Era um lugar escuro, negro e esbanjava medo a qualquer mundano que estivesse por ali. A casa no fim da estrada era torta, velha e desgastada. Cada passo era acompanhado por olhares obscuros da noite. À medida que se aroximava da casa, com sua afiadíssima adaga da luz, sentia os olhares da noite o observando. Era tenebroso, mas ele seguia com sua forte coragem. Johan Lasse, o mais destemido soldado da luz de todos os mundos. O único que fora capaz de banir Samael, o maior soldado das Trevas, do mundo dos humanos não deveria estar sentindo temor.

Seu primeiro passo no segundo degrau fez com que a madeira quebrasse, fazendo um alto “CRAC!”, e logo vários corvos voaram grasnando. Johan se aproximou da porta e esta se abriu. Ele entrou, espantado mas cuidadosamente, astuto a cada movimento que ameaçasse sua segurança. Lançou um pensamento à sua adaga e esta lançou uma luz na pequena parte interna do casebre. Ele viu olhos vermelhos apontados na direção da luz, amedrontados, e como se aquele pequeno filete de luz fosse uma bomba. As criaturas que tentavam se aproximar eram logo afastadas com a proximidade da luz. Eram tempos em que a Luz reinava, vencendo a batalha contra as Trevas. Mas acontecia uma guerra, e precisavam encontrar o centro de tudo, no que resutaria o fim deste terrível conflito, mas o fim dos dois mundos tão diferentes. O mundo bom e o mundo mau. À poucos passos de si mesmo, estava a porta que levaria a uma dimensão, que definiria o destino das duas forças, algo delicado e perigoso.

* * *

Acordei, com dor de cabeça. Parecia ter sonhado. Eu pensava ter salvado Luke, pensava ser uma aberração, mas não sabia ao certo onde tudo isso estava, se era meu subconsciente ou se realmente estava consciente. Mas era um quarto de hospital. O som eram de apitos consecutivos, sentia fios conectados em meu corpo e uma música tocava no fundo baixinha. E tinha certeza que a conhecia, mas não lembrava. Era tranquila e me trazia paz. Fechei meus olhos e sorri, quando depois de alguns segundos sem ver nada, senti um toque em minha bochecha. Abri os olhos, era Florence, e era ela quem pusera a música.

- Flo – sorri.

Seus cabelos vermelhos radiavam com a luz solar que entrava no quarto. Ela sorria pra mim. E com felizes olhos verdes disse-me:

- Olha quem veio te ver, depois de tanto tempo. – ela brilhava com seu sorriso branco e sua beleza divina.

Mas quando aquela pessoa entrou, era pra eu ter um infarto, pois meu coração subiu para 143. Não, não era Luke. Era... minha avó.

- Lio – ela disse com uma emoção tão grande, mas algo que não tinha me comovido tanto.

- Oi – respondi ao abraço com pouca confiança.

- Olha meu neto, eu errei claro. Mas estamos em situações sérias, e preciso falar com você. – ela pausou, olhou para Florence que saía de fininho.

- Não, a Flo fica.

- Elliot, melhor entendermos. Sua avó tem assuntos pra falar com você. Deve escutá-la. – ela saiu depois de beijar-me na bochecha.

Flo fechou a porta e deu-me um sorriso final.

- Lio...

- É Elliot. – cortei-a.

- Aquilo tudo teve um motivo, meu pequeno. Eu nunca quis fazer aquilo com você e com seu... pai. Eu não tive escolha.

- Então qual foi o tão grande motivo de você ter abandonado a gente, quando mais precisamos de toda a sua força?! – esbravejei para os quatro ventos.

Eu já imaginava as expressões de Florence do lado de fora, talvez nem estivesse ali. Sei que ela não é má-educada.

- Eu fui como você, Elliot. Esses, poderes. E é disso que preciso falar com você. Eles trouxeram consequências que não gostaria de envolver seus pais.

Esse tinha sido um assunto que teria chocado qualquer um, assim como chocara-me. Eu olhei para o chão, sério, e depois voltei o olhar a ela. Suas feições eram carinhosas e enrugadas, o que todos os netos teriam amor, mas o que ela fez conosco foi impossivel de suportar. Ela gritou com meu pai como se ele fosse ninguem, que nunca iria vê-lo mais. E que era uma escolha própria. Ela o magoou. Eu não sei se confiava mais na sua pessoa.

- Eu não sei mais quem você é, Luize. Não consigo te considerar uma avó mais. – eu disse o que sentia, e percebendo que cada palavra era uma faca afundada em seu coração.

- Elliot, eu vim aqui para te ajudar. E na primeira coisa da lista, perdoar-me e pedir teu perdão. Eu não tenho mais motivos para lhe abandonar. E você é o único que pode solucionar os atuais problemas.

- Que problemas? – preocupei-me.

- Se você for morar comigo, eu vou lhe contar tudo. Para nossa maior segurança.

- Sem chance. Não vou, e recuso. – falei já bem decidido.

- Lio, você desc...

- Não me chame de Lio! – gritei e logo bati a porta do banheiro atrás de mim.

Eu era sim um fraco. Eu fugia de tudo, fugia para um mundo onde eu encontrava coisas que faziam-me sentir melhor. Eu não tinha coragem para encarar os problemas e obstáculos da vida. Eu era um fraco.

Ouvi Florence entrar no quarto preocupada. Ela encontrou minha avó em seu semblante desapontado. Ela olhou para Flo e apenas andou até a porta, mas antes de sair virou:

- Converso com ele depois. Quando estiverem em casa. Por favor telefone-me.

Flo confirmou e andou até o banheiro e bateu cuidadosamente chamando por meu nome.

- Eu não quero ouvir ninguém!

- Eu não vou dizer nada.

Houve silêncio por alguns segundos, mas obriguei-me a abrir a porta devagar e ela entrou vagarosamente. Ela me viu jogado no chão como um trapo, ela apenas sentou por tras de mim e abraçou-me. Luize era uma mágoa muito forte que eu preferia deixar no passado. Mas não conseguia parar de pensar no que eu fizera pra trazer Luke de volta. Aquilo não era normal. Não era nada normal. E eu não sabia como iria lidar com isso.

O tempo passou, horas se foram. Florence conseguira fazer-me voltar para a cama do quarto envés do chão do banheiro. Adormeci mais calmo com sua presença. Eu ficava feliz em saber que ela me entendia e procurava não ficar perguntando muito. O médico falou que eu receberia alta em breve, e que já era para eu estar pronto para quando chamasse-nos. No momento em que ele nos chamou, já estávamos com as coisas no lugar. Florence estava carregando tudo, nem se importando com meus frequentes pedidos de ajuda. Ela negava todos.

- Então me espere, que quero ver o Luke antes. – eu disse, tendo sua confirmação com a cabeça.

Fiz o mesmo trajeto de antes, procurando a sala de cirurgia. Entrei e logo que vi os médicos passando por perto, eu desejei naquele momento que queria estar invisível. E então, os médicos passaram por mim e nem me notaram. Continuaram andando conversando sobre alguns passientes.Olhei pra mim mesmo e realmente, nem eu conseguia me ver! Eu aproximei-me mais deles. E pude ouvir pedaços das conversas ´´Como aquele Luke conseguiu sobreviver?!`` ´´Eu não sei, cara. É extraordinário! Ele apresentava morte. A gente já tava indo dar as notícias`` ´´Aquele menino, você lembra? Quando a viu ele entrando lá, ele tava vivo depois.``.

Eles foram interrompidos quando houve uma emergência. Então, sabendo que Luke estava vivo, corri, ainda invisível, para a sala onde ele estava. Meu destino foi inúltil. Cheguei à mesma porta, mas no lugar de Luke Luna, estava Mary Angela. Eu fiquei desorientado. Aquele hospital era enorme e não fazia ideia de como começar a procurar por ele. Diante de tanta bagunça mental, corri de volta, para a ala dos quartos. Procurava e procurava. Até que trombei com uma mulher sem ao menos perceber quer ela passava por ali.

- Ei! Cuidado! – ela ajeitou suas coisas que quase caíram.

- Desculpe, estou procurando por uma pessoa. Mas não sei qual é o quarto. O nome dele é Luke Luna.

- Quarto 233. – ela respondeu tediosa e saiu com uma carranca.

Abri a porta e lá estava ele, seu coração batia freneticamente e ele respirava calma e tranquilamente, logo que fechei a porta ele chamou-me:

- Lio? — ele mostrava emoção – É você?

- Sou eu, Luke, sou eu. – Falei quando fui sugado a ele e caí em cima dele, em um abraço tao apertado. Eu fiquei muito espantado. Como assim? Fui praticamente jogado a ele!

- Ei, garoto, calma! – soltou uma risada gostosa. O que tivesse acontecendo estava muito esquisito. — Eu estive tão preocupado quando soube que sobrevivi, eu fiquei louco querendo saber onde você estava. Não sabia mais o que fazer. Queria arrebentar tudo isso aqui, pra ter certeza que você estava bem. Não sei como consegui escapar, nem os médicos sabem. – ele falava em disparada e eu não encontrava palavras pra explicar-lhe o que tinha acontecido.

- Eu... Luke... E-eu te salvei. – falei incerto, fazendo-o calar na hora. E olhou-me atentamente, sem mover um músculo. Ele não tinha expressão no rosto, e eu odiava quando aquilo acontecia. Eu sentia-me perdido.

- E como você fez isso? De repente você resolveu ir até o inferno pegar minha alma de volta? – e começou a rir.

- Eu salvei você, Luke! E quando você sair daí, espero que não venha me ver indo embora. – saí do quarto pisando quente e chorando com minha raiva. Infelizmente eu tinha essa mania de chorar em momentos assim. Nunca na minha vida, eu pensei em fazer isso, mas ele nem estava se preocupando em saber o que realmente aconteceu. E estava brincando nestas horas que eu apenas precisava de seu apoio. Passamos por um momento de trauma. Um acidente e ele nem para pensar antes de brincar nessas horas sérias? Imbecil, idiota. Raiva, raiva!

Eu estava perto da porta de saída da ala das cirurgias, quando ouvi seus gritos. Ele de repente, apareceu na minha frente quando comecei a correr, mas acabei trombando nele, que estava seminu ali, apenas tampado por sua roupa íntima. Eu fiquei travado, ele me segurava firme e eu não tinha nem forças para soltar-me de suas mãos mais fortes que eu. Seu corpo exalando o calor da corrida até mim não deixava eu prestar atenção. Eu buscava ar onde não tinha. Era a sensação.

- Me perdoa, Lio. Sei que você ta precisando de apoio agora, eu acabei fazendo borrada. Você é muito importante pra mim. Não quero te perder, nem nunca mais. Me perdoa ter te irritado. – ele estava com sua expressão desesperada. E o vendo daquela maneira, como quase nunca o vejo, eu ri da sua cara:

- Idiota – parei de rir e saí de seus braços e não conseguia parar de olhá-lo.

Voltei para seus braços e dei-lhe um beijo forte, procurando seu desejo tao intenso como o meu era por ele. Ele demonstrava isto também, e me fazia querer ainda mais dele, mas eu me conti. Eu soltei-me novamente mas ele me jogou na parede e voltou a me beijar. Mas eu dei pití, e saí de seus braços obrigando meu cérebro a funcionar mais que meu coração estava.

- Eu te a-odeio, seu idiota. – empurrei-o com força e fui embora. – Te espero em casa. É pra você estar lá o quanto antes.

Ele apenas deixou seu sorriso bem claro para eu ver sua felicidade. Eu o a-odiava mesmo. Não tinha como não. Esse imbecil ora me tratava bem, como um anjo, mas ora me irritava que dava vontade de batê-lo muito. Mas era isso que fazia-me sentir cada vez mais próximo dele, fazia-me sentir mais apaixonado e com mais desejo de tê-lo só pra mim.

E para acabar com meus sorrisos bobos que saíam à medida que eu passava pelo hospital, pensamentos de minha avó vieram a cabeça de repente. Eu tinha uns dias de cão a resolver pois vovó Luize seria um desafio chato de vencer.

Notas finais
O terceiro capítulo já está quase pronto. Publico amanhã. Se puderem ajudar, peço que divulguem minha história.