Nove Anos de Idade




Sempre achei que morreria jovem.


Eu sei… soa estranho vindo de uma criança.


Mas para mim, nunca soou.


Não foi dramático. Não foi exagerado.


Foi apenas… real.


E o motivo disso?


Minha mãe.


Tenho certeza de que ela sofreu mais do que qualquer pessoa que eu já conheci.


Talvez eu esteja exagerando…


ou talvez não.


Mas para mim, a dor dela sempre pareceu maior do que o mundo inteiro.


A família da minha mãe era… complicada.


Às vezes, acho que eles estavam presos em outra época —


como aquelas histórias antigas em que as pessoas não escolhiam suas vidas…


apenas obedeciam.


Era esse o tipo de família que ela tinha.


Eles entregavam suas filhas como se fosse normal.


Como se fosse certo.


No momento em que um homem com dinheiro ou status aparecia,


a vida da garota deixava de ser dela. Foi isso que aconteceu com a minha mãe.


Ela foi entregue ao meu pai como um prêmio.


Um objeto.


Algo para ser exibido.


Mas não havia nada de belo nisso.


Nunca houve.


E a pior parte?


Meu pai não tinha nada que justificasse isso.


Ele não era gentil.


Ele não era bom.


Ele nem sequer era alguém que se pudesse admirar.


Ele só tinha dinheiro.


E poder.


E isso bastava.


Eu nunca entendi como famílias assim ainda existiam


no século XXI.


"Horrível" nem é a palavra certa.


Jackson Riley era pior do que isso.


Ele vivia como se fosse dono do mundo —


fazendo o que queria, com quem queria —


e ainda voltava para casa como se nada importasse.


Como se nós não importássemos.


Enquanto isso… minha mãe ficou.


Sempre.


Dentro de casa.


Silêncio.


Presa.


Ele criava regras como se fossem leis.


Ela não podia trabalhar.


Ela não podia se controlar.


Ela não podia ser livre.


E a pior regra de todas —


aquela que ele odiava até mesmo imaginar —


era ela dizer não.


Isso dizia tudo sobre ele.


Jackson Riley não queria apenas controle.


Ele precisava dele.


Cada detalhe.


Cada respiração.


Cada escolha.


E se algo escapasse ao seu controle…


ele consertava.


Lembro-me claramente de um momento.


Ele convidou minha mãe para dançar.


Uma valsa.


Quem dança valsa hoje em dia?


Dentro de casa, sem música… sem motivo?


Mas ela dançou.


Mesmo estando apavorada.


Mesmo que seus olhos gritassem


tudo o que sua voz não conseguia dizer.


Foi então que comecei a perceber as coisas.


Eu não as entendia — não completamente.


Eu era muito jovem para isso.


Mas eu podia sentir.


Algo estava errado.


Muito errado.


E não ia melhorar.


Eu sabia que meu pai também vinha de um passado conturbado.


Um passado frio, rígido e aterrorizante.


Mas isso não justificava nada.


Nada jamais justificaria.


Principalmente o jeito como ele a tratava.


Principalmente o jeito como ele olhava para as mulheres —


como se fossem inferiores.


Como se fossem objetos.


E a pior parte?


Eu era filha dele.


O que significava…


que eu também pertencia àquele mundo.


Eu não podia sair.


Eu não podia ter amigos.


Eu não podia ser uma criança normal.


Tudo na minha vida girava em torno dele. E isso me sufocava.


Me deixava com raiva.


Às vezes…


me fazia odiar.


Houve momentos em que pensei em matá-lo.


O pensamento veio rápido.


Quente.


Aterrorizante.


Mas o afastei tão rápido quanto veio.


Não.


Eu não me tornaria como ele.


Só de pensar nisso, eu me sentia suja —


como se estivesse me tornando parte de tudo que eu desprezava.


“Katherine… pare com isso”, sussurrei para mim mesma.


Eu tinha que controlar meus pensamentos.


Eu tinha que suportar.


Nove anos

Meses depois



Estava me perguntando como,como sair desse purgatório.

Eu já estou sem forças pra lutar.

Mas, não vou desistir...

E sabe porque?

Minha mãe é tudo que me mantém viva.

Sua morte dolorosa me lembra que eu não devo me render.

Falta apenas nove anos.

Nove anos até que eu tivesse idade suficiente para ir embora.

Nove anos pra eu ser uma cidadã comum nesse país.


Depois disso…


Eu seria livre.


Livre dele.


Livre desta casa.


Livre do peso que fazia até o ar parecer pesado.

Livre de tudo que me mantém aprisionada nessa maldita casa.


E enquanto minha mãe estivesse comigo…


tudo ficaria bem.


Pelo menos…


era nisso que eu queria acreditar.


Mas, no fundo…


eu sabia a verdade.


Aqueles nove anos não seriam apenas longos.


Seriam os mais longos…


e os mais dolorosos da minha vida.


E tudo o que eu podia fazer…


era esperar estar viva


quando tudo acabasse.


Mas, no fundo…


eu sabia a verdade.


Aqueles nove anos não seriam apenas longos.


Seriam os mais longos…


e os mais dolorosos da minha vida.


E tudo o que eu podia fazer…


era sobreviver o suficiente para ver o fim.


Porque naquela casa, a sobrevivência não era garantida.


Nem para a minha mãe.


Nem para mim.


Naquela noite…


enquanto o silêncio se instalava novamente, pesado e sufocante,


eu entendi algo que nunca havia admitido completamente antes:


Essa história não terminaria com uma fuga.


Não para todos.


E talvez…


nem para mim.

Notas finais
Espero que gostem do meu trabalho!