Entre Acasos e Destinos
21 Capitulo 21
Notas iniciais
Quando Lúcia chegou ao castelo naquele dia, sentiu que estava sendo observada e analisada. Ainda assim, manteve a expressão neutra e guardou seus pensamentos para si.
Assim que encontrou Amélia, como de costume, aproximou-se para lhe dar o bom-dia antes de iniciar seus afazeres. A mulher, porém, já a aguardava com um sorriso no rosto.
— Bom dia, minha menina.
— Bom dia, Amélia. Pelo vosso sorriso, temos boas notícias? Pensaram a respeito de me dar umas rodinhas para que eu consiga chegar mais rápido aos lugares? — brincou, arrancando uma gargalhada de Amélia.
A jovem vivia reclamando das dores nos pés depois de passar o dia percorrendo os imensos corredores do castelo.
— Não, minha menina. Mas hoje estás dispensada dos teus afazeres.
Lúcia arregalou os olhos, e o sorriso desapareceu de seu rosto.
— Como assim? Dispensaram-me? Mas, Amélia, esse serviço é como ajudo meus pais... Por que fariam isso?
Antes que a jovem pudesse se deixar levar pela preocupação, Amélia tratou de interrompê-la.
— Não, minha pequena! Eu me expressei mal. Não foste dispensada. Continuarás conosco, é claro. Porém, terás algumas aulas com o teu padrinho... quer dizer, com o conselheiro Pierre.
Lúcia piscou algumas vezes, tentando assimilar a informação.
— Aulas?
— Sim. E a primeira começa daqui a dez minutos. Se eu fosse vós, apressar-me-ia até a biblioteca. Não vais querer chegar atrasada logo no primeiro dia.
Lúcia olhou para o corredor que levava à biblioteca e, pela primeira vez naquela manhã, deixou escapar um pequeno sorriso.
— Com o conselheiro Pierre? — repetiu, ainda incrédula.
— Com ele mesmo.
Amélia sorriu, divertida, enquanto Lúcia começava a caminhar apressadamente pelo corredor.
— E, minha menina... — chamou-a antes que ela se afastasse. — Tenta não o contrariar logo na primeira aula.
Lúcia parou e olhou para trás.
— Eu? Jamais faria tal coisa.
Amélia apenas ergueu uma sobrancelha.
Lúcia sorriu de canto e seguiu seu caminho, já sabendo que, provavelmente, não conseguiria cumprir aquela promessa.
Assim que chegou à sala, respirou fundo e bateu à porta.
— Entre.
Lúcia abriu a porta ainda receosa. Não fazia ideia do que estava acontecendo e, ao entrar, deparou-se com seu padrinho e com a última pessoa que imaginava encontrar ali.
O príncipe.
O mesmo jovem a quem, dias antes, ordenara que recolhesse as toalhas que havia derrubado.
O mesmo que, naquela ocasião, mandara que parasse de fugir.
E o mesmo que encontrara na feira, onde acabara envolvida em um debate sobre tratados e questões do reino.
Lúcia respirou fundo.
Isso não poderia ficar ainda pior.
— Vossa Alteza.
— Senhorita...
Antes que pudesse perguntar o que estava acontecendo, Pierre colocou um tabuleiro de xadrez sobre a mesa.
— Venha, Lúcia. Por ordem da rainha, a partir de hoje terás algumas aulas junto ao jovem herdeiro.
A jovem ergueu os olhos, surpresa.
— Com... o príncipe?
— Exatamente.
Lúcia permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Não sabia se deveria sentir-se honrada com a ordem da rainha ou receosa com o motivo que a levara a tomar aquela decisão.
Por que eu?
Ela não possuía títulos. Não vinha de uma família nobre. Não tinha riquezas ou qualquer posição que justificasse estar recebendo ensinamentos destinados ao futuro rei.
Então, por que a rainha havia decidido colocá-la ao lado dele?
Mas aquele não parecia ser o momento para perguntas.
Lúcia sentou-se na cadeira que Pierre indicara. Lucian, ainda tão confuso quanto ela, ocupou o assento à sua frente.
Pelo olhar do príncipe, ficou claro que ele também não fazia ideia do motivo pelo qual estavam ali.
— E nada melhor para começarmos do que com um dos mais estratégicos ensinamentos — disse Pierre, colocando as peças sobre o tabuleiro. — O jogo de xadrez.
Os dois jovens voltaram a atenção para ele.
Pierre pousou uma das mãos sobre a mesa.
— O reino é como este jogo.
Sua voz assumiu um tom mais sério.
— Cada peça possui seu valor, sua função e seus limites. Cada movimento precisa ser pensado antes de ser realizado, pois uma única decisão pode alterar todo o curso da partida.
Apontou para o tabuleiro.
— Um rei não pode simplesmente avançar sem pensar nas consequências. Uma rainha possui grande poder, mas também precisa saber quando avançar e quando recuar. Bispos, torres, cavalos e até mesmo os peões possuem seu propósito.
Lucian observava o tabuleiro com atenção.
Lúcia fazia o mesmo.
Nenhum dos dois percebeu, entretanto, que, atrás de uma passagem secreta da sala, quatro pessoas acompanhavam cada palavra.
O rei.
A rainha.
A ama real.
E o chefe da guarda.
A sala secreta havia sido preparada para que nenhum dos jovens percebesse a presença deles.
A rainha mantinha os olhos atentos sobre Lúcia, enquanto o rei observava o próprio filho.
Havia até mesmo uma pequena aposta entre os quatro.
Não em dinheiro.
Mas em uma questão muito mais interessante:
qual dos dois faria as melhores escolhas?
— Governar não significa apenas saber vencer uma batalha — continuou Pierre. — Significa compreender o tabuleiro inteiro. Saber quem está ao seu lado, reconhecer aqueles que podem representar uma ameaça e, principalmente, compreender que cada decisão tomada pelo soberano pode proteger seu reino... ou colocá-lo em perigo.
O conselheiro então afastou-se um passo.
— Hoje, vocês não aprenderão apenas a jogar xadrez.
Seu olhar passou de Lucian para Lúcia.
— Aprenderão a pensar como aqueles que precisam tomar decisões das quais outras vidas dependerão.
Pierre então recuou, deixando espaço para que os dois jovens começassem a partida.
Por fora, mantinha a postura séria de um mestre.
Por dentro, porém, estava genuinamente curioso.
Ele sabia muito bem o que havia feito.
De um lado estava Lucian, o jovem herdeiro que treinava xadrez desde os cinco anos. O príncipe conhecia cada peça, dominava diferentes estratégias e já havia vencido inúmeras partidas contra seus mestres.
Do outro lado estava Lúcia.
Sua afilhada.
A menina a quem ele próprio ensinara a jogar quando ela tinha apenas dois anos.
Desde muito pequena, Lúcia demonstrara uma curiosidade incomum. Fazia perguntas sobre cada movimento, queria entender por que determinada peça deveria avançar e não aceitava simplesmente ouvir que aquela era a maneira correta de jogar.
Precisava compreender o motivo.
E, talvez justamente por isso, tornara-se uma jogadora excepcional.
No condado, ninguém conseguia vencê-la.
Pierre olhou para os dois.
Conhecia as habilidades de ambos.
Sabia que Lucian possuía anos de treinamento e uma mente estratégica extremamente desenvolvida.
Mas também sabia que Lúcia possuía algo que não poderia ser ensinado facilmente.
Ela observava.
Questionava.
E, principalmente, enxergava possibilidades onde outros sequer pensavam em procurar.
Pierre cruzou os braços.
Agora, finalmente, descobriria o que aconteceria quando aquelas duas mentes se encontrassem diante do mesmo tabuleiro.
Lucian ajeitou-se na cadeira.
Lúcia observou as peças.
Por alguns instantes, nenhum dos dois disse uma palavra.
Então, o príncipe ergueu os olhos.
— As damas primeiro?
Lúcia arqueou uma sobrancelha.
— Tendes certeza?
Um pequeno sorriso surgiu no canto dos lábios de Lucian.
— Absoluta.
— Então não vos arrependais depois.
Pierre precisou conter um sorriso.
Na sala secreta, a rainha trocou um olhar divertido com a ama real.
A partida sequer havia começado.
E já prometia ser muito mais interessante do que qualquer um deles imaginara.
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