Entre Acasos e Destinos
17 Capitulo 17
Notas iniciais
A jovem Lúcia estava extasiada.
Por dois dias consecutivos, tivera a oportunidade de expor sentimentos e pensamentos que, durante anos, permaneceram guardados no mais profundo de seu coração. Falara sobre seu passado, sobre aquilo que vivera e que a havia moldado, mas também sobre o futuro que tanto ansiava construir.
Pela primeira vez, pudera falar abertamente sobre seus desejos, seus sonhos e, sobretudo, sobre aqueles a quem desejava dar voz.
Não buscava riquezas ou títulos. Desejava apenas que pessoas como sua própria família tivessem oportunidades, que suas necessidades fossem ouvidas e que ninguém precisasse sentir-se invisível diante daqueles que governavam.
Após a conversa com o pintor, Lúcia pediu licença e retornou aos seus afazeres.
Enquanto caminhava pelos corredores do castelo, porém, havia algo diferente em seu semblante. Seus passos pareciam mais leves e seu coração, embora ainda carregasse as mesmas preocupações, já não parecia tão sufocado por elas.
Sentia-se aliviada.
Durante tanto tempo, guardara tudo para si, temendo que seus pensamentos fossem considerados ingênuos ou que seus sonhos fossem grandes demais para uma simples camareira. Contudo, naqueles dois dias, encontrara pessoas dispostas a ouvi-la sem interrompê-la, sem julgá-la e sem diminuir aquilo que trazia dentro de si.
E, talvez pela primeira vez, Lúcia compreendesse que ser ouvida também poderia ser uma forma de esperança.
Com um pequeno sorriso nos lábios, voltou ao trabalho, levando consigo a certeza de que, ainda que seus sonhos parecessem distantes, não precisaria mais carregá-los em absoluto silêncio.
— Jovem Lúcia, a rainha deseja vê-la no salão principal.
A voz de Amélia fez com que Lúcia interrompesse imediatamente o que estava fazendo.
Ao voltar-se para a amiga, percebeu em seu semblante uma preocupação que não lhe era habitual.
Amélia conhecia bem os afazeres de Lúcia e sabia que a jovem jamais deixaria suas obrigações de lado sem motivo. Por isso, não conseguia compreender por que Sua Majestade desejava vê-la pessoalmente.
E, embora tentasse esconder, havia certo receio em seus olhos.
— A rainha... deseja me ver? — perguntou Lúcia, franzindo levemente o cenho.
Amélia assentiu.
— Sim. Pediu que fosse imediatamente ao salão principal.
A jovem permaneceu em silêncio por alguns instantes, tentando imaginar o motivo daquele chamado. Não se recordava de ter cometido qualquer falta ou deixado alguma tarefa por cumprir.
Amélia, contudo, parecia ainda mais inquieta.
— Espero que não tenha feito nada que pudesse desagradar Vossa Majestade — murmurou, quase para si mesma.
Lúcia soltou uma pequena risada, embora também sentisse um leve aperto no peito.
— Amélia, sabes que jamais faria algo semelhante.
— Eu sei — respondeu a jovem prontamente. — Mas, ainda assim... quando a própria rainha manda chamar uma simples camareira, não consigo deixar de me preocupar.
Lúcia respirou profundamente e ajeitou discretamente o avental.
— Então não nos resta senão descobrir o motivo.
E, com o coração começando a bater mais depressa, deixou seus afazeres para trás e seguiu em direção ao salão principal, sem imaginar que aquele chamado mudaria o rumo de sua vida dentro do castelo.
Assim que chegou ao salão principal, Lúcia foi recebida pelos guardas reais, que prontamente a cumprimentaram.
Um deles, ao perceber o temor estampado nos olhos da jovem, lançou-lhe um olhar tranquilo, quase como se quisesse assegurar-lhe, sem precisar dizer uma única palavra, que nada havia a temer.
Lúcia respirou fundo.
Sabia que não havia cometido falta alguma... ao menos, não se lembrava de nenhuma.
Embora, pensando melhor, talvez houvesse aquela pequena situação embaraçosa em que fizera o futuro herdeiro do reino recolher pessoalmente as toalhas que deixara cair no chão.
Talvez aquilo tenha sido um erro, pensou, sentindo o rosto aquecer.
Ainda assim, reuniu coragem e entrou no salão.
Ao aproximar-se da rainha, fez uma profunda reverência.
— Vossa Majestade solicitou minha presença?
A rainha a observou por alguns instantes.
Havia curiosidade em seu olhar, mas não havia severidade. Pelo contrário. Havia algo estranhamente familiar naquela expressão, como se já tivesse visto aquela jovem muito antes daquele momento.
— Venha, jovem Lúcia. Sente-se aqui comigo. Desejo conversar convosco.
Lúcia hesitou por um instante antes de obedecer.
Sentou-se com as mãos delicadamente unidas sobre o colo, mantendo a postura respeitosa, embora seu coração ainda batesse acelerado.
A rainha percebeu seu receio e suavizou ainda mais o semblante.
— Não temais. Não fizestes nada de errado. Pelo contrário... foram justamente vossos pensamentos e vosso posicionamento que me chamaram a atenção.
Lúcia ergueu os olhos, surpresa.
— Meus pensamentos, Vossa Majestade?
A rainha sorriu discretamente.
— Sim.
Fez uma breve pausa antes de continuar.
— Tivemos a oportunidade de nos encontrar ontem, embora não da maneira como imaginais.
Lúcia franziu o cenho.
— Ontem?
— Durante meu passeio pelo condado — explicou a rainha. — Eu estava acompanhada de meu filho. Ambos disfarçados, longe dos olhos do castelo e daqueles que poderiam nos reconhecer.
Os olhos de Lúcia se arregalaram.
De repente, algumas lembranças começaram a se encaixar.
Aquele homem com quem conversara no condado.
A maneira como ele fazia perguntas.
A curiosidade incomum em seus olhos.
E, principalmente, a conversa que haviam tido sobre o reino.
— Vós... estáveis naquele passeio? — perguntou, quase sem acreditar.
A rainha assentiu.
— Estava.
Lúcia ficou em silêncio.
Mas havia algo que ainda não compreendia.
— Então... aquele homem...
Antes que pudesse concluir, a rainha confirmou com um pequeno sorriso:
— Era meu filho.
O coração de Lúcia pareceu parar por um instante.
O jovem com quem havia conversado livremente.
O homem a quem havia exposto suas opiniões sobre o reino, sobre os pobres, sobre aqueles que não possuíam voz...
Era o príncipe.
O futuro rei.
E ela não fazia a menor ideia.
— Vossa Alteza... — murmurou, levando a mão discretamente ao peito.
A rainha soltou uma pequena risada diante da expressão completamente atônita da jovem.
— Sim. E devo confessar que meu filho não foi a única pessoa que ficou intrigada com vossas palavras.
Lúcia permaneceu imóvel.
A rainha então inclinou-se levemente em sua direção.
— O que mais me chamou atenção não foi apenas o fato de terdes conversado com meu filho. Foi a maneira como o fizestes.
Lúcia abaixou os olhos, ainda sem saber como reagir.
— Não sabíeis quem ele era. Não tínheis qualquer obrigação de agradá-lo, tampouco qualquer razão para escolher palavras apenas por respeito ao título que desconhecíeis.
A rainha fez uma pausa.
— E, ainda assim, quando ele vos questionou sobre os problemas do reino, vós respondestes com convicção. Defendestes vossos pensamentos. Apresentastes vossos argumentos. E, pelo que me foi contado, não recuastes diante dele nem uma única vez.
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios da soberana.
— Isso despertou minha curiosidade, jovem Lúcia.
Lúcia ergueu novamente os olhos.
— Por isso pedi que viésseis até mim.
A rainha manteve o olhar sobre ela.
— Quero ouvir de vossos próprios lábios aquilo que meu filho ouviu naquela feira.
E, naquele instante, Lúcia compreendeu que aquele não era um chamado para repreendê-la.
Era um convite para que, pela primeira vez, alguém dentro do palácio realmente quisesse conhecer a voz que ela tanto desejava fazer chegar aos poderosos.
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