Entre Dois Irmãos

1 Capítulo 1 - O dia em que tudo começou


Notas iniciais
Olá, eu revisei e atualizei o capitulo, espero que gostem Boa Leitura

Isabela odiava escorregadores altos.

Para ela, não fazia sentido subir tantos degraus, com as pernas já trêmulas só de olhar para cima, só para depois ser jogada para baixo numa velocidade que fazia o estômago revirar e o coração bater tão forte que parecia querer saltar pela garganta. O pior de tudo era chegar ao fim com a boca cheia de vento e os tênis cheios de areia que ficava ali, incomodando por horas.

Dava muito mais gosto ficar no balanço. Era lento, suave. Você sabia exatamente até onde ia e quando ia parar. Seguro. Previsível. Exatamente como ela gostava de ser.

Naquela tarde, ela estava sentada no assento de plástico azul, empurrando o chão com a ponta dos pés só o suficiente para se mover devagar, quando ouviu uma voz próxima, calorosa e cheia de confiança:

— Moça... você consegue ir mais alto?

Isabela virou devagar. Do outro lado, parado, havia um menino de cabelos claros e olhos tão abertos que pareciam enxergar tudo ao redor. Ele sorria com uma facilidade que fazia parecer que já se conheciam há muito tempo, mesmo nunca tendo se visto antes.

— Não — respondeu ela, sem enrolação, com a sinceridade que só as crianças têm. — Tenho medo.

Ele piscou, surpreso com a resposta direta, e soltou uma risada curta, leve.

— Medo do quê? De cair?

— De tudo — deu de ombros, como se não houvesse mais nada a explicar.

O menino pareceu achar aquilo a coisa mais interessante do mundo.

— Então tá — decidiu, sem hesitar. — Eu fico aqui com você. Assim não fica tão assustador.

Sem esperar permissão, ele se sentou no balanço ao lado. Isabela ficou observando em silêncio enquanto ele impulsionava o corpo para trás e para frente com força, subindo cada vez mais alto, até que num impulso mais forte ele saltou no ar e caiu de pé na areia, com os braços abertos, como se tivesse acabado de realizar um feito incrível.

— Meu nome é Nicolas — disse, limpando as mãos na bermuda, espalhando grãos de areia por toda parte. — Mas minha mãe me chama de Nico.

— Eu sou Isabela. Mas pode me chamar de Isa.

Nicolas abriu um sorriso tão grande que os olhos quase se fecharam.

— Isa é bem melhor.

Foi assim, sem regras, sem apresentações formais, apenas com a simplicidade própria da infância, que a amizade deles nasceu.

Pouco tempo depois, passos rápidos e barulhentos cortaram o ar do parquinho. Vinha outro menino, mais alto, com o corpo mais firme, os joelhos já marcados por ralados antigos e uma energia que parecia escapar por todos os poros.

— Nico! — gritou, ainda correndo, a voz firme e impaciente. — A mãe mandou parar de subir nessas coisas, você vai acabar se machucando!

Nicolas revirou os olhos, mas não parou de se balançar.

— Relaxa, Gustavo. Eu só estou... vivendo.

Gustavo parou ao lado deles, cruzou os braços e encarou Isabela de cima a baixo, como quem analisa algo novo e desconhecido.

— Quem é ela?

— Minha amiga — respondeu Nicolas na hora, sem nem pensar. — A Isa.

Gustavo ergueu uma sobrancelha, o olhar ainda desconfiado e curioso.

— Amiga? Desde quando?

— Desde agora — respondeu Isabela antes que ele pudesse completar a frase. Não sabia, mas aquelas palavras pequenas selariam o destino dos três para sempre.

Gustavo ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para ela, como se decidisse se valia a pena deixá-la fazer parte daquele espaço. Depois, deu de ombros, soltou um bufo que parecia meio aceitação e meio brincadeira.

— Tá. Você sabe jogar pega-pega?

— Não muito — admitiu ela, mexendo os dedos da mão, sem saber bem o que esperar.

— Melhor ainda. Então vai aprender agora!

Antes que ela pudesse dizer que preferia ficar ali, parada, ele já disparou correndo pela areia, gritando alto o suficiente para que todos ouvissem:

— Nico, ela é sua responsabilidade! Se perder, a culpa é sua!

Nicolas soltou um suspiro longo, mas havia um brilho de diversão nos olhos, como se já estivesse acostumado com aquilo.

— Ele faz isso com todo mundo. Não liga.

Isabela riu, sem perceber que era a primeira vez naquele dia que sentia vontade de sair da segurança do balanço. Sem pensar duas vezes, desceu com um impulso rápido e correu atrás deles, com o coração batendo forte, mas agora não de medo — e sim de uma alegria que ela ainda não sabia nomear.

A tarde passou voando. Dividiram bolachas recheadas, comendo até ficar com farelos grudados no canto da boca e nas mãos. Brincaram de esconde-esconde atrás das árvores e dos brinquedos, e fizeram uma competição para ver quem subia mais rápido no escorregador. Gustavo venceu, claro, e não perdeu a chance de comemorar: desceu dançando no pé, girando no meio da areia como se tivesse ganhado uma medalha.

Quando Isabela deu um passo em falso e tropeçou numa raiz, caiu de joelhos e sentiu a dor aguda, seguida da sensação áspera da areia na pele. Antes que pudesse chorar, os dois já estavam ao seu lado: Nicolas se abaixou devagar, segurou sua mão com firmeza e calma, sem falar nada de mais, apenas deixando que ela sentisse que não estava sozinha. Gustavo já saiu correndo, gritando pedindo por um curativo, como se aquele pequeno ferimento fosse o caso mais urgente do mundo.

— Não foi nada — murmurou ela, limpando o rosto com a manga da camisa, segurando as lágrimas.

— Foi sim — disse Nicolas, com a voz suave mas firme. — Mas você não gritou nem reclamou. Isso é ser corajosa.

Ela olhou para ele e sentiu o rosto esquentar, como se uma luz tivesse acendido ali dentro.

— Você também é.

Quando o sol começou a descer, pintando o céu de tons de laranja e rosa, os três estavam sentados na grama, com as roupas sujas, os cabelos cheios de folhas e areia, e com aquele cansaço bom, o tipo que vem depois de viver tudo o que um dia pode oferecer.

— Você vem aqui sempre? — perguntou Gustavo, cutucando devagar uma formiga que passava por ali.

— Quase sempre — respondeu ela. — Meu pai me traz quando não está trabalhando.

— Então amanhã você vem de novo — disse ele, com aquela voz de quem já tinha decidido e não aceitava "não" como resposta.

— E depois de amanhã também — completou Nicolas, olhando para ela com um sorriso tranquilo.

Isabela olhou para os dois, um ao lado do outro, e sentiu algo diferente no peito. Não era só alegria. Era mais fundo, mais firme. Era a sensação de que, pela primeira vez, estava exatamente onde deveria estar.

— Tudo bem — concordou. — Mas só se vocês também brincarem comigo no balanço.

— Combinado — respondeu Nicolas na hora.

— Promessa de escoteiro — completou Gustavo, levantando a mão direita, mesmo sem nunca ter usado uniforme ou participado de qualquer grupo.

Ali, sob a luz dourada do entardecer, três vidas diferentes se entrelaçaram de uma forma que ninguém conseguiria desfazer depois. Numa praça comum, entre farelos de bolacha e promessas feitas com a inocência da infância, algo começou.

Isabela não sabia o que aquilo significava. Nicolas também não. Gustavo muito menos.

Mas todos os três, dali em diante, carregariam a marca daquele dia.

Afinal, tinha sido ali que tudo começou.