A noite estava em um tom cálido de névoa e um tom negro de noite. Luzes vermelhas e azuis tomavam o recinto onde eu fiquei deitado, apenas ouvindo os gritos vindo do quarto de meus pais. A cena era como um trailer de cinema, cenas em partes me vinham na cabeça: eles sendo esfaqueados, torturados, enforcados... E eu não podia fazer nada, apenas sentir cada golpe desferido contra os dois maiores amores de minha vida. Lágrimas de dor e puro ódio apenas deslizavam em uma pele fria como o gelo. Tive ódio por não ser capaz de vingar pelo assassinato, ódio por ser só mais um fraco dentre os humanos.

* * *

Florence, uma grande amiga policial de Elliot, se deu conta de que se tratava de um crime envolvendo seus amigos (meus pais). Ela entrou apontando a arma em direções distintas, preparando a atacar em qualquer movimento. A cortina da sala se esvoaçou com a entrada de uma lufada de vento uivante, e um grito a fez com que disparasse contra a janela. Sentei-me na cama assustado e ouvi as conversas, ela chorava, assim como eu, pela triste perda.

Ouvi passos lentos e cuidadosos do corredor, e lentamente a fechadura de minha porta foi se abrindo. E por um instante, lembrei-me de quando meu irmão mais velho falava que o bicho-papão entraria em meu quarto e me comeria até meu último pedaço de carne.

Pisquei os olhos saindo do transe. Eles estavam me encarando. Florence e seu parceiro Johnny.

- Elliot... — ela disse em forma de consolo. Eu era só uma criança de 10 anos indefesa e assustada.

- O que está havendo? — perguntei chorando.

- Nada, meu querido. Você apenas precisa ser forte. Vamos sair daqui. Vou te levar pra minha casa.

Eu deixei-a conduzir-me até de fora. Chegando à sala de estar, minha visão foi puxada até a cortina, onde se formava um breu até a cozinha. Escutei vozes bagunçadas na mente. Eu sentia tanta escuridão naquelas vozes. Senti o mau em cada bagunça de palavras. Estremeci e apenas apertei minhas mãos nas dela e voltei à minha realidade.

* 6 anos depois *

- Elliot levanta! O Luke está te esperando na cozinha! — gritou Florence do corredor.

Levantei-me rapidamente e fui organizando minhas coisas às pressas e quando estava abaixando as calças de pijama, notei o olhar de Luke vindo da porta. Rapidamente subi as calças de volta. Fiquei envergonhado, assim como ele.

- Me desculpe. Te espero lá fora.

- Concordo.

Rimos.

Eu me perguntava por quê eu sentia-me assim perto dele. Tímido? Não sei se realmente gostava dele.

Entramos no carro depois de um café da manhã daqueles! Seguimos o caminho da escola e quando o sinal mostrou verde, um carro virou de uma vez na nossa frente. Luke deu uma freada brusca e só não bati no para-brisa por causa do sinto de segurança.

- Poxa! — ele buzinou e seguiu nosso caminho para nossa escola.

Eu ri dele e seu olhar pausou em meus olhos felizes como nunca estivera antes. Seu olhar era um magnetismo perfeito e como uma auréola de anjo. Verde, bem clarinho.

- Não vai olhar pra estrada? — perguntei.

Ele apenas parou de me olhar pra estacionar seu carro na vaga do estacionamento da escola. E voltou a olhar-me.

- Prefiro olhar aqui — ele pousou sua mão em meu rosto e passou o dedão na sobrancelha esquerda.

Foi uma energia louca? Sim. Eu quase nem respirei. E gostei muito de seu toque. Mas de relance, ele se afastou e apenas pediu desculpas. Saiu do carro de cabeça meio baixa. Resolvi lhe dar um tempo pra pensar. Eu também fiquei confuso. Com minhas reações, eu nunca tive essa vontade por garotos. Sempre gostei de garotas. Por quê diabos eu estaria sem jeito com Luke? Ele é apenas meu amigo!

Encontrei Grace na entrada. Ela me esperava na porta enquanto acenava. Ela era linda. Tinha cabelos loiros e olhos límpidos e azuis.

- Hey, Lio sexy. Qual sua aula?

- Literatura, piriguete.

- Música — ela disse zombando sabendo que eu amava as aulas de música. Dei-lhe um tapa no braço.

- Filha da p***. Sortuda. Só porque te zoei no começo das aulas do ano passado. — falei.

Entrei na minha aula. Literatura, a matéria mais chata que poderia ser inventada. E a única pessoa que poderia fazer ficar divertida, e que não estava ali, era ele. Onde mais estaria?

- Professora? — chamei-a enquanto anotava em seu caderno. — Eu poderia ir ao banheiro? Meu amigo está precisando de ajuda...

- Tá. Pode ir.

Andei pela escola toda, que por bom sinal era pequena, e lembrei-me que quando ficava nervoso, Luke sempre me levava ao jardim da escola. E eu me acalmava todas as vezes.

Eu o encontrei com as mãos no rosto, forçando-o.

- Luke..? — perguntei com medo do que ele pudesse fazer.

Ele me olhou e se afastou no banco onde sentava. Eu sentei cuidadosamente na outra ponta estranhando sua reação.

- O que foi? Já não basta a vergonha que passamos no carro?

- Mas somos amigos. Temos que cuidar um do outro. Mesmo nestes momentos.

- Mas eu não acredito que gosto de você... — ele percebeu o dito e tentou mudar o rumo — Digo, quero dizer mais que amigos. Eu não curto homens. Nem nunca curti. Então por quê estou gos... de você?

- Eu... E-eu não sei... — gaguejei.

Ele tocou meu rosto como antes. Passou seu dedo pela mesma sobrancelha, e eu novamente sentia a energia e mal respirava. Ele tocou sua testa junto à minha. E juntos, estávamos de olhos fechados. E eu não queria mais parar aquele momento.

- Sempre fui louco por você, Elliot.

Eu tive medo, medo das consequências, mas a única coisa que queria naquele momento era ele, sua boca e tudo que ele poderia me dar.

Rocei meus lábios nos seus. Primeiro foi apenas um selinho. Gostei da sensação de perigo, de proibido. E por isso apelei pra mais. Beijei mais intensamente dessa vez, e ele envolveu seus braços na minha cintura e deitamos, ele me puxando contra si. O fôlego chegou ao fim, e consegui soltar-me dele. Ficamos ofegantes um sorrindo para o outro.

Ele continuava deitado, então se levantou e me roubou um selinho. Senti a força da vergonha, e virei um tomate sorridente.

- É sério, gosto de você. Sempre gostei. Quer sair comigo? — ele disse me envergonhando ainda mais.

- Quando? — perguntei.

- Agora! Peguemos suas coisas e te levarei num lugar ótimo. Vai adorar.

- Mas vão descobrir na chamada!

- A Grace vai nos ajudar. — ele disse com aquela cara de quem segura o riso histérico.

Grace era nossa grande parceira, sempre fazia piadas dos outros e era bem animada. Topava tudo.

O sinal tocou e fomos correndo pra sala de Literatura. Pegamos meus materiais e sem ninguém ver, saímos pela porta do estacionamento agachados para o objetivo da balconista nao nos ver. Corremos, com ele na frente em uma corrida até o carro. Claro, um atlético contra um magrelo. Meio difícil.

Ele pegou-me pela cintura e rodopiou rindo e mostrando seus dentes bem alinhados e dando-me um beijão.

- Não acredito que vamos faltar aula. Se descobrirem estamos ferrados. — falei vendo sua expressão feliz.

Ele andava um pouco veloz e me olhava bastante.

- Luke, olha pra estrada.

Ele virou a rua ainda mais rápido.

- E anda devagar! — ele me olhou e quando olhei pra estrada, um carro estava em nossa frente.

Ele freou com todas as forças, e o final daquele filme ficou na mente até vir o grande impacto e tudo sumir.

* * *

Eu estava num casamento. Mas não via ninguém. Estava chovendo e o único ali era eu. Com um terno molhado, cabelo desgrenhado. Olhei em volta e estava em uma montanha. Onde estava uma casa com a chaminé soltando fumaça. Já nao havia mais decorações. Nao sei nem como desaparecera. Segui rumo a casa, mas de repente, a casa se explodiu com uma luz cegueira, acabei apagando. Como antes.

* * *

O quarto do hospital tinha um fedor artificial. Meu coração martelava forte e eu ofegava. O sonho deixara-me abalado.

- Ele acordou! — ouvi Florence chamar, acho que o médico.

Eu sentia dor na perna, e um belo hematoma roxo na coxa. Meus braços estavam ralados e minha testa ardia tanto. Tinha um curativo. Praticamente o corpo todo doía, como se eu ficasse o dia todo na cama e resolvesse, finalmente, levantar.

Senti as mãos de Florence ajudando-me a levantar o corpo. Eu estava pouco ferido, por sorte. Aos poucos eu ia lembrando todas as cenas do acidente.

- Luk..? — perguntei com falhas na voz. Eu não conseguia pensar e organizar direito as coisas dentro da cabeça e eu era tomado por uma forte tontura. Desmaiei em seguida.

* * *

- Luke? — acordei e apenas consegui dizer seu nome. Era o que me motivava a querer acordar. Eu precisava de sua mão passando sua energia e me dando forças para superar. Mas minha mente afundava, num mar barulhento. Cada gota d'água envolvendo num levitar, sem sentir o chão. Eu apenas pensava em nós dançando no escuro, ouvindo uma musica lenta, nossos olhares brilhantes cheios de felicidade.

- Acorde, Lio. — chamou-me calmamente Luke em nosso sonho.

Eu não queria, mas a luz era como um ímã, fui sugado pra fora do mar, pra fora dos seus braços, pra fota da sua vida.

- Lio! — Florence gritou aliviada por me ver consciente.

Ela apertou minha mão firmemente e forcei para nao demonstrar a dor.

- Como você está, Flo? — perguntei. — Quanto tempo fiquei aqui? Cadê o Luke?

- Eu fiquei apavorada. Nao soube o que fazer. Você está aí há dois dias. Ficou desacordado por um bom tempo, e sempre que acordava, por um segundo, era pra dizer Luke. E voltava a dormir.

- E onde ele está? — perguntei desesperado.

Ela entristeceu-se e eu tive uma crise. Eu tapei a boca e as lagrimas desciam freneticamente, e eu não conseguia conter o grito, e eu só queria poder vê-lo.

- Onde ele está?! — gritei em meio ao choro.

- Na sala de cirurgia.

Eu corri da cama mancando ignorando a dor.

- Elliot, você não pode sair da cama! — Flo tentou me segurar mas foi lenta aos meus esquivos.

Eu apenas andava olhando pelas salas os nomes de cada porta. Encontrei uma ala, onde havia várias portas com Cirurgia escrito nas placas.

Fui seguindo pelos corredores, e dois médicos me viram. Eles arregalaram os olhos e correram até mim.

- Não pode entrar aqui! Volte pra ala dos quartos!

Eu corri para a sala mais próxima e parei ao ver numa placa: "Luke Luna". Entrei bruscamente pela porta. Fechei com as costas e tranquei. Eles bateram e gritaram, me implorando pra sair. Depois de um tempo, quando desistiram, consegui focar minha visão no que precisava. Levantei-me do chão daquela sala, onde era possível ver algumas manchas de sangue nas paredes e em vários utensílios médicos. Eu o vi, com a capa hospitalar, ensanguentado na perna e no peito. Eu estava sem ar pra respirar tendo a visão de sua morte.

- Não! — peguei sua mão e lágrimas caíram em seu pulso.

Senti-as escorregando. Ao olha-las, me espantei: Seu braço formava linhas brancas brilhantes em cada milímetro que as lágrimas, de movimento próprio, passavam.

Eu já não lembrava mais de sua morte, apenas ficava chocado com a cena que eu via.

Ele, tão rapidamente, foi jogado ao ar e brilhava nos olhos, na boca e por toda parte. Seu corpo permanecia no ar sobre a cama, e, de repente, foi jogado de volta à cama. E a única coisa que pude ouvir, era um apito eletrônico. Tão breve como um piscar de olhos.

Notas finais
Elliot descobre que possui poderes extraordinários e precisa encontrar uma forma de proteger isso a mil chaves. Após uma experiência quase morte, ele percebe que sua vida mudará e ele não terá mais a vida de um adolescente comum.