O céu estava mais escuro do que o normal, não havia parado de chover nos últimos dias, as tempestades estavam ficando cada vez mais fortes e frequentes.

Nós não sabíamos como iriamos sobreviver ate o fim do inverno, as estradas haviam sido obstruídas, deixando impossível o transporte de alimentos.

Mas a minha maior preocupação não era a comida, pois ainda tínhamos comida o suficiente para o resto do mês, mas sim o frio que estava ficando cada vez mais insuportável.

A chuva havia dado uma amenizada quando resolvi sair de casa para buscar um pouco de lenha, mas os ventos compensavam a falta dela. O solo sob os meus pés estava escorregadio e o peso das lenhas nas minhas costas não ajudavam a manter os passos firmes.

Após algum tempo pegando lenha, resolvo ir para casa. A chuva havia começado a ficar cada vez mais forte e se eu não voltasse logo para casa, eu ficaria com problemas.

Começo a tentar descer a montanha, tentando andar sobre as raízes das árvores ou nas pedras, mas no processo acabo escorregando e começo a rolar montanha a baixo ate uma árvore impedir que eu descesse mais.

Uma dor insuportável percorre meu corpo, me deixando sem ar.

— Droga... Sussurro me encolhendo. Eu mal conseguia respirar ou me mover, eu conseguia sentir o gosto de sengue invadindo minha boca. Eu precisava sair dali, se a chuva ficasse mais forte, eu não conseguiria voltar para casa.

Juntando o resto das minhas forças, eu me levanto segurando na árvore, minha bolsa e meu machado haviam se perdido no processo.

Vou andando ainda segurando na árvore, mas volto a cair, dessa vezem um buraco camuflado entre as raízes. Caio por alguns segundos, até finalmente bater no chão, apagando logo em seguida.

Não sei quanto tempo fico inconsciente, mas quando acordo, eu me vejo numa espécie de caverna subterrânea, a única fonte de luz que havia ali era do buraco pelo qual eu havia caído. Eu conseguia ouvir a chuva caindo lá fora ficando cada vez mais forte.

Dentro daquela caverna, haviam barulhos assustadores que me faziam duvidar que eu estava sozinho naquele lugar, e os barulhos de correntes sendo arrastados confirmaram minhas suspeitas. Havia algo ali, preso.

Um instante depois, uma luz azulada invade o ambiente me deixando parcialmente cego, quando meus olhos se acostumam com a claridade, eu olho ao redor.

Aparentemente eu estava numa espécie de masmorra, as paredes estavam cheias de símbolos estranhos e deles saiam correntes que levavam até o centro daquele lugar, onde havia um homem, ou algo que se parecesse um.

As correntes estavam em volta dos seus punhos, tornozelos e pescoço, o mantendo de cabeça abaixada com seus cabelos brancos, caído sobre o seu rosto, mas isso não o impedia de me encarar com seus olhos dourados.

— Ah! Uma criança humana... Ele sussurra com uma voz rouca e cansada.

Eu me arrasto para o mais longe dele que eu consegui, eu havia ignorado a dor da queda, mas ao me mexer, toda essa realidade vem a tona, voltando a me deixar sem ar.

— Quem... Nego com a cabeça envolvendo meu corpo com meus braços. — O que é você...?

Ele me olha como se oque eu tivesse falado, o tivesse insultado.

— Fico triste de saber que vocês humanos já se esqueceram de mim... Ele levanta a cabeça o máximo que as correntes o permitiam. — Pode me chamar de Mairon.

Olho ao redor, tudo ali parecia ter alguns anos, ou ate mesmo séculos, correntes enferrujadas, plantas cobrindo boa parte das paredes, para estar num lugar como esse, ele com certeza não era uma boa pessoa, mas por algum motivo eu não sentia medo dele. Talvez o fato dele estar preso ajudasse.

— Quanto tempo você está preso aqui...? Sussurro voltando a olhar para ele.

— Parei de contar depois dos 3 séculos. Ele me encara curioso. — Não pensei que você perguntaria esse tipo de pergunta.

— O que eu deveria ter te perguntado?

— Em primeiro lugar, você não deveria estar com medo de mim?

— Eu deveria? Afinal, você está preso... Ele sorri, seus caninos eram afiados. — O que você é? Volto a perguntar.

— Quem sabe? Nunca nos deram um nome específico... Seu sorriso se desfaz. — Você caiu de muito alto garoto, sinto sua vida se esvaindo de você.

Olho para minha mão, agora eu conseguia ver que ela estava seja de sangue, além da manga da minha blusa estar rasgada e dava para ver meus braços com alguns arranhões, eu sentia que a minha situação era bem pior do que aparentava.

— Você fez isso? Pergunto o encarando. — Eu estava voltando para casa quando cair aqui, não tem como tudo isso ser apenas o destino.

— Ah você acha isso? Ele sorri. — Mas você tem razão, eu precisava de um humano para me tirar daqui, para apagar esses símbolos e me libertar.

— Por que você pensa que eu iria lhe ajudar?

— Porque você morrerá se não receber ajuda, coisa que posso fazer, posso te curar.

— Não posso?

— Por que não? Ele me encara. — Tem a minha palavra que eu não vou lhe machucar.

— Eu não sei porque de você está preso, imagino o caos que você trará.

— Que conservador! Ele sorri ainda mais. — O motivo de eu estar nesse lugar a séculos é que vocês humanos tem medo daquilo que vocês não podem controlar.

Ele tinha razão, mas isso não era o suficiente para me convencer a liberta-lo, apesar que eu sabia que ele poderia fazer a mesma coisa com outra pessoa, e ela aceitar o libertar, mas não sabia se eu conseguiria viver com isso.

— Então você prefere morrer por aqueles que nem sabem da sua existência. Ele bufa.

— Você realmente pretende causar o caos... Fala me encostando contra a parede, perto de uma das lamparinas que, apesar de estarem acesas, não emitia nenhum calor.

— Apenas contra aqueles que me prenderam aqui.

— Mesmo assim, eu não posso... sussurro. — Sinto muito.

— Será uma pena eu ter que te ver morrer lentamente. Ele me encara. — Realmente uma pena.