Notas iniciais
Cheguei!!! O capítulo é curtinho, mas é bem tenso e importante. Um divisor de águas na relação Mia/Crowley e também para a história... Boa leitura e sim, eu sou má! PS: O capítulo de hoje é um oferecimento de Itaipava ahahahah (Quer um gelinho?)

Sem escapatória, Mia assistiu aos demônios lhe cercando pouco a pouco, tomando a sua última arma — a adaga que trazia na cintura — e a derrubando antes mesmo que ela conseguisse se erguer completamente.

Mais uma vez, a caçadora arfou de dor devido ao impacto com o chão. Na sequência, um dos demônios se aproximou mais e pisou em sua perna direita na altura do fêmur com força e demoradamente. Mia gritou em agonia e seus olhos encheram-se de dor e revolta.

— Desgraçado! — esbravejou entredentes.

Ela mal havia se recuperado da dor excruciante de tal golpe, quando outros dois demônios a ergueram do chão rapidamente, só para que um terceiro desferisse um soco violento em sua barriga. Enquanto eles riam, Mia sentia a dor aguda em seu estômago se espalhar por toda a região abdominal, em uma cólica intensa que lhe deixou imediatamente enjoada e desnorteada.

Crowley assistia tudo do palco sem demonstrar qualquer reação diante da sessão de tortura. Nem mesmo um sorriso malvado. Na verdade, ele parecia entediado com tudo aquilo.

Mesmo assim, o Rei do Inferno deixou que outros dois demônios se juntassem à diversão, golpeando Mia no abdômen mais uma vez e no rosto, fazendo as pernas da garota vacilarem e seus joelhos encontrarem o chão algumas vezes, só para que ela fosse erguida de novo e recebesse mais socos, chutes, pontapés.

Em meio a gemidos e gritos, Mia apanhou por longos minutos e pensou em chamar Castiel. Porém, sabia que o feitiço que fez com o sigilo enoquiano o manteria afastado por um bom tempo. Além disso, Crowley estava em vantagem ali e Mia temia que ele machucasse o anjo, caso este aparecesse e resolvesse bancar o heroi. Ou pior, que Crowley resolvesse fazer aquilo que plantou na mente dela por meio do pesadelo, que realmente matasse Castiel.

Por isso, Mia preferiu aguentar firme. Sabia como aquilo ia terminar, Crowley havia sido claro, era o último ato, a sua vingança.

Ela não se orgulhava disso, mas a verdade era que a sua vontade de viver não era maior do que o desejo de que aquilo terminasse logo. Só queria que terminasse o mais rápido possível. Não tinha qualquer esperança de sair dali viva. Era o fim da linha e, sem outra escolha, Mia havia aceitado o seu destino.

De repente, o demônio que havia pegado a sua adaga antes lhe lançou um sorriso malvado, se aproximou como um predador caçando a presa, tocou a ponta da lâmina na bochecha de Mia e sugeriu arrancar os olhos dela e cortar a sua língua, causando uma leva de gargalhadas entre os outros demônios e um estremecimento na caçadora.

Logo em seguida, a voz imponente de Crowley soou firme e autoritária:

— Já chega! Ela é minha agora.

Imediatamente, os demônios pararam de rir. Mia podia jurar que eles estremeceram, o que mostrava que Crowley era mesmo temido no Inferno.

— Sim, senhor — assentiu o servo que segurava a adaga. — Faça as honras — pediu, olhando para o líder e estendendo tal arma.

Lentamente, Crowley desceu do palco por meio de uma escada lateral e se aproximou. Parou de frente para o tal demônio e pegou a adaga de sua mão. Em seguida e com um golpe rápido e forte, acertou o rosto da criatura com um sonoro tapa, o que fez os outros demônios engolirem em seco e Mia provocar enquanto esboçava uma careta:

— Ai! Essa doeu, hein? Quer um gelinho?

Ignorando o comentário, o demônio apenas lhe lançou um olhar fulminante. Depois, encarou o Rei do Inferno com confusão. E este, por sua vez, esclareceu firme:

— Não me diga o que fazer, idiota. Nunca.

Depois de lançar um olhar significativo para os outros cinco demônios, reforçando que o recado valia para eles também, Crowley estalou os dedos, os mandando embora dali.

Mia, que até um instante atrás era segurada por dois deles, caiu de joelhos no chão automaticamente e só então percebeu que não tinha forças para se manter em pé, tampouco para levantar. Tinha apanhado bastante, seu corpo estava completamente dolorido e sua mente atordoada.

Apesar disso, ela começou a rir. Primeiro, discretamente, mas logo perdeu o controle. Gargalhou com vontade, como se tivesse acabado de ouvir uma piada muito boa, todavia Mia tinha apenas avaliado aquela situação e achado o cúmulo do ridículo.

Sem gostar nem um pouco daquela postura, o Rei do Inferno segurou a adaga com mais força e questionou frio:

— Do que você está rindo? Da sua morte certa? É só questão de tempo, sabia? Pouco tempo.

Fazendo um esforço, Mia ergueu a mão, deu um tapinha no ar e zombou:

— Bitch, please. Me conte algo novo. — Diante da expressão confusa do demônio diante de si, ela parou de rir e explicou: — Okay, você quer saber do que eu estou rindo? De você e dessa sua vingança sem sentido.

— Sem sentido? — Ele franziu o cenho ainda mais perdido. Se perguntou se os demônios haviam batido com muita força na cabeça da caçadora.

Depois de respirar fundo e ignorar a dor nas costas que sentiu ao fazer isso, Mia resolveu explicar melhor:

— Eu sou humana, Crowley. Não sou perfeita, mas me considero uma humana do bem. Por isso, é claro que eu nunca iria me aliar a um verme como você. Não em sã consciência, pelo menos. Você foi um fraco idiota por pensar que poderia me manipular, me convencer e me arrastar para o meio da sua sujeira infernal. Sinto muito, você estava errado.

Fazendo um grande esforço e cambaleando consideravelmente, Mia conseguiu ficar em pé, mas sentiu um suor frio em todo o seu corpo e sua visão ficou um pouco turva. Sabia que estava a ponto de desmaiar, mas com certeza o demônio seria mais rápido, não lhe daria essa chance.

Resignada com a ideia do desfecho, Mia abriu os braços e desafiou com ódio na voz:

— Então se a minha morte vai te fazer se sentir menos imbecil por ter planejado a nossa parceria por anos, vá em frente, me mate e acabe com isso de uma vez. Eu estou pronta. Eu sempre estive, seu filho da mãe desgraçado!

Mia fechou os olhos e abriu mais os braços, esperando pelo golpe fatal. Mas ele não veio. Longos instantes se passaram, enquanto Crowley a observava atônito e ponderava tudo o que tinha ouvido. Um conflito surgia dentro dele. Não poderia simplesmente matá-la, poderia?

— Odeio silêncios constrangedores — resmungou a caçadora, ainda de olhos fechados. — Me mate logo, por obséquio? Eu não tenho a noite toda — desafiou sadicamente, no fundo ignorando que ainda queria viver. Muito. Mas estava claro que aquele era o seu fim, então preferia acreditar que não tinha outro jeito do que implorar por sua vida e dar o gostinho de tal humilhação para o seu algoz.

— Não. Não tão fácil. — A voz de Crowley fez Mia abrir primeiro um olho, observá-lo por um momento, e depois o outro. Confusa, o viu abaixar a adaga e prosseguir: — Você tem razão, Swettie. Em partes. Eu fui um tolo, sim, mas você foi muito ingrata, admita. Tudo o que eu te proporcionei, os poderes, o lugar ao meu lado no Inferno, tudo o que você poderia ter sido se juntando a mim. Eu sei que você é humana, mas eu venho de um lugar onde as almas humanas são facilmente corrompidas. Cedo ou tarde, os humanos cedem. Qualquer um deles daria tudo para estar no seu lugar. Não agora, é claro, mas quando eu lhe ofereci poder e um propósito de vida, chances que você desperdiçou sem pestanejar. Por isso eu mereço a minha vingança. Porque você foi uma completa decepção. Um investimento furado para alguém que não gosta de perder. Você é uma vergonha para a sua própria raça, Mia. Qualquer chefe de estado teria aceitado se aliar a mim, mas você... Você me enganou. Tantas vezes. E mesmo assim eu continuei disposto a fazer de você a princesa do Inferno. Só para você frustrar os meus planos de novo e de novo, sem nem ao menos considerar a grandeza do que eu te ofereci.

Exausta daquele assunto e ferida, Mia limitou-se a dizer com sarcasmo:

— Por favor, me mate logo antes que eu morra de tédio com essa conversinha mole.

Irritado por ela não o levar a sério, o Rei do Inferno deu um passo rápido à frente, segurou Mia pelo pescoço, a surpreendendo, deu mais alguns passos e a empurrou com força contra uma pilastra, lhe arrancando um gemido esganiçado de dor.

Com a outra mão, Crowley posicionou a adaga na lateral do corpo da caçadora. E enquanto a ponta afiada perfurava levemente a carne entre suas costelas, a encarou duramente e cuspiu o seu discurso raivoso e cheio de ameaças:

— Este é o ponto, Swettie. Eu não vou te matar. Seria um prazer inenarrável, mas fácil demais, você não acha? Por isso, ao invés de terminar tudo agora, eu prefiro ser uma eterna sombra à espreita para o resto da sua vida. Eu vou te perseguir para sempre e aqueles que você ama também. Eu serei uma constante ameaça na sua vida, na dos seus amigos patéticos, na de Castiel. E se um dia vocês forem estúpidos o suficiente para trazerem uma aberraçãozinha fofa para este mundo, adivinhe só! Eu estarei lá também.

Em pânico com o significado de tais ameaças, Mia fez um esforço para não entrar em desespero, mas foi em vão. Sentia um medo aterrador dominá-la ao imaginar cada situação mencionada pelo demônio. Preferia que ele tivesse a matado. Doeria menos. Seria finito, não uma tortura eterna.

Então Mia fez outro esforço, desta vez para não gritar quando a adaga adentrou mais o seu corpo. Comprimiu os lábios com força e sentiu a blusinha que usava por baixo da jaqueta sendo embebida pelo sangue rubro e quente que saía do ferimento aberto em sua carne. Suas pernas vacilaram, sua respiração falhou já que os dedos de Crowley se estreitaram em seu pescoço com violência.

Contudo, ela se manteve firme e ouviu o restante daquele discurso doentio:

— Eu sempre estarei lá, um passo à frente, para te ameaçar de alguma forma, para ferir aqueles com que você tanto se importa, para te ferir também, mas não para acabar com você definitivamente. Essa será a minha vingança. Como um prato frio que eu vou te obrigar a comer lentamente enquanto você respirar. Agora, viva com isso.

Depois de retirar a adaga com um movimento brusco que levou a caçadora a gritar de qualquer forma, Crowley soltou o pescoço dela e se afastou um pouco, dando alguns passos para trás.

Mia tossiu compulsivamente, tentou recuperar o fôlego e caiu de joelhos no chão pela milésima vez aquela noite. Em vão, pressionou o ferimento recente, mas o sangue continuou jorrando e molhando seus dedos trêmulos. Não aguentava mais. Sentia-se zonza. Ia desmaiar a qualquer momento. Logo.

Como se pressentisse isso, Crowley arrematou, encerrando a conversa por ora:

— Te vejo no futuro, Mia Clarke.

A adaga foi largada e o barulho do seu atrito com o chão ecoou por toda a parte por alguns segundos. Logo depois, o Rei do Inferno estalou os dedos e desapareceu do lugar.

Tomada por uma sensação de desespero e derrota, Mia fechou os olhos marejados e deixou-se cair no chão de vez. Encolhida e sentindo muita dor, decidiu fazer aquilo que relutou tanto em fazer até ali. Era egoísmo, era arriscado, mas não havia outra escolha. Depois pensaria no que fazer, numa forma de mantê-lo longe dela e a salvo de Crowley, mas agora precisava dele. Mais do que nunca. Precisava de Castiel.

Além disso, uma parte dela duvidava que o Rei do Inferno fosse voltar. Com certeza, ele lhe daria algum tempo depois de tal embate. Te vejo no futuro, foi o que ele disse. Era o suficiente para convencer a caçadora a prosseguir com a ideia que lhe surgiu.

Então, com a voz vacilando a cada sílaba e sentindo um aperto sufocante no peito, Mia chamou:

— Eu... estou na... torre do relógio... Depressa, anjo.

Por fim, ela deixou que suas pálpebras estranhamente pesadas se fechassem. E mergulhou numa escuridão desoladora.

Notas finais
Sim... É assim que eu imagino o final da conturbada relação entre Mia e o King, um final em aberto, uma constante ameaça, algo mal resolvido. Quem leu O Caso do Slender Man e Nunca Durma, sabe que lá no futuro, o Crowley ainda é uma pedra no sapato dela e de todo mundo, apesar de não ter sido o vilão dessas duas fics. Resumo da ópera: Crowley sempre estará por perto, à espreita. Talvez, nunca volte a atacar a Mia, mas o suspense e a ideia de que ele pode feri-la ou ferir alguém que ela ama a qualquer momento é o que vai deixar a bichinha negoçada. Porém, vamos dar tempo ao tempo, apesar disso, a Mia vai encontrar uma forma de viver com isso e não estará sozinha nessa empreitada. Não vou dizer se o Crowley vai voltar a aparecer nesta fic, vou deixar em aberto, pode ser que sim, pode ser que não, esse é o espírito. Apesar da minha maldade, gostaram do capítulo? Será que o Cas vai encontrar a Mia? Contem tudinho nas reviews e inté o próximo capítulo! Beijos! PS: Para quem acompanhou Trapaças do Destino, eu comecei a postar a segunda temporada hoje, se chama Trapaças do Coração, só abizoiar o meu perfil e be happy!