou.

— Você ainda está presa a isso não é? Tem a ver com o filho de Franz Stroheim.

O nome mudou o ar da sala.

Helena manteve a postura.

— É para o bem dela.

— Mas a vida é da Isabelly — Lorenzo respondeu mais firme.

Helena caminhou até a mesa, apoiando as mãos sobre ela.

— Eu fiz uma promessa.

— Uma promessa que envolve o Arnold Robert Stroheim?

Ela respirou fundo.

— Arnold é a escolha correta. Influente, estável, respeitado.

Lorenzo balançou a cabeça.

— Ela não é uma peça de negociação, Helena.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

— Você acha que eu não quero felicidade para nossa filha? — ela perguntou mais baixa.

— Eu acho que você confundiu felicidade com conveniência.

Helena desviou o olhar por um instante.

— O mundo não é gentil com pessoas como nós.

Lorenzo respondeu após uma pausa:

— Então não precisamos torná-lo pior para ela.

Helena não respondeu. Mas pela primeira vez, havia algo em sua expressão que não era certeza. Era dúvida. E isso, para ela, era perigoso.

Enquanto a tarde avançava em Seattle, algo invisível começava a se alinhar. Convites, encontros, pressões, expectativas. E, no meio disso tudo, dois nomes voltavam a aparecer com mais frequência do que deveriam:

Alex de Oliveira.

Isabelly Velloci.

Sem que nenhum dos dois tivesse realmente escolhido isso… Eles estavam sendo puxados na mesma direção.