Entre Dois Mundos
2 O visitante
Notas iniciais
Aquela foi a última vez que vi os meus pais. Já se passaram, insuportáveis, quase onze anos desde que tudo aconteceu. Pouco me lembro daquela maldita noite. E a única recordação que tenho deles é o antigo medalhão de bonze envelhecido, esculpido no formato de uma mandala- que ao se abrir, revela uma pintura dos rostos de Caleb e Cecília- entregue por minha querida mãe, ao se despedir.
Ao longo desses anos estive residindo em vários lugares. Atualmente, vivo em Bergen, Noruega- em uma reservada antiga, mas confortável, típica casa de madeira norueguesa. Bergen é um lugar agradável, principalmente por ser um dos lugares mais chuvosos do mundo, o que permite com que Victor se sinta mais confortável. Vivemos tentando manter as aparências, sendo os mais "normais” possíveis.
Neste inocente lado do mundo, sou Alice Hall, uma reservada garota de quase dezoito anos de idade, que vive com seus tios e primo, desde os seis, após a morte dos meus pais, que faleceram em um acidente de carro. Pouco saio de casa, exceto nas manhãs rotineiramente nubladas, quando Victor -ou agora, Vincent Green- e eu nos "misturamos” como simples alunos do Colégio de Ensino Médio da cidade. O que embora seja cansativo -principalmente para Victor- viver sob uma grande nuvem de mentiras, torna-se divertido quando podemos fingir ser quem nós quisermos que as pessoas pensem.
—...Senhorita Hall?... Senhorita Hall...Alice!- o professor tomou minha atenção.
—...Ãn?...Senhor Kant, oi. -respondi. Olhei em volta. Todos na sala de aula estavam me observando. Só aí me dei conta. Estava completamente distraída, desenhando uma floresta em um papel amassado. No meio da aula de biologia. -Senhor Kant, desculpe, o que disse?
— Qual a estrutura responsável pela autoduplicação da bactéria?
—...A estrutura...
Que azar! Como eu poderia saber? Fazia uns bons vinte minutos que já não prestava atenção na aula. Não poderia lembrar em que capítulo do livro estávamos mesmo se eu soubesse.
—Plasmídeo.- sussurrou Victor. Nós estávamos dividindo a mesa. Ele estava com a cabeça abaixada, escrevendo qualquer coisa no seu caderno.
—Plasmídeo.- respondi rapidamente.
—Muito bem, senhorita Hall...- O Sr. Kant se virou para a sua lousa-...Para você também senhor Green.- seu tom era um tanto irônico.
Senti meu corpo inconscientemente se comprimir, deslizando sobre a cadeira. Victor permaneceu perfeitamente aprumado, como sempre.
—Eu só queria ajudar.
—Aprecio sua generosidade, senhor Green, mas da próxima vez, ajude menos. -voltou a escrever na lousa.
Para o meu alívio o sinal soou, encerrando a última aula. Todos bruscamente se levantaram se preparando para sair.
—Estudem o capitulo de hoje. Não se esqueçam que as últimas semanas de aula se aproximam. –disse o Sr. Kant saindo da sala de aula.
—Obrigada pela ajuda. — disse relaxando os músculos que até agora estavam mais comprimidos que nunca.
Na sala só havia Victor e eu.
—Você está muito distraída hoje. — Victor me encarrou. — Aconteceu alguma coisa?
—Não...Eu só estava pensando...-fixei o papel rabiscado. Victor acompanhou meu olhar.
—Na floresta?
—Sonhei com ela na noite passada. Foi estranho. Parecia tão real...
—Alguns sonhos costumam parecer reais.
—Não esse. Eu estava sozinha, andando entre as árvores. E tinha um homem, um rosto familiar, gentil. Mas não sei dizer quem era.
—Foi apenas um sonho, tudo bem? Daqui há alguns dias se completará onze anos. Você deve estar impressionada.
—...Deve ser isso. – guardei o desenho na mochila. –Vamos? -levantei da cadeira. Ele fez o mesmo.
Fomos em direção a saída do Colégio de Bergen. No pátio, encontramos Hanna Jones, uma simpática colega com quem estudávamos na turma de história.
—Alice, Vincent. –Hanna se aproximou animada. –Que ótimo encontra-los!
—Olá Hanna. – cumprimentei-a.
—Como vai? –disse Victor.
—Muito bem, obrigada Vincent. –ela sorriu para ele. — ... Bem, a Jesse e o Matheo vão dar uma festinha hoje à noite. Vocês estão convidados.
—Eu acho que ouvi falar nessa festa. –disse Victor.
—Então, vocês vão? –perguntou eufórica.
—... Hanna, eu não sei se é uma boa ideia.
—Por que não? Vai ter muita gente bacana. E vocês nunca participam de nada! Só vivem trancados em casa.- ela cruzou os braços.
Parece que a nossa constante permanência em casa já virou objeto de comentários no Colégio. Ótimo! Mais um motivo para as pessoas nos olharem como “estranhos”. Talvez sejamos “caseiros” demais.
—Nós vamos. –afirmou Victor.
—Sério? Que ótimo. Nos vemos às vinte horas. –ela sorriu timidamente e saiu ao encontro de outros amigos.
—Nós vamos? — indaguei. –Você não gosta de “festas”...
—Não mesmo. Mas é o que os adolescentes “normais“ fazem, não? Ultimamente as pessoas andam comentando muito sobre nossa vida antissocial. E aliás, acho que você está precisando. – sorriu.
—Hum... Tudo bem, acho que merecemos. –retribui o sorriso.
Ouvimos uma pequena “discussão” logo a frente. Sentadas em uma das mesas de piquenique estavam Tryna Anderson- a típica garota “clichê” que desempenhava o papel de “popular” no colégio- e Rachel Feng- uma colega de classe, que participava do clube de teatro.
—Se toca Rachel! Essas coisas não existem. -debochou Tryna, após arremessar um livro sobre "seres sobrenaturais’ das mãos de Rachel.
—Deixe-a em paz Tryna, todos possuem suas crenças. -disse entregando o livro a dona que sorriu em agradecimento.
—Alice, você realmente acredita nessas baboseiras?.- retrucou.
—Acredito que em um mundo com tantas perguntas e poucas respostas, tudo é possível, até que se prove o contrário.- respondi. Percebi um pequeno riso no rosto de Victor.
Tudo terminou bem, Tryna cansou do papo ’’sermão” e seguiu seu caminho. Rachel agradeceu pela ” mãozinha” e voltou a folhear seu livro.
Voltamos para casa. Após um lanche, fui direto para o meu quarto. Precisava estudar. O último ano letivo estava sendo bastante agitado, ainda mais nesse fim de semestre. Todos os alunos do último ano estavam superanimados. Todos menos Victor e eu. Para Victor, nada era novidade, ele já havia passado por aquilo. Para manter o disfarce, reviveu o ensino médio muitas e muitas vezes.
Como ele conseguia viver uma eterna adolescência? Ele apenas preferia não pensar nisso. Não valia a pena.
E por quê eu não estava animada? Não sei. Afinal, para mim seria “de verdade”, seria a primeira vez, mas também a última.
Eu envelhecia normalmente. Mais alguns anos, e eu poderia dizer que Victor era meu sobrinho, ou até neto. Envelhecer. Isso me preocupa. Viver toda uma vida e Victor permanecer parado no tempo. Morrer e Victor permanecer parado no tempo. Aquela também era uma preocupação dele. Eu sei. A cada ano que passa, percebo isso. Desde que eu me lembro, nós nunca ficamos longe um do outro. Como poderíamos? Somos tão ligados. Sei que seria insuportável para ele quando eu tivesse que partir. Para sempre.
Ouvi um barulho na porta. Era ele. Tinha um jeito especial de bater na porta, eu conhecia bem.
—Victor? –direcionei meu olhar para a porta. –O que foi?
—São quase vinte horas. –ele disse.
Vinte horas, Sério? Olhei para a janela do outro lado do cômodo. Já era noite. O tempo passou realmente rápido. Não percebi que havia escurecido.
—Obrigada por avisar. Já desço. –fechei o livro de química. Fui direto para o banheiro. Tomei banho. Me vesti rapidamente –calça jeans, suéter azul escuro, jaqueta de couro preto e um coturno da mesma cor. Os cabelos estavam levemente cacheados nas pontas, deixei-os soltos. quinze minutos depois, estava pronta. Fui para o andar de baixo.
—Você está linda... –disse Corina que estava sentada em frente a lareira com um livro em mãos.
—Sempre está... –completou Victor.
—Obrigada. –sorri.
—Não voltaremos tarde. –disse Victor vestindo uma jaqueta.
—Divirtam-se, e cuidado. –advertiu Corina.
—Tomaremos. –Victor disse abrindo a porta, permitindo minha saída.
Victor dirigiu. Cerca de vinte minutos e já estávamos em frente à residência dos Benson’s. Era uma bela e grande casa norueguesa no alto de monte, com grandes janelas e um belo jardim de tulipas. Era primavera, a temperatura deveria marcar entre os 11ºC e 12ºC, um clima agradável se comparado com o os rigorosos períodos de inverno na cidade europeia.
Do lado externo, era possível ouvir uma agitada música eletrônica. Jesse Benson nos recebeu oferecendo ponche. Nós aceitamos, o que surpreendeu a anfitriã. Não por mim, mas por Victor. As pessoas não costumam vê-lo comendo ou bebendo algo no refeitório, durante o intervalo entre as aulas. “Gosto de areia’’ ele me diz. Embora ele pudesse comer comida humana, ela não era agradável ao seu paladar. Mas naquela noite, ele estava disposto a desmistificar nossa fama de “estranhos”.
A residência estava cheia de veteranos do Colégio Bergen. Muitos dançavam, outros apenas conversavam entre um copo e outro de cerveja. Preferimos nos dirigir para a parte menos ‘’lotada’’, onde se encontrava o jardim e uma iluminada piscina aquecida.
—Alice! –gritou Hanna, um pouco a frente, sentada com algumas garotas.
—O Blake está me procurando, depois nos encontramos, ok?- disse Victor. –Estarei por perto. –completou.
—Vai, estarei com as meninas.
Me juntei as garotas, que riam freneticamente.
—Olá meninas, se divertindo?
—Como vai Alice? Que bom que vieram. –disse Hanna. –Senta aqui. –abriu uma espaço no “puff”.
—Então você finalmente saiu do casulo, não é? –disse a Joy.
—Somos reservados, apenas isso, nada demais. – dei um gole na bebida.
—Até demais... –disse Gena.
Sorri educadamente. É... As pessoas andam comentando mesmo esse assunto.
—Então... E o Vincent? –disse Hanna entre goles de cerveja. –Ele gosta de alguém? Quer dizer, ele tem alguém em mente?
—Eu não sei, não comenta sobre o assunto.
—Não poderia esperar menos. –Hanna suspirou. –Ele é tão discreto, educado...
—Gostoso... –Gena interrompeu. Elas riram.
—O Vincent é um cara legal.
—Você acha que eu teria chance com ele? –disse Hanna.
—Bom, ele não costuma entrar em relacionamentos...
Realmente, ele não se envolve em um relacionamento amoroso a muito, muito tempo... Pensando melhor, acho que eu nem era nascida...
—Então não tenho chance... –Hanna interrompeu minha fala.
—Nunca se sabe...
No final. A festa foi bastante divertida. Principalmente, quando o Matheo, bêbado, vomitou na Carly que, com o susto, caiu na piscina. O fato motivou outros a se jogarem na água o que acabou em uma “pequena guerra”. Consegui sair “quase” que totalmente seca. Dei boas risadas.
Já passava da meia noite quanto Victor e eu decidimos nos despedir.
—Gostou da noite? –Victor disse observando a estrada à caminho de casa.
—Você tinha razão, foi divertido.
—... E um pouco decepcionante para a Hanna, não?
—Você ouviu?
—Não foi de propósito, eu ouvi comentarem meu nome. Não consegui me concentrar em apenas ouvir a música.
—Ela é caidinha por você. Você sabe.
—... Sei, mas nunca daria certo.
—Por que ela é humana? Você nunca se envolve com ninguém...
—Não é porque ela é humana. Eu não preciso de um romance... Eu tenho você. –ele sorriu carinhosamente. Retribui o sorriso.
Minutos depois já estávamos estacionados na frente de casa. Victor abriu a porta, me ajudando a descer do Tesla. Percebo que seu olhar ficara distante repentinamente.
—Alguém esteve aqui. –ele disse analisando a rua.
—Alguém? Quem?
—Eu não sei. –voltou seu olhar para mim. –Entre, eu vou verificar.
—Tudo bem. –rapidamente entrei na casa. Tranquei a porta. As luzes estavam apagadas, sinal de que Corina e Narin já estavam dormindo. Ansiosa, esperei pela volta de Victor, que retornou cinco minutos depois.
—Então, quem era? –indaguei assim que ele entrara na residência.
—Não sei, mas era um vampiro, com certeza.
—... Vampiro... Aqui?...
Ninguém saía da floresta. O que um vampiro estaria fazendo aqui tão longe?
—Não sei, mas ficou por algumas horas e saio em direção ao sul. Depois perdi o rastro. De qualquer forma, não poderia te deixar sozinha.
Um vampiro. Um vampiro esteve próximo a nossa casa. Havia um de nós nas redondezas. Uma coisa nós tínhamos certeza, vindo aqui, ele pode sentir o cheiro de Victor. Era uma coisa com que realmente se preocupar. Ele sabe que existe outro aqui.
— Isso não é nada bom.
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