Entre Acasos e Destinos
15 Capitulo 15
Notas iniciais
Percebendo o desconforto da jovem, o homem decidiu não insistir nas lembranças que pareciam pesar sobre seus ombros. Em vez disso, fez uma pergunta mais branda, quase como quem desejava devolver-lhe um pouco da esperança que a conversa havia lhe tirado.
— E se, por ventura, tivésseis novamente a oportunidade de estudar... o que desejaríeis aprender? Que caminho escolheríeis para vossa vida?
Lúcia permaneceu em silêncio por alguns instantes.
A pergunta, porém, não lhe era inteiramente desconhecida.
— Eu tive essa mesma conversa ontem com meu padrinho... — começou, mas logo se corrigiu, percebendo o tratamento que deveria usar diante de um desconhecido. — Quer dizer... com o conselheiro Pierre.
O homem ergueu discretamente as sobrancelhas ao ouvir aquele nome, mas nada disse.
Lúcia continuou:
— Se eu tivesse novamente a oportunidade de estudar, gostaria de aprender sobre as leis do reino, sobre história, sobre os tratados... tudo aquilo que pudesse me ensinar a compreender melhor como as decisões da Coroa afetam as pessoas.
Ela fez uma pequena pausa.
— E, se me fosse permitido escolher um caminho... eu gostaria de me tornar conselheira do rei.
O homem a observou atentamente.
Lúcia percebeu o olhar e sorriu, quase sem jeito.
— Sei que pode parecer um sonho grande demais para alguém como eu.
— E por que haveria de ser?
A pergunta fez Lúcia erguer os olhos.
— Porque sou apenas uma camponesa, senhor. Não possuo nome, título ou riquezas que me coloquem diante da Coroa.
Ela respirou fundo.
— Mas, ainda assim, gostaria de poder dar voz àqueles que não têm como fazê-la chegar até o rei.
Sua expressão tornou-se mais firme.
— Gostaria que Sua Majestade soubesse quando uma família passa necessidade. Quando uma criança deixa de estudar porque seus pais não conseguem alimentá-la. Quando alguém possui capacidade e vontade de aprender, mas precisa abandonar seus sonhos apenas porque nasceu em uma casa sem riquezas.
A voz de Lúcia ganhou uma convicção que até então não demonstrara.
— Eu gostaria de mostrar ao rei que existem muitas famílias no condado que precisam de atenção. Não quero que outros jovens tenham de escolher entre estudar e ajudar seus pais, como eu precisei escolher.
Por alguns instantes, nenhum dos dois disse uma palavra.
O homem continuava sentado diante dela, mas agora já não a observava como quem simplesmente conversava com uma jovem camareira.
Havia algo diferente em seu olhar.
Lúcia, entretanto, não parecia perceber.
— Talvez seja apenas um sonho tolo — murmurou, baixando os olhos. — Mas, se algum dia eu tivesse a oportunidade de aprender tudo aquilo que perdi, gostaria de usar esse conhecimento para que outras crianças não precisassem perder o que eu perdi.
O homem permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Não porque não tivesse o que dizer, mas porque precisava decidir qual seria sua próxima pergunta.
Até aquele momento, Lúcia acreditava estar apenas conversando com um pintor. E era exatamente assim que ele pretendia que continuasse.
Não havia pressa em descobrir tudo de uma vez.
Se lhe perguntasse diretamente sobre política, sobre a Coroa ou sobre sua opinião a respeito do governo do reino, provavelmente receberia respostas cuidadosas, moldadas pelo receio de falar diante de alguém importante.
Mas, se continuasse falando com ela como um simples homem interessado em sua história, talvez Lúcia esquecesse de medir as próprias palavras.
E era justamente isso que ele queria.
O homem apoiou os braços sobre os joelhos e lançou um olhar tranquilo aos jardins.
— É curioso... — comentou, como quem apenas refletia sobre a conversa. — Vós conheceis bem as dificuldades das famílias deste condado. Se tivésseis poder para mudar alguma coisa, o que faríeis primeiro?
Lúcia pensou por alguns segundos.
— Não sei se teria poder para mudar alguma coisa.
— Mas imaginai que tivésseis.
Ela sorriu discretamente.
— Então começaria ouvindo as pessoas.
O homem virou o rosto para ela.
— Antes de tomar uma decisão?
— Sim.
— E por quê?
— Porque nem sempre quem está distante do problema consegue enxergá-lo por inteiro.
A resposta fez o homem permanecer em silêncio por um breve instante.
Não demonstrou surpresa.
Apenas assentiu, como faria qualquer pintor interessado numa conversa.
— Então acreditais que aqueles que governam nem sempre sabem o que acontece entre o povo?
Lúcia percebeu a armadilha apenas pela metade.
— Não diria que não sabem... — respondeu, cuidadosa. — Talvez apenas não consigam saber de tudo.
O homem sorriu.
Era exatamente esse tipo de resposta que queria ouvir.
Ela não estava simplesmente criticando a Coroa.
Estava tentando compreender as limitações de quem governava.
Isso dizia mais sobre ela do que qualquer discurso preparado poderia dizer.
— E se descobrísseis que Sua Majestade tomou uma decisão que prejudicasse algumas famílias, o que faríeis?
Lúcia franziu levemente a testa.
— Eu tentaria compreender o motivo da decisão antes de dizer que ela está errada.
— E se, depois de compreender, ainda acreditásseis que fosse injusta?
— Então diria.
— Mesmo sabendo que poderia desagradar ao rei?
Lúcia respirou fundo.
— Se eu estivesse ali para aconselhá-lo, não deveria dizer apenas aquilo que ele deseja ouvir.
O homem baixou os olhos por um instante, escondendo o interesse que aquela resposta lhe despertara.
Aquela jovem não estava respondendo como alguém que desejava agradar. Estava respondendo como alguém que acreditava que um conselheiro deveria ser útil justamente quando tivesse coragem de discordar.
Mas ele ainda não estava satisfeito.
Precisava saber se aquela coragem permaneceria quando houvesse algo a perder.
— E se o rei vos mandasse fazer algo com que não concordásseis?
Lúcia ficou pensativa.
— Eu perguntaria a razão.
— E se ele não vos desse explicação alguma?
— Então teria de obedecer.
O homem ergueu levemente as sobrancelhas.
— Mesmo discordando?
— Sim.
Ela fez uma pequena pausa antes de completar:
— Porque aconselhar o rei é uma coisa. Tomar o lugar dele é outra.
Dessa vez, o homem precisou desviar o olhar.
A resposta havia sido melhor do que esperava.
Não porque estivesse perfeitamente formulada, mas porque revelava algo que ele procurava descobrir desde o início: Lúcia possuía convicções, mas sabia que convicção não lhe dava autoridade sobre aqueles que governavam.
Ainda assim, havia uma última coisa que desejava compreender.
— E se um dia descobrísseis que o próprio rei estava errado?
Lúcia sorriu de maneira quase inocente.
— Então eu esperaria que ele quisesse saber.
— E se não quisesse?
Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Então continuaria procurando uma maneira de fazê-lo ouvir.
O homem observou-a demoradamente.
Agora compreendia.
Ela não desejava poder por vaidade.
Desejava ser ouvida porque conhecia a dor de não ser.
Havia, contudo, uma diferença importante entre possuir essa vontade e estar preparada para carregar o peso dela.
E isso ainda precisava ser descoberto.
Ele não faria mais perguntas diretamente.
A partir dali, observaria.
Queria saber como aquela jovem tratava aqueles que estavam abaixo dela. Como reagiria diante de alguém superior. Se manteria suas convicções quando estivesse com medo. Se saberia reconhecer um erro. Se conseguiria guardar silêncio quando o silêncio fosse necessário.
E, sobretudo, queria descobrir se aquela coragem que surgia tão naturalmente numa conversa com um simples pintor permaneceria a mesma quando Lúcia estivesse diante do poder.
Para ela, porém, nada havia mudado.
A seus olhos, continuava diante de um homem mais velho, um pintor encarregado de retratar os jardins da Coroa e, talvez, apenas alguém curioso demais sobre sua vida.
Ela sequer imaginava que, a poucos passos dela, o próprio homem que acabara de lhe fazer tantas perguntas estava avaliando cada resposta.
Não como um pintor.
Mas como rei.
E, embora Lúcia ainda não soubesse, aquela conversa aparentemente casual já havia lhe revelado ao soberano muito mais do que ele conseguiria descobrir por meio de relatórios, conselheiros ou longas reuniões na sala do trono.
Encontrara uma jovem sem título algum, mas que sonhava em servir à Coroa não pelo poder que poderia receber, e sim pela voz que poderia oferecer àqueles que jamais seriam ouvidos.
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