“Porque não vai falar com ele?” Instigou-me com pouca energia, como já era de se esperar de alguém que viveu a vida toda em parque da videira. Olhei mais uma vez com serenidade pela janela, minha mente pensando em porque motivos uma família mudaria para cá, o lugar menos amistoso do continente. Eu era diferente “Vai menina, a etiqueta nos diz que quando nossos vizinhos chegam, faz-se necessário cumprimentá-los”, minha mãe insistia em me dizer que fosse cumprimentá-los, em especial o garoto bonitinho que estacionava o carro na garagem. “Querida, me poupe a irritação em ser cordial, você consegue! Eu sei! Só me deixe aqui com meus afazeres!” Assenti com a cabeça. Iria dar-lhes boas vindas.

Até hoje não entendi porque as ruas próximas ao parque tem nome de cores. Na realidade, dificilmente consigo entender alguma coisa nesta cidade. Minha mãe, uma viúva sem vida e sem amistosidade, nascida e criada em Parque da Videira, nunca almejou sair daqui. Nunca tentou expandir seus horizontes. Talvez costurar e viver deste ofício seja o máximo que possa alcançar. Eu posso imaginar inclusive, que algumas pessoas nasceram com aptidões limitadas ou com falta de ambição: Minha mãe é uma delas.

O quintal de minha casa é decorado. Pequenas árvores podadas cuidadosamente tomam forma, dizem que todos os arvoredos parecem com um sorvete. Eu não sei, amo sorvete, mas não vejo muitos lugares que vendem. A quitanda do Luigi era exceção, no entanto, um grupo de pais decidiu que tal iguaria era prejudicial; dava gripe e tirava a fome das crianças. É, eu não tomo mais sorvete. Fechei a porta calmamente e obervando a rua, pude mais uma vez atestar a apatia de minha cidade. Mas aquele jovem era diferente. Usava um mp3 e cantarola vertiginosamente, enquanto terminava de tirar algumas coisas de dentro do carro. Acho que gosto dele, há energia em seus movimentos.

Desci até a calçada. Na esquina, no poste, o nome Rua Rosada era visualizável. Pelo menos algo é colorido nesta cidade. Já mencionei que as ruas desta região tem nomes de cores? Atravessei sem olhar, mesmo com os inoportunos acessos de loucura de minha mãe sempre que faço isso. Inclusive se olhar para trás agora, poderei ver seus olhinhos opacos pela janela, me observando. Ela tem algum tipo de patologia sinistra, que a faz obsevar a tudo e a todos. O sótão de minha casa, inclusive, é o observatório particular dela. Janela pequena e altura razoável. Tudo o que minha senhora mãe precisa para se deleitar.

Estranhamente a casa dos vizinhos tem um muro. Baixinho concordo, mas ele existe. Sua murada é interrompida por um portal de ferro puro, não chega a ser grande, mas é suntuoso. A casa é grande. Posso contar 4 quartos no mínimo, divididos em dois andares amplos. No portal, uma pequena placa sentencia: casa 15, o que é obvio visto que a minha é 14.

Me aproximei e logo fui percebida. O jovem não tirou os olhos de mim, me encarava com suspense, como se estivesse perguntando o que eu estaria fazendo me aproximando vertiginosamente de sua casa. Não me assustei, já me basta os infelizes da minha sala que receiam até em respirar; se ele fosse assim, minha vida não perderia em nada. Talvez na expectativa de que o garoto me traria um pouco de agitação, mas posso sobreviver sem isso (ou não).

Esbocei um sorriso. É bom fazer isso as vezes, mas sorrir não é algo visto com bons olhos pelos moradores de parque da videira. Eles logo pensam que você está tramando algo, e que a simpatia é uma excelente maneira de dissimular suas intenções. Obviamente eu discordo, e acho isso um tanto ultrajante, você simplesmente não tem a opção de ser feliz! Bando de idiotas. Parei em sua frente, olhei firmemente em seus olhos escuros e dialoguei:

– Seja bem vindo vizinho! Que prazer ter pessoas novas em minha cidade! Como se chama?

Meu gesto foi retribuído. O garoto retirou imediatamente os fones de ouvido enquanto fechava finalmente o bagageiro da perua.

– O prazer é todo meu! Tarso. Me chamo Tarso. Ah, e antes que diga algo sobre meu nome deixe-m explicar. Em algum acesso de loucura meus pais acharam que eu poderia ser tão icônico como a antiga cidade de Tarso e resolveram me dar este nome.

– Ou eles literalmente trocaram os pés pelas mãos lhe dando este nome. – interrompi a sua explicação com um trocadilho infame referente aos dedos dos pés e tarso.

Ele riu. Um belo sorriso extensivamente branco. Por um momento pensei que minha vida pacata seria salva por alguém com um pouco de bom humor e alguma experiência do “mundo de fora”

– Venha! Vou lhe apresentar a meus pais. Mas antes, qual o seu nome? Juro que não ouvi se você mencionou!

– Ah! Como pude. Jamile! Meu nome é Jamile.

– Muito prazer Jamile!

Então ele veio e me beijou no rosto. O típico beijinho de cumprimento tão comum entre as pessoas, mas tão raro em minha cidade. Confesso que corei por alguns instantes, mas pude disfarçar. Viver no meio de tantas pessoas falsas me deu alguma propriedade em cinismo.

– Adoraria conhecê-los.

O evento não poderia ser mais agradável. Sua mãe, dona Alice, é uma dona de casa dedicada. Inclusive cuida com afinco do irmão mais novo de Tarso: Lucas, de apenas 7 meses. A propósito ele é bem bonitinho, cabelinho claro e olhos bem escuros, como os do irmão. Seu pai não estava. Havia ficado no banco resolvendo alguns problemas referentes a sua admissão. Ele seria o novo gerente, e penso eu que ganhará um belo salário, para se enfiar em Parque da Videira sem pestanejar. Na realidade não foi bem assim. Eles pensaram muito antes de mudar para cá. Vindos da capital, seria dificultoso se adaptar a pacatez da cidade em especial a Tarso, que fazia o colegial. Outro aspecto agravante tange justamente o quesito educação, mas logo os alertei que o ensino em minha cidade é um dos melhores do país, praticamente todos aqui são intelectualizados, o que torna a cidade deveras chata.

– Mas então você mora na casa a frente? – questionou dona Alice com simpatia – Somos as únicas casas da rua, como é mesmo, rua Rosada. Mas acho completamente atraente estes campinhos e o parque ao redor.

– Ah dona Alice, eu não ficaria tão feliz com tanta árvore por aqui. Morar nestas bandas pode ser adorável, mas é bem mais frio que o restante da cidade. Eu mesma já quis mudar muitas vezes, mas sabe como é né, minha mãe insiste em manter a tradição da família. Meus bisavós moraram na casa 14.

– É querida, nem tudo é um mar de rosas, não havia pensado por este lado. Me desculpe a balburdia, é que nos mudamos hoje cedo, e apesar da casa estar imobiliada, ficou muito tempo fechada! Temos uma longa tarde de faxina. A imobiliária enviou-nos alguns ajudantes, espero que não repare minha ausência.

– Tudo bem mãe – exclamou Tarso – Jamile irá me mostrar a cidade enquanto isso não é? – Fitou-me com inquietação. Aparentemente ele estava genuinamente interessado em se incorporar a cidade, mal sabe ele que aqui as pessoas não se relacionam muito bem.

– Claro – assenti – Porque não?

Atravessando o grande jardim, a grama rala enegrecida, queimada pelo inverno de outrora, caminhamos pela alameda sem nenhum movimento. Eu expliquei a Tarso sobre os moradores daqui, as tradições pouco atraentes que permeiam Parque da Videira além dos principais eventos da cidade, que são pífios, mas ainda sim trazem algum movimento. Ele ficou interessando em escalar as montanhas, pelo menos a parte escalável. Eu o previni que não o fizesse sozinho, mas por sorte já subi muitas vezes até a pedra principal. É um dos meus passatempos observar a cidade lá de cima, penso o tanto que é bela, mas desagradavelmente chata.

– É realmente alto? Quer dizer, eu posso sentir o vento mais forte e o ar ainda mais puro? – Exclamou meu novo amigo com entusiasmo.

– Ah sim claro, é uma trilha bem vigorosa, mas vale cada suor de esforço. Eu procuro ir para lá escrever um pouco e meditar sobre a vida.

– Escrever? Você é uma escritora ou algo do gênero?

– Mais ou menos. Eu tenho meus rabiscos, mas faço mesmo por não ter mais nada para fazer.

– Sabe. Sinto que vou me dar bem com você. E sinto que, por tudo o que você me disse, você será a companhia que me salvará deste possível marasmo.

Corei mais uma vez. E obviamente ele não percebeu. Estava interessado demais em ver as coníferas do parque. Não que não sejam belas, mas algo que me deixa profundamente irritada é parecer que as pessoas não estão em sintonia com meus pensamentos. Ele parece tão avoado, já começo a duvidar se sua empatia não foi reflexo de meu entusiasmo em conhecer alguém de fora.

Já é fim da primavera. As folhas vívidas das arvores na rua contrastavam com o asfalto molhado proveniente das primeiras pancadas que preconizam o verão. Tarso ficou espantando com a boa conservação do asfalto e as belas esculturas formadas pela podagem das arvores em nosso trajeto. Eu lhe expliquei que as pessoas daqui são muito estéticas. Todas as casas são bem cuidadas, e a cidade inteira é um patrimônio de muito orgulho dos habitantes. Cada pequena lixeira de cerâmica pintada a mão, cada banco de bronze estrategicamente posicionados em algumas esquinas e até mesmo os postes impecavelmente bem cuidados são reflexos da atenção excessiva e esmero dos habitantes em conservar a cidade a mais bela possível.

– Se você observar, existe ainda arquitetura clássica. Tanto na biblioteca, como no Saint Paul.

– Saint Paul? – questionou-me em duvida – Seria uma escola?

– Exatamente – assenti com a cabeça – E a única instituição de ensino da cidade. No entanto, não se assuste. A educação é primorosa! Certamente estudaremos juntos. Segundo colegial certo?

Ele concordou. Se lembrou inclusive, que deveria entregar a papelada da transferência o mais breve possível. Segunda retornava com tudo às aulas. Disse-me que ficou feliz em saber que não encontrará a sala totalmente estranha, porque já me conhecia. Sorte a dele! Porque seu jeito simpático não será o suficiente para fazer novas amizades. E espero que nem queria! Não vale a pena envolver-se com o pessoal daquela escola, em especial da nossa classe.

Já caminhávamos por uma hora quando achei melhor voltar. Não era sábio de minha parte deixar minha mãe tanto tempo sozinha. De alguma maneira muito estranha ela dependia de mim! Como se eu fosse a sua voz e a sua presença. Como se todos os aspectos sociais que a permeiem sejam exteriorizados através de minha presença. É estranho dizer isso e realmente só compreendi esta situação a duras penas, e com muita reflexão. Minha mãe é doente. Possui algum tipo de fobia social irremediável, e eu tenho que cuidá-la.

– Acho melhor voltarmos não acha? Foi uma bela caminhada e imagino que sua mãe já esteja preocupada. – Tentei manipulá-lo com meu argumento pífio, mas acho que consegui.

– É verdade. Talvez esteja, apesar de eu duvidar muito, mas também preciso voltar e ajudá-los com a mudança.

Aliviei-me. Estávamos voltando. Carro é uma coisa rara aqui em Parque da Videira. Apesar de existirem alguns, as pessoas de uma maneira geral preferem caminhar. Eu estou neste grupo. Não que eu tenha opção, mas ainda prefiro estar livre para ir aonde quiser da maneira que quiser, e um automóvel te priva bastante disto. O único pequeno ônibus que circula a cidade vive com poucas pessoas. Geralmente velhos incapazes de percorrer longas distâncias. A cidade é tão provinciana que o motorista, assim como o cobrador – que diga-se de passagem não cobra nada. Pois o serviço é gratuito – sabem exatamente em que lugar passar e quais passageiros pegar. Há e claro os conhecem pelo nome. Na realidade, todos se conhecem por aqui. É aquela clássica sina de cidade pequena. Faça algo errado, e todos saberão! Caminhar, e bastante, é algo que Tarso terá que aprender a fazer. Não que ele se importe, imagino, ele parece ser um rapaz bem ativo.

Continuamos trocando ideias pelo caminho de volta. Ele me explicou que Porto Alegre é muito bonita, mas está tomada de favelas – Obviamente eu já sabia. – Disse-me também que a violência é algo que cresceu bastante, inclusive é bem alarmante em algumas regiões. Falou-me de uma antiga namorada, do nascimento de seu irmão, da grande expectativa de seu pai com o novo trabalho – O que eu acho uma pena, porque ele irá se frustrar muito, quiçá se arrepender de ter vindo pra cá – e da mania patológica de limpeza de sua mãe. Falou-me ainda que adora musica, que curte ler e que vive uma fase mais mística de sua vida. Inclusive garantiu-me que conseguia ouvir vozes. Eu duvidei. Sempre fui cética demais com estas coisas de paranormalidade, espíritos e móveis se arrastando. Estudamos na escola que isso não passa de divagações de mentes pouco ocupadas. Minha mãe não pensa o mesmo.

Após despedir-me de Tarso, gritei por minha mãe. O som da porta se fechando agiu como um feromônio que trouxe taxicamente minha mãe até mim. Sua cara de espanto, os olhos dilatados e leves tremores nos dactilos prenunciaram uma torrente de informações pouco convencionais.

– Não quero vê-la mais com aquele garoto! Nem com ninguém daquela família! E em especial, não se aproxime daquela casa!

A voz de minha mãe foi taxativa! Como se estivesse determinada a serrar minhas pernas se contrariasse sua vontade.

– Acalme-se mãe! Há um minuto a senhora me pede para ir dar-lhes as boas vindas, e agora inquire com solidez que me afaste deles? São boas pessoas! Inclusive terão muito o que acrescentar a nossa vizinhança. Não me diga que lhe escreveram novamente?

Suspirava com energia. Inclusive as únicas vezes que via minha mãe realmente energizada era em suas crises de pânico repentinas. Afirmava com dedicação que recebia cartas do além lhe alertando sobre coisas e pessoas, e que tinha que seguir as instruções determinadamente, ou um castigo profuso julgaria a ela e a mim mesma. Estendeu-me a mão com um pedaço de papel judiado entre os dedos. Com um olhar cadavérico, levemente lacrimoso, fitou-me com espanto. Suas canelas magras e trêmulas agora pareciam mais evidentes, desnudadas por um longo vestido que estacionava imediatamente acima delas. As marcas de expressão em sua testa estavam fletidas, mostrando claramente seu nível de tensão e estresse. Seu coque que outrora encontrava-se minuciosamente bem armado agora mostrava esparsos fios rebeldes e de sua voz lânguida, balbucios direcionaram-se a mim:

– Le...leia!

Abri o papel amassado, e de suas páginas, informações novamente surreais lançaram-se a mim:

“Mande-os embora! Esta casa me pertence! Pertence a todos nós! E você não deve deixá-los ficar. Margarida! Se ainda mantém algum pingo de amor e respeito por sua filha e por si mesma, retire-os dali! Aquela casa não lhes pertence! NÃO LHES PERTENCE! Se não o fizer, é melhor se afastar, porque sussurros... sussurros na casa 15 serão ouvidos de sua porta, e se você a abrir... o mal que reside lá também residirá aqui! Tapem os ouvidos para tais maldições! Porque elas serão lançadas em cada um deles! Não nos agrada sua presença! ESTA CASA PERTENCE A TODOS NÓS!”

Amassei o papel casualmente. Os olhos grandes de minha mãe falavam por ela:

– Leu? – exclamou ainda um pouco balbuciante mas já mais controlada

– Sim – respondi com desdém – E acho que a senhora passou dos limites desta vez. Até quando permitirá que sua mente sugestione argumentos e situações trágicas desta maneira? Não vê que está enciumada? Não se preocupe mãe! Eu ainda lhe amo e lhe devo minha dedicação! Não há o que temer! Estarei sempre aqui para senhora.

Dos olhos de minha mãe, um copioso fio de lágrima bruxuleou por sua face. O olhar fixo e profundo, e o queixo levemente trêmulo não pronunciaram o que estava por vir. Em uma explosão de fúria ela correu em minha direção. Os punhos cerrados e travados como se pudesse realmente me ferir. Socou-me o peito 3 vezes, como que um martelo, enquanto debruçava sua cabeça em meus ombros. Nada fiz, apenas escutei sua lamentação insana:

– Eles vão nos matar! Eles vão! Eu já posso ouvir os sussurros! Os sussurros na casa 15! Você precisa fazê-los ir! Precisa persuadi-los a ir embora!

A cena tornou-se mais patética. Como poderia minha própria mãe, que gerara alguém tão racional como a mim mesma, ser marionete de sua própria insanidade. Espíritos não existem, fantasmas são falaciosos, e está mais claro que a luz do dia que foi ela mesma quem escreveu tal bilhete. Não podia permitir que os devaneios de minha mãe dragassem sua razão. Abracei-a com força e então sussurei em seus ouvidos:

– Eu farei o meu melhor...


Ela imediatamente se acalmou. Mais uma vez minhas manipulações surtiram efeito.

– Mas para fazê-los ir, é necessário que me aproxime deles em primeira estância minha querida mãe! A senhora pode pedir aos espíritos que esperem eu mandá-los embora? A senhora faria isto por mim? Sua filha querida e dedicada?


Minha mãe assentiu com a cabeça. Os olhos chorosos deixaram de sofrer. Limpou as lágrimas com a barra da saia enquanto subia as escadas até o seu quarto. Decidi que não poderia mais permitir novos acessos destes. Pediria ajuda a doutor Müller, ele certamente saberia o que fazer.

Subi as escadas lentamente, precisava ver se ela estava bem. Cada estalido provocado por minha pisada denunciava meus movimentos. Passei por meu próprio quarto. Nada de inabitual, com exceção de meu suporte de canetas, localizados acima de minha escrivaninha, que estava virado e com objetos espalhados pelo chão. Minha mãe passara aqui – pensei – O som de risadinhas tênues ecoou pelo corredor. Pensei o quanto minha mãe possuía labilidade emocional, de uma explosão de ira para uma manifestação cômica em segundos. Conforme me aproximava de seu quarto era possível ouvir melhor tais contentamentos. Somados aos risos, algumas palavras inaudíveis eram pronunciadas. Foi difícil entender até que uma delas tomou forma: RICIERI!

Estranho. Muito estranho. Senti um frio em minha espinha, um medo não convencional. Por um momento pensei que não estava sozinha. Olhei para trás. O corredor, semi iluminado por uma janela parcialmente aberta em seu fundo, não continha ninguém. De um pequeno aparador, aonde alguns porta retratos antigos estacionavam-se por décadas, um som fino vítreo sucedeu-se. A proteção de vidro que envolvia uma das fotos partiu ao meio, seguido de uma queda. “Mas o que aconteceu aqui” – pensei – Rapidamente observei a janela. A cortina, aveludada balançava com afinco, denunciando um vento forte que somente nas serras gauchas poderia soprar. “Minha mãe ficará furiosa! Maldito vento! Mas também, se fechasse a janela certamente não teria perdido um porta retratos”. Retrocedi até o local, cacos de vidro espalhados pelo tapete. Não tencionei limpá-los, apenas retirei a foto do meio deles. Nela, minha mãe ainda jovem, juntamente com meu falecido pai, repousavam alegremente no jardim. Ao fundo, estranhamente, a casa 15 fazia contraste.

Olhei para o chão. “Isto vai dar trabalho para limpar” minha divagação foi precedida por um fisgado em meu dedão. Um fio de sangue inundou a minha unha e gotejou sobre a foto. Um caco de vidro remanescente perfurara minha pele. Já não havia mais a casa 15, mergulhada em meu próprio sangue, consegui ainda salvar o restante da foto! Pelo menos meus pais ficaram intactos. “Mas que maldição” – pensei irritada – Levando meu dedo a boca, sorvendo o pouco sangue que ainda insistia em fletir voltei ao meu destino. Atravessei todo o corredor com energia, resolvi que acabaria logo com esse suspense. Ao alcançar o quarto de minha mãe a observei no chão, debruçada sobre um papel como uma criança. Em sua mão, um caneta de tinta vermelha rabiscava alguma coisa. Me aproximei.

– Mãe. O que a senhora está fazendo? Porque está ai sentada desenhando? Parece uma criancinha.

Minha mãe virou para mim. Um semblante nefasto para não dizer diabólico. Estendeu o desenho em minha direção enquanto continuava a rir. Aquelas risadinhas infantis que ouvira anteriormente. No papel, o desenho de uma casa. Pude perceber que tratava-se da casa 15. Mas sobre sua imagem, uma infinidade de rabiscos vermelhos tornavam difícil a identificação. Comparei com a foto. Os rabiscos eram homólogos ao meu sangue que extravasara sobre a casa. Me espantei a ver tal situação. Fitando com surpresa para minha mãe pude observar seus lábios trepidarem enquanto iniciava uma sentença:

– Dois dias. Eles lhe deram dois dias para convencê-los a ir embora!

Notas finais
Ta ai Amigos! mais um capítulo! Qualquer semelhança de personagens e pessoas reais é mera coincidência!!

Aguardo reviws...

E desculpem a demora... é que esta história é muito mais bem elaborada!