Entre Cinzas & Esperança
27 O presente e a pedra no sapato
Notas iniciais
De todas as experiências sobrenaturais que vivenciou desde que um anjo de sobretudo e olhos incrivelmente azuis invadiu o seu quarto e a acordou numa certa madrugada, aquela com certeza era a mais maluca.
Mia, que sempre sabia o que dizer, que sempre tinha uma resposta pronta na ponta da língua, que odiava longos momentos de silêncio por serem muito constrangedores e que nunca dispensava um bom café, desta vez estava muda e estática, olhando da caneca com sua bebida favorita para a entidade misteriosa sentada na sua frente.
Era como ela havia confessado para Castiel mais cedo: enfrentar o mal era fácil, o difícil era lidar com o outro lado da moeda.
Sem saber o que pensar ou fazer, mas ciente de que aquele silêncio já tinha ido longe demais, ela limpou a garganta e finalmente tomou coragem para se pronunciar:
— Eu morri?
— Não exatamente. Ou melhor, você está em estado de choque e podemos considerar isso uma experiência de quase morte, mas você vai ficar bem assim que voltar a respirar, não se preocupe.
— Animador. — Mia olhou tudo em volta. — Que lugar é esse?
Com certo orgulho, o homem diante de si sorriu e revelou:
— Uma das minhas construções favoritas. Você gostou?
Como a garota não respondeu, o sujeito observou a caneca intocada diante dela e questionou:
— Por que não provou o café ainda?
Na defensiva, Mia ignorou a indagação e recomeçou:
— Quem é você?
Depois de encará-la por longos instantes com um olhar misterioso e sereno, a entidade insinuou:
— Eu acho que você sabe. Mas pode me chamar de Chuck, se te deixar mais confortável. No fundo, eu também prefiro.
O nome mencionado fez a caçadora se recordar de algumas conversas que teve com os Winchester e Castiel sobre a época do Apocalipse. Começando a juntar as peças do quebra-cabeça, ela prosseguiu com o interrogatório:
— Chuck? Isso me lembra o escritor dos livros Supernatural e... Espera. É você? O profeta que simplesmente desapareceu sem deixar vestígios?
— Sim. Chuck Shurley, mais conhecido no mundo literário como Carver Edlund — ele confirmou e, estreitando o olhar na direção dela, arriscou: — Claro que agora você já deve saber que, na verdade, eu não sou um escritor, tampouco um profeta.
Incapaz de negar o óbvio, Mia assentiu:
— Sim, tô sabendo... Deus.
O ser supremo sorriu levemente em concordância enquanto ela se rendia e tomava o primeiro gole de café. Continuava sem saber o que pensar de toda aquela situação, mas uma coisa era certa: aquele era o melhor café que já havia saboreado na vida.
Com certa ansiedade, Chuck a incentivou a falar mais a respeito da sua verdadeira identidade:
— Aposto que você tem algumas perguntas, certo? Vamos lá, manda.
De fato era impossível ficar indiferente à constatação de que Deus realmente existia, estava bem na sua frente e era um velho conhecido de Sam, Dean, Castiel e Bobby. Por outro lado, Mia nunca tinha imaginado que estaria em tal situação algum dia e, por isso, precisava medir bem as palavras para não despertar a ira de ninguém mais ninguém menos do que Deus.
Tentando chegar a um meio-termo, disparou de um jeito genérico:
— Por que você desapareceu... Chuck? Por que nos deixou sozinhos com uma série de problemas nas costas? Por que permitiu e ainda permite tantas atrocidades?
— As respostas são relativas, mas em resumo: livre arbítrio — respondeu certeiro. — Afinal, que espécie de pai eu seria se interferisse cada vez que meus filhos tropeçassem?
— Um pai mais presente, talvez. E mais amável também. — Percebendo que tinha sido um tanto rude em sua resposta, Mia engoliu em seco e ressalvou: — Com todo o respeito, é claro.
Demonstrando que não tinha ficado ofendido com suas palavras, uma vez que boa parte da humanidade pensava como Mia, Chuck deu um meio sorriso a fim de tranquilizá-la. Porém, em seguida, argumentou firme:
— Vocês nunca teriam aprendido a se levantar, se não tivessem caído primeiro. — Ele fez uma pausa e completou: — Por falar nisso, bom trabalho com a Legião. Todos se saíram muito bem. Eu sabia que conseguiriam lidar com o problema.
— Valeu, papi soberano — Mia resmungou baixinho, sem conseguir controlar o tom zombeteiro, apesar das circunstâncias.
Após analisá-la por algum tempo, Deus decidiu se explicar melhor:
— Sabe, você pode não acreditar, mas eu não desapareci por completo e nunca os abandonei de verdade. Eu sempre estive por aí e interferi quando foi extremamente necessário. Quantas vezes você voltou da morte, Mia? Ou Sam e Dean? Castiel? Bobby? Quantas coisas inexplicáveis e que os ajudaram de alguma forma, você lembra de ter acontecido nos últimos tempos? — Após lhe dar um momento para ponderar os argumentos, emendou: — Eu posso até não ser o Deus que vocês queriam, mas, acredite, eu fui o pai que vocês precisavam que eu fosse.
Mia entendia que não devia ser fácil ser Deus, mas não queria entrar naquela discussão milenar e complexa sobre o papel Dele no mundo. Não era algo simples, nem preto no branco. Além disso, com certeza sempre haveria pontos que ela discordaria do todo poderoso.
Sendo assim, resolveu ir direto ao que realmente lhe interessava:
— Antes que você diga que escreve certo por linhas tortas, o que eu estou fazendo aqui afinal? Aposto que tem um motivo plausível para essa interferência divina, hum?
— De fato, tem sim — Chuck confirmou e bebericou o café.
Depois de pensar um pouco, relembrando os últimos acontecimentos antes de despertar ali, naquele lugar misterioso construído por Ele, Mia retomou o raciocínio:
— Muito bem. A última coisa que me lembro é de tocar naquele artefato e sentir uma energia muito forte passar pelo meu corpo. E isso não faz o menor sentido porque, pelo o que eu entendi, a Mão de Deus só funciona uma vez. Acontece que o Cas já tinha a usado contra a Legião. Sendo assim...
Antes que ela prosseguisse, Chuck a interrompeu ao revelar:
— Eu reservei um pouco de energia para você.
Confusa, Mia franziu o cenho e questionou:
— Por quê?
— Porque eu achei que, depois de tudo o que passou e do seu excelente trabalho até aqui, você merecia um presente — explicou.
A caçadora riu sem humor e deixou escapar:
— Morrer e me encontrar com Deus? Sem ofensa, mas não é um presente muito empolgante. — Sem querer parecer rude de novo, emendou: — Embora o café esteja muito bom. Parabéns, já pode casar.
Chuck sorriu e resolveu ser mais claro:
— Você não morreu nem está morrendo, Mia. Na verdade, esse é o ponto. Esse dia vai demorar muito para chegar agora.
Ainda sem entender que tipo de presente era aquele, Mia indagou:
— Como assim?
Depois de se ajeitar um pouco no assento, Chuck expôs pausadamente:
— Ao tocar a Mão de Deus, você absorveu o restante de energia divina que ela continha. E isso vai te mudar para sempre. Eu quero dizer, você não se tornou imortal, mas se tomar alguns cuidados e não se envolver em grandes confusões, vai viver muito mais do que poderia imaginar. E o mais importante, você não vai envelhecer como as outras pessoas. Claro que isso significa que, a partir de agora, sua responsabilidade será ainda maior. Eu estou te concedendo algo que você quis desde que Castiel surgiu no seu caminho, mas espero que você entenda a importância disso e faça cada dia valer a pena. Em outras palavras, continue caçando coisas e salvando pessoas. Seu trabalho está apenas começando.
Devido à surpresa, tudo o que Mia conseguiu balbuciar foi:
— O quê...?
Prontamente, Chuck prosseguiu com mais explicações:
— Eu sei, será difícil se despedir de alguns amigos, conforme o tempo for passando, mas você terá um certo anjo ao seu lado para te apoiar nesses momentos. Ah! E não me entenda mal. Quando criei os anjos, eu não os fiz para se apaixonarem, muito menos para terem filhos algum dia, mas eu tinha certeza que você faria bem ao Castiel, e vice-versa, por isso abri uma exceção no sistema de almas gêmeas. Ele cometeu alguns erros antes de você, mas nenhum depois de você, provando que eu estava certo. Por isso, eu não me arrependo de ter enviado aquele cupido e...
Zonza com tantas informações e começando a entrar em pânico, Mia ergueu um pouco as mãos e o interrompeu:
— Espere aí... Filhos? Cupido? Do que você está falando?
— Filha, na verdade — Ele corrigiu como se essa informação não fosse nada de mais, e então completou: — Não se preocupe, o cupido só estava fazendo o trabalho dele. Às vezes o destino precisa de um empurrãozinho assim.
Atônita com a avalanche de revelações, Mia entornou o resto de café e levou as mãos ao rosto, apoiando os cotovelos sobre a mesa. Em poucos minutos, ela tinha descoberto que Deus existia mesmo, se encontrado com Ele, confirmado que tinha uma ligação especial com Castiel, descoberto que Deus não só não se opunha, como também tinha planejado essa união de certa forma, havia ganhado um presente que ainda não compreendia muito bem, mas que parecia maravilhoso e, para completar, tinha essa história de filha.
Ao refletir melhor sobre esta última parte, Mia lembrou de quando viajou ao futuro, se encontrou com Jody e o Castiel daquele ano e de algo que eles mencionaram sobre a Mia de 2020. Também se pegou pensando em como o seu Castiel pareceu matar alguma charada sobre isso e em como se esforçou para que Mia esquecesse o assunto. Como se quisesse evitar que ela entrasse em pânico.
— Ai meu Deus! — exclamou alarmada, por fim chegando a uma conclusão assustadora.
— Pois não?
— Eu estou... eu estou prenha!
— Ainda não — Chuck corrigiu.
Nervosa, a caçadora continuou meio aos gaguejos:
— Eu vou ficar. A minha versão do futuro. Aquele papo de que eu estava diferente e mais bonita no futuro... Oh, boy... Eu acho que vou desmaiar.
Intrigado, o Criador contrapôs:
— Você não pode desmaiar, você já está inconsciente, seria inviável e redundante.
— Então o que está acontecendo comigo? — Mia inqueriu, uma vez que não estava mesmo se sentindo bem e acreditava que não podia ser apenas fruto do choque que estava vivenciando com aquela experiência. — Essa sensação estranha... O que é isso?
Depois de analisá-la brevemente e constatar que o corpo de Mia estava pronto para despertar, Chuck insinuou:
— Sabe, talvez seja melhor você esquecer o meu rosto, o nome que eu disse e a parte sobre a gravidez. Muitos spoilers para lidar, eu acho.
Antes que Mia perguntasse o que ele queria dizer com isso, Chuck lhe lançou um sorriso torto e concluiu calmamente:
— Eu te concedo uma vida longa e próspera, Mia Clarke. Aproveite e continue o seu trabalho.
Por fim prevendo que o encontro estava terminando, a caçadora tentou adiar o seu desfecho, dizendo aflita:
— Espera! Eu tenho mais perguntas...
Não houve tempo para isso. O cenário a sua volta logo foi tomado pela atmosfera branca de antes e Mia sentiu como se o seu corpo formigasse.
***
Meio sufocada, Mia puxou o ar com força e abriu os olhos de súbito. Ergueu o corpo dos braços de Castiel e expirou entre uma tosse e outra, enquanto era observada com expressões de alívio ao seu redor.
— Obrigada — sussurrou, pois apesar de não se lembrar do rosto de Deus e de algumas partes da conversa, tinha plena consciência do presente que Ele havia lhe concedido.
Enquanto Castiel a olhava intrigado, Dean sugeriu:
— Você tem que parar de nos dar esses sustos, Miss Cafeína.
— Combinado — a garota prometeu.
Castiel a ajudou a se levantar, e Sam perguntou preocupado:
— Você está bem?
— Melhor impossível — Mia assegurou.
— Você parece diferente — o anjo a analisou.
Sem saber como contar o que aconteceu durante a experiência de quase-morte, ela limitou-se a concordar:
— Deve ser porque eu estou meio diferente mesmo.
Curiosa como os demais, Natalie inqueriu:
— Como assim?
Mia abriu a boca para contar tudo de uma vez, sobre Deus e o que tinha mudado dentro dela ao absorver a energia divina do artefato que agora jazia no chão. Entretanto, antes que dissesse a primeira palavra a respeito daquilo, algo saiu de um bueiro à frente, chamando a atenção de todos.
A fumaça demoníaca e vermelha circundou a área, passou sobre eles rapidamente e seguiu rumo ao coreto. Então lançou-se sobre o corpo de Crowley, invadindo sua boca até desaparecer por completo dentro dele.
Por fim, o demônio abriu os olhos e levantou. Ajeitou o terno, revirou os olhos ao ver a Chave de Salomão sobre sua cabeça e fitou o grupo diante dele. Em tom crítico, reclamou:
— Vocês precisavam mesmo fazer um exorcismo? Têm ideia de como é desconfortável? Não podiam ter pensado numa alternativa menos desgastante?
Indignado com a afronta, Bobby redarguiu:
— Desculpe, por acaso isso foi um agradecimento por termos salvado o seu traseiro?
Sem paciência, Mia deu um passo à frente e tentou colocar um fim naquela maldita situação envolvendo seu acordo com o Rei do Inferno:
— Muito bem, Crowley. Eu cumpri minha parte, agora cumpra a sua. Desembucha logo alguma informação que apenas você saiba, para que a sua versão repugnante do presente acredite em mim, quando eu contar tudo o que aconteceu aqui, e leve a sério a nossa trégua.
Após encará-la de um jeito suspeito e colocar as mãos no bolso, Crowley tentou se esquivar:
— Sobre isso...
— Não! — Mia o interrompeu ao deduzir o que pretendia. — Sem essa de “sobre isso”, nós tínhamos um acordo! Você me deu a sua palavra! E embora seja um demônio imundo, eu pensei que você sempre cumprisse a sua palavra.
— E eu sempre cumpro — ele garantiu. — Nós ainda temos um acordo e eu pretendo honrá-lo. Mas...
— Sem essa de “mas” também! — Mia esbravejou, enfurecida.
Enquanto ela e os demais fuzilavam Crowley com o olhar por tentar sair pela tangente daquele jeito, ele se explicou:
— Não me entenda mal, Sweetie, mas como eu poderia te dar qualquer informação importante, um segredo obscuro, de Estado, algo que apenas o Rei do Inferno sabe?
Sentindo-se uma idiota por ter confiado nele, Mia expirou com desânimo e deduziu:
— Você nunca pretendeu contar coisa nenhuma, não é?
Chegando a mesma conclusão que ela, Claire encarou o demônio e também se pronunciou a respeito:
— Você nos enganou só para conseguir a nossa ajuda.
Em seguida, foi a vez de Sam dizer enquanto apontava para a armadilha do diabo:
— Mas perdeu completamente a razão se acha que vai escapar assim.
— Você está preso, lembra? —Castiel fez questão de frisar, estreitando o olhar sobre ele. — Não vai a lugar nenhum enquanto não cumprir o que prometeu a Mia — exigiu.
— Se for preciso, nós te deixaremos apodrecendo aqui, Crowley — Bobby prometeu.
Então Dean sugeriu outro desfecho:
— Ou então vamos encurtar a sua existência de uma vez por todas. Já devíamos ter feito isso há muito tempo, aliás.
Sem demonstrar qualquer abalo, Crowley articulou pausadamente:
— Não fiquem ressentidos. Nem façam ameaças que, no fundo, vocês sabem que não podem cumprir. Me matar? Nós temos uma história! Nós tivemos algo muito parecido com uma amizade num passado não muito distante. Eu sempre fui e sempre serei uma pedra no sapato, é verdade, mas vocês nunca terão coragem de se livrar de mim porque não podem.
Fazendo uma careta, Dean resmungou:
— Eu acho que vou vomitar.
Intrigado com tais argumentos, Sam foi mais além e questionou:
— Você acredita mesmo nisso? Porque eu acho que nós só não tivemos a oportunidade de acabar com você ainda. — Depois de cruzar os braços e o encarar firme, ameaçou: — Talvez esse dia seja hoje.
— Por favor, Samantha. Para cima de mim? — Crowley o desarmou com deboche e incredulidade. E olhando para o restante do grupo, prosseguiu: — Admitam, sem a minha ajuda, vocês ainda estariam enterrados naquela cripta, não teriam vencido a Legião e, a essa hora, Lúcifer estaria andando sobre a terra. Ao invés disso, nós vencemos. Um excelente trabalho em equipe. Inclusive, nós devíamos repetir isso no futuro. Nunca se sabe quando um inimigo em comum irá surgir.
Por mais que odiassem admitir, todos sabiam que Crowley estava certo. Cada um tinha o seu mérito e estava claro que também houve uma interferência divina, porém o demônio tinha sido crucial para a vitória.
Afastando esse pensamento desagradável, Mia retomou mais nervosa:
— O que diabos você quer dizer com tudo isso, Crowley? O que eu devo fazer com esse monte de abobrinhas? E o nosso acordo?
— Eu quero dizer que ele ainda está de pé — ele garantiu novamente. — Tudo o que você precisa é de um pouco mais de paciência — ressalvou.
— Paciência?! — ela cuspiu entredentes e inconformada.
Com uma postura superior, Crowley orientou em tom de provocação:
— Volte para o seu tempo, Mia Clarke, e sobreviva a minha tortura psicológica por quatro anos. Você consegue. Então, quando este ano chegar, a Mia do passado aceitar o meu acordo e todos vocês me libertaram da Legião, nossa trégua começará a vigorar.
— Como todos já disseram — Dean recordou vitorioso —, você está esquecendo de um pequeno detalhe. Você está preso, Crowley.
Após um breve momento de silêncio, o Rei do Inferno esboçou um discreto sorriso:
— Desculpem, eu sei o quanto vocês se esforçaram, mas parece que, mais uma vez, deixaram algo importante escapar. Não foi culpa de ninguém... Essa estrutura é muito antiga e simplesmente não aguentou tantos tremores.
Automaticamente, todos olharam para cima e só então perceberam que Crowley não estava preso de verdade. Ninguém havia notado até então, contudo os tremores causados pelo exorcismo e, posteriormente, pelo banimento da Legião, tinham danificado a estrutura do coreto e gerado uma pequena fissura na Chave de Salomão. Uma rachadura discreta e quase imperceptível, mas que, de fato, rompia o círculo e libertava o demônio. Até aquele momento, Crowley só estava fingindo que não podia sair.
— Vejo vocês por aí, em qualquer lugar e em qualquer tempo. — Ele estalou os dedos e sorriu.
— Não! — todos gritaram ao mesmo tempo, indo na direção do Rei do Inferno. Em vão.
Num piscar de olhos, ele havia desaparecido, escapado, saído pela tangente mais uma vez. Nem mesmo Castiel conseguiu se aproximar a tempo de impedi-lo.
Frustrada, Mia expirou com força e lamentou:
— Eu não acredito que ele nos enganou. De novo!
A contragosto, Bobby resumiu em tom de derrota:
— Ele é o Crowley, é isso que sabe fazer de melhor.
Castiel, por sua vez, colocou a mão sobre o ombro da caçadora e disse pesaroso:
— Mia, eu sinto muito.
— Nós vamos cuidar desse desgraçado quando voltarmos — Sam prometeu com raiva.
Apoiando a ideia, Dean emendou furioso:
— Pode apostar que vamos.
Para surpresa de todos, Mia demonstrou conformismo ao contrapor pensativa:
— Não. Crowley está certo, nós nunca conseguimos nem vamos. Às vezes, ele é útil, em outras ocasiões, simplesmente escapa. O fato é que eu estou cansada desse jogo de gato e rato. Algo me diz que vocês também. — Mia fez uma pausa, controlou o pessimismo e explicou melhor: — Eu não estou dizendo que devemos entregar os pontos.
— O que você sugere então? — Claire inqueriu. — O que você pretende fazer quando voltarmos, Mia?
Ainda mais pensativa e tentando se agarrar às coisas boas que aquela vida incomum envolvia, ela respondeu:
— Eu pretendo viver. E caçar, é claro. Um dia, talvez Crowley me deixe mesmo em paz. Talvez ele cumpra o acordo afinal. Até lá, eu só quero viver da melhor forma que eu puder. Ele não vai me tirar isso. Crowley é o tipo de criatura que caçamos, eu sei, então vamos ficar de olho nele e interferir quando for preciso. Só não vamos pensar no infeliz mais do que ele merece.
— É um bom plano — Natalie opinou, traduzindo o pensamento dos demais.
Todos se entreolharam por alguns instantes e, aos poucos, esqueceram que Crowley havia escapado e se concentraram no que tinham conseguido fazer naquele dia.
A Legião estava aprisionada novamente e, com isso, uma nova e catastrófica ascensão de Lúcifer tinha sido evitada. Eles tinham sobrevivido e o mundo estava a salvo. Ao menos até que a próxima ameaça surgisse. Porém ninguém queria pensar num futuro assim. Tinham vivido muito aquele futuro e já estava na hora de retornar ao presente. Precisavam caçar criaturas menos complexas para arejar um pouco.
Era nisso que o grupo pensava quando algo surpreendente aconteceu. Vindo de diferentes direções, visivelmente confusos, mas bem, os moradores de Hood River retornavam para a cidade.
— O que está... acontecendo? — Bobby indagou, enquanto uma família passava perto deles.
Após escutar uma conversa entre vizinhos que tinham acabado de se reencontrar, Castiel constatou que ninguém se lembrava da infestação por Croatoan. Suas memórias tinham sido apagadas misteriosamente.
Ao tocar em algumas pessoas que passavam por perto, também concluiu que não havia sinal de enxofre em seus sistemas sanguíneos.
Mais e mais moradores voltavam para a cidade e as ruas ficaram repletas deles. Havia um clima de comoção, embora eles não entendessem que haviam sido salvos de alguma forma.
Enquanto as famílias seguiam para suas respectivas casas e eram seguidos com os olhares curiosos do grupo no coreto, Castiel concluiu:
— Eu chamaria de milagre.
Ninguém duvidava disso, mas ninguém comentou o assunto. Estavam aliviados por aquelas pessoas desconhecidas, mas continuavam hesitantes e confusos quando o assunto era Deus.
Lembrando-se do seu encontro com o todo poderoso, Mia finalmente rompeu o silêncio que havia se instalado:
— Por falar em milagre, eu tenho que contar uma coisa.
Todos olharam para ela.
Algum tempo depois – No presente
A frente do bunker dos Homens das Letras estava deserta como sempre até que, de repente, Sam e Dean se materializaram ali. Depois de cambalearem um pouco e se entreolharem, os dois foram surpreendidos por Natalie e Claire — as próximas pessoas a serem transportadas do futuro para o presente por Castiel.
Enquanto Sam ajudava Claire a se recuperar da viagem e se equilibrar melhor, Dean aproveitou para tirar uma boa casquinha de Natalie, segurando-a pela cintura e apertando-a contra seu corpo enquanto dizia:
— Tudo bem, te peguei, te peguei.
— Sr. Awesome...— Ela lhe lançou um sorriso amarelo. — Você já pode me soltar agora, docinho.
— Oh... Posso mesmo? Tem certeza? — Ele estreitou ainda mais os braços em volta dela e aproximou um pouco o rosto.
Apesar da situação muito agradável, Natalie resistiu e balançou a cabeça afirmativamente.
Assim que Dean a soltou, Bobby também voltou para o momento presente, quase caiu e resmungou:
— Balls!
Por fim, Castiel e Mia apareceram diante deles. Prontamente, o anjo retomou o assunto que estavam conversando há instantes:
— Eu falei que Deus estava por perto.
— É, e isso é bem maluco — Sam opinou. — Não que eu não acredite, eu só não sei o que pensar. — Voltando-se para o irmão, quis saber como ele se sentia diante daquela revelação: — Dean?
Como ainda não havia assimilado muito bem a questão envolvendo Deus, o Winchester mais velho atentou-se a outra informação despejada por Mia, sobre a energia que ela absorveu e como isso iria expandir a sua longevidade e preservar sua juventude. Então ele voltou-se para a amiga e brincou:
— Tudo o que eu sei é que preciso pensar num novo apelido para você. Que tal Highlander?
Sem ver graça, Mia lhe mostrou língua e recomeçou:
— Sabe o que é mais maluco?
— Além de você ter se encontrado com Deus? — Claire arriscou, ainda admirada com o que havia acontecido.
— E nunca precisar de plástica? — Natalie riu.
Com uma sensação estranha e enquanto caminhava com todos eles rumo à entrada do bunker, Mia relatou:
— O mais maluco é que eu não consigo lembrar do rosto Dele, embora eu tenha certeza que Deus tinha um rosto. É como se eu tivesse esquecido de uma coisa importante com isso, perdido algo, entende? Algo que eu queria contar para vocês, que vocês deviam saber...
— Você ganhou algo importante, Mia — Castiel replicou. — Não perdeu absolutamente nada.
Quando o anjo deixou a última palavra escapar, a garota perdeu o foco e tropeçou. Seu rosto ruborizou em segundos e um silêncio intenso se instalou. Também pensando no que não devia, Castiel evitou qualquer contato visual com o grupo.
— Estava demorando... — Dean revirou os olhos e procurou a chave do bunker no bolso.
— Parece que nós voltamos mesmo — Bobby emendou, olhando de relance para Mia e Castiel. — Tudo exatamente como antes. Até essa coisa estranha que vocês têm com a palavra na...
— Não complete essa frase, pai! — Claire aconselhou, fazendo-o erguer as mãos em concordância.
Então, um a um, eles entraram na fortaleza e percorreram o ambiente com olhares nostálgicos. Tinham ficado apenas alguns dias fora, porém sentiam como se uma eternidade tivesse se passado desde a última vez que estiveram em casa.
De repente, um ruído vindo da cozinha chamou a atenção de todos e os deixou em alerta.
— O que foi isso? — Claire sussurrou, apreensiva.
— Tem alguém aqui — Sam afirmou, e trocou um olhar com Dean.
Os dois pegaram suas armas e caminharam lentamente para lá, tomando cuidado para não fazerem barulho durante o percurso. O restante do grupo seguiu atrás dos dois. Em silêncio. Contando os passos. Desviando dos móveis.
Instantes depois, Sam e Dean chegaram na cozinha, apontaram as armas para o intruso de costas para a entrada, e que pegava algo no interior da geladeira, e gritaram em uníssono:
— Ei, você!
Quando a figura conhecida se virou com a boca lambuzada de chantilly e ergueu as mãos para o alto, Sam surpreendeu-se:
— Gabriel?!
— Oh! Vocês voltaram! Finalmente! Bem-vindos! — O Arcanjo riu e relaxou no mesmo instante.
Castiel, Bobby e as garotas entraram na sequência. Nem um deles entendendo o porquê daquela visita surpresa, que estava mais para uma invasão.
Sem se intimidar com os olhares de espanto e questionamento, Gabriel pegou o que procurava na geladeira, acomodou-se na pequena mesa e, antes de roubar mais um pouco de chantilly da torta de Dean, perguntou:
— E aí? Fizeram boa viagem, turma?
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