Entre Acasos e Destinos
22 Capitulo 22
Notas iniciais
No princípio, nenhum dos dois havia concedido ao adversário a consideração que uma partida daquela natureza exigia.
Lucian acreditara que teria diante de si apenas uma jovem de inteligência incomum, mas sem experiência suficiente para lhe oferecer verdadeira resistência.
Lúcia, por sua vez, conhecia a posição que ocupava naquela sala. Sabia que estava diante do futuro soberano do reino e, talvez justamente por isso, cometera o erro de acreditar que a educação de um príncipe poderia ser prevista com facilidade.
Ambos estavam enganados.
Os primeiros movimentos foram quase descuidados.
Um avanço precipitado de Lucian.
Uma resposta apressada de Lúcia.
Um cavalo deixado em posição vulnerável.
Uma peça sacrificada sem necessidade.
Erros pequenos. Quase indignos de dois jogadores que pretendiam levar aquela disputa a sério.
Pierre percebeu antes de todos.
Permaneceu algum tempo observando em silêncio, os braços cruzados diante do peito, até que finalmente se aproximou do tabuleiro.
— Vossa Alteza.
Lucian ergueu os olhos por um instante.
— Sim?
Pierre apontou para o tabuleiro.
— Se pretendíeis perder vossas tropas dessa maneira numa batalha verdadeira, espero sinceramente que jamais me convoqueis para comandá-las.
Lucian lançou-lhe um olhar irritado.
Lúcia conteve um sorriso.
Pierre então voltou-se para ela.
— E vós não sorriais, senhorita. Acabastes de entregar um flanco inteiro por pura distração.
O sorriso desapareceu do rosto de Lúcia.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse palavra.
Então, Lucian voltou a olhar para o tabuleiro.
Lúcia fez o mesmo.
E alguma coisa mudou.
A partir daquele instante, já não havia espaço para descuido.
O jogo tornou-se silencioso.
Profundamente silencioso.
Cada movimento passou a ser precedido por longos instantes de reflexão. Os olhos de Lucian percorriam o tabuleiro como os de um comandante examinando um campo de batalha antes de ordenar o avanço de suas tropas.
Lúcia fazia o mesmo.
Mas havia uma diferença.
Para Lucian, aquelas peças começaram a representar o reino que um dia herdaria.
Para Lúcia, representavam as pessoas que viviam dentro dele.
Uma torre não era apenas uma torre.
Era uma fortaleza que protegia aqueles que estavam atrás dela.
Um peão não era simplesmente uma peça de menor valor.
Era um soldado. Um trabalhador. Um pai. Uma mãe. Alguém que talvez jamais fosse lembrado pelos grandes salões do castelo, mas cuja queda poderia abrir caminho para que todo o restante fosse destruído.
E, conforme a partida avançava, aquela diferença de pensamento começava a aparecer em cada movimento.
Lucian atacava para abrir caminhos.
Lúcia defendia para fechá-los.
Ele sacrificava quando enxergava vantagem futura.
Ela recusava o sacrifício quando acreditava que a perda de uma única peça poderia comprometer todo o restante.
Não demorou para que o tabuleiro se transformasse em uma espécie de reino em miniatura.
E os dois passaram a disputá-lo como se dele dependesse muito mais do que uma simples vitória.
Quarenta movimentos.
Depois, cinquenta.
E a partida continuava.
Nenhum deles oferecia uma abertura.
Nenhum aceitava recuar sem propósito.
Quando Lucian ameaçava uma peça, Lúcia já havia preparado uma resposta.
Quando Lúcia avançava uma de suas tropas, Lucian encontrava uma maneira de impedir que aquele avanço se transformasse em ameaça.
Era um duelo sem espadas.
Sem gritos.
Sem sangue.
Mas talvez, por isso mesmo, ainda mais perigoso.
Pierre permanecia ao lado deles, observando cada movimento.
Era o único naquela sala que sabia que aquela partida havia deixado de ser uma simples distração.
E, embora os jovens não soubessem, havia outros olhos acompanhando cada movimento.
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Do outro lado de uma parede de pedra, poucos conheciam, encontrava-se a sala secreta.
O rei permanecia diante da pequena abertura disfarçada na parede, de onde conseguia observar parte da biblioteca sem ser visto.
Ao seu lado, a rainha mantinha os olhos fixos no tabuleiro.
Nenhum dos dois havia dito uma palavra durante os primeiros minutos.
Não queriam interromper.
Não queriam sequer correr o risco de serem descobertos.
Tinham vindo apenas para observar.
Mas o que encontraram diante de si era muito mais interessante do que esperavam.
A rainha cruzou os braços.
— Ele a subestimou.
O rei permaneceu calado.
— E ela fez o mesmo com ele — acrescentou.
Dessa vez, o rei assentiu.
— Sim.
Na biblioteca, Lucian moveu uma peça.
Lúcia respondeu quase imediatamente.
A rainha estreitou os olhos.
— Ela não joga como alguém que aprendeu apenas a vencer.
— Não.
O rei continuou observando.
— Ela joga como alguém que aprendeu a não perder aquilo que lhe foi confiado.
A rainha virou lentamente o rosto para o marido.
Por alguns instantes, os dois permaneceram em silêncio.
Então, ela voltou a olhar para a partida.
— E nosso filho?
O rei observou Lucian.
— Ele joga como alguém que acredita que toda perda precisa servir a um propósito.
Mais um movimento.
Depois, outro.
O silêncio na sala secreta tornou-se quase reverente.
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Na biblioteca, Pierre percebeu que ambos já haviam ultrapassado a marca dos cinquenta movimentos.
— Talvez devêssemos fazer uma pausa.
Nenhum dos dois respondeu.
Pierre suspirou.
— Naturalmente.
Ele já conhecia aquela expressão.
Nenhum deles desistiria enquanto houvesse uma única possibilidade sobre o tabuleiro.
Lucian estudava a posição.
Lúcia fazia o mesmo.
Até que, depois de alguns minutos, ele falou:
— Se eu mover esta peça, abro espaço para o seu cavalo.
— Eu sei.
Lucian levantou os olhos.
— E ainda assim não o impede.
Lúcia sustentou o olhar.
— Porque, se eu o impedir agora, perderei outra coisa.
Um pequeno sorriso surgiu no canto da boca de Lucian.
— Então finalmente admitis que estais encurralada.
— Não.
Ela moveu uma peça.
— Admito que vosso ataque é bom.
Lucian olhou para o tabuleiro.
Depois, para ela.
— E isso é diferente?
— Muito.
Pierre arqueou discretamente uma sobrancelha.
Na sala secreta, a rainha também sorriu.
— Gosto dela.
O rei continuou olhando para o filho.
— Ainda não sabemos se deveríamos.
A rainha lançou lhe um olhar divertido.
— Talvez seja exatamente por isso que devamos continuar observando.
Na biblioteca, os jovens permaneciam completamente alheios à presença dos soberanos.
Para eles, havia apenas o tabuleiro.
Pierre.
E o adversário sentado à frente.
Nenhum sabia que, naquele instante, não estava apenas sendo observado por um conselheiro.
Do outro lado da parede, duas das pessoas mais importantes do reino acompanhavam silenciosamente cada decisão.
E, quanto mais a partida avançava, mais difícil ficava para os reis saberem o que estavam realmente observando:
uma simples disputa de xadrez...
ou o primeiro vislumbre de duas formas completamente diferentes de governar.
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