Entre Dois Mundos
2 Capitulo 02
Eu estava encolhido no canto daquela masmorra, tentando respirar devagar, esperando pelo inevitável quando apago novamente.
Acordo não sei quanto tempo depois, o ambiente parecia mais aconchegante do que antes, olho para Mairon, ele estava com seus olhos fechados.
— Quatro horas. Ele fala me assustando.
— Oque...? Sussurro sem entender o que aquilo significava.
— O tempo que você tem de vida. Ele levanta a cabeça e me encara. — Consigo ouvir seus pulmões falhando, pouco a pouco.
— Como você consegue ouvir isso?
— Presente dos deuses.
— Eles podiam ouvir minhas preces e me tirar daqui. Sussurro voltando a me encolher.
— Nenhum deus sabe da existência desse lugar e mesmo que conhecessem, porque você pensa que eles viriam te salvar? Eles só precisam das suas orações, e tem outros humanos fazendo isso, o que te faz pensar que eles entrariam nesse lugar amaldiçoado só para salvar um?
— Mesmo fora desse lugar, eles nunca ouviram nenhum dos meus pedidos... Fecho os olhos, lembranças do passado invadem minha mente.
A lembrança de minha mãe sobre a cama, definhando, enquanto meu pai já trazia uma nova mulher para a nossa casa. Os deuses ignoraram meus pedidos para ela ficar melhor.
Ou quando quebrei a perna após ter caído de uma árvore, e os deuses ignoraram meu pedido para que eles acalmassem meu pai e o fizessem parar de me bater por não conseguir realizar as coisas que ele me pedia.
Eles nunca me escuram, por que ouviriam agora? Eu não tinha nada a perder, então, porque eu ainda não havia o soltado? Ele realmente ia trazer o caos para esse mundo se eu o libertasse? Mesmo se ele me matasse logo após solto, eu realmente não estava me importando, eu só queria que essa dor acabasse.
Abro meus olhos e encaro minhas mãos, mesmo perto do fogo, elas estavam ficando roxas, minha visão estava ficando embasada, eu não tinha muito tempo.
Começo a me levantar devagar, usando o resto das minhas forças para isso.
— O que você fará? Ele pergunta observando cada movimento meu.
— Te libertar, o que tenho que fazer? Ele sorri.
— Desfazer os símbolos maiores, e depois abrir os grilhões.
— Só isso? Você não conseguiria fazer isso? Pergunto olhando para as chamas.
— Apenas um humano pode desfazer, tudo para pedir ajuda àqueles que me traíram. Ele bufa com ódio, não de mim ou dos outros humanos, mas das pessoas que a prenderam ali por séculos.
Começo a andar devagar me apoiando na parede ate o primeiro símbolo, passo a mão suja de sangue sobre ele. No momento que faço isso, as correntes rangem e as chamas se movem violentamente, como se tivesse passado uma ventania. Acontece a mesma coisa nos 2 seguintes, mas paro no último símbolo e o fico encarando.
— O que foi? Já se arrependeu? Eu conseguia sentir seu olhar sobre mim.
— Não, já é tarde para isso. Falo me virando para o encarar. — Espero que você cumpra a sua promessa. Ao falar, eu passo a mão sobre o símbolo.
— Agora, os grilhões. Ele fala impaciente.
— Droga. Sussurro, eu realmente não queria me aproximar dele, mas aparentemente eu não tinha escolha.
Vou em sua direção, quando chego perto o suficiente para tocar nos grilhões, eu conseguia ver como fazia para retirar. Toco nas correntes geladas do seu lado esquerdo e puxo um pino, fazendo as correntes do seu braço cair no chão.
Afasto-me o mais rápido que eu consigo, enquanto eu o via arrebentar o restante das correntes com uma força assustadora. Ele se levanta com um pouco de dificuldade, agora eu finalmente conseguia vê-lo perfeitamente.
Mairon devia ter entorno de 2metros de altura, seus cabelos arrastavam no chão, seu corpo estava magro e cheio de cicatrizes. Quem era ele?
— Finalmente! Ele fala olhando para suas mãos e logo depois para mim. — Obrigado garoto, agora a minha parte do acordo. Ele se aproxima de mim, eu caio no chão com medo, ele era realmente assustador.
Ele se agacha na minha frente, eu tento me afastar, mas ele me segura e toca no meu ombro e meu corpo começa a esquentar e toda a dor que me atormentavam.
— Eu não conseguirei te curar por completo, não agora. Ele fala limpando o sangue que escorria do seu nariz. — Mas pelo menos você não morrer de hemorragia.
— Obrigado. Sussurro o encarando. — Você não parece bem...
— Está preocupado comigo garoto? Ele pergunta sorrindo.
— Não, mas eu ainda quero sair dessa gruta, e você morto não me ajuda. Falo envolvendo meu corpo com meu braço. Encosto-me na parede com os olhos fechados.
— Qual é o seu nome, garoto? Ele pergunta distante, abro meus olhos e eu vejo observando uma parede de pedras desmoronadas.
— Vicent Scarth. Falo.
— Scarth? Ele olha sobre seu ombro. — O destino é realmente interessante.
— Conhece esse sobrenome? Pergunto curioso.
— É uma família antiga, mas os Scarth não são todos loiros com olhos claros? Você foge dos patrões...
— Bem, acredito que puxei minha mãe, não tenho nenhuma característica que lembre meu pai. Falo dando nos ombros, eu agradecia diariamente pela genética da minha mãe ser mais forte.
— Interessante. Ele fala virando novamente para as pedras. — Seus antepassados foram muito importante para a história dessas terras, mas julgando pelas suas roupas, a era de ouro acabou.
— Ouve uma guerra, muitos da minha família morreram e levaram seus tesouros com eles. Sussurro voltando a fechar meus olhos, eu mal conseguia mantê-los abertos.
Ouso ele falando algo, mas não entendo o que, meu corpo estava ficando cada vez mais pesado ate eu finalmente cair no sono conturbado, voltado a pensar em coisas desnecessárias. Lembrando de um passado não muito distante, mas que me atormentava até hoje.
Acordo no susto sem saber onde eu estava, ate ver o Mairon sentado do outro lado da caverna com os braços cruzados, me encarando.
— Você estava falando enquanto dormia. Ele comenta.
— Acho que tive um pesadelo. Falo o encarando, ele parecia melhor do que antes, mais vivo.
— Vi seu passado, enquanto você estava dormindo... Ele se levanta e começa a se aproximar de mim. — Vou te uma escolha, algo que não dei para nenhum outro humano, você pode vir comigo, vou te dar poder que você nunca sonhou em ter...
— Por que você supõe que eu aceitaria isso? O corto rapidamente antes que ele falasse algo que me convencesse do contrário.
— Prefere continuar com essa vida que você esta levando do que começar uma do zero? Onde você pode ser, literalmente ser quem você quiser. Ele fala indignado.
— Ir com você eu não terei garantia de sobrevivência...
— E continuar aqui você pensa que ira sobreviver ate a sua velhice? Ele me encara por alguns segundos e volta a falar. — Não vou te forçar a vir comigo, mas saiba que uma guerra acontecerá assim que descobrirem que fui libertado, e eles vão procurar a pessoa que quebrou os selos e vocês humanos não são pareôs para eles. Ele se aproxima mais de mim e toca minha testa com seu indicador. — Mas posso te dar uma chance de sobreviver, uma proteção.
Ao falar meu corpo inteiro volta a queimar, como da vez que ele me curou, mas o calor começava do meu pescoço e ia descendo ate os pés, passando pelos meus braços, deixando símbolos estranhos por onde passava.
— O que você fez?! Pergunto me afastando, olhando para as minhas mãos.
— Como eu disse, proteção. Ele se vira e começa a se aproximar da parede de pedra.
— Como posso voltar para minha vila assim?! Eles vão me queimar vivo!
— Já dei a minha escolha. Ao falar todas aquelas pedras na sua frente voam para fora da caverna numa enorme explosão, camuflada com um trovão.
— Por que esta fazendo isso? Você já esta liberto, porque não me deixa ser também?
Ele apenas me olha por cima do ombro e começa a sair da caverna, apagando as lamparinas e me deixando no completo escuro.
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