Entre Dois Irmãos

2 Capítulo 2 - Refúgio


Com o tempo, Isabela passou a frequentar o parquinho menos por causa dos brinquedos — especialmente o escorregador, que continuava odiando — e mais por causa dos dois meninos que quase sempre estavam lá.

Havia Nicolas, com seus sorrisos fáceis e uma paciência que parecia não ter fim. E havia Gustavo, com energia que transbordava, joelhos sempre marcados por ralados e um talento especial para transformar qualquer brincadeira numa competição acirrada.

Ela gostava dos dois, mas de jeitos completamente diferentes.

Com Gustavo, tudo era barulho, risadas altas e desafios constantes: "Duvido você pular daí!", "Aposto que eu corro mais rápido!". Já com Nicolas, até o silêncio era confortável. Era sentar lado a lado no balanço, dividir o lanche e conversar sobre as coisas mais simples do mundo: decidir qual sabor de sorvete era o melhor (chocolate, sem dúvida, na opinião dele) ou tentar adivinhar o formato das nuvens no céu.

— Aquela ali parece um pato — disse Isabela certa tarde, apontando para cima.

— E aquela outra parece um dinossauro gordo — respondeu Nicolas, sem hesitar.

— Dinossauros não são gordos, Nico!

— São sim. Eles só são grandes e devem ter a autoestima baixa, por isso não mostram.

Ela riu tanto que quase perdeu o equilíbrio no balanço.

— Você é muito estranho.

— Mas você gosta de mim — rebateu ele, com uma confiança tranquila e mansa.

— Gosto mesmo — confirmou ela, sem pensar duas vezes.

E era a mais pura verdade. Nicolas era, sem que ela sequer percebesse, o seu lugar seguro.

Na casa dos meninos, o ambiente era sempre cheio de vida. O rádio ficava ligado na cozinha, espalhando música leve; o cheiro de café fresco ou bolo assado invadia todos os cantos; risadas ecoavam pelos corredores e qualquer discussão breve sempre terminava em gargalhadas, nunca em brigas sérias ou portas batendo. A mãe deles, dona Lúcia, recebia Isabela como se ela fizesse parte da família há gerações — uma presença tão natural quanto os móveis, essencial e bem-vinda.

— Isa, já almoçou? — perguntava, logo que a via chegar. — Isa, tira o tênis antes de entrar, para não sujar o piso. Isa, vem provar esse bolo que acabei de fazer!

E ela quase sempre ficava. Às vezes, até mais tarde do que devia.

Já na casa de Isabela, o clima era bem diferente. Não era um lugar ruim: era limpo, organizado, tinha tudo o que uma criança poderia desejar — um quarto só para si, roupas bonitas e brinquedos novos. Mas o silêncio ali era pesado, e quando ele se quebrava, não era com risadas. Havia vozes mais altas atrás de portas fechadas, frases interrompidas no meio e suspiros que pareciam carregar cansaço de anos.

— Você nunca me escuta de verdade! — a voz da mãe às vezes escapava pelas frestas da porta.

— Não começa com isso, por favor... — respondia o pai, com tom de desânimo.

Quando isso acontecia, Isabela logo subia para o seu quarto, fechava a porta e colocava os fones de ouvido, mesmo sem ligar nenhuma música: era só uma forma de abafar o mundo lá fora. Nos dias em que as discussões se arrastavam por mais tempo, ela ficava torcendo para que Nicolas aparecesse com qualquer desculpa para tirá-la daquele ambiente.

E ele sempre aparecia.

— Minha mãe fez bolo de cenoura com cobertura — dizia ele, encostado no portão, com um sorriso.

Ou então:

— O Gustavo quer que a gente vá jogar bola na quadra da esquina.

Na verdade, o que ele pensava, mas nunca tinha coragem de dizer em voz alta, era bem mais simples: *"Eu só queria ver você."*

Na escola, o trio tornou-se inseparável. Tinham outros amigos, claro: a Bia, que falava mais rápido do que conseguia respirar; o Lucas, que parecia ser bom em tudo sem nem precisar tentar; e a Carol, que carregava sempre um estojo cheio de canetinhas e inventava teorias engraçadas sobre cada professor. Mas, no fim do dia, eram sempre os três que ficavam sentados juntos, dividindo o lanche e trocando piadas que só eles entendiam.

— Vocês três são muito esquisitos — comentou Bia uma vez, balançando a cabeça.

— Nós preferimos o termo "exclusivos" — respondeu Gustavo, com um sorriso de lado.

— Fala por você — retrucou Nicolas. — Eu sou apenas adorável.

— Só quando está dormindo — devolveu Gustavo, dando um empurrão leve no ombro do irmão.

Isabela ria. E, ao lado deles, parecia que nada de ruim poderia acontecer.

Se alguém prestasse atenção — coisa que raramente se faz com crianças pequenas —, notaria que Gustavo a olhava de um jeito diferente. Não era como Nicolas, que a encarava com a tranquilidade de quem vê o próprio lar, um porto seguro. Gustavo olhava para ela como quem encara algo raro e valioso, como um desafio que ele queria conhecer e proteger para si.

Quando ela errava uma conta difícil, era Gustavo quem parava para explicar com paciência. Se alguém zombasse do seu cabelo ou de alguma mania, era ele quem saía em sua defesa sem pensar duas vezes. E quando ela hesitava diante de algo novo ou assustador, ele logo dizia:

— Você consegue, sim. Eu estou aqui para ajudar.

E realmente ajudava.

Nicolas percebia aquela atenção toda. Não que soubesse ainda nomear o que sentia — era cedo para entender o que era ciúme —, mas notava um aperto estranho no peito sempre que Gustavo puxava Isabela para longe, mesmo sem nenhuma má intenção. Mas Nicolas nunca competia. Ele apenas ficava ali, firme e presente.

E Isabela adorava essa constância. Gostava de saber que, acontecesse o que acontecesse, ele estaria por perto: na fila da cantina, sentado no degrau da casa dividindo um refrigerante, ou apenas ao lado, em silêncio, sem precisar de muitas palavras.

— Você é o meu melhor amigo — escreveu ela certa vez num pedacinho de papel, amassou numa bolinha e jogou em sua direção durante a aula.

Nicolas abriu, leu e sentiu o coração bater mais rápido, de uma forma boa e leve. Sorriu de volta e sussurrou baixo:

— Você também é a minha.

Gustavo ouviu a frase. E não gostou. Não sabia explicar muito bem o porquê, mas aquela palavra — *melhor* — parecia uma espécie de território onde ele não tinha sido convidado a entrar.

Essa diferença ficou ainda mais clara durante a festa junina da escola. Isabela usava um vestido azul, com fitas coloridas nos ombros e no cabelo. Quando saiu da sala e apareceu no corredor, Nicolas parou no mesmo instante, como se tivesse esquecido de respirar.

— Uau — soltou ele, sem querer, em voz alta.

— O quê? — perguntou ela, ajeitando os laços com as mãos.

— Nada não. É só que... você está muito bonita.

Ela sorriu, sentindo as bochechas esquentarem um pouco.

— Obrigada, Nico.

Gustavo apareceu logo depois, vindo do pátio. Parou no meio do caminho e ficou olhando para ela por alguns segundos a mais do que o necessário.

— Parece uma princesa de verdade — comentou, com aquela intensidade que já era sua marca.

— Exagerado! — ela riu, mas o calor no rosto aumentou ainda mais.

Na hora da quadrilha, Gustavo não deu chance para mais ninguém: foi logo pedindo para ser o seu par. Nicolas ficou do lado de fora da roda, batendo palmas e sorrindo para os dois, mas sentia algo "torto" dentro de si, uma sensação que ainda não sabia como chamar.

— Eles combinam muito, né? — comentou Bia, cutucando o braço dele.

— Não combinam nada — respondeu Nicolas, mais rápido do que deveria. — São só amigos, como a gente.

Mas a frase não soou muito convincente, nem mesmo para ele.

Na volta para casa, caminhando sob o cheiro de milho cozido e amendoim torrado, com o som da música da festa ficando cada vez mais distante, os três seguiram lado a lado.

— Hoje foi o melhor dia de todos — disse Gustavo, olhando diretamente para Isabela.

— Você sempre exagera em tudo — brincou ela, tentando disfarçar.

— Só quando vale a pena — respondeu ele, mantendo o olhar firme no dela.

Isabela desviou o rosto, sentindo o coração bater num ritmo diferente, que ela ainda não reconhecia. Nicolas viu aquele gesto. E, pela primeira vez, sentiu algo que parecia muito com uma perda... mesmo sem ter perdido nada ainda, de fato.

Naquela época, não havia rótulos, nem promessas feitas para o futuro. Só existia uma menina que encontrara o seu refúgio em dois irmãos: um que a amava como a sua paz, e outro que começava a amá-la como a sua tempestade.

Eles não faziam ideia do que estavam construindo — nem das marcas que aqueles sentimentos deixariam, tijolo por tijolo, entre risadas e tardes intermináveis. Mas isso... isso já era história para o futuro.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.