Entre Cicatrizes e desejos
5 CAPÍTULO 4/ QUE FESTA?
O silêncio que veio depois não era desconfortável.
Mas também não era simples.
Simon não disse nada. Apenas me olhou por alguns segundos, como se estivesse avaliando algo… e então desviou o olhar.
— Vou sair hoje à noite — ele disse, pegando um copo da pia.
Simples. Direto.
Como se não significasse nada.
Mas significava.
— Sair? — repeti, me apoiando no balcão, tentando parecer casual.
— Tipo… sair pra onde?
— Festa de um amigo.
A palavra *festa* ecoou na minha mente.
— E você vai?
Ele deu de ombros.
— Talvez.
Revirei os olhos.
— Você é sempre assim?
— Assim como?
— Como se nunca decidisse nada de verdade.
Ele se virou pra mim, com aquele meio sorriso irritante.
— Eu decido. Só não anuncio.
Cruzei os braços.
— E você não vai me convidar?
A pergunta escapou.
Rápida demais.
Erro.
Ele me encarou.
Um segundo.
Dois.
— Não.
Seco.
Direto.
Aquilo acertou.
Mas não demonstrei.
— Que educado.
— Não é sobre educação.
— Então é sobre o quê?
Ele desviou o olhar.
— Você não ia gostar.
Isso me fez rir.
De verdade.
— Você me conhece há um mês, Simon.
— Foi o suficiente.
— Engraçado — falei, inclinando a cabeça — porque você não me conhece nada.
Silêncio.
Dessa vez… ele pensou.
— Mesmo assim — disse por fim — você não vai.
Sem espaço pra discussão.
Sorri devagar.
— Vamos ver.
Ele franziu a testa.
— Katherine—
— Relaxa — cortei. — Eu não vou te seguir.
Mentira.
Total.
Mas ele não precisava saber.
---
O resto do dia passou estranho.
Pesado.
Expectante.
Depois disso, Simon manteve distância.
Não frio.
Só… controlado.
Como se estivesse evitando qualquer coisa que pudesse acontecer de novo.
E isso?
Só me fez querer ele mais.
Mais curiosidade.
Mais vontade de quebrar qualquer muro que ele estivesse construindo.
---
Naquela noite, ouvi o carro na garagem.
Levantei da cama sem pensar.
Abri a porta devagar.
Olhei pelo corredor.
Lá estava ele.
Descendo as escadas.
Camisa escura. Cabelo levemente bagunçado.
Sem esforço.
Perigoso.
Meu estômago se contraiu.
— Fugindo? — perguntei, encostada na parede.
Ele olhou pra cima.
— Não estou fugindo.
— Parece.
Ele suspirou.
— Eu já te disse, Katherine.
— Eu sei.
Me afastei da parede e desci as escadas. Devagar.
— Música. Pessoas. Uma festa… — dei de ombros. — Parece interessante.
— Não é pra você.
— Você não sabe disso.
Ele pegou as chaves.
— Boa noite, Katherine.
E saiu.
Assim.
Sem hesitar.
Sem olhar pra trás.
A porta se fechou.
Silêncio.
Três segundos.
— Vamos ver — murmurei, pegando meu celular.
---
A casa parecia vazia sem ele.
Quieta demais.
Entediante demais.
Andei de um lado pro outro por alguns minutos…
fingindo pensar.
Mas eu já tinha decidido.
Só não queria admitir.
Peguei uma roupa.
Simples.
Mas suficiente.
Olhei no espelho.
— Você não vai fazer isso.
Silêncio.
— Vai sim.
---
Eu conseguia ouvir a música antes mesmo de chegar.
Alta. Viva.
O completo oposto daquela casa.
Parei por um segundo.
Respirei.
E entrei.
---
O lugar estava lotado.
Luzes piscando.
Gente dançando. Rindo. Bebendo.
Caos.
Um caos perfeito.
Meus olhos procuraram automaticamente.
E encontraram ele.
Encostado numa parede.
Copo na mão.
Conversando com alguém.
Mas distante.
Como se não pertencesse àquele lugar.
Típico.
Caminhei até ele.
Devagar.
Sem hesitar.
Quando cheguei perto—
Ele me viu.
E, pela primeira vez…
Simon Carter pareceu realmente surpreso.
— Katherine?
Sorri.
— Oi.
Os olhos dele percorreram meu corpo.
Devagar. Sem esconder.
Meu coração reagiu na hora.
— O que você está fazendo aqui?
— Vim pra festa — dei de ombros. — Você não veio?
Uma risada curta escapou dele.
— Eu disse pra você não vir.
— Eu sei.
Dei um passo à frente.
— Mas você também disse que eu não ia gostar.
Inclinei a cabeça.
— Acho que você estava errado.
Silêncio.
O mundo se movia ao nosso redor.
Mas ali—
era só nós dois de novo.
— Você é impossível — ele disse.
— E você gosta disso.
Dessa vez…
ele não desviou o olhar.
---
— Você deveria ir embora — ele disse depois de um tempo.
Mas a voz dele não estava tão firme.
— Você deveria parar de mandar em mim.
Silêncio.
Ele apertou o copo com mais força.
— Isso não é brincadeira, Katherine.
— E quem disse que eu estou brincando?
Outro silêncio.
Perigoso.
E então—
— Simon!
Uma voz feminina cortou tudo.
Eu virei.
Loira. Confiante. Confiante demais.
Caminhando direto até ele como se pertencesse ali.
Como se pertencesse a ele.
Ela parou ao lado dele.
Perto.
Perto demais.
A mão dela tocou o braço dele naturalmente.
— Você sumiu — ela disse, sorrindo.
Simon desviou o olhar de mim.
Só por um segundo.
Mas foi o suficiente.
— Acabei de chegar — ele respondeu.
Como se fosse normal.
Como se ela fosse normal.
Cruzei os braços.
Observando.
Analisando.
Ela finalmente olhou pra mim.
Devagar.
Sem tentar esconder.
Um pequeno sorriso surgiu.
Nada amigável.
— E você é…?
— Katherine — Simon respondeu.
Rápido demais.
— Irmã adotiva.
Silêncio.
Ela ergueu uma sobrancelha.
Depois sorriu de novo.
— Interessante.
Eu não gostei disso.
— E você? — perguntei.
— Amiga.
Simples.
Carregado.
Olhei pra Simon.
— Amiga?
— A gente se conhece há um tempo — ele disse.
— Há um tempo — repeti.
Perfeito.
Resposta inútil.
— Então vocês são próximos.
Ela respondeu por ele.
— O suficiente.
Intencional.
Inclinei a cabeça.
— Entendi.
O clima mudou na hora.
Agora não era só tensão.
Era competição.
---
— A gente ia lá fora — ela disse, segurando o braço dele. — Vem.
Isso foi o bastante.
Soltei uma risada leve.
— Vai lá — falei, olhando direto pra ele. — Não vou atrapalhar.
Ele hesitou.
Só por um segundo.
— Katherine—
— Relaxa — cortei. — Eu não preciso de babá.
Ela sorriu.
Como se já tivesse ganhado.
— Vem — puxou ele.
Ele foi.
Mas não confortável.
E eu percebi.
Ele olhou pra trás uma vez.
Só uma.
Mas foi intenso.
E então sumiu.
---
Fiquei ali.
Música alta.
Gente rindo.
E algo queimando no meu peito.
Cruzei os braços.
— Perfeito — murmurei.
Observei os dois.
Ela rindo.
Ele… mais quieto.
Mas ali.
Com ela.
E aquilo me incomodou.
Mais do que deveria.
Muito mais.
Foi aí que caiu a ficha.
Eu não gostava de dividir a atenção dele.
Nem um pouco.
Sorri.
Mas dessa vez…
não foi suave.
— Ótimo — murmurei. — Vamos jogar.
---
Peguei uma bebida.
Dei um gole.
Caminhei na direção deles—
e parei no meio do caminho.
Não.
Ideia melhor.
Me encostei na parede.
Observei.
Analisei.
A mão dela no braço dele de novo.
Natural demais.
Ensaiado demais.
Minha mandíbula se contraiu levemente.
Mas não me mexi.
Simon passou a mão pelo cabelo.
De novo aquele gesto.
Ele não estava confortável.
Bom.
---
— Você tá olhando faz um tempo.
Virei.
Um garoto.
Cabelo escuro. Sorriso fácil.
Desconhecido.
— Talvez — respondi, leve.
Ele seguiu meu olhar.
— Ah…
Entendeu.
— Problema?
— Nenhum.
Rápido demais.
Ele sorriu de lado.
— Sei.
Revirei os olhos.
— E você? Sempre chega assim em garotas aleatórias?
— Só nas interessantes.
Soltei uma risada baixa.
— Você nem me conhece.
— Ainda não.
Inclinei a cabeça.
— Pretende?
— Depende — ele deu um passo mais perto. — Vale a pena?
Antes que eu respondesse—
Eu senti.
Aquele olhar.
Virei devagar.
Simon.
Me olhando.
Não distante.
Não controlado.
Focado.
Intenso.
Meu coração reagiu na hora.
— Acho que ele não gostou disso — o garoto ao meu lado murmurou.
— Do quê?
— De mim.
Sorri de leve.
— Ele não tem direito de opinar.
Mas não desviei o olhar.
Nem ele.
A conexão entre nós ficou tensa.
Esticada.
E então—
A garota disse algo pra ele.
E ele desviou o olhar.
Quebrou.
Droga.
— Dançar? — o garoto perguntou.
Hesitei.
Então sorri.
— Sim.
---
A música me puxou.
Rápida. Viva.
Eu deixei.
Deixei meu corpo se mover.
Deixei minha mente se acalmar.
Ele era fácil.
Leve.
Nada como Simon.
E talvez por isso funcionasse.
Pra distração.
Pra provocar.
Talvez os dois.
Sem perceber…
olhei de novo.
Simon estava olhando.
Mais intenso agora.
Mais atento.
A garota falava—
ele não estava ouvindo.
Isso fez algo dentro de mim mudar.
Um pequeno sorriso surgiu nos meus lábios.
— Você tá olhando pra ele de novo — o garoto disse.
— Talvez.
— Seu namorado?
Ri.
— Nem de longe.
— Então posso continuar tentando?
Inclinei a cabeça.
— Você nunca precisou de permissão.
Ele sorriu.
Mas eu não estava mais prestando atenção.
Porque do outro lado do salão—
Simon Carter não estava mais escondendo.
Ele estava me olhando.
E dessa vez…
não estava fingindo que não se importava.
Fale com o autor