Entidades - Sussurros na Casa 15
3 Capítulo II - Alice
Fitei com decepção as cortinas. O amarelo pálido de puro bolor trasbordava um mal cheiro acre e que fatalmente denota antiguidade. Suspirei. Graças a Deus tinha cortinas novinhas trazidas da capital. “É Tarsinho, sua rinite alérgica ficará bem escondidinha ai com as cortinas novas da mamãe” – pensei com sarcasmo –, nunca tratei a Tarso com moleza, talvez esta condição tenha feito o garoto ficar esperto! Ter brio! Quando a mãe adoça demais os filhos eles enfraquecem, perdem a virilidade, ficam moles, e neste aspecto, eu triunfei! O menino é forte. O quarto bem delineado, com batentes de madeira meticulosamente bem entalhados – Quiçá, a mão – envolvia as quinas quadriláteras do aposento. A cama grande, de casal, recebera colchões novos, dando um contraste interessante de modernidade perante o antigo. Uma escrivaninha de madeira maciça, localizada sobre a janela grande que dava pra rua, parecia romper a linha do tempo, estando perfeitamente em bom estado apesar da idade óbvia de muitos anos. Um criado mudo, na lateral da cama, ornava com a escrivaninha e sobre ele, um abajur de luz forte, miraculosamente funcionando, repousava suas hastes de liga de ferro com graciosidade. Era um aposento belo. Algo que Tarso nunca imaginaria ter em Porto Alegre – E nem faria questão também. Em uma das paredes, uma porta abria caminho para um banheiro conjugado. O amplo espaço em seu interior era envolvido por azulejos azuis detalhados. Não havia boxe, apenas uma cortina de plástico antiga – que estava com seus dias contados, diga-se de passagem – e um chuveiro, novo, trocado pelo pessoal contratado pelo banco. No espelho, pequenas rachaduras nas laterais identificavam os sinais do tempo implacável.
Respirei fundo, o cheiro das cortinas invadira meus pulmões, –preciso tirá-las dali – em minhas mãos, um banquinho trazido da cozinha agora repousava frente a janela, comecei a remover o tecido apodrecido que a envolvia. Quando finalmente o fiz, escutei um choro forte. Assustei-me com a babá eletrônica, sobreposta à escrivaninha, que agora alertava com energia o despertar de meu filho. “Modernidade. Odiamos, mas não vivemos sem ela”. Caminhei até o andar de cima. De toda a casa, o quartinho de Lucas era o mais belo: Todo engomado, pintado de azul claríssimo, beirando ao pálido, e no centro, o bercinho branco, trazido direto da capital. Ainda não estava completamente mobilhado; na esquerda, uma cômoda grande guardava as roupas e fraudas do bebê, e na direita, um baú, que já estava aqui, escondia os brinquedos de meu filho. Ao me aproximar, fitei-o com carinho, sua imagem angelical, sobreposta aos tecidos e cobertores que o envolviam, obliteraram meu senso de percepção: Ele estava dormindo tranquilamente! Então o que fora o choro? “Estranho” – pensei – jurava ter ouvido tal barulho. Voltemos as cortinas. Descendo as escadas, que me levariam ao andar de baixo, tive a impressão de novamente escutar o choro, advindo do quarto de Tarso, proveniente da babá eletrônica. Mas fora só impressão, a silhueta sonora ficara em minha mente por todo este tempo, remanescência do inusitado sono de meu filho, que não condizia com a gritaria do equipamento eletrônico.
Ao passar pelo corredor senti o teto trepidar, como se passos frenéticos espalmassem sobre minha cabeça. Parei, era estranho demais para ser verdade. Os segundos que perdi, observando com cautela cada taco de madeira, que compunha o teto antigo, foram em vão. O som parara. Continuei a andar, e foi só o ecoar de meus passos retumbarem pela casa que o som reiniciou. “Mas não é possível” – exclamei com indignação e perplexidade – “Há algo brincando comigo aqui”. Respirei fundo e abaixei a cabeça. “Devo estar ficando louca meu Deus” quando voltei a andar escutei um som ríspido e escalonizado, como que uma serra partindo o teto. Agachei-me rapidamente, mas não o suficiente para fugir da escada, que descera com fúria sobre minha cabeça. Fui atingida no ombro. O grande peso do objeto, articulado sobre o teto, que levava para um sótão desconhecido por mim, chocou-se violentamente contra meu corpo. Gritei, e logo em seguida deitei-me no chão. A dor crepitante me fazia suar. “Que dor meu deus”, em meu ombro, um hematoma formou-se, envolvido por ondas ora arroxeadas, ora esverdeadas que davam um aspecto feio a ferida. Levantei-me após um tempo e decidi que iria subir em tal aposento desconhecido.
Cada passo na escada me fazia gelar, talvez pelo medo de cair, talvez pela dor em meu braço que latejava. Não sei. Tudo o que conseguia imaginar é que não gostava de coisas ocultas. Sempre quis ter em minhas mãos, o controle sobre as coisas, e a real noção das situações que me permeiam. Alguns me chamam de controladora, eu prefiro precavida. E um sótão misterioso, que range com meus passos, e que derruba uma escada pesada sobre meus ombros, não é, definitivamente, motivo de tranquilidade. Alcancei o tal lugar: Um espaço amplo e escuro. Passei a mão em um de meus bolsos, uma pequena lanterna, usada previamente para limpar os armários sob a pia, lançou sua luz focal, mas poderosa, sobre o aposento. Enquanto manejava a luz, sem sair do lugar, puder observar a amplitude do aposento: Cada foco luminoso criava um espectro de poeira e luz, uma linha branca fragmentada de pó e sujeira, envolvida pelo facho claro emanado da lanterna. Sob tal condição pude observar uma mesa, com quatro cadeiras, incrivelmente sujas e abandonadas. “Deviam guardar as coisas velhas aqui” – permeei. Tralhas, pedaços de tecidos antigos, retalhados, espalhavam-se pelo chão crepitante. Tacos de madeira remanescentes, pedaços de azulejos, e um guarda roupas, de madeira maciça – Meu Deus... isso vale milhões – jazia empoeirado e jogado, incauto, sobre outras tralhas não identificáveis sob a luz de minha lanterna. Escutei mais uma vez o trepidar do chão, e eu estava imóvel. Com destreza e maestria focalizei o facho de luz sobre um canto repleto de badulaques; ali jazia a fonte dos meus tormentos: Ratos! E muitos deles. Bati os pés com força, e pude vê-los caminhar. Seus focinhos hábeis farejando todos os cantos do escuro aposento, enquanto suas patinhas repulsivas farfalhavam sobre o chão de tacos antigos. “O forro deste lugar é pouco espesso” – permeei – “Só desta maneira seria possível ouvir estes ruídos”. Odeio ratos, e o fato de ter de ficar em um lugar fechado, escuro, e sozinha com eles me dava calafrios. Voltei minha atenção para o guarda roupas. Sua beleza me fascinava, e, apesar de muito sujo e muito descuidado, ainda era uma peça e tanto. Precisava observar o seu interior. Atravessando um caminho repleto de espuma e lajotas quebradas, tomando cuidado para não me machucar, alcancei a sua porta pesada. Com um movimento forte a abri, mas nada encontrei, com exceção de um pequeno objeto, do tamanho de um livro: Um porta joias decorado.
Ao abri-lo, cuidadosamente pois sua fragilidade era evidente, observei uma pequena chave, repousando sobre fotos antigas e uma carta escrita a maquina. A chavinha, de cobre, já castigada pelo tempo, não cabia na entrada do porta joias, “isto é de outro lugar”, rapidamente a coloquei em meu bolso – Vai que eventualmente eu encontre sua fechadura. Tencionei sair daquele lugar aflitivo, com o porta joias em minhas mãos, e a curiosidade em meus olhos. “Calma Alice, primeiro precisamos sair daqui” – pensei com temerosidade – aquele lugar não seria o mais adequado para estar se algo desse errado. Meu ombro latejava com vontade, o solavanco recebido pela queda da escada intensificara a dor e dificultara meus movimentos. Paulatinamente, e com muito cuidado, fui me esquivando das quinquilharias até chegar na boca do sótão, aonde a escada, minha algoz e massacrante escada, jazia desmembrada e esperando que eu descesse. E eu desci.
“Aonde está meu filho?” – indaguei-me – De repente comecei a sentir receio em ficar sozinha na casa. Era uma mansão, grande, com dois andares, quatro quartos e um verdadeiro complexo de cômodos, e toda esta amplitude começara a mexer comigo. Aqueles sons no teto, o choro de meu filho, e agora, este sótão misterioso, despertara em minha imaginação uma infinidade de possibilidades obscuras e que de nenhuma maneira, terminavam bem. Caminhei até a sala e sentei-me no sofá. Respirando tropegamente, resultado do esforço mental e físico para sair de tal aposento, voltei minha atenção para o objeto delicado em minhas mãos. Esfreguei cuidadosamente o porta joias em meu avental, na esperança de livrar-lhe do pó e da sujeira. Ledo engano, só atenuei tais máculas. Então eu o abri. Um estalido fino, seguido da abertura prenunciaram uma série de condições que não imaginava, nunca, compreender. Tomei a carta, datilografada, em minhas mãos. O papel amarelado e dobrado tomou forma enquanto desembrulhava-o e iniciava a leitura.
\"25 de Julho de 1881
O vento frio balança as árvores no campo e chacoalha freneticamente a janela de nossa casa, e onde estará você meu amor? A dor de passar mais um inverno sem sua presença constrita meu coração e faz sangrar a minha alma. É difícil, é irremediável viver sem você. Enquanto solo um conserto triste em sua homenagem, pensando em cada nota que, perfeitamente, representaria o meu afeto, eu vejo que meus dias se passam vertiginosamente, e que minha esperança em revê-la se esvai como as folhas remanescentes outonais. E onde estará você meu amor? O Suor italiano construiu estas paragens, lá fora, homens ambiciosos constroem prédios inspirados em arquiteturas pouco usuais. Dizem que a educação molda o homem, e que o trabalho duro dignifica-o. Pois eu digo que não há trabalho que resista a falta de amor, e não há educação que promova sanidade se não há afeto. E agora você se foi, e agora eu me questiono: Aonde estará você meu amor?
Lembra-se dos piqueniques? Das noites de amores e paixões repletas de desejos sob as estrelas? Das caminhadas pela ensolarada manhã de Parque da Videira? E das dificuldades que tivemos em nos casar, em virtude das insistentes rixas que permeavam nossas famílias? Todos os aspectos insondáveis de nossos corações aliavam-se de maneira uníssona, retumbando para que todos pudessem ver, que nos amamos, e que estamos conectados, e que ficaremos juntos. Podes agora imaginar a dor e a agonia que regem o triste fim de meus dias? Não posso suportar, não posso imaginar, que você se foi, e que você não está aqui. Onde estará você meu amor?
Acho que sei... Estás morta...E eu a matei.\"
Giosepi Ricieri
Engoli seco a ler tais palavras. Tanto lirismo, tanto apelo emocional e tanta resignação, para um fim deveras trágico, e estranhamente obscuro. Como um amante inveterado, apaixonado e dedicado mataria a própria mulher? Minha mente prática e pouco sentimental não me permitia permear tais fatos. Giosepi Ricieri, você é estranho, mas estranhamente, me afeiçoei a você. Talvez sua decepção e arrependimento sejam mais fáceis de delinear do que essa verborreia emocional sem sentido. Gosto de pessoas que compreendem seus erros e tentam corrigi-los, mas não há correção para a morte.
Coloquei a carta de lado, e me atentei as fotos. Nelas, pude identificar alguns lugares: Todos de Parque da Videira. O colégio municipal, aonde Tarso estudará, O parque, algumas ruas, tudo exatamente do mesmo jeito, apesar da diferença gritante das datas. “É estranho como este povo é conservador” – permeei intrigada – “Com exceção do belo asfalto e de alguns poucos toques de modernidade, a cidade é exatamente igual.” Me atentei para uma fotografia em especial. As margens chamuscadas e carcomidas pelo tempo não atrapalhavam a nitidez, dadas as precariedades da fotografia do século retrasado, e suas manchas de umidade tão pouco tiravam a beleza da imagem: Nela o belo casal, suponho que seja o da carta, abraçados, em frente a uma árvore do bosque, espelhavam os céus com seus sorrisos felizes e radiantes. Ao fundo, entalhado na madeira maciça do tronco, uma frase perpetuava o amor que já partira: “Eternamente Amados”. Bela foto, belo casal. Revirei ainda o fundo do porta joias e encontrei mais uma foto, bem familiar por sinal: O jovial casal, mais uma vez abraçados, em frente a casa 15. Pude identificar pelas redondezas, que era a nossa casa, porque a porção da foto, que explicitava nosso lar, estava tomada por manchas vermelhas de umidade! Uma pena, gostaria de comparar as fachadas. Ver se algo mudou.
Bah! Quanta quinquilharia – divaguei – É açúcar demais pro meu café. Prefiro o amargor da realidade que a falsa ilusão criada pelo amor sem limites. Levantei-me com rapidez, “desta vez você me paga cortina”, enquanto dirigia-me para o quarto, na certeza que trocaria hoje as cortinas fedorentas que repousavam sobre o quarto de Tarso, escutei passos rápidos na porta. Tarsinho deve ter chegado. Dois socos na porta vaticinaram a chegada de meu filho. O grito alto do garoto clamando por abrigo foi respondido com um breve “Já vai” enquanto me deslocava até o corredor da frente. O pequeno trajeto até a entrada me reservou surpresas desagradáveis. Ao olhar para o chão, observei um rastro fino de sangue fresco! “Mas que maldição é esta?” – exclamei com fúria! Meus pelos se eriçaram e um frio leve e reticente espalhou-se sobre meu corpo. Em minha coluna, o tilintar dos ossos amedrontados me fizeram gelar. Estou sozinha aqui! Estive sozinha a tarde toda! – Quem está ai? – clamei, enquanto perseguia o rastro pela sala. A trilha avermelhada me levava de volta pelo corredor. Atingi a sala, da onde pude visualizar as fotos sobre o sofá. O sangue estava cada vez mais fresco, e sua tonalidade mais escarlate. Como não percebera aquilo antes? Balbuciei algumas palavras para Tarso prorrogando a abertura da porta, não queria que ele se envolvesse. O rastro maligno e extremamente intrigante me levara até o corredor dos quartos de baixo. Eram dois: Um de hospedes e outro do Tarso: O indivíduo, seja lá quem seja ele, estaria lá. Engoli seco e resolvi que continuaria. Se alguém estivesse aqui, jazeria ferido, e sangrando bem! Não seria adversário para mim. Atravessando o corredor, passei a mão em uma vassoura que deixara lá previamente. Tum...Tum... dois solavancos poderosos me fizeram gelar! Era Tarso, preocupado, gritando que eu abrisse a porta. A tensão tomou conta do ambiente, estava agora sob a escada do sótão. Uma pequena poça de sangue vivo, estacionada no sopé da escadaria revelava o esconderijo de meu algoz: Ele estava lá em cima!
Em minha mente, uma série de imagens atordoantes me fizeram penar. Estava cansada e apavorada. Meus lábios roxos e minha pele pálida, eram sinais visíveis de um medo que não conseguia suportar. Senti meus membros tremerem, e um frio sem precedentes. Aquela cidade era congelante, mas nunca se compararia ao gelo de espírito que galgava tomar o meu ser e o meu autocontrole. Respirei fundo! Estava decidida a subir pelas escadas. De repente, o som de passos voltou a atormentar-me. “Estão vindo de cima” – pensei – “Ele realmente está ali”. Subi um degrau, tomando cuidado para não escorregar no sangue que jazia sobre ele. Meu coração batia forte, e vertigens prenunciavam minha queda. Não vou conseguir! “EU NÂO VOU!” – bradei com fúria “SAIA DA MINHA CASA DEMÔNIO! NÃO VENHA NOS PERTURBAR!”. Respirava com dificuldade e torcia para que tal espírito sanguinário sumisse eternamente. Tum..Dum... mais dois solavancos poderosos dados na porta vaticinaram uma explosão de desespero e gritos amedrontados clamados por Tarso no lado de fora! O som de passos cessara, mas ainda não estava decidida que o espírito se esvaíra.
“Já estou indo querido”. Corri com dificuldade, sentido vertigens nunca vistas antes. Tarso me ajudaria! Ele é bravo! Juntos vasculharemos o sótão. Atingi a porta como fôlego escasso, imagens distorcidas pairaram sobre minha cabeça, senti um leve enjoo e uma vontade de desmaiar. “Teria tal demônio incorporado em mim?” – Indaguei-me enquanto lutava para abrir a porta da frente – Por fim um clique prenunciou a abertura da porta, e com rapidez e violência Tarso adentrou!
O garoto entrou em choque! Olhou para mim com preocupação e exclamou:
– Mãe! A senhora está sangrando! E muito! Olhe para seu ombro! E está tão pálida!
Abaixei minha fronte lentamente. Tudo girava, e tudo era tão lento! Minha manga, branca, longa, estava pesada. A tintura vermelha de meu próprio sangue não me permitia levantar os braços. “Aquele sangue...Era meu. Maldita escada” O claro tornou-se escuro. Os sons silenciaram-se. Em minha frente, observava Tarso desesperado, gesticulando e caminhando em minha direção. Senti seus braços ao meu redor, me aparando, enquanto com um solavanco forte e molhado, vertendo meu suor, lágrimas, e sangue sobre o chão, chapei desacordada.
Notas finais
E vamos construindo a história!
Alguém jé fez alguma conexão?
Um forte abraço....
E ESPERO QUE SE APAVOREM... heheheh
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