Ensine-me a te amar
6 6. Mais confusões pela frente
Notas iniciais

–Lissana anunciou à todos mais cedo. -segredou-me em voz baixa- Ela disse que se declararia a Natsu hoje.
Senti o chão sumir sob meus pés por um segundo. Um rombo enorme pareceu se abrir em meu peito, dolorosamente. Um nó se formou em minha garganta, e ardeu quando forcei-me a engolir em seco. Doía.
Assisti paralisada quando a albina se aproximou do Salamander. Um sorriso aberto em seu rosto, os olhos azulados chegavam a cintilar tamanha sua determinação. Suas primeiras palavras foram um convite, que fossem a um lugar mais reservado. O que nem ao menos pareceu intrigar o rosado, que apenas concordou com um ar de curiosidade no olhar.
Assisti, impotente, enquanto ambos subiam a escada da guilda, lado a lado. O aperto em meu peito ficou ainda pior quando eles desapareceram no andar superior, dirigindo-se, muito provavelmente, à um dos cômodos mais quietos que haviam disponíveis.
Volvi o olhar para baixo, minhas mãos pousadas sobre o colo apertavam firmemente o tecido da saia azulada. Minha vontade era de segui-los, de ouvir a resposta que ele daria ou mesmo impedir a Strauss de falar o que sente. Mas eu sabia que não tinha o direito de intervir nessa situação.
Lissana podia se declarar a quem bem entendesse. E Natsu não era compromissado com ninguém. Na verdade eu não tinha a menor autoridade para isso. Tudo o que podia fazer era esperar calada, e perguntar a ele mais tarde. Afinal, eu e Natsu somos amigos. É... só... amigos.
–Lucy! -uma voz chamou-me alto, ecoando por toda a guilda, que fez silêncio por um momento.
O mestre estava em pé no corrimão da escada do segundo andar, como sempre fazia quando queria anunciar alguma coisa.
Meu sangue gelou por um momento com a expressão séria que seu rosto mostrava.
–Venha à minha sala. Precisamos conversar.
Os murmúrios ao meu redor começaram quase que imediatamente. Meus amigos cochichavam entre si algo como se perguntando o que eu fiz de tão errado para ser chamada pessoalmente à sala do mestre.
Fiquei, admito, um tanto irrequieta sob os olhares curiosos que me eram lançados, porém levantei do banco e segui escadaria à cima atrás de Makarov.
Quando entramos em seu escritório ele ordenou que eu me sentasse em uma das cadeiras dispostas à frente de sua escrivaninha, e assim o fiz.
O mestre subiu em cima da mesa com alguma dificuldade e pigarreou.
–Eu recebi uma conexão de Poluchka aparentemente urgente e... Eu queria lhe dar os parabéns! -ele sorriu largamente, balançando a cabeça com orgulho.
Fiquei meio sem reação por um momento, mas, ao compreender sobre o que estava falando, sorri timidamente.
–Eu não esperava! Foi realmente uma surpresa! Estou orgulhoso de vocês.
–O-Obrigada mestre. -murmurei, envergonhada de repente.
De todas as recepções que poderia receber, um 'parabéns' era o que eu menos esperava. Então me toquei de uma coisa.
–Espera, mestre! Você acabou de dizer 'vocês'? -perguntei meio apressadamente.
Ele arqueou as sobrancelhas, confuso.
–Ué, referi-me a você e o moleque do Natsu. Ele é o pai, não é?
Senti uma pontada no peito e mordi o lábio inferior, apreensiva.
–E-Está tão evidente assim? -indaguei, sabendo que não poderia esconder nada do mestre.
O mesmo cruzou os braços, confirmando.
–Ele não sabe, certo? -o senhor fitou-me intensamente e só pude assentir em resposta- Pretende contar?
–Eu... eu não sei. -confessei, tensa- Ele nem sequer se lembra e... e eu não sei se quero levar isso à diante.
Pude ver o olhar de Makarov nublar-se um pouco.
–Entendo. Não vou interferir na sua decisão, mas sou obrigado a informar à equipe de sua condição.
–M-Mas...
–Sem discussão. -determinou firmemente- É uma das regras oficiais da guilda. Também terei de informar-lhe que, pelo menos até o final da gravidez, está terminantemente proibida de pegar qualquer trabalho classe S ou mais alto. Por questão de segurança.
Suspirei, assentindo. Era obviamente uma medida obrigatória da qual não poderia fugir. E se fazia parte das regras da guilda eu não iria contestar.
–Eu só peço... que me dê algum tempo. Eu tenho que decidir se vou mesmo fazer isso e... preciso pensar melhor.
Ele assentiu, sério.
–Tudo bem. Poluchka disse que já está de três semanas, e que se cuide bem daqui pra frente. Entendido?
–Sim, mestre. -levantei da cadeira e ensaiei um tímido sorriso- Obrigada. O senhor já de idade devolveu-me o sorriso, vendo enquanto eu já me encaminhava para a porta.
–Ah, e Lucy... -começou ele, fazendo com que eu parasse no batente da porta antes de sair- Se quiser meu conselho, deveria dizer a ele sobre isso. Natsu pode ser um idiota, mas no fundo é um idiota consciente.
Que tipo de conselho é esse? Perguntei-me quando saí da sala, suspirando resignada e me apoiando na parede, sentindo a cabeça fervilhando quente.
Droga... Espero não ficar com febre... Sinto como se tivesse apenas metade da minha magia... e me sinto exausta.
As noites em claro estavam me fazendo mal. Nesses últimos dias não tenho conseguido sequer pregar o olho, pensava tanto que simplesmente não conseguia adormecer. Passava a noite sozinha sob a sombra dos meus temores. Antes que eu percebesse amanhecia do lado de fora, e o sono me fugia cada vez mais.
Apoiei-me no corrimão da escada, um pouco tonta. Que inferno... quando não eram os enjoos eram as tonturas. Eu sempre pensei que essas coisas não seriam tão recorrentes assim. Era como se os efeitos da gravidez fossem muito mais acentuados em mim do que na maioria. O motivo eu só poderia deduzir.
–Lucy? Está se sentindo bem? -a voz era conhecida, ainda que soasse fora do lugar naquele momento.
–Loki? -questionei, olhando para o ruivo que me encarava ao pé da escada- Você... aqui?
Ele riu baixo, começando a subir os degraus em minha direção.
–Não se preocupe. Vim usando minha própria magia para visitar a Fairy Tail, mais especialmente você e Cana, é claro.
–Eu e Cana? -estranhei, cobrindo os olhos com a mão para tentar me situar.
–Esqueceu? Eu e Cana fazíamos um time enquanto eu era um membro assíduo da guilda. Acabei de encontrá-la e, francamente, ela nunca muda.
Sorri debilmente e meus pés resvalaram no degrau, fazendo-me oscilar no lugar.
Logo senti o braço de Loki ao redor de meus ombros, estabilizando-me sob meus pés. Ele se prostrava subitamente ao meu lado, e sua expressão era preocupada.
–Você não me parece bem. Sinto que sua magia está bem abaixo do nível normal.
–Eu...
–Não precisa se explicar. Deixe que eu a leve até Wendy.
–Ela... não está na guilda. Pode deixar. -lhe dei um sorriso ameno- Você deveria ir ver os outros, ficariam felizes com a visita.
–Eu vim pra ver você.
–Você nunca aparece na guilda.
Ele sorriu meio sem graça.
–Deveria aparecer mais por aqui, não é? Raramente nos vemos dentro da Fairy Tail. É que depois desses três anos tem muita coisa para resolver no Mundo dos Espíritos.
–Imagino...
–Loki? -soou uma voz conhecida atrás de mim.
–Oe, Natsu! Como andam as coisas? -cumprimentou o ruivo, virando-se (e consequentemente me virando também) para encarar Natsu.
Estranhei a expressão incomodada no rosto do Dragon Slayer, que não parecia compartilhar da felicidade de Loki em revê-lo.
–Bem. O que faz aqui? -perguntou rudemente.
–Também sou um membro da Fairy Tail. Vim fazer uma visita, mas já estou de saída. -ele olhou para mim com um olhar malicioso- Quer que eu te carregue até lá embaixo, princesa?
Não pude evitar em corar com o comentário, e a proximidade do rosto dele do meu não estava ajudando, fora que ele ainda tinha o braço ao meu redor. Desferi-lhe um tapa de leve no braço, desviando o rosto para o lado e empurrando-o para longe.
–Não me chame assim. -resmunguei, voltando a apoiar-me no corrimão.
Loki riu, enfiando as mãos nos bolsos do terno depois de ajustar os óculos sobre o nariz mais uma vez.
–Se isso continuar (e você sabe do que estou falando) pode me chamar a qualquer hora, Lucy. Estarei, como sempre, a seu dispor. -ele ensaiou uma pequena reverência, mantendo o olhar malicioso sobre mim- Até mais ver, Natsu.
E então ele realmente desapareceu, regressando ao mundo dos espíritos e deixando eu e Natsu sozinhos.
Natsu não ostentava sua melhor expressão quando o fitei, na verdade aparentava estar irritadiço, o que não era usual para ele.
Então me voltou à cabeça o fato de que Lissana acabara de se confessar a ele.
O que será que aconteceu? Perguntei-me, sentindo um um gosto ruim na boca.
–Luce, vamos pegar uma missão Classe S na próxima! -disse o Salamander de repente, quebrando o silêncio.
–Hã? Mas nós não...
–Vai ser demais! Nem consegui me empolgar na última missão. Os caras eram uns fracotes! Vou pegar alguma missão realmente divertida na próxima!
–Você e esse seu senso de diversão. -revirei os olhos- Mas... eu não vou poder ir dessa vez... Natsu.
Isso pareceu lhe intrigar.
–Por que não? Somos uma equipe, não somos?
–Somos. -falei, sentindo um bolo se formar em minha garganta- Mas eu não vou poder fazer esse tipo de missão agora.
Ele franziu o cenho, parecendo desapontado.
–Eu não entendo. Por que?
–Só... não posso. Sinto muito. -virei-me para começar a descer para o primeiro andar, porém senti uma mão grande e quente se fechar ao redor do meu pulso.
Estremeci ao toque dele, levantando o olhar para encará-lo. Os olhos de Natsu estavam nebulosos, intensos.
–Luce, você e o Loki...
–Luxxxy, Natsuuuu! -gritou um certo Exceed azul, aparecendo de repente e voando até nós em alta velocidade.
–Happy! -surpreendeu-se ele, soltando-me assim que percebeu a expressão assustada no rosto do companheiro.
–Natsu! Temos um problema horrível! -exclamou Happy, alarmado.
–O que aconteceu de tão ruim?! -indaguei, assustada.
–É Charlie, Wendy e Juvia! -disse ele, afoito- Elas desapareceram durante a missão!
(...)
–Como é?! -espantou-se Erza, endurecendo a expressão.
–Foi o que o mestre disse! Elas parecem ter sido sequestradas ou alguma coisa do gênero. -falei, agitada- Não as encontraram em lugar nenhum depois do incidente.
–Mas tem certeza que elas não foram a algum outro lugar pedir ajuda? -indagou a Scarlet, pensativa- Depois de um acidente na estrada é comum procurar broga nas proximidades.
–Não havia nenhuma construção perto da ribanceira. -mordi o lábio, apertando as mãos juntas sobre o colo- Tudo o que acharam foi as coisas delas à beira do rio. Erza-san, precisamos procurá-las!
A ruiva assentiu gravemente, pousando as mãos na cintura.
–Partiremos o mais rápido possível. Gray, Natsu, vocês vêm conosco?
O rosado sorriu de canto, apoiando as mãos atrás da cabeça.
–Até parece que deixaria essa passar. Eles mexeram com a Fairy Tail, e vou fazê-los pagar o preço! -ele balançou o punho já em chamas no ar para enfatizar as palavras.
–Calma aí, a gente nem sabe se foi um sequestro. -avisei-o, já sabendo que era inútil discutir isso.
–Eu tinha umas coisas a fazer... -começou Gray, já recebendo alguns olhares indignados- Mas vou com vocês. -completou, suspirando.
–É isso aí, Gray! -incentivei-o, feliz por poder contar com a ajuda do mago de gelo.
Ele apenas deu de ombros, menosprezando o comentário.
Uma parte minha desejava que ele houvesse tomado essa decisão por Juvia. É claro que provavelmente não era por isso, mas eu gostava de pensar que Gray retribuía os sentimentos da azulada, mesmo que um pouco. Por Juvia ser minha amiga só podia desejar o melhor para ela, ainda que Gray fosse o pior tipo de pessoa pela qual ela poderia ter se apaixonado. Orgulhoso, frio, e cabeça dura.
Se bem que não posso dizer muita coisa. Recriminei-me, olhando para Natsu rapidamente.
Antes de toda essa confusão eu já me encontrava perdida sobre isso. Agora me sinto ainda mais. Não só por causa da gravidez, mas eu ainda me perguntava os motivos pelos quais cedi em dormir com Natsu, mesmo sabendo que era errado. Suspeitava até que, em algum lugar de minha mente, eu queria isso. De uma forma que não consigo explicar, senti que o que me levou a ceder foi justamente algo a mais que sentia... por ele. Era loucura. Uma coisa impensável, porém uma possibilidade.
E quanto mais eu pensava nisso, mais me arrependia do que fiz. E também mais nervosa ficava para saber qual fora a resposta de Natsu à Lissana depois da suposta e esperada confissão. Por que tudo parecia contra mim? Tinha de ser um carma ruim.
–Quando partimos? -indaguei, tirando aquelas ideias malucas da cabeça e me voltando para Erza.
A ruiva sequer teve de pensar antes de responder.
–O mais rápido possível. Se for um sequestro elas podem estar presas em algum lugar, ou mesmo sendo levadas por alguém à algum tipo de cativeiro. Quanto mais rápido chegarmos lá melhor são as chances de estarem ilesas.
–Faz sentido. -admiti.
–E o que estamos esperando? -perguntou Natsu, impaciente- Vamos logo!
–Aye! -respondemos prontamente, com um sorriso.
Mais uma missão, mais uma encrenca. Era como se as coisas não houvesse mudado, e era disso o que eu precisava no momento. Pensei que, por aquela missão, aproveitaria da normalidade de sempre. Não mencionaria nada até nosso regresso, porém também aproveitaria para sanar algumas de minhas dúvidas e curiosidades.
E, apesar de estar preocupada, permiti-me sorrir com eles.
Espero que ainda possamos nos divertir assim na Fairy Tail depois de tudo. Essa parte da minha vida... eu não quero que mude. Pensei, partindo para ajudar minhas amigas.
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