Notas iniciais
Dois capítulos no mesmo dia? Sim! Porque estou animada e doida para concluir Entre Cinzas & Esperança. Por outro lado, já estou com saudade e com vontade de me encolher num cantinho, mas vamo que vamo! Boa leitura!

O odor forte de fumaça proveniente das velas recém apagadas dominava cada centímetro da antiga igreja de Hood River enquanto Bobby e Mia observavam, apreensivos, a Legião na frente do altar e eram encarados de volta com certa soberba.

— É uma honra por fim conhecê-los oficialmente — a entidade os cumprimentou num tom frio e sarcástico. — Claro que preferíamos que vocês estivessem bem mortos e devidamente enterrados naquela acolhedora cripta que nós escolhemos com tanto apreço. Mas aí estão vocês. Sãos e salvos. Por ora, ao menos.

— Desculpe por desapontá-los — Bobby redarguiu com deboche. — Deve ter sido frustrante constatar que não podia nos ferir diretamente e ter precisado recorrer àquela encenação ridícula. Eu já vi filmes baratos com roteiros melhores.

Preocupada com a reação que os anjos das trevas poderiam ter, Mia trocou um rápido olhar com o caçador enquanto o semblante diante deles se fechava consideravelmente. Após um longo silêncio, no entanto, a Legião voltou a se manifestar com uma frieza inabalável:

— De fato. Por outro lado, também foi divertido assistir a vocês em pânico, perdidos e presos no centro da nossa manipulação, desmoronando um a um. É uma pena que não tenha sido efetivo e que, de uma forma milagrosa, vocês tenham escapado. Mas não se preocupem, eu não pretendo cometer o mesmo erro novamente. Desta vez, será real.

— Deixe-me adivinhar. — Bobby apontou para os moradores estáticos e arriscou: — Vossa Excelência pretende usar esses pobres coitados contra nós.

— Não os chamem de pobres coitados. Eles já não são as mesmas pessoas indefesas que entraram aqui e não hesitarão em atacar vocês assim que o vírus incubar por completo — a Legião alertou. — Isso é o mais fascinante sobre o Croatoan, sabe? Ele desperta o que tem de pior e mais primitivo dentro delas. Maldade, brutalidade, uma força destruidora e fatal. Ressalta o que a humanidade, na verdade, é e sempre foi: animais imperfeitos, selvagens e assassinos. A prova irrefutável de que mesmo Deus pode cometer erros imperdoáveis.

Começando a ficar incomodada com o rumo da conversa e sem se importar mais com as possíveis consequências, Mia revirou os olhos e deixou escapar:

— Uau! Isso conta muito vindo de quem vem: seguidores imundos do Capiroto. Quer exemplo maior de perfeição do que Lúcifer? Se eu sobreviver ao dia de hoje e voltar para o meu tempo, com certeza vou precisar de terapia para recuperar minha autoestima.

Sem se abalar e esboçando um sorriso maligno, a Legião insinuou:

— Não se preocupe, não será necessário. Caso não tenha percebido, nós estamos cuidando de cada detalhe para que você não sobreviva ao dia de hoje, Mia Clarke. Para que nenhum de vocês cruze a linha de chegada, aliás.

Ignorando uma ponta de medo, a caçadora apegou-se ao fato de que sua versão de 2020 estava viva. Porém, como se tivessem lido seu pensamento, os anjos caídos a provocaram mais uma vez:

— E antes que você diga que está viva neste futuro, lembre-se: tudo que ainda não aconteceu pode ser reescrito, mudado, apagado. Quando vocês perderem, e acredite, vocês irão perder, o seu destino estará finalmente selado.

Deliciando-se com a nuance de pânico no olhar dela, os anjos das trevas prosseguiram com a tortura psicológica:

— Convenhamos, isso não é motivo para surpresa e choque. Você sempre soube que estava vivendo um período extra por aqui. Acontece que mesmo um bônus acaba eventualmente.

Mia odiava que as palavras venenosas da Legião surtissem efeito sobre ela, mas infelizmente não conseguiu evitar. Abalada e recordando as inúmeras vezes que escapou da morte das mais diferentes formas, passou a se perguntar se a sua jornada estava, de fato, chegando ao fim.

Foi nesse momento que ela ouviu a voz de Castiel:

“Não deixe que eles mexam com você. É isso o que a Legião quer, te abalar para ganhar tempo.”

Confusa, Mia olhou tudo em volta, procurando pelo anjo de sobretudo, mas não o encontrou em parte alguma da igreja. Para disfarçar, fitou um ponto qualquer do chão. Então se deu conta de que não tinha ouvido o farfalhar de suas asas antes e que isso só podia significar uma coisa.

“Sim, eu estou na sua mente. Desculpe a intromissão, mas é necessário.”

— Pervertido... — murmurou baixinho, chamando a atenção do inimigo ainda diante do altar.

— Como? — indagou a Legião, estreitando o olhar na direção da caçadora.

“Mia, nós sabemos que você e o Bobby encontraram os anjos de Lúcifer e temos um plano. Não deixe que eles percebam que eu estou falando com você. Me escute com atenção, mas aja naturalmente. Entendeu? Não responda.”

Enquanto Castiel continuava tagarelando nos seus neurônios, a garota sorriu amarelo, deu um passo para trás e desatou a falar rápido:

— Eu quis dizer, perverso! Vocês, discípulos cegos de Lúcifer, são bem perversos, parabéns. Deixam Paola Bracho no chinelo, praticamente uma santa. Eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas de repente, eu estou até com um pouco de saudade do Crowley, sabe?

Desconfiada, a Legião colocou as mãos para trás, começou a descer os degraus do altar e replicou com incredulidade:

— É mesmo?

Tentando ignorar os infectados por Croatoan, que começavam a se mexer na sua visão periférica e a se organizarem em filas como um exército, Mia deu mais passos cautelosos para trás e prosseguiu em tom de deboche:

— Pois é, quem diria? Por falar naquele demônio, sinto muito. Não importa o quanto vocês queiram e tentem, ele não vai abrir o bico sobre a localização da jaula. Ele mesmo me garantiu isso quando deu um jeito de enganá-los e entrou na minha mente. Coisa que, a essa altura do campeonato, vocês já devem saber.

Depois de pigarrear e fazer uma pausa para se concentrar no que Castiel lhe dizia, emendou:

— Sendo assim, Lúcifer vai continuar apodrecendo na jaula, como a criatura imunda que é, vocês não vão conseguir libertá-lo nem que a vaca tussa e, se serve de consolo, em breve lhe farão companhia nas profundezas também. Happy end!

A Legião desceu o último degrau e fuzilou Mia com o olhar. Em resposta, ela bateu na própria testa e fingiu arrependimento:

— Oops! Desculpe, eu estou sendo muito perversa?

— Sua vadia imunda! — O berro da Legião ecoou por toda a igreja e fez a edificação estremecer com um breve, porém intenso, abalo.

Mia ignorou o arrepio que sentiu diante da voz medonha que saiu da garganta de Crowley, o tremor sob seus pés e repreendeu:

— Ei! Olha a boca! O que Lúcifer vai pensar se ouvi-los xingando assim? Espera, será que ele ouve alguma coisa lá de baixo, coitadinho? A acústica do inferno não deve ser muito boa, né? De qualquer forma, palavras de baixo calão não combinam com uma raça tão superior e perfeita como vocês.

Confuso e preocupado, Bobby também caminhou para trás de forma cautelosa e questionou:

— Mia, o que diabos você está fazendo?

Sem poder revelar a verdade e explicar que precisava atrair a Legião para fora da igreja, mas ganhar um pouco de tempo antes disso, ela engoliu em seco e limitou-se a balbuciar:

— É um boa pergunta.

Enquanto caminhava lentamente na direção dos dois, sendo seguida pelos infectados que, pouco a pouco, se posicionavam de forma ameaçadora, a Legião argumentou:

— Você acha mesmo que o Crowley é tão forte e determinado? Pois ele está ruindo aqui dentro. Lutando, é verdade, mas fracassando de um jeito deprimente e miserável a cada instante. Nós nunca estivemos tão perto de conseguir a informação que precisamos. É só uma questão de tempo. Pouco tempo.

— Que pena. — Mia fingiu lamentar. — Neste caso, parece que a frustração para vocês será ainda maior. Conhecem a expressão “Nadou, nadou e nadou, mas morreu na praia”? Vai cair como uma luva.

— Já chega, Mia. Isso não parece muito inteligente da sua parte — Bobby protestou novamente.

— Você está certo — assentiu, engolindo em seco. — Eu devia mudar de assunto. Vamos falar sobre algo leve e despretensioso para descontrair o ambiente e dissipar essa tensão no ar. Vejamos... Doctor Who!

— O quê?! — o caçador resmungou ainda mais perdido.

A Legião franziu o cenho, começando a desconfiar das intenções de Mia com aquela conversa, no começo, cheia de alfinetadas ousadas demais para alguém que deveria temer por sua vida e, agora, bem estranha.

Enquanto Castiel voltava a sussurrar algo em sua mente, ela retomou:

— Sabe o que eu mais gosto em Doctor Who?

— Eu deveria saber? — Bobby estranhou a pergunta sem o menor sentido.

— Quando ele e sua companion da vez estão em maus lençóis, em apuros, correndo um risco absurdo, então ele segura a mão dela e grita... — Mia respirou fundo no mesmo instante em que a voz de Castiel por fim cessou. Procurou a mão de Bobby e a segurou com força. — Corre! — ordenou com um berro.

Imediatamente, dispararam rumo à saída, abriram e passaram pela porta sem olhar para trás, enquanto a Legião sorria, continuava caminhando devagar na mesma direção que os dois e era seguida, pacientemente, pela horda de infectados por Croatoan.

Assim que alcançaram o meio-fio, Mia e Bobby avistaram Sam e Dean vindo do lado oposto da rua, empunhando rifles e os apontando para a Legião.

— Saiam do caminho! — o mais velho gritou, fazendo os dois se dispersarem no instante seguinte e se posicionarem ao lado deles.

Confusa e curiosa, a Legião parou no limite da calçada, fez a porta se fechar com um simples gesto de mão, aprisionando temporariamente os infectados, e observou Sam entregar duas armas para Mia e Bobby. Estes prontamente as ajeitaram com firmeza e miraram na entidade diabólica a poucos metros.

— Sam e Dean Winchester — os anjos caídos disseram sem demonstrar qualquer abalo. — Nós já estávamos nos perguntando quando vocês iriam aparecer e fazer algo estúpido para variar. Mas por que não entraram de uma vez? Todos são bem-vindos na casa de Deus.

— Eu não sei o Sammy, mas eu nunca fui muito religioso — Dean disparou com deboche. — Mesmo assim, interromper a sagrada missa armado até os dentes me pareceu desrespeitoso.

Olhando para o arsenal que o grupo carregava, a entidade tentou desanimá-los ao lembrar:

— Por falar nisso, vocês devem saber que armas não irão funcionar. Se fizeram a lição de casa direitinho, sabem que os anjos que se voltaram contra Deus estão mortos para Ele e, como consequência, não podem morrer novamente.

Com um leve sorriso vitorioso, Sam esclareceu:

— Nós fizemos a lição de casa, não se preocupe. É por isso que essa munição não é para te matar. Só para te enfraquecer o suficiente.

Sem pestanejar, ele puxou o gatilho e a primeira bala alvejou o corpo possuído, fazendo-o vacilar com visível desconforto e sua pele se iluminar com um brilho acinzentado por um momento. Logo foi a vez de Dean, Bobby e Mia dispararem contra a entidade, que cambaleou a cada ferimento, mas manteve-se de pé e, aos risos, debochou:

— Balas contra anjos? Mas nós somos um terço dos anjos do Céu! Nós somos uma Legião deles!

Neste momento, Natalie, até então escondida atrás de uma árvore e também de posse de um rifle, respondeu de volta:

— É por isso que nós trouxemos bastante munição! Pode não ser perfeito, mas admita, é um bom plano. Aposto que vai fazer um pouco de cócegas.

Determinada, ela mirou e alvejou a entidade várias vezes, fazendo-a ranger os dentes e cambalear na calçada.

— Digamos que nós tivemos um incentivo e tanto depois do que vivemos naquela estrada! — Claire gritou, saindo das sombras e encarando a Legião com ódio devido ao pesadelo ao qual ela, Sam e os outros foram submetidos.

Então ela também atirou. Uma. Duas. Três. Várias vezes. Perdeu a conta enquanto todos também voltavam a atirar contra a Legião. Todos juntos.

Desta vez, a entidade não conseguiu se manter em pé por muito tempo. Caiu de joelhos com vários ferimentos e uma expressão raivosa no semblante transtornado de dor.

Sentindo mais segurança, o grupo parou de atirar aos poucos. Logo depois que o último projétil atingiu o pescoço da Legião, Castiel se materializou ao seu lado na calçada, arrancando um sorriso admirado de Mia a alguns metros.

O anjo retribuiu com um meneio de cabeça e um olhar carinhoso. Então tirou a Mão de Deus do bolso e preparou-se para colocar um fim naquela história.

— Me enfraquecer o suficiente... — a entidade zombou, rindo e manchando a calçada com o sangue que cuspia.

Em seguida, ergueu um olhar frio para Castiel, enquanto todos assistiam seus ferimentos expelirem as balas, se fecharem e se cicatrizarem com rapidez.

— Bela tentativa — insultou com escárnio, fazendo um gesto com a mão que afastou Castiel para longe e o derrubou no meio da rua.

Prevendo o que os anjos de Lúcifer fariam, ele voou de volta, notando que o golpe da Legião havia o enfraquecido um pouco. Mesmo assim, segurou a delicada corrente que agora prendia o artefato sagrado e tentou aproximá-lo do rosto da entidade rapidamente, mas não houve tempo para isso. Em um piscar de olhos, a Legião havia escapado e desaparecido no ar.

Frustrada e sem acreditar no que tinha acabado de acontecer, Mia resmungou:

— Oh, boy...

Ninguém teve tempo de assimilar tal frustração porque, antes que dissessem mais alguma coisa a respeito, a porta dupla da igreja se abriu com um estrondo. Uma multidão raivosa de infectados por Croatoan saiu de lá aos montes e correu na direção do grupo.

Finalmente o vírus havia incubado. Finalmente, eles haviam surtado. Finalmente tinham virado monstros. Finalmente estavam prontos para criar outros monstros e espalhar o caos por toda parte.

Aos gritos de “corram” e “atirem”, todos se espalharam, cada um em uma direção diferente, lutando como podiam.

Os poucos moradores restantes, que haviam acompanhado com assombro e à distância o tiroteio anterior, correram e se refugiaram em suas casas. Todos eles encontraram uma surpresa desagradável ao chegarem lá. Algum familiar, que havia desaparecido misteriosamente mais cedo, agora estava infectado pelo vírus.

Ao socorrer Bobby, que tentava se livrar de três moradores transtornados pelo Croatoan, Castiel não viu quando Mia, a uma distância maior dele, foi derrubada no chão por uma mulher de corpo robusto e com uma força descomunal.

A arma da caçadora escorregou de seus dedos quando a infectada segurou sua cabeça entre as mãos e a bateu com força no chão. Zonza, Mia não conseguiu reagir quando ela fez um corte em seu ombro. Apenas um gemido abafado escapou por entre seus lábios.

Absorta e ouvindo com dificuldade a confusão em volta, como se estivesse a quilômetros dali, a caçadora sentiu algo líquido e quente se misturar ao seu sangue.

Naquele momento, teve certeza que a mulher havia se cortado também e sangrado de propósito em sua ferida recém aberta. Era assim que o Croatoan se espalhava afinal.

— Aproveite o seu bônus, Mia Clarke — sussurrou no pé do seu ouvido, fazendo-a se lembrar de algo que a Legião havia dito antes.

De alguma forma, aquela mulher estava conectada aos anjos caídos. De alguma forma, eles haviam falado por meio dela. Com deboche. Como quem diz “eu venci.”

Com todos os sentidos em colapso, Mia apenas sentiu que um peso havia sido tirado de cima dela. De repente, a mulher não estava mais lá. Algo animalesco e parecido com um grito de agonia ressoou nos seus ouvidos.

— Não...

Reconhecendo a voz de Castiel, Mia tentou lutar contra à escuridão que a sugava para as profundezas, mas suas pálpebras pesaram, obrigando-a a fechar os olhos.

A última coisa que sentiu antes de apagar completamente foi o seu corpo sendo arrancado do chão e envolvido por uma suave brisa.

Algumas horas depois

Mia abriu os olhos um tanto desnorteada, fitou o teto branco do quarto para onde havia sido levada e sentou na cama despejando afoita:

— Nossa! Que sonho horrível!

Ao olhar para o lado e ver Castiel sentado numa poltrona, olhando-a de um jeito indecifrável, ela recapitulou os últimos acontecimentos.

Ao mesmo tempo, observou o recinto em volta e não reconheceu o lugar como a espelunca em que todos tinham se hospedado quando chegaram na cidade. Naquele momento, Mia não sabia, mas o grupo deduziu que o hotel não era mais seguro e se refugiou numa das casas recém abandonadas por uma família da região.

Em seguida, Mia analisou um curativo que repousava em seu ombro e então perguntou retoricamente:

— Não foi um sonho, foi?

Antes que o anjo dissesse qualquer coisa, ela procurou se conformar com o destino inevitável que a aguardava, respirou fundo e tentou ser prática:

— Ok. Muito bem. O que não tem remédio remediado está. Existem formas piores de se morrer mesmo. Eu só acho que você devia ter aceitado o meu convite para dançar mais cedo, anjo. Algo me diz que agora é tarde demais.

— Mia, você não vai morrer — Castiel finalmente se pronunciou, a fim de tranquilizá-la e esclarecer algo importante.

Convencida de que o anjo só queria poupá-la e também a si mesmo do sofrimento que a infecção por Croatoan significaria para os dois, a caçadora retrucou:

— Negação, hum? Ótimo. Olha, eu sei que essa coisa é incurável e que eu posso surtar a qualquer momento, então... Se você não consegue fazer isso, só me dê uma arma e vai embora daqui. Eu não quero me transformar num monstro e também não quero me despedir. Se meu bônus está chegando ao fim, que assim seja. Eu realmente cansei. Já chega de lutar contra a correnteza, nadar e morrer na praia.

— Três horas.

Confusa com a interrupção, Mia franziu o cenho e indagou:

— O quê?

Prontamente e sem esconder o alívio por poder lhe dizer isso, Castiel inclinou-se na direção dela, uniu e segurou suas mãos sob as dele e explicou melhor:

— O vírus leva três horas para incubar. Você dormiu por quatro horas. Portanto, está tudo bem.

Após um longo momento de silêncio avaliando o que ouviu, mas ainda incrédula e nervosa com a situação, a caçadora quis confirmar:

— Está tudo bem? Então eu não surtei?

Como resposta, Castiel inclinou a cabeça ligeiramente e analisou a garota por alguns instantes. Logo depois, opinou com certa inocência:

— Você parece um pouco surtada agora. O que é compreensível, é claro. Mas não parece ter relação com o vírus, é apenas o seu jeito mesmo.

Ainda confusa, Mia soltou as mãos dele, ajeitou o cabelo atrás das orelhas e insistiu no assunto:

— O que isso significa? Eu não fui infectada? Mas eu lembro... aquela mulher sangrou em mim. Não faz sentido. Eu... eu... Epa! — Ao olhar para o seu pulso direito e notar uma vermelhidão incomum, questionou: — Que marca é essa?

— Oh... Deve ser da algema.

Surpresa com a resposta, Mia arregalou os olhos e rebateu:

— Como é que é, tarado?

O anjo abriu a boca para se explicar, mas foi interrompido por duas batidas na porta. Logo ela foi aberta e os irmãos Winchester entraram no quarto. Os dois tinham ouvido o final da conversa quando se aproximavam do corredor e Dean decidiu explicar:

— Nós tivemos que te prender à cama, Mia.

— Vocês o quê?! — indignou-se ela. — Bando de pervertidos!

Erguendo as mãos em sinal de rendição e controlando o riso, Sam fez questão de esclarecer:

— Mia, nós te prendemos apenas por precaução. Para o caso de você surtar, entende?

— Ah tá, acredito. — Mia desviou dos olhares sobre si, fechou a cara e cruzou os braços. Então resmungou baixinho: — Homens...

Desconfortável ao imaginar o que a amiga estava insinuando, Dean balançou a cabeça para afastar a cena surreal de sua mente, fechou os olhos por um breve momento e perguntou:

— Cas, tem certeza que ela está bem?

O anjo tocou o rosto da caçadora brevemente, causando certo calor em sua bochecha, depois afastou a mão e, olhando para os Winchester, assegurou:

— O sangue dela está limpo.

Sem entender o que estava acontecendo ali, Mia se colocou de pé de repente, afastou-se um pouco da cama de forma que pudesse encarar o trio ao mesmo tempo e questionou:

— Como isso é possível? Eu quero dizer, que bom, maravilha, não vamos reclamar da vida, não é mesmo? Mas... como é possível?

Depois de trocar um rápido olhar com o irmão e Castiel, Sam começou a explicar:

— A princípio, nós pensamos que você era imune ao Croatoan, assim como eu. Por conta do sangue de demônio. Mas então... o Bobby e a Natalie não tiveram qualquer sintoma. O Cas checou e o sangue deles também está 100% limpo. Nem sinal de enxofre.

— Espere um pouco. — Zonza e preocupada, Mia piscou algumas vezes e indagou: — Bobby e a Naty foram infectados também?

Querendo esquecer aquele momento difícil e de incerteza que viveu quando seu segundo pai e sua esposa foram atacados por infectados horas atrás, Dean foi breve:

— Infelizmente, sim. Mas, felizmente, não. Em resumo, o vírus não vingou, os dois estão bem. Nós os soltamos há meia hora.

Finalmente assimilando tudo que havia acontecido, mas ainda com uma dúvida, Mia voltou a se sentar na cama e inqueriu mais calma:

— Eu não quero soar repetitiva, mas como isso é possível?

Transparecendo incerteza, esfregando os dedos e fitando um ponto qualquer do chão, Castiel respondeu:

— Nós acreditamos que a Mão de Deus nos protegeu. Mais uma vez. Algo assim, ao menos.

Quando a garota ia perguntar por que o anjo estava daquele jeito esquisito e o que quis dizer com a última parte, Sam voltou a se pronunciar:

— A Legião nos manipulou, Mia. Fazendo ameaças na igreja, tentando nos fragilizar com a epidemia de Croatoan, tentando nos jogar uns contra os outros ao atacar boa parte do grupo. Mas os filhos da mãe não conseguiram e aposto que sabiam que não conseguiriam. Tentaram mesmo assim para nos distrair, é claro.

Na sequência, foi a vez de Dean expor sua opinião sobre o ocorrido:

— A verdade é que a Legião só quer ganhar tempo para arrancar do Crowley a informação que precisa. Nós escapamos ilesos, de novo, mas fomos manipulados, de novo. Um círculo vicioso, como diria o Pica Pau. Um círculo vicioso que precisa chegar ao fim, na minha opinião.

Sem pestanejar e ansiando pelo desfecho daquela história, Mia concordou:

— Na minha também.

Após pensar um pouco, expirou com força e expôs a contragosto:

— Mas para conseguir isso, infelizmente nós teremos que honrar o acordo com o Crowley. Eu entendo que, da forma como as coisas aconteceram hoje, foi impossível, e que em virtude do nosso passado com ele é bem complicado, mas nós temos que libertar aquele desgraçado antes de varrer os seguidores do Capeta para debaixo do tapete. Eu odeio isso, mas acredito que será a única forma de ter êxito nessa maldita missão. Usar o Rei do Inferno ao nosso favor.

Depois de analisar seu argumento, Sam concluiu:

— Parece que nós precisamos de um novo plano. O último. Um plano que funcione.

— E eu não sei vocês, mas eu quero resolver isso hoje — Dean emendou com raiva e determinação. — Nem um dia a mais. A Legião precisa voltar para o esgoto de onde saiu logo.

Embora naquele momento, ninguém soubesse como colocar a teoria em prática, os quatro trocaram olhares de concordância. Logo depois, Mia mudou um pouco de assunto:

— O que mais aconteceu enquanto eu estava tirando uma soneca?

— A cidade foi infestada rapidamente — Sam respondeu com pesar. — Virou um caos e, sem mais nem menos, um silêncio absoluto se estabeleceu lá fora. Todos os moradores, cada mísera pessoa, simplesmente desapareceram no ar. Sem deixar rastros. É o que costuma acontecer quando esse vírus se espalha numa comunidade. Nós não sabemos exatamente o porquê.

Após um momento de silêncio, Dean olhou para o irmão e anunciou:

— Nós vamos deixá-los sozinhos agora. Precisamos conversar com as garotas e o Bobby sobre os próximos passos.

Antes de se virar e seguir rumo à porta, ele olhou para Mia, sorriu levemente e disse à amiga:

— Que bom que você está bem, coelha.

— Comportem-se — Sam brincou antes de seguir o irmão e fechar a porta.

Apesar de tudo o que havia acontecido, ter escapado de um vírus demoníaco somado ao fato de ter ficado à sós com Castiel e completamente sem assunto permitiram que Mia relaxasse o suficiente para lhe lançar um sorriso sedutor.

Após um longo e incômodo momento de silêncio, ela não aguentou mais e propôs de um jeito insinuante:

— Ei... Já que eu não surtei, muito menos bati as botas, alguma chance daquela algema ainda estar por aqui? Porque eu tive uma ideia.

Sem conseguir conter um leve sorriso, mas deixando claro que o assunto não havia de fato acabado, o anjo manteve o foco e recomeçou:

— Mia...

— Cas. — Ela uniu as sobrancelhas, de repente curiosa.

— Aconteceu mais uma coisa enquanto você dormia — avisou, enquanto pensava na melhor forma de contar aquilo.

Depois de se ajeitar melhor na cama, a caçadora lhe deu o aval para prosseguir:

— Eu estou ouvindo.

Castiel hesitou. Não sabia como expor a recente e intrigante descoberta. Não sabia como Mia iria reagir, muito menos se iria acreditar nele dada a sua dificuldade — justificável — de ter fé em determinadas coisas. A verdade era que Sam, Dean, Natalie, Claire e Bobby também estavam confusos e não sabiam o que pensar a respeito.

— Você lembra daquele colar que devolveu ao Dean há alguns anos? — começou do único jeito que pôde.

Com certa nostalgia por relembrar a época em que conheceu os Winchester e se envolveu com o sobrenatural, Mia replicou em tom divertido:

— Aquele horroroso que o Sammy deu pra ele de presente, que foi parar nas minhas mãos de uma forma intrigante e que eu devolvi ao dono porque não combinava com nenhuma das minhas roupas? Lembro sim, por quê?

Mantendo o tom sério, o anjo foi inserindo o assunto aos poucos:

— Eu não sei se te contei isso em algum momento, mas na verdade aquele colar é um amuleto. Um amuleto que se aquece e se ilumina na presença de Deus. Hoje, depois de tudo que aconteceu, quando nós estávamos voltando, procurando um refúgio...

De repente, ele parou de falar, retirou o famoso amuleto do bolso do sobretudo, o entregou para ela e orientou:

— Bem, veja por si só.

Confusa, Mia observou o objeto brilhante em suas mãos por algum tempo. Sem saber o que pensar direito, assumiu uma postura cética e disse:

— Uau! Eu nunca tinha visto um amuleto com defeito, mas para tudo tem uma primeira vez, não é?

Incomodado por ela fazer pouco caso da situação e se recusar a enxergar o óbvio, Castiel contrapôs:

— Eu não acho que esteja com defeito.

Meio na defensiva, ela expirou com força, lhe devolveu o amuleto e questionou:

— Ok. Então o que você acha?

Após uma longa pausa, o anjo despejou com cautela:

— Eu não tenho certeza se o que nos salvou hoje foi a Mão de Deus, Mia. Eu acho que, desta vez, talvez... possa ter sido... Ele mesmo.

Diante do silêncio aterrador que se seguiu e do olhar indecifrável da caçadora, Castiel reforçou em tom conclusivo:

— Deus está por perto. Ele voltou.

Notas finais
Tenho muita dificuldade em escrever ação, mas espero que esse capítulo tenha ficado razoável. Gostaram do surto de Croatoan? Por um momento, temeram pela Mia? Ufa! Ainda bem que tudo ficou relativamente bem no final, hum? But... a Legião escapou. E agora? E como assim "Deus"? Respostas nos próximos capítulos... Reviews?