Entre Acasos e Destinos
16 Capitulo 16
Notas iniciais
Lucian
— Vamos, Pierre... Não irá mesmo me contar o que os reis desejavam tratar convosco?
Pierre permaneceu em silêncio por alguns instantes, enquanto o príncipe o acompanhava pelo salão de estudos. Desde que o conselheiro retornara da reunião, Lucian não cessara de questioná-lo. Sua curiosidade era evidente e, quanto mais Pierre se esquivava, mais o jovem príncipe parecia determinado a descobrir o teor daquela conversa.
— Vossa Alteza, postura — advertiu Pierre, sem sequer voltar-se para ele. — Está permitindo que sua atenção se desvie novamente de suas lições. E, considerando o evento que se aproxima, receio que ainda tenha muito a aprender.
Lucian ergueu uma sobrancelha.
— Aprender o quê?
Pierre finalmente se virou, observando-o com a costumeira expressão séria.
— Os passos de dança, naturalmente. Terá de dançar com diversas princesas durante o baile.
Como era de se esperar, o príncipe soltou um longo suspiro e deixou os ombros penderem por um instante.
Apenas a menção ao baile já lhe causava verdadeiro desalento. Sabia muito bem o que o aguardava: seus pais fariam questão de apresentá-lo a cada uma das jovens nobres que chegariam ao castelo e, para seu absoluto infortúnio, esperariam que ele dançasse com todas elas.
— Preferiria enfrentar um exército inteiro — resmungou Lucian — a passar uma noite inteira dançando com princesas que atravessam o reino apenas para descobrir qual delas será a próxima rainha.
Pierre conteve um discreto sorriso diante da reclamação.
— Cuidado, Vossa Alteza. Um futuro rei deve saber enfrentar tanto um exército quanto uma sala repleta de princesas.
Lucian lançou-lhe um olhar desconfiado.
— Não vejo como uma sala cheia de princesas possa ser mais fácil de enfrentar.
— Justamente por isso ainda precisa de treinamento.
Pierre arqueou uma das sobrancelhas, claramente divertido com a indignação do príncipe.
— Curioso... — murmurou. — Fala como se todas fossem insuportáveis antes mesmo de conhecê-las.
Lucian lançou-lhe outro olhar desconfiado.
— E o que há de tão curioso nisso?
— Nada, Vossa Alteza. Apenas me pergunto se manterá esse mesmo discurso quando alguma delas conseguir prender sua atenção.
O príncipe franziu o cenho.
— Isso jamais acontecerá.
— Jamais? — Pierre repetiu, contendo um sorriso. — Uma afirmação bastante ousada para alguém que sequer sabe quem estará presente no baile.
— Sei o suficiente.
— Então já decidiu que nenhuma lhe agradará?
— Exatamente.
Pierre voltou a caminhar, deixando escapar um discreto sorriso.
— Veremos.
Lucian estreitou os olhos.
— O que pretende dizer com isso?
— Apenas que, talvez, Vossa Alteza descubra que nem todas as princesas são tão interessadas em tornar-se rainhas quanto imagina.
Aquelas palavras fizeram Lucian permanecer em silêncio por alguns instantes.
— E se houver alguma que não esteja interessada nisso?
Pierre olhou para ele de soslaio.
— Nesse caso, talvez seja justamente essa quem desperte sua curiosidade.
Lucian imediatamente desviou o olhar.
— Está imaginando coisas, Pierre.
— Naturalmente, Vossa Alteza.
— E pare de sorrir.
— Não estou sorrindo.
— Está, sim.
— Então talvez seja porque, pela primeira vez, Vossa Alteza pareceu interessado em uma princesa antes mesmo de conhecê-la.
E, deixando as conversas fiadas para depois, uma das criadas do castelo adentrou o salão para auxiliar o conselheiro nas lições de dança. Caberia a ela acompanhar o príncipe durante os exercícios, enquanto Pierre observava atentamente cada movimento.
A preparação para o baile não seria simples. Lucian deveria aprender diferentes passos e ritmos, pois, durante a celebração, esperava-se que soubesse conduzir cada dança com elegância e segurança, especialmente diante das inúmeras damas que estariam presentes.
— Outra vez, Vossa Alteza — ordenou Pierre, ao perceber um pequeno erro em seus movimentos.
Lucian soltou um suspiro, retornando à posição.
— Já fiz esse passo três vezes.
— E fará uma quarta, até que o faça corretamente.
A criada tentou esconder um sorriso diante da expressão contrariada do príncipe.
— Não vejo graça alguma — resmungou Lucian.
— Perdoai-me, Vossa Alteza — respondeu ela, abaixando discretamente o olhar.
Pierre, porém, permaneceu impassível.
— Um futuro rei não pode demonstrar cansaço diante de uma simples dança.
— Prefiro demonstrar cansaço agora do que durante o baile.
— Então trate de aprender agora, para que ninguém perceba depois.
Lucian respirou fundo e estendeu novamente a mão à criada.
A música recomeçou.
E, embora estivesse longe de admitir, o príncipe começava a perceber que aquela noite seria muito mais difícil do que qualquer batalha que já imaginara enfrentar.
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Poderiam ter se passado horas ou apenas alguns minutos; Lucian já havia perdido completamente a noção do tempo. O jovem príncipe encontrava-se exausto, os pés começavam a reclamar de tantos passos e sua paciência estava perigosamente próxima do fim.
Foi então que as grandes portas do salão se abriram.
Os reis adentraram o recinto com toda a pompa e majestade que lhes eram próprias. Por alguns instantes, todos os olhares se voltaram para o casal real.
Sem que fosse necessário qualquer anúncio, a música começou.
O rei tomou a mão da rainha, conduzindo-a pelo salão com uma elegância impecável. Seus movimentos eram firmes, precisos e perfeitamente sincronizados, enquanto a rainha acompanhava cada passo com graça e leveza.
Pierre observava atentamente.
Não era apenas uma dança. Havia postura, equilíbrio, domínio e, sobretudo, a segurança de dois soberanos acostumados a serem observados por todo um reino.
Lucian, por sua vez, gravava cada movimento dos pais em sua memória.
Depois de alguns instantes, voltou sua atenção para Safira e retomou a dança com ela, tentando reproduzir os mesmos passos que acabara de observar.
— Mais devagar, Vossa Alteza — orientou Safira, percebendo a pressa do príncipe.
— Estou tentando acompanhar.
— Então não olhe para os pés. Observe os movimentos.
Lucian respirou fundo e tentou novamente.
Quando a música finalmente chegou ao fim, a rainha aproximou-se de Safira e observou discretamente o vestido que a jovem usava.
— Safira, querida, poderia trocar sua saia por uma um pouco mais volumosa?
A jovem piscou, surpresa.
— Mais volumosa, Vossa Majestade?
— Sim. Tenho a impressão de que Pierre ainda está sendo indulgente demais com meu primogênito.
Lucian arregalou os olhos.
Pierre, que ouvira a observação, permaneceu em silêncio.
— Ele precisará aprender a dançar com as princesas durante o baile — continuou a rainha. — E muitas delas certamente estarão usando vestidos muito mais volumosos que esse.
Lucian imediatamente se virou para a mãe.
— Mãe... quero dizer, Vossa Majestade! Esse carcereiro não me deixa sequer respirar, quanto mais está pegando leve comigo!
Pierre arqueou uma sobrancelha diante do título nada honroso que acabara de receber.
— Carcereiro?
— Foi apenas uma maneira de dizer.
Safira afastou-se para cumprir a ordem da rainha.
Alguns minutos depois, retornou ao salão.
Lucian ficou imóvel.
A saia de Safira agora era consideravelmente mais volumosa, ocupando quase o dobro do espaço da anterior.
Pierre precisou tossir discretamente para esconder o sorriso.
Lucian, por outro lado, parecia ter acabado de receber uma sentença.
— Isso não é justo...
A rainha cruzou os braços.
— O quê, meu filho?
— Esses bailes... essas danças... esses vestidos enormes...
Olhou para Safira e depois para Pierre.
— Eu realmente preferiria enfrentar um exército.
Pierre finalmente deixou escapar um pequeno sorriso.
— Ao menos, Vossa Alteza, um exército não exigem que saibais conduzir uma dança.
Lucian lançou-lhe um olhar indignado.
— Não ajude, Pierre.
E, antes que pudesse reclamar novamente, a música começou outra vez.
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