Entre Cicatrizes e desejos
2 CAPÍTULO 1/ A PISCINA
— Cactus, para com isso. Agora.
Minha voz saiu baixa, ainda carregada de sono, abafada pela sensação quente e úmida contra minha orelha.
Mantive os olhos fechados por um segundo.
Meu cachorro é…
Procurei a palavra certa.
— Um romântico incurável — murmurei, suspirando.
Especialmente quando se trata de mim.
Cactus tem o hábito de lamber minha orelha enquanto estou dormindo.
Aparentemente, essa é a ideia dele de demonstrar carinho.
Abri os olhos lentamente, piscando contra a luz suave da manhã.
E lá estava ele.
Em cima de mim.
Com uma cara completamente inocente.
Como se não tivesse acabado de atacar minha orelha.
Eu o encontrei na beira da estrada. Sozinho. Sujo. Perdido.
Indefeso.
Algo nele parecia familiar.
Talvez fosse o jeito que ele olhou para mim naquele dia — como se estivesse implorando para não ser abandonado de novo.
Desde então… ele não foi mais embora.
— Cactus, sai de cima de mim — murmurei, virando o rosto.
Nada.
Ele continuou exatamente onde estava, com o rabo balançando levemente.
Soltei o ar.
— Sem passeio hoje se você não sair.
Isso funcionou.
As orelhas dele se levantaram na hora.
Levantei a coleira só o suficiente para ele ver.
Ele congelou… processou… e então pulou para fora.
— Eu sabia que você entendia — eu disse, sentando.
Passei a mão pelo rosto, tentando acordar de verdade.
Foi assim que meu dia começou.
Cactus em cima de mim…
E minha mente já cheia.
Cheia demais.
Aquele peso familiar se instalou no meu peito de novo. Apertado. Sufocante.
Tentei ignorar.
Eu sempre tento.
— Katherine — uma voz chamou do outro lado da porta. — Desça para o café da manhã.
Simon Carter.
Meu irmão adotivo.
Só de ouvir a voz dele, algo dentro de mim se mexia.
Algo que eu não gostava de admitir.
Ou talvez… algo que eu gostasse até demais.
Ele era lindo.
Charmoso.
Perigoso.
E um problema.
Um grande problema.
Estou aqui há um mês.
Só um mês.
E, de alguma forma… não consigo parar de reparar nele.
É ridículo.
Patético, até.
Mas completamente fora do meu controle.
Meus pais adotivos deixaram claro desde o começo:
Ele não deveria se aproximar de mim.
E, aparentemente… isso nunca foi um problema para ele.
Simon nunca ultrapassou o limite.
Nunca tentou.
Nunca sequer insinuou.
Mas eu não sou ingênua.
Em algum momento… nem que tenha sido por um segundo…
ele deve ter pensado em mim.
E isso já basta.
Porque eu vou mudar isso.
Já passei por coisas demais para fingir que não quero algo.
E agora…
eu quero ele.
Levantei devagar.
Não hoje.
Hoje não vou pensar no passado.
Hoje… eu estou no controle.
Desci as escadas, me forçando a parecer normal, mesmo com o coração batendo mais rápido do que deveria.
Todos já estavam na cozinha.
Mia.
William.
E ele.
Sentado ali como se nada no mundo pudesse tocá-lo.
Relaxado. Intocável.
Eu odiava o quanto isso me afetava.
— Bom dia, Katherine — disse William, animado demais.
Franzi a testa.
— Por quê?
Ele piscou. — Por quê o quê?
— O humor. Você geralmente é mais… neutro.
Ele sorriu.
— Hoje é o aniversário do Simon.
Congelei.
— Aniversário?
Meu olhar foi automaticamente para ele.
Como eu não sabia disso?
— Você vai comemorar?
— Não — Simon respondeu antes de qualquer um.
Simples.
Firme.
— Eu não gosto de aniversários.
Isso… chamou minha atenção.
Cruzei os braços levemente, observando-o.
Tem algo por trás disso.
Tem que ter.
E se tem uma coisa que eu aprendi—
é que pessoas quebradas se reconhecem.
E Simon Carter…
Ele não é tão perfeito quanto parece.
Talvez seja por isso que eu não consigo desviar o olhar.
— Vou para a piscina.
Virei rápido, subindo as escadas.
Meu coração estava acelerado. Irritantemente rápido.
Peguei o primeiro maiô que vi.
Respira, Katherine.
É só uma piscina.
É só o Simon.
Só o Simon.
Parei.
Não.
Nada nele era “só”.
Me troquei rápido.
Mesmo assim, parecia que o tempo estava se arrastando.
Olhei para mim no espelho.
Cabelo solto.
Respiração irregular.
Olhos… entregando demais.
— Se controla — sussurrei.
Desci novamente.
E lá estava ele.
Já na piscina.
Encostado, completamente à vontade.
A luz do sol dançava na água, desenhando sombras pelo corpo dele.
Como se tudo ali estivesse contra mim.
Droga.
Saí para fora e mergulhei sem pensar.
O frio veio na hora.
Ajudou.
Um pouco.
Quando voltei à superfície…
ele estava me olhando.
Não de forma casual.
Focado.
— Você demorou — ele disse.
— Não sabia que era uma competição — respondi, indo para o outro lado.
Uma leve reação passou pelo rosto dele.
Não era bem um sorriso.
Mas também não era nada.
O silêncio se instalou.
Mas não era desconfortável.
Não dessa vez.
— Você é sempre assim? — perguntei.
— Assim como?
— Quieto. Como se estivesse sempre pensando… ou evitando algo.
Ele me olhou por mais tempo dessa vez.
Tempo demais.
— E você sempre fala tudo o que pensa?
— Só quando vale a pena.
Uma pausa.
— Eu só não gosto de aniversários — ele disse.
— Eu percebi. Mas isso não explica nada.
Silêncio de novo.
— Algumas datas não são feitas para serem comemoradas.
Isso soou diferente.
Mais pesado.
— Você perdeu alguém? — perguntei, mais suave.
Ele congelou.
Só por um segundo.
— Isso não importa.
Barreira erguida.
De novo.
— Você é complicado.
— E você curiosa demais.
— Alguém precisa ser.
Isso fez ele sorrir.
Um sorriso de verdade.
Pequeno… mas suficiente.
O ar mudou.
Algo mudou.
Me aproximei sem perceber.
Ou talvez eu tenha percebido.
— Você gosta de brincar com fogo — ele disse, baixo.
— Depende do fogo.
Mais um passo.
Perto demais agora.
— Você não deveria.
— O quê?
— Isso.
A palavra ficou entre nós.
Pesada.
— Eu não estou fazendo nada — sussurrei.
Mentira.
E nós dois sabíamos.
Por um momento…
tudo parou.
Então me inclinei.
Só o suficiente para meus lábios tocarem os dele.
Suave.
Cauteloso.
Errado.
Meu coração disparou violentamente.
Por um segundo… ele não se moveu.
E esse foi o problema.
Porque esse segundo pareceu permissão.
A mão dele apertou levemente meu braço.
Sem me puxar para mais perto.
Sem me afastar.
Só… segurando.
Como se estivesse decidindo.
Como se estivesse perdendo.
Então—
ele se afastou.
Rápido.
— Isso não vai acontecer, Katherine.
A voz dele estava firme de novo.
Controlada.
— Não entre a gente.
Isso deveria ter sido suficiente.
Não foi.
— A gente nem começou… e você já está desistindo?
— Isso não é um jogo.
— Tudo é.
— Isso não.
Dei mais um passo.
— Tem certeza?
Silêncio.
Ele não respondeu.
Mas os olhos dele responderam.
E isso foi pior.
Eles não estavam dizendo não.
Eu também não estava.
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