Chicago, 1861

Isabella Marie Swan tinha dezessete anos e carregava nos ombros um destino que não escolhera. Filha única de Charles Bartolomeu Swan, o respeitado prefeito de Chicago, crescera cercada por privilégios que muitos invejariam: salões iluminados por candelabros, vestidos vindos da Europa, criadas sempre atentas, uma vida desenhada com precisão milimétrica pela alta sociedade. Ainda assim, havia nela algo que não se encaixava. Um olhar que demorava demais nas janelas. Um silêncio que dizia mais do que qualquer palavra educada.

Naquela manhã fria de outono, Isabella caminhava pelas ruas de Chicago acompanhada de Esme, sua dama de companhia, cuja presença era mais próxima de uma mãe do que de uma simples acompanhante, e de sua prima Mary Alice Brandon. Alice falava animadamente sobre o noivado recente com o Major Withlock, ignorando o vento gelado que cortava a pele e bagunçava seus cachos claros.

— E então ele segurou minha mão e disse que não conseguiria viver sem mim — dizia Alice, os olhos brilhando de felicidade genuína.

Isabella sorriu, como se esperavam que fizesse. Um sorriso treinado, educado, impecável. Mas seu corpo denunciava o contrário: os ombros tensos, o passo um pouco mais lento, o olhar perdido em algo que ninguém mais via. Para jovens como ela, o futuro era simples e irrevogável: casamento, filhos, obediência. Para Isabella, cada uma dessas palavras soava como um cadeado dourado.

Ela queria mais. Queria escrever, viajar, conhecer o mundo além das paredes bem decoradas da casa Swan. Mas esse desejo jamais era dito em voz alta. Sonhos, naquela sociedade, eram um luxo perigoso.

— Isabella? — chamou Alice, percebendo a ausência da prima.

— Perdoe-me — respondeu ela, com a voz baixa, como se tivesse sido flagrada em um pensamento impróprio.

Alice sorriu de forma travessa, aproximando-se um pouco mais.

— Estavas pensando no Lorde Salvatore?

O corpo de Isabella reagiu antes que ela pudesse controlar. O maxilar se retesou, o estômago se contraiu.

— Não — respondeu com firmeza, ainda que um fio de angústia escapasse da voz. — Como poderia pensar em um homem que vi apenas uma vez?

Alice, sem notar o impacto, falou com suavidade:

— Ele será teu esposo. Com o tempo, aprenderás a amá-lo.

A sentença caiu entre elas como um veredicto final. Duas semanas. Apenas duas semanas até que Isabella entregasse sua vida a um homem escolhido por convenção, status e dinheiro — nunca por amor.

Esme, sempre atenta, percebeu o desconforto e sugeriu que entrassem em uma pequena loja próxima. As ruas estavam cheias de carruagens, o cheiro de pão fresco misturava-se ao frio cortante, e ainda assim o coração de Isabella parecia inquieto demais para aquele mundo tão organizado.

Na praça central, encontraram Rosalie Lilian Hale, cuja beleza era tão conhecida quanto sua aversão ao próprio noivado.

— Olá, futura Lady Salvatore e senhora Withlock — disse Rosalie, com ironia evidente.

Isabella inclinou levemente a cabeça.

— Não me chame assim. Isso dói.

— E você será Lady King — provocou Alice.

Rosalie fez uma careta de desprezo.

— Não diga esse nome. Eu o detesto.

Royce King, o banqueiro mais rico de Chicago, possuía tudo, exceto o coração de Rosalie — que pertencia a Emmett, amigo de infância, sempre gentil, sempre protetor, embora invisível aos olhos da sociedade.

Enquanto caminhavam, Isabella se perdia em pensamentos sobre uma vida que jamais teria. E foi nesse instante que o mundo mudou.

Ela colidiu com alguém. O impacto foi forte o suficiente para fazê-la cair de costas.

— Perdoe-me, senhorita! — disse uma voz masculina imediatamente.

Uma mão foi estendida. Quando Isabella ergueu o rosto, encontrou olhos verdes que pareciam atravessá-la por completo. O tempo desacelerou. O barulho da cidade se dissolveu. Um sorriso discreto surgiu nos lábios dele, elegante, seguro.

— Sou o Major Masen.

Isabella tentou responder, mas as palavras se perderam antes de nascer.

— Isabella, vamos! — Rosalie a puxou pelo braço, mas ela permanecia imóvel, presa àquele olhar que parecia reconhecer algo antigo demais para ser explicado.

— Adeus, Isabella — disse ele, e naquele instante algo profundo se rompeu dentro dela.

Ao se afastarem, Rosalie foi a primeira a falar:

— Por Deus, quem era aquele homem?

— Eu… não sei — respondeu Isabella, ainda atordoada.

— Um anjo — suspirou Alice.

E ali, sem compreender como ou por quê, Isabella soube: algo havia sido despertado, e não haveria retorno.


Agora, vestida de noiva, Isabella aguardava diante do espelho. O vestido era perfeito. O futuro, irreversível. Seu coração, dividido. A lembrança de Edward Masen queimava silenciosa em cada canto de sua alma.

Após aquele encontro, ele retornara a Londres. Só voltaram a se ver no casamento de Alice. Dali em diante, encontros secretos começaram, longe dos olhos do mundo, escondidos na clareira que se tornara refúgio e pecado. Foi ali que ela se entregou a ele. Foi ali que ele prometeu que jamais permitiria que ela se casasse com outro homem.

Ele lhe pediu que fosse com ele para Londres. Ela quis ir. Mas não conseguiu abandonar a família.

Até aquela noite.

Batidas suaves na janela. Isabella abriu a sacada e encontrou Edward ali, imprudente, determinado, atirando pequenas pedras contra o vidro.

— Estás louco? — sussurrou ela, sorrindo entre lágrimas.

— Vem comigo — disse ele, estendendo a mão. — Vamos ser felizes.

Ela desceu pela árvore, quase caindo. Ele a segurou nos braços e a beijou como se o mundo estivesse acabando.

— Amo-te, Isabella. Para sempre.

— Amo-te.

— Nosso amor vai além desta vida.

O destino, no entanto, foi implacável.

Um disparo ecoou pelo jardim. O sorriso de Edward se desfez. Ele levou a mão ao peito. Sangue. Choque.

— Edward! — gritou Isabella.

Outro disparo. Dor. Queda.

No chão, lado a lado, o mundo se apagava. A última imagem foi o rosto dele, sereno mesmo no fim.

E então… a escuridão.