Entre Cinzas & Esperança
11 Referências... Referências por toda a parte
Notas iniciais
Bobby, os Winchester, Castiel e as garotas permaneciam em silêncio no meio da sala. Ainda tomados por certa surpresa, eles observavam Gabriel sentado à mesa, cercado por uma infinidade de guloseimas. Sem saberem o que dizer, se entreolharam por um instante e depois voltaram a fitar o arcanjo.
Este, por sua vez, resolveu se levantar e finalmente rompeu o silêncio tedioso que havia se instalado ali:
— E então, pessoal? Vocês vão ficar me encarando pelo resto da eternidade?
Inevitavelmente todos se entreolharam mais uma vez e voltaram a observá-lo, até que Claire pigarreou e decidiu dizer a primeira coisa que lhe veio à cabeça, por mais óbvio que fosse:
— Então você é... Gabriel? O arcanjo?
— Algum problema? — Ele arqueou uma sobrancelha, estranhando a pergunta.
Claire o mediu da cabeça aos pés e conteve o riso, antes de confessar:
— Não, eu só... pensei que você fosse mais alto.
— Hum — murmurou o arcanjo, levando um dedo ao queixo e fingindo que tinha ficado pensativo com a observação. — Talvez por que você tenha preferência por homens altos? — provocou, olhando dela para Sam por um instante significativo.
Sem graça, Claire engoliu em seco e ouviu Natalie sussurrar ao seu lado:
— Você podia ter ficado sem essa, amiga.
— Totalmente de acordo — assentiu Gabriel, aproximando-se da filha de Bobby e acrescentando em tom sugestivo: — E só para constar, não me julgue pelo o que você pode ver, honey... Eu sou muito maior do que você imagina. Acredite.
Incomodado com a piada maliciosa totalmente sem graça e inapropriada, Sam expirou com força e estreitou o olhar na direção do arcanjo, imaginando como seria bom se ele simplesmente explodisse.
Enquanto isso, Claire sorriu amarelo quando Gabriel arrematou a performance inconveniente com uma piscadela. Logo depois, ele cumprimentou a pessoa ao lado dela:
— Aí está... A adorável Natalie Jones!
Antes que a loira dissesse qualquer coisa em resposta, Dean riu e deixou escapar:
— Adorável? — Mas quando Natalie o fuzilou com o olhar, ele pigarreou e se explicou: — Desculpe, eu só achei engraçado.
— Dean! Que saudade! — Gabriel caminhou até onde ele e o irmão estavam, bateu levemente no ombro de cada um e prosseguiu: — Ei, Sammy. Sentiram a minha falta, rapazes?
— É Sam — fez questão de corrigir, seco.
— E não — Dean fez questão de responder, lhe lançando um sorriso inexpressivo.
— Oh... Assim vocês partem o meu coração — o arcanjo limitou-se a reclamar, embora no fundo não se importasse realmente, e então partiu para a próxima pessoa na sala: — Olá, Bobby.
Sem delongas, o experiente caçador foi direto ao ponto:
— Nós precisamos conversar.
Novamente Gabriel fingiu que havia ficado pensativo, colocou as mãos no bolso da jaqueta e replicou:
— Cada coisa no seu devido tempo, velho amigo.
Em resposta, Bobby semicerrou o olhar e esclareceu:
— Sem ofensa, mas eu não sou seu amigo, apenas preciso de você.
Prontamente, Gabriel redarguiu afiado:
— Ah, eu percebi. Amigos não planejam prender amigos em uma armadilha, certo?
Após um aterrador momento de silêncio, Castiel resolveu intervir, chamando a atenção do outro anjo ao argumentar de um jeito firme:
— Que diferença faz? Você nos enganou, está bem livre e à vontade, pelo o que eu pude notar.
— Isso é verdade. — Gabriel deu de ombros, sem se importar com o tom de crítica, e seguiu na direção dele devagar. — É bom te ver de novo, Cas.
Diante do silêncio quase constrangedor que se seguiu após isso, o arcanjo revirou os olhos e gesticulou ofendido:
— Sabe, agora seria o momento em que você responderia: "Ei, Gabe! Eu também senti a sua falta, bro! Bom te ver também!"
No mesmo tom sério de antes, Castiel retrucou:
— Não me leve a mal, Gabe, mas levando em consideração a última vez que nos vimos, eu não sei se posso corresponder às suas expectativas no momento.
Confuso, Gabriel riu baixo e articulou:
— Por que não? Eu salvei o mundo aquele dia. E sem querer me gabar, — ele olhou rapidamente para os Winchester e Bobby, e depois tornou a encarar Castiel —, salvei todos vocês também.
No instante seguinte, Castiel fez questão de relembrar:
— E depois você foi embora. E simplesmente me ignorou todas as vezes que tentei entrar em contato para pedir a sua ajuda.
Isso pareceu desarmar Gabriel por algum tempo. Então, realmente pensativo, ele tentou se explicar:
— Eu sei, foi mal. Eu só estava esperando o momento certo de aparecer. Bem... Na verdade, eu estava torcendo para que minha interferência não fosse necessária. — Olhando para Bobby e os Winchester também, acrescentou: — Vocês me conhecem, sabem muito bem que eu não gosto de me envolver.
Mia, que já tinha ouvido a história do apocalipse algumas vezes e, portanto, sabia da relutância do arcanjo em intervir no começo e ajudar Sam, Dean, Bobby e Castiel a deter Lúcifer, deixou um riso escapar e sibilou:
— É, eu ouvi falar.
Imediatamente, Gabriel estreitou o olhar na direção dela, que estava do outro lado da sala, e disse a Castiel:
— Ah! Então esta é sua famosa coelha?
Sentindo o seu rosto ruborizar ao ouvir o inconveniente apelido, se lembrando do que havia por trás disso e querendo deixar claro que não estava mais com Castiel, Mia engoliu em seco e esclareceu meio aos gaguejos:
— Ex... Ex-coelha.
Embora tal postura tenha magoado Castiel, o anjo decidiu relevar a atitude por ora, acreditando que a caçadora só precisava de mais tempo e um pouco de espaço, e então corrigiu o arcanjo:
— Ela tem nome.
Apesar de ter estranhado o clima tenso entre os dois, Gabriel deixou isso de lado e retomou a conversa, se concentrando na caçadora:
— Eu sei. Mia Clarke. Digamos que eu também ouvi falar de você. — Voltando-se para Castiel, ele ponderou de um jeito zombeteiro: — Agora eu entendo por que você abriu mão das convenções, formalidades, regras e blá blá blá celestiais, Cas. Ah, o amor... Quem diria, hein? Com essa cara de bobo.
Enquanto ele dava alguns tapinhas no ombro de Castiel — extremamente sério —, Mia se ouviu retrucando por instinto:
— Ele não tem... cara de bobo. — Assim que todos olharam para ela, inclusive Castiel, intrigados com a rápida defesa e com o que isso significava, Mia se recompôs e sugeriu meio sem graça: — Será que nós podemos manter o foco, por favor?
— Ótima ideia! — aprovou Gabriel, voltando à mesa e pegando várias balas em um recipiente no centro dela. — Bem, como estava dizendo, eu pensei que vocês fossem inteligentes o suficiente para lidar com o problema sozinhos, por isso relutei tanto em dar o ar da minha graça. Literalmente. — Enquanto desembrulhava algumas balas e as colocava na boca, emendou: — Claramente, eu estava errado.
Impaciente, Bobby foi direto mais uma vez:
— Acredite, nós gostamos desta situação tanto quanto você, por isso vamos ser práticos. Você vai nos ajudar ou não?
Após um longo momento de silêncio, o arcanjo tornou a se sentar na cadeira, acomodou os pés sobre a mesa e insinuou:
— Eu estou aqui, não estou? — Depois de empurrar uma pilha de papeis de bala para o centro da mesa, ele inquiriu de boca cheia: — Perguntas?
Castiel decidiu fazer a primeira delas:
— Por onde você andou?
Depois de engolir as balas que ainda estavam em sua boca, Gabriel pegou um pirulito em outra travessa e desconversou:
— Pergunta irrelevante. Próxima?
Desconfiado, Castiel estreitou o olhar na direção dele e ficou o observando, enquanto Dean prosseguia com o interrogatório:
— Onde estão os demônios que escaparam aquele dia?
Ao ouvir isso, Gabriel franziu o cenho, duvidando que o Winchester estivesse falando sério, e replicou:
— Desculpe, você disse demônios?
— Foi exatamente o que eu disse — confirmou um Dean impaciente.
Como apoio, Sam acrescentou:
— Nós procuramos sinais por toda a parte, mas não encontramos qualquer indício de atividade demoníaca. Em nenhuma parte.
— Nem a gente — Natalie informou, trocando um rápido olhar com Claire e Mia, que assentiram em concordância. — Nós até combinamos uma temporada de caça a demônios, mas ela nunca foi inaugurada de fato, já que simplesmente não encontramos qualquer sinal deles também.
Depois de observá-los por alguns instantes, ainda sem acreditar no que ouvia, Gabriel soltou um longo assobio e questionou:
— Qual o problema de vocês? Por acaso não fizeram a lição de casa? Ou será que estão com sérios problemas de memória? Alzheimer, talvez?
Com a nítida impressão de que todos eles tinham deixado passar algum detalhe importante, Claire pediu afiada:
— Será que você pode ser mais específico e menos engraçadinho, por favor?
Enquanto batucava os dedos na mesa, o arcanjo encarou todos na sala e jogou uma pergunta no ar:
— Por acaso, já lhes ocorreu que talvez vocês não estejam procurando por demônios?
Tal pergunta ficou ecoando nas mentes de todos ali, os deixando ainda mais confusos e mergulhados em uma atmosfera de suspense, como se de repente se vissem no meio de um enigma sem fim.
Contudo, ao relembrar o ocorrido na ilha vulcânica do Triângulo das Bermudas, Dean soltou um riso baixo e argumentou taxativo:
— Sem essa, Gabriel. Eu sei muito bem o que vi aquele dia, okay? Todos nós vimos, aliás. Mesmo as garotas… que não estavam no meio do show, viram as malditas fumaças negras e imundas à distância.
Dean até tentou não olhar para Natalie ao terminar de falar, mas acabou olhando mesmo assim. Esperando encontrar uma expressão intransigente e dura, ele ficou surpreso quando percebeu que a loira não parecia tão ressentida com o passado, mas sim interessada no presente, no rumo daquela conversa, no que Gabriel, claramente, queria que todos eles entendessem.
Mas o que seria? O que eles não haviam entendido sobre aquela história ainda? Qual detalhe havia passado despercebido por todos eles?
Incentivando-os a matar a charada, o arcanjo insinuou de um jeito emblemático:
— Vocês viram o que eles queriam que vocês vissem. Um bando de demônios escapando das profundezas.
Um longo momento de silêncio se passou. Caçadores e anjos se entreolharam. Por fim, Mia arriscou perguntar:
— Como assim o que eles queriam?
No embalo, Castiel foi mais longe no raciocínio e perguntou:
— Se não eram demônios, o que eles eram então?
Prontamente, Gabriel fitou o anjo e, sem responder exatamente o que lhe foi perguntado, ponderou:
— Você mais do que ninguém, Cas, devia ter percebido que aquilo não era real. Ou melhor, até era, mas...
Perdendo a paciência com tanto mistério, Bobby pressionou com um resmungo:
— Será que você pode ir direto ao ponto, idjit?
O arcanjo semicerrou um olhar ofendido na direção do velho caçador. E só para contrariá-lo, decidiu continuar com as charadas:
— O que vocês se lembram sobre a Tábua dos Anjos? Eu quero dizer... Exatamente?
Tal menção fez Mia sentir um arrepio percorrer o seu corpo e um filme passou pela sua mente. Kevin e Chloe traduzindo o artefato, o interesse de Crowley nas profecias ali contidas, ela sendo obrigada a trair seus amigos por causa disso, entregando informações valiosas ao demônio, perdendo sua liberdade no final, o controle de suas memórias e de sua vida, perdendo... Castiel.
Movida por um instinto, Mia cruzou os braços contra o peito e se encolheu um pouco. Sem conseguir evitar, ergueu a cabeça e procurou o olhar de Castiel na sala. Imediatamente, o encontrou e sentiu a tensão se dissipar aos poucos. Uma sensação de segurança a invadiu, ao mesmo tempo em que uma pergunta martelava em sua cabeça: se ela precisava tanto de Castiel, por que continuava o evitando?
Sem querer pensar na resposta naquele momento, Mia fez um esforço e focou no questionamento levantado por Gabriel. Mas antes que se pronunciasse a respeito, Sam fez isso:
— Entre outras coisas, a Tábua dos Anjos mencionava uma profecia sobre a ascensão infernal, sobre o rompimento de um selo necessário para que ela acontecesse.
— Exato! Nota 10, Sam! Continue assim e talvez você ganhe uma estrelinha no final! — Gabriel praticamente vibrou com a resposta, antes de retomar: — E no que consistia esse selo?
Apesar das lembranças vergonhosas que carregava sobre o assunto, Mia se encheu de coragem, respirou fundo e respondeu:
— Para quebrar o selo foi preciso... um feitiço. Um feitiço envolvendo uma bruxa de um antigo clã e alguns... pactos de encruzilhada. Mais precisamente... 666 almas.
— Não foi isso o que eu perguntei, Mia Clarke. Preste atenção ou você não vai passar de ano — reprovou Gabriel, parecendo um professor repreendendo uma aluna relapsa. — Eu perguntei qual era o selo, não como ele foi quebrado. É diferente.
Com certa indignação, a garota retrucou:
— O selo era a ascensão infernal, oras!
— Errado de novo! — debochou o arcanjo. — A ascensão infernal era a consequência, não o selo. Qual era o selo?
Sentindo-se acuada, Mia preferiu ficar calada enquanto puxava em sua memória a referência que Gabriel estava tentando desenterrar. Qual detalhe havia passado afinal?
De repente, ele olhou para o outro lado da sala e indagou:
— Você está pensativa demais, Claire Singer. Quer compartilhar algo com seus amigos? Talvez nos dar uma pequena luz nesse impasse?
Pega de surpresa, a filha de Bobby olhou para cada um deles por alguns instantes e comprimiu os lábios, relembrando a época em que Kevin Tran conseguiu traduzir todo o artefato. Em seguida, ela soltou o ar preso em sua garganta e respondeu pausadamente:
— A Tábua dos Anjos dizia que para a ascensão infernal acontecer, primeiro os anjos que caíram com Lúcifer deveriam ser libertados. Este era o selo. Então, uma vez quebrado, todos os portões do inferno se abririam e todos os demônios ascenderiam por eles.
— Bingo! — Gabriel limitou-se a dizer, esperando que a observação da caçadora fosse o suficiente para fazer os outros entenderem com o que estavam lidando.
Mas não foi suficiente, já que, sentindo-se confusa, Natalie articulou:
— Demônios foram libertados naquela ilha, não anjos. Apenas demônios.
Antes que o arcanjo dissesse qualquer coisa em resposta, Castiel lembrou de um jeito sério e preocupado:
— Nós vimos o que eles queriam que nós víssemos. Não significa que foi real. Não eram demônios escapando do Inferno, era uma encenação, eram... os anjos de Lúcifer. A sua Legião.
Com o coração estagnado pela surpresa, Mia sibilou mais para si mesma do que para todos ali:
— Então a ascensão infernal nunca aconteceu.
Na sequência, foi a vez de Dean se dar por vencido e dizer:
— Milênios enclausurados nas profundezas devem ter modificado a sua essência, os transformado em monstros ainda piores do que já eram quando se aliaram a Lúcifer. Assim como as almas humanas se transformam em outra coisa, depois de séculos de tortura.
O Winchester engoliu em seco ao lembrar dos seus quarenta anos no Inferno e do quão próximo esteve de virar um demônio.
Percebendo certa oscilação no semblante dele, Natalie, numa tentativa de manter o foco do caçador no presente, emendou:
— Além disso, anjos podem alterar a realidade, certo? Criar cenários, situações, controlar o espaço e o tempo? Com certeza, esses usaram algum truque para enganar todos nós naquela ilha.
Dean ergueu o olhar na direção dela e ia assentir, quando um riso escapou da garganta de Gabriel, chamando a atenção de todos.
Pensando com nostalgia nos seus tempos de Trickster, ele suspirou e respondeu:
— Sim, com certeza anjos têm esse poder. Enganar os trouxas. — Diante dos olhares nem um pouco satisfeitos que o fitaram na sequência, Gabriel ergueu as mãos em sinal de rendição e recomeçou: — Olha, o que importa é que agora vocês entenderam o grande x da questão. E quer saber? Eu até entendo por que demoraram tanto. Vocês viram demônios naquela ilha, então simplesmente se esqueceram completamente da Palavra de Deus, pensaram que o homem lá de cima estava maluco e que tinha escrito errado por linhas tortas, totalmente compreensível.
O tom crítico e debochado do arcanjo incomodou a todos, levando Sam a dizer em defesa:
— Nós não precisamos que você diga o quanto fomos ingênuos, Gabriel.
— E amadores — pontuou o arcanjo, erguendo um dedo em riste e levando o pirulito à boca por alguns instantes.
Apesar da raiva, o Winchester mais novo deixou a provocação de lado e continuou:
— De quantos anjos nós estamos falando exatamente? Quantos deles escaparam?
Prontamente, Gabriel explicou cheio de si:
— Bem, como vocês sabem, eu apareci no melhor do show e impedi que a tragédia se tornasse maior, porque se dependesse dos Winchester e sua turma... O mundo ia para o buraco de novo. — Depois de pigarrear um pouco, ele prosseguiu mais sério: — Por sorte, nós não estamos falando de um terço dos anjos do céu, a soma que caiu junto com Lucy. Mas mesmo assim... Uma quantidade razoável deles está a solta.
Depois de assimilar a informação que importava, Dean questionou:
— Como nós os detemos?
Unindo as mãos no ar num gesto significativo, o arcanjo respondeu:
— Juntos. — Quando todos o encararam confusos, ele revirou os olhos e, olhando para os Winchester, Castiel e as caçadoras, explicou melhor: — Okay, o negócio é o seguinte. Eu sei das últimas fofocas, de certos desentendimentos conjugais que andaram acontecendo por aí. Mas para enfrentarem o que está por vir, vocês terão que deixar isso tudo de lado. Separados, vocês mal entenderam a profecia e declararam guerra a demônios que continuam no Inferno. Então, para ter êxito desta vez, vocês terão que ficar juntos e enfrentar a Legião juntos. Se alguém ficar de fora da missão, o destino muda o curso e game over para o mundo. Eu fui claro?
Todos estranharam as palavras do arcanjo, mas foi apenas Mia que decidiu perguntar:
— Como você sabe disso?
Gabriel demorou um pouco para responder, como se avaliasse a necessidade de contar uma parte da história, mas acabou dizendo:
— Porque eu tive a oportunidade de dar uma espiada no futuro. Então acredite, honey, eu sei do que estou falando.
Enquanto Mia decidia se esse argumento era suficiente ou não, Castiel questionou:
— Era lá que você estava o tempo todo? No futuro?
Com uma pequena ponta de culpa, o arcanjo se justificou:
— Não, eu estava no passado. Antes do apocalipse, bem antes, quando tudo era menos complicado e eu era apenas o bom e velho Trickster. Bons tempos.
— Em outras palavras, — recomeçou Dean em tom crítico — você está fugindo de novo?
Gabriel não respondeu. E por mais que não concordassem com essa atitude dele, ninguém insistiu no assunto. Ao invés disso, Bobby retomou a conversa:
— O que esses anjos querem?
Achando o questionamento muito óbvio, o arcanjo rebateu:
— Eles traíram o Céu, Deus, tudo, por causa de Lúcifer. O que você acha que eles querem?
— O seu líder... de volta — foi Claire quem deduziu, sentindo certo pânico ao refletir melhor sobre suas palavras.
— Eles vão tentar tirar Lúcifer da jaula? — indagou Natalie, igualmente preocupada.
— É uma pergunta retórica? — sibilou Dean, com um olhar vidrado e distante, assimilando tudo o que tinha ouvido e ficando preocupado também.
— Seria o apocalipse de novo — refletiu Sam. — Mas só com um lado desta vez. Se esses anjos conseguirem libertar Lúcifer, ele vence. Ele pode e vai deixar Miguel apodrecendo na jaula e fazer o que bem entender com o planeta. Seria o fim.
Contendo um nervosismo latente, Mia disse com os olhos meio arregalados:
— Nós não podemos deixar isso acontecer.
Olhando-a com firmeza, Castiel assegurou:
— E não vamos. — Depois que a caçadora assentiu algumas vezes, ele olhou para Gabriel e pediu: — Fique e lute conosco.
O arcanjo o encarou por longos instantes, ponderando o convite, mas por fim recusou:
— Sinto muito, mas eu não posso.
Tomado por certo déjà vu, Dean pressionou:
— Não pode ou não quer?
Voltando-se para ele com certa irritação, Gabriel disse duramente:
— Essa luta não é minha, Deano. — Quando todos estreitaram os olhares, esperando um argumento mais forte do que esse, ele despejou ainda mais incomodado: — O quê? Da última vez que me envolvi com vocês, eu terminei morto pela espada de Lucy e aquilo não foi nem um pouco divertido. Portanto, se vocês não se importam, eu acho que tenho todo o direito de recuar agora e manter o meu pescoço intacto.
Todos ficaram em silêncio diante disso, sabendo que a ajuda do arcanjo seria valiosa, mas convencidos de que não adiantaria insistir. Ele havia tomado a sua decisão e, bem ou mal, já havia feito muito até ali. Era pedir demais que se juntasse a eles naquela empreitada, provavelmente, suicida.
Pensando assim, Dean tomou a palavra e propôs:
— Tudo bem, tanto faz, mas pelo menos nos diga onde encontrar esses anjos. Por onde nós começamos? Onde os bastardos estão?
Após encará-lo por um longo momento, Gabriel corrigiu:
— A pergunta não é onde, Dean.
— Como assim? — Natalie questionou, antecipando a pergunta que o ex-marido faria.
Irritado com mais e mais mistérios, Bobby exigiu:
— Uma dica de verdade viria bem a calhar, caso a madame não se importe.
Gabriel o encarou por um momento, depois observou cada rosto ali e então se levantou de súbito. Com um estalar de dedos, fez a mesa cheia de guloseimas desaparecer como num passe de mágica, restando apenas o pirulito no canto de seus lábios.
Todos pensaram que ele iria simplesmente desaparecer, tão repentinamente quanto havia aparecido, e que os deixaria no mais completo vácuo, sem respostas. Por isso, ficaram surpresos quando o arcanjo jogou um nome no ar:
— Henry Winchester.
— O quê?! — Sam balançou a cabeça, se perguntando por que aquilo era uma dica.
— E Michael J. Fox! — despejou na sequência. — É tudo o que eu posso dizer! Boa sorte, pessoal! E da próxima vez que pensarem em me convidar para um bate papo, apenas... não façam isso, okay? Adiós!
Ele estalou os dedos novamente e o farfalhar de suas asas logo se dissipou no ar.
— Gabriel, espera! — pediu Castiel, mas o irmão já havia partido.
Zonzo com tantas revelações e com a cabeça fervilhando de dúvidas, Dean se jogou numa poltrona e resmungou:
— Awesome... De volta à estaca zero.
Com um olhar distante, pescando algo na frase do caçador e nas dicas mencionadas pelo arcanjo, Castiel murmurou pensativo:
— De volta... Michael J. Fox... Talvez... Será?
Os Winchester, Bobby e as caçadoras olharam para ele, estranhando os murmúrios e esperando por algum tipo de explicação sobre eles.
Foi Sam que, vendo o anjo cada vez mais mergulhado em seus próprios pensamentos, decidiu perguntar:
— Cas? Você está bem, cara?
Despertando daquela espécie de transe, ele deu um passo à frente, fitou Sam e Dean especificamente e recordou:
— Henry Winchester, avô de vocês, um Homem das Letras que viajou no tempo e conheceu os netos em uma cidade longe daqui, lembram?
— Claro — confirmou Sam com certa tristeza, enquanto Dean apenas assentia com um meneio de cabeça.
Logo depois, Castiel prosseguiu com seu raciocínio:
— Michael J. Fox. De volta para o futuro. Outra viagem no tempo.
Castiel tinha uma empolgação inocente no olhar. Um brilho de esperança. Mas era óbvio pelas expressões de todos na sala, que eles ainda não tinham entendido o cerne da questão.
Então Mia pigarreou para chamar a sua atenção e pediu pausadamente:
— Eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas será que você poderia nos explicar a referência, anjo?
Castiel assentiu, encontrou cada um daqueles olhares curiosos que o encaravam de volta, e então, sem mais rodeios, esclareceu de uma vez:
— Nós temos que ir para o futuro. É lá que a Legião de Lúcifer está. É lá que eles vão tentar libertá-lo. Para impedir que o mundo acabe, nós temos que ir até lá. O futuro é a resposta.
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