Entre Dois Mundos
5 Capitulo 05
Já haviam se passado mais de um mês desde o acontecido e não havia nenhuma notícia de Mairon ou de algum caos acontecendo nas redondezas, o que era preocupante, quanto mais tempo se passava mais eu ficava preocupado.
Meu pai havia parado de perguntas sobre as faixas desde que eu continuasse fazendo as coisas que ele me mandavam, eu não questionava os pedidos deles, eu os fazia, mesmo com dor.
O inverno estava acabando e com ele as tempestades e as mortes. Eu estava parado perto de uma árvore, olhando para o por do sol. As coisas estavam ficando complicadas para mim naquele pequeno vilarejo, no próximo ano eu iria ser recrutado para entrar no exército do rei Calaus, coisa que eu não queria, por isso eu não podia ficar muito mais tempo aqui.
Eu já estava decidido que iria embora assim que o inverno acabasse, talvez conseguisse respostas de respostas como retirar essas marcas em outo lugar, em outo reino.
— Vicent, está na hora! Erick me grita à alguns metros de mim.
— Já estou indo. O encaro por alguns segundos e volto a olhar para o por do sol, hoje era o aniversário do Erick, a sua mãe havia preparado um banquete para completar sua maioridade. Desço o monte e sorrio para ele. — O que temos para hoje?
— Minha mãe conseguiu comprar um frango com um ótimo preso com os mercadores, ele já terminou de assar. Ele fala animado.
— Fiz uma coisa para você. Falo retirando do meu bolso uma pulseira com pedras cintilantes do rio.
— Isso é serio? Ele pega a pulseira e coloca contra o sol. — Isso é incrível! Obrigado. Ele sorri e me abraça sorrindo.
— Vamos indo, ou a comida irá esfriar. Me afasto sorrindo, indo em direção a nossa casa.
Quando entramos o cheiro da comida nos envolve fazendo minha barriga roncar.
— O cheiro está maravilhoso. Falo para Katarina, sorrindo.
— Ah obrigada, Vicent. Ela sorri para nos. — Vocês dois, vão tomar banho enquanto arrumo a mesa, ok?
— Vou primeiro! Falo correndo para cima, antes que Erick tivesse reação.
— Hey! Ele grita atrás de mim.
As coisas ficavam tão melhores quando o meu pai não estava em casa, mas eu sabia que logo essa paz estava prestes a acabar. Entro no banheiro com faixas limpas na mão e uma roupa nova para me vestir.
Parado na frente do espelho sem as faixas, as marcas pareciam mais vivas do que nunca, talvez seja o calor voltando, eu me recusava a pensar em qualquer outra coisa a não ser isso.
Tomo um banho rápido e volto a me enfaixar, quando desço as escadas a primeira coisa que vejo é o meu pai, sentado na frente na lareira.
— Ai está você garoto. Ele fala me encarando. — Nem mesmo hoje você retira essas faixas.
— Algumas feridas ainda estão apertas. Sussurro, mas uma voz grita em minha mente "mentira".
— Já faz mais de um mês, o que aquele doutor maldito está fazendo? Abro a boca para responder, mas Katarina fala antes.
— Querido, hoje não. Ela fala aparecendo com alguns pratos e talheres em suas mãos. — Vicent, poderia colocar sobre a mesa mim?
— Claro. Falo pegando os pratos e passando pelo meu pai, indo em direção a sala de jantar, a mesa estava forrada com uma toalha de renta bordada com fios dourados para simular ouro, velas aromáticas pelo cômodo. Era a primeira vez que fazíamos um jantar assim, o que me fazia perguntar se no meu aniversário eles iriam ter esse cuidado.
Após colocar os pratos, eu volto para a cozinha para ver se ela precisava da minha ajuda, mas quando chego lá, Katarina não estava mais lá.
— Conseguiu vender as mantas no mercado hoje? Meu pai pergunta sem olhar para mim.
— Sim, o dinheiro está com a Katarina. Falo voltando para a sala.
— Pelo menos uma coisa certa você consegue fazer.
Eu não respondo, apenas volto para a sala e fico perto da porta dos fundos, esperando eles voltarem. Não demorou muito ate que Erick vem em minha direção sorrindo, com suas roupas novas e extravagantes.
— Como estou? Ele pergunta dando uma pequena volta.
— Estranho, talvez devesse ir para a capital, com toda a certeza você faria sucesso. Falo olhando para ele ate ver um símbolo estranhamente familiar estampado em uma de suas mangas. — O que é isso?
— Não sei, já estava lá quando comprei essa blusa. Ele fala dando nos ombros.
— Entendo... Sussurro desviando o olhar, aquela marca era parecida com as que eu tinha em volta do meu corpo e cada vez que eu pensava nisso, mas minha cabeça doía.
— Vamos garotos, o jantar será servido. Katarina fala com um sorriso, ela vestia um vestido azul da qual eu nunca havia visto antes, todos estavam todos bem vestidos para o banquete.
Sento-me na mesa sem falar nada, todos nos tínhamos um lugar a mesa, o meu era ao lado esquerdo do meu pai e à direita da Katarina, na frente de Erick, não havia como não perceber os olhares amorosos e orgulhosos do meu pai sobre Erick.
Eu poderia ficar com inveja e odiá-lo, mas era bom ver que ele não era um monstro sem sentimentos.
— O que você está olhando? Ele pergunta depois de um tempo que havíamos começado a comer.
— Nada... Sussurro voltando a atenção para a comida.
— Não ache que você terá algo assim, irá apenas para o exército e passará o resto da sua vida lá.
— Saio disso pai, nunca pensei que algo assim pudesse acontecer. Falo mantendo a cabeça baixa.
— Ótimo... E ele continuou falando e falando sobre como tudo em mim era errado, como meu corpo era frágil, de como os soldados teriam que fazer um milagre para me tornar um soldado aceitável, aquilo era de mais para mim.
O mundo sempre me colocou para baixo, toda hora me lembrando como eu era um fracassado, apenas um qualquer na multidão ignorado. É que eu sempre senti que eu era o errado, que o problema estava em mim, que eu era o culpado por toda essa merda.
Me levanto da mesa, as marcas em volta do meu corpo queimava, eu sentia minha garganta ficando seca e eu não fazia ideia do que aquilo significava.
— O que você pensa que está fazendo? Meu pai pergunta segurando o meu pulso.
— Perdi a fome, eu vou para o meu quarto. Falo o encarando pela primeira vez em anos.
— Não te dei permissão para fazer isso garoto.
— Eu não pedi a sua permissão. Falo puxando meu pulso para longe dele, mas parte da minha faixa fica em sua mão, deixando aquelas marcas totalmente a mostra.
— O que diabos é isso?! Ele pergunta se levantando rapidamente. — Onde você conseguiu essas marcas?
— Porque o interesse? Você nunca se interessou por nada que tinha a ver comigo, porque agora? Me afasto dele, eu olho para todos ali, eles não eram a minha família.
— Garoto insolente, como ousa trair nossa família, trair tudo aquilo que nós sempre defendemos, colocando essas marcas em seu corpo, se tornando um monstro.
— Então você sabe o que elas são. Falo retirando as faixas do outro braço, eu já não me importava mais com as consequências.
— Você é um amaldiçoado, um sem alma. Ele pega uma das facas em cima da mesa e mira em minha direção. — Pessoas como você deveria apenas morrer.
— Então faça. Falo abrindo os braços para ele, eu já estava cansado de tudo aquilo. — Eu não vou me defender.
Ele se aproxima de mim com a faca em punhos, mas Katarina não o deixa se aproximar mais.
— Não faça isso, ele é apenas uma criança... Ela fala ficando entre mim e ele. — Sai daqui, Vicent.
— Vocês sabiam disso?! Ele pergunta tentado se aproximar de mim.
— Eu não sabia de nada disso, mas ele é o seu filho, não faça nada estupido. Ela fala tentando acalmar-lo.
Tento me afastar deles, mas meu pai volta a me segurar, empurrando a Katarina para longe.
— Não deixarei você ir sem me dizer exatamente onde você conseguiu essas marcas. Ele fala me puxando para mais perto dele.
— Me solte... Sussurro tentando me afastar dele, ele ainda não havia largado a faca. Tudo em volta de mim começou a ficar embaçado, toda aquela adrenalina havia desaparecido.
— Diga-me garoto, onde você conseguiu essas marcas? Ele volta a perguntar.
— Um homem estranho me salvou colocou essas marcas estranhas em mim, eu não tive culpa. Falo tentando controlar a voz tremula.
— Arrancarei essas marcas nem que seja a força. Ao falar ele leva a faca em direção ao meu braço, eu tento gritar, me soltar das mãos deles, mas meu corpo não se movia, eu estava paralisado.
As marcas começam a brilhar numa luz azulada e de repente meu pai é jogado contra uma parede e segundos depois galhos de árvores o envolvem, prendendo seu corpo contra a mesma.
— Não. Sussurro me afastando. — Não...
— Vicent, o que está acontecendo? Erick pergunta surpreso.
— Não. Volto a sussurrar me afastar, indo em direção a porta. Aquelas plantas haviam surgido do nada e de alguma forma eu sabia que ele estava próximo e eu precisava afasta-lo dali. — Vocês precisam sair daqui.
Corro para fora da casa, em direção a floresta. Eu sentia a floresta mais escura do que o normal e no meio da névoa e da chuva fraca estava ele, bem-vestido e seus cabelos estavam negros e curtos, totalmente diferente.
— Por favor, não... Sussurro sabendo que ele conseguia ouvir.
— Porque esta me olhando assim, garoto humano? Ele pergunta sorrindo sarcasticamente. — Não fui eu que ativou as marcas de proteção. Ele se aproxima de mim e toca na minha cabeça.
— O que está fazendo aqui? Pergunto ficando na frente dele, o impedindo de passar.
— Eu não lhe contei? Sua família foi uma das famílias que me aprisionou naquele lugar imundo. Ele fala olhando para minha casa onde Erick estava parado na porta, nos encarando.- Ah, perfeito. Ele me empurra para o lado indo em direção a casa.
— O que..? Antes que eu conseguisse entrar em sua frente novamente algumas raízes as árvores próximas me envolvem e me prendem em seu tronco. — Espera! Tento me mexer, mas quanto mais eu me mexia, mais apertado ficava.
Erick ao ver a situação corre em minha direção, mas acontecesse a mesma coisa com ele, raízes o seguram e o prende ao meu lado, mas mais violentamente.
— Droga! Ele fala cuspindo sangue. — Quem diabos é esse?
— Mairon... Sussurro desistindo de me soltar, eu já havia aceitado que eu não podia conseguiria fazer nada contra ele.
— Mairon? Aquele que você disse que o cara que te salvou segue? Ele pergunta incrédulo.
— Na verdade, ele que me curou... Não fazia sentido mentir agora, todas as mentiras que contei estavam desmoronando.
— Você não pode esta falando sério. Ele me encara descrente. — O que mais você escondeu da gente?
— Isso não é hora para isso... Falo olhando para Marion que se aproximava de nossa casa.
— Não é hora? E quando será hora, Vicent? Já que provavelmente estaremos mortos antes do amanhecer. Ele fala ficando com raiva. — Onde você o encontrou?
— Numa caverna, preso... Eu o libertei em troca de salvar a minha vida. Sussurro ainda olhando para a casa.
Marion já estava na porta, frente a frente com Katarina, mas como era de se esperar, ele a joga contra uma árvore próxima, mas algo estava estranho, ela estava inconsciente.
— Mãe! Erick grita voltando a se contorcer. — Você sempre desiste das coisas muito fáceis Vicent, era questão de tempo ate que você desistisse da sua vida, o que te fez mudar de ideia? Ele pergunta com raiva.
— Do que você está falando? Pergunto, meu corpo inteiro estava tremendo.
— Você sabe do que estou falando, sempre desistindo dos seus sonhos em pro dos outros, não pensou no que aconteceria ao liberta-lo? Ele me encara com raiva, eu não o reconhecia mais.
— Lógico que eu pensei! Mas foi exatamente por isso que eu o soltei, mas não imaginava que ele voltaria! Admito.
— O que você achou que aconteceria? Que ele fosse esquecer da sua existência e sumir? Ainda mais depois que ele colocou essas marcas em seu corpo.
Ele tinha razão, e eu odiava aquela sensação e não importava o quanto eu pensasse sobre o assunto, eu não conseguia sentir remorso do que eu tinha feito. Antes que eu conseguisse falar algo estupido, um grito vem da nossa casa e logo em seguinte Mairon aparece puxando meu pês pelo tornozelo direito.
— Ele está morto? Sussurro enquanto ele se aproximava de nos.
— Infelizmente não. Mairon fala cuspindo no chão, sua presença estava me sufocando, fazendo as marcas ativarem novamente, queimando levemente os galhos das árvores que me envolviam.
— Por quê você não o matou? Pergunto encarando meu pai no chão com um eterno grito estampado em seu rosto.
— Precisava te mostrar algo antes. Ao falar ele se aproxima de mim, colocando suas mãos em minha cabeça.
— Eu não quero ver. Falo me debatendo, mas ele não parou e num instante tudo ao meu redor desaparece.
E sou envolvido pela escuridão.
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