Entre A Vida E A Morte
5 A morte mostra suas primeiras habilidades
Notas iniciais
Desci do carro, ao chegarmos ao aeroporto, e olhei o caminho que passamos para chegarmos até aqui. A vontade de voltar para proteger todos que eu amava era imensa. Parece que cada centímetro longe eu sentia que eu iria perdê-los. Seriam 6 meses longe. E meses que eu não conseguiria ficar sem vê-los, sem tocá-los, enfim, senti-los. A única coisa que tinha de nós juntos, era uma foto de nossa infância, eu, Luke e Grace abraçávamos Flo, e outra quando Luke e Grace beijavam as bochechas de Flo, e eu beijava seu queixo.
Luize pegou minha mão que tremia, eu estava com medo e novamente a fraqueza tomava conta de mim. Ela deu-me um abraço, e como éramos da mesma pequena altura, não foi desajeitado. Pela primeira vez, eu senti-me bem em seu abraço. Ela apalpava minha cabeça e deitava-a em seu ombro.
Uma moça, negra, tinha seus cabelos pretos e cacheados. Era perfeito, e ela era linda. Ela me puxou por um momento e sentou-me no chão, onde ela tinha alguns forros e cobertores. Ela não era mendiga, era notável por suas roupas e malas. Ela apenas me segurou e fez-me olhar o que ela fazia. Ela não sabia falar. Tentou algumas mímicas.
“Você triste, eu medito, tente esvaziar a mente” – disse ela em forma de gestos. Eu fiquei um pouco confuso, mas tentei. Por mais difícil que fosse, eu consegui esvaziar a mente. Apenas senti um brilho forte em minha visão dentro do cérebro. Eu sorria, sorria com o fígado e sorria com meu coração. Meu corpo sorria. Foi tão involuntário e ao mesmo tempo, mágico. Eu me senti feliz. Me senti revigorado, e tão forte como nunca.
Demonstrei minha gratidão pelos gestos emocionantes que eu fazia a ela e eu via seu imenso sorriso, e dentes tão belos. E eu percebi que tudo o que se passava por mim era neurose, paranoia, se eu estava me afastando dos meus queridos, eu estava deixando-os em segurança.
- 22th fly in few minutes. Please, go to 8th Gate. — ouvimos o som eletrônico da funcionária do aeroporto de Cambridge. Pegamos nossas malas e agradeci mais uma vez à mulher, que se chamava Elise.
Carregamos minha imensa mala até nosso lugar destinado. Passamos pelo raio-x nossas malas de mão. Nada de errado, e passamos pelo detector de metais. Nada de errado também. Cada passo que eu dava, era cinco de vontade de voltar. Cada piscar de olhos era um segundo a menos e um segundo mais longe. Mas eu sorria. Sorria com meu fígado.
- O avião fica logo ali. – apontou minha avó logo à frente. – Já voou alguma vez?
Fiz que não com a cabeça, com olhos preocupantes.
- É tranquilo, vai adorar.
- Sou claustrofóbico. Eu preciso de ventilação.
‘’Use o seu melhor” Uma voz masculina veio em minha mente. Sorri, porém confuso. Era parecida com a de Luke.
O vôo foi tranquilo, realmente, apenas estranho pelo fato de que as pessoas estavam confusas em como pudera ser possível haver uma brisa dentro do aeroplano.
O pouso em Dublin, na Irlanda finalmete chegara. A cidade era envolvida por um tom cinzento. Estava muito frio. Eu parecia uma bola de roupa quente, quando Luize andava tranquilamente.
- Temos que achar Daniel, ele nos espera com o carro pra levarmos até nossa cidade.
- Ah, não é Dublin... Por um momento tinha ficado contente que fosse. – falei desapontado.
- Fica à 3 horas de viagem em alta velocidade. Mas como as ruas estão congelando, melhor irmos devagar. Por segurança – disse ela logo que depois abriu um sorriso e acenou. – É o Dan. Vem.
Ela pegou um pouco da bagagem e se apressou. O garoto tinha seus cabelos escuros apesar da região onde nasceu. Devia ser genética. Ele tinha umas tatuagens visíveis no antebraço e usava uma camisa marrom com mangas dobradas por conta do forte aquecedor do prédio, mas mesmo assim fazia frio e não entendi como ele conseguia suportar. Bom, pensando bem, eu não estava entendendo nada. Logo ele colocou um casaco enorme e ficou quieto quando notou meus olhares ás tatuagens. Não fazia sentido, eram alguns símbolos. Como se significassem alguma coisa.
- Daniel, esse é Elliot, seu primo, filho de Marcel. – apresentou-me Luize a ele.
Ele ficou de olhos e boca abertos em espanto, mas logo mudou a expressão quando ouviu o som da garganta de Luize.
- Oi. Primo. Pronto para mais uma viagem? – ele disse nada surpreso, mas ele causava-me desconforto. O ar estava diferente. Mas eu só estava incerto se era algo bom ou algo perigoso.
Acenei com a cabeça. Ele se aproximou e pegou minha mala grande, fiquei com as outras menores. Seguimos o caminho para fora do aeroporto, e estava tão frio que recuei encontrando com a minha mala nas mãos de Daniel.
- Continue, frio não é nada. – ele disse me olhando. Ele tinha olhos negros.
Seguimos o caminho até o carro. Eu passei direto por um R8 preto que estava ali, e fiquei abismado quando os dois entraram nele. Uau, eu pensei que fosse uma picape, ou algo do tipo.
- A madame vai esperar eu abrir a porta? – Daniel brincou.
- Não chego a esse ponto – abri a porta e fechei-a.
Encontrei meu celular no bolso de uma das muitas blusas de frio que eu usava. Coloquei os fones e tratei de colocar logo uma música. Música depressiva.
Passamos por uma boa parte da cidade, e não era uma coisa tão linda. Nevava muito e o vidro estava muito embaçado e gelado. Parecia até o fim do mundo. Eu tirei minhas luvas e toquei. Tirei na hora, pois estava muito quente. Não estava mais frio. Olhei espantado para frente, em busca de respostas.
- Você não é o único que possui poderes. – Daniel disse. – Também sou...
- Dan – Luize interrompeu Luize.
- Você é o que? – perguntei sério.
- Elliot, você saberá tudo quando chegarmos em casa.
Calei a boca e coloquei rock pesado, característico à raiva que eu estava sentindo por eles esconderem tudo de mim. E a cidade ia passando por minha visão, saíamos da cidade pela rodovia, e um aparelho dizia para dirigirmos com cuidado e devagar por conta do tempo. E tudo ia ficando para trás, cada vez mais longe, consequentemente minha vida tornaria-se uma vida diferente, totalmente, redondamente diferente.
Comecei a cochilar observando a vegetação correr diante de meus olhos, meu travesseiro era perfeito e eu não viajava sem este. Tinha meu cheiro, e peguei escondido uma jaqueta de Luke que estava na minha casa, e o cheiro dele estava penetrado em cada fio de tecido da peça de roupa. Enfim, acabei dormindo mais, depois de ter dormido uma viagem aérea longa inteira.
* Duas horas depois *
Ele dormia profundamente em seu travesseiro, usando uma jaqueta enorme para seu tamanho. Felizmente estava mais quente na fazenda. Ele tinha seus cabelos cor de mel emaranhados e longos no rosto. Estava a típica criança de poucos anos que fui obrigada a deixar. Oh, meu netinho. Se entendesse-me bem. Saberia que nunca quis enganá-lo nem magoá-lo.
Acordei depois de algumas horas, é... realmente era muito sono para uma pessoa só. Era meu costume: dormir muito. Eu parecia uma preguiça, mas no lugar de um galho, eu agarrava um travesseiro. Abri finalmente os olhos e a luz do dia era morna e brilhante. Tinha um ar alaranjado de sol. Eu espreguicei e vi Daniel e minha avó carregando as malas. Eu parecia um folgado. Não queria causar essa impressão.
- Ei, me deixa carregar alguma coisa. – pedi.
- Fica tranquilo, não precisa – respondeu ele.
Enfim, peguei o travesseiro e a réplica do Luke e segui para dentro. Estava bem mais quente comparado à Dublin, tinha um vento frio, e um agasalho seria recomendado. Olhando em volta, fiquei maravilhado com a beleza daquele sitiozinho. Havia vários tipos de flores que encantaram-me. Era tudo tão colorido e verde, que nem nunca tinha visto nada assim desde a última vez que vim aqui, isso faz uns 12 anos. Saudades daqueles bons tempos.
- Daniel, quando éramos crianças, éramos amigáveis um com o outro? – perguntei.
- Claro, brincávamos de tudo no quintal dos fundos e aqui. Era tudo tão bom. A gente te zuava porque era mais novo. E já te acertamos muitas bolas de neve. – ele riu. Daniel tinha o típico jeito de moleque de falar quando se tratava de assuntos empolgantes.
Fiz uma cara de que pouca vergonha, como eles puderam fazer isso com uma criança?
- Quantos anos você tem hoje? – quis saber.
- 23.
- Uau.
- Entrem meninos, vou fazer um café para aquecer um pouco.
Entramos na casa, e era muito bem iluminada. Havia um lustre enorme. A mobília era de estilo moderno. Sofás de couro preto e marrom, mesa bem decorada e vários vasos flores espalhados pela casa.
- Venha, vou mostrar seu quarto. – chamou-me Daniel.
Segui seus passos que destinavam a uma porta toda bem desenhada em detalhes de algumas curvas feitas na madeira. Ele me entregou uma chave comprida. Tentei inseri-la na fechadura, mas não entrou. Ele pegou minha mão e girou-a. Estas bolinhas ficam para baixo. Mostrou-me eu seu toque deixava-me atormentado. Mas ao mesmo tempo era bom, ela emanava calor, e energia, mas diferente, uma energia descomunal. Não uma energia como acontecia com Luke, mas uma força. Enfim, conseguimos abrir a porta e o quarto era muito bem arrumado. Tinha um guarda-roupas de parede alto.
Havia uma escrivaninha com uma impressora e um ultrabook com o que espantei-me. Como eles conseguiam tanto dinheiro pra comprar essas coisas caras. Do lado destes, havia um modem de internet ligado, e um caderno com capa de uma lâmpada acesa, porém quebrada. E na parte debaixo estava em preto. Fiquei confuso em questão, mas continuei vendo os belos detalhes do quarto, pequeno mas aconchegante e com sensação gostosa.
Eu sentia a presença próxima de Daniel atrás de mim, ele emanava energia forte que me deixava estranho. Ele parecia um Sol, mas não, ele não brilhava, era só a força energética que saía dele.
- Que foi? – perguntou-me.
- Você. Você parece que vai explodir. Ta queimando aqui dentro. Sinto algo vindo de você.
- Eu... E-eu... fico assim quando... Ah esquece. – e saiu do quarto às pressas.
Fiquei boquiaberto ali, como um tonto revendo a cena novamente.Tirei minhas coisas da mala grande e separei tudo na cama enorme. Abri o guarda roupa e tudo vazio com muitos cabides esperando para serem ocupados. Separei tudo por cor. Minha mãe era louca por organização, e sempre ensinou-me a colocar tudo bem arrumadinho. E pensando nela, apertei forte a camiseta branca na minha mão. Ela pegou fogo, fazendo-me lançar para longe de mim.
- Vó! – chamei-a.
Ela chegou rápida já perguntando o que tinha acontecido.
- Minha camiseta pegou fogo. E eu apenas apertei-a.
Ela não falou nada, apenas olhou onde estava os restos da roupa.
- Você está descobrindo seus poderes. Logo saberá controlá-los. Daniel descobriu bem cedo, antes mesmo de você. Ensinei-o a controlar, mas ele ainda não o controla tão bem. Por isso a forte energia que ele estava soltando.
- Você também sentiu? – perguntei.
- Senti, ainda tenho alguns vestígios de poder. Hoje à tarde nós iremos começar nossa primeira aula. Você saberá a história da sua vida, e tudo o que motivou o que aconteceu contigo até agora. Fique tranquilo, saberás de tudo.
Assenti.
- Venha, vou te ajudar com essas coisas. Quanta roupa. – ela disse sorrindo.
- Estou organizando por cores. Minha mãe neurótica com bagunça – soltei uma risadinha triste.
Ela deu um sorriso doce e tocou meu braço direito. Pegou uma camiseta e entregou-me. Colocamos tudo em pouco tempo. Estava tudo em seu devido lugar, em sua devida ordem. Na parede onde situava-se a escrivaninha, havia um painel negro macio, próprio para um mural de fotos. Coloquei os retratos na escrivaninha ao lado do computador. Pluguei meu celular ao computador e imprimi muitas das fotos que eu mais gostava. Ficaram lindas pois o papel era mais grosso, não o sulfite. Preguei com as tachinhas cada foto, e na antepenúltima, acabei furando o dedo. Uma gota vermelha surgiu de repente e cochichos vieram a minha mente, fazendo-a ficar vazia de pensamentos e eu estava paralisado. Não pude fazer nada. Minha cabeça só estava negra, e eu não tinha controle dos cinco sentidos.
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