Ensinamentos de um Cafajeste
2 Rachel - Tocha e Foguinho
Notas iniciais
Ao me sentar na mesa com minhas amigas, fui bombardeada de perguntas que não respondi por estar ocupada demais comendo meu cheeseburguer.
Sinceramente eu sempre julguei o Estado por não incentivar que os jovens praticassem exercício, mas em momentos como aquele – onde eu estava comendo algo tão bom quanto cheeseburguer – eu queria abraçar quem é que houvesse criado a lei que permitia que aqueles lanches divinos fossem vendidos na escola.
– Rachel! – gritou Alex, minha amiga morena e olhos e cabelos pretos – Dá pra responder?
Ergui um dedo para elas, engoli a porção de comida que mastigava, então tirei minha franja dos olhos e falei num ar conspiratório:
– A resposta é 3,1415...
– Quê?
– Não estava me perguntando quanto vale Pi?
– Não! – ela gritou exaltada e eu ri de sua cara – Estou te perguntando qual perfume o Moreno Sedutor usa.
– E eu que sei? Pergunte a ele – dei de ombros e voltei a comer.
– Meu Deus Rachel, você estava debaixo daquela coisa gostosa e nem deu uma fungada no pescoço dele? – perguntou Amber com cara de quem não acredita.
– Espera... Aaron é o Moreno Sedutor? – falei depois de engolir.
– O nome dele é Aaron? – perguntou Riley interessada.
– Se estão falando do cara que eu atropelei, sim o nome dele é Aaron, e não notei que perfume ele usa, sinto muito.
– Como você pode não notar uma coisa dessas? – Alex me deu um tapa na cabeça e eu quase me engasguei com o pedaço de lanche que havia acabado de morder.
Terminei de mastigar e engolir enquanto elas ainda esperavam minha resposta.
– Estava tocando The Freedom Song no meu fone, vocês sabem que eu não presto atenção a nada quando essa música está tocando – falei.
– Você é inacreditável – resmungou Amber irritada e eu ri e terminei de comer meu cheeseburguer.
Depois que terminamos de comer, elas me arrastaram para fora da cantina e também da escola.
Minhas amigas nutriam uma vontade – que eu nunca entendi, sinceramente- louca de andar na escola depois que me esperavam comer, mas eu não reclamava muito já que elas geralmente deixavam eu comer o quanto eu quisesse antes de me arrastarem pelo campus.
Tentei por meus fones de ouvido de volta, mas Riley foi mais rápida e pegou o fone da minha mão e guardou no bolso da calça jeans reclamando que eu ficaria surda de tanto viver com os fones. Segurei o ímpeto de lhe dizer que minha mãe falava a mesma coisa.
Então, sendo obrigada a ter interação social, eu fiquei dando voltas no campo de futebol com minhas amigas e comentando sobre os novatos bonitinhos e sobre os jogadores do time sem camisa.
– Eles são bonitinhos... Mas nada se comparados ao Moreno Sedução – disse Alex suspirando e eu a olhei segurando o riso.
– Parece que alguém está tendo uma paixão platônica aqui – cantarolei.
– Paixão não, ta mais pra uma coisa carnal sabe? – ela respondeu e eu e as garotas gargalhamos.
– Alguma de vocês viu ele por aí? A ultima vez que vi ele foi quando Rachel o assediou – falou Amber.
– Em minha defesa, ele que ficou por cima de mim ok? E não o vi – falei.
– Espera... Não é ele ali? – Riley apontou com a cabeça uma janela do andar térreo e automaticamente todas olhamos para lá.
Havia duas janelas do térreo que viviam com as persianas fechadas: a sala dos professores, porém naquele dia havia um rapaz que segurava duas laminas da persiana aberta entre os dedos e observava curioso os jovens do lado de fora.
– O que ele está fazendo na sala dos professores? – perguntou Amber, a loira burra da turma.
– Será que ele foi falar com algum professor? – indagou Riley, a outra loira.
– Já notaram que ele não é como os meninos daqui? – disse Alex já captando o mesmo raciocínio que eu.
Então comecei a gargalhar, ri tanto que minha barriga doeu e eu caí de joelhos com as mãos ao redor do corpo rindo loucamente.
– Alex está querendo ter um lance carnal com um professor! – gritei quase sem fôlego enquanto voltava a rir incessávelmente.
Bom... Demorei todo o resto do nosso tempo vago e ainda alguns minutos depois que o sinal bater para me recuperar da minha crise de risos. Alex parecia indignada em notar que Aaron era um professor, mas Riley estava determinada em descobrir se ele daria aula para nós e do que ele era professor. Riley era... Incansável em relação a homens.
Na sexta série, ela era apaixonada por Will, um garoto que estudava conosco e insistiu tanto que ele saísse com ela que ele acabou cedendo apenas para que ela parasse de encher sua paciência. Não deu certo o namorico deles porque Riley e ele começaram a discutir no meio do encontro sobre qual sabor de sorvete era melhor: morango ou chocolate.
Eu ia entrar na sala de Biologia II do senhor Wilson quando algo me chamou atenção algumas salas a frente.
Aaron vinha no fim do corredor, agora segurando uma estátua aparentemente feita de argila, ele sorria para as alunas que passavam por ele obviamente abismadas por sua beleza, então ele parou na porta de sua sala – que pelo meu conhecimento, era um dos estúdio de Artes do colégio- e tocou o ombro de uma aluna bonitinha e sorriu gentilmente para ela e lhe perguntou algo, a garota enrubesceu e entrou na sala, então ele ergueu os olhos quase como se sentisse meus olhos sobre si e seu sorriso aumentou – ou foi impressão minha?- e ele acenou brevemente antes de entrar em sua sala.
– Senhorita Heart, vai continuar barrando a passagem? Porque eu realmente gostaria muito de começar minha aula.
– Annelise – corrigi o meu velho professor de Biologia-, ou simplesmente Rachel se é tão difícil assim lembrar de “Annelise”.
Ele me olhou sério e eu dei um sorriso fofo para ele antes de entrar de vez na sala e ir em direção ao meu lugar, ou o que deveria ser o meu lugar, porém ele estava ocupado por um garoto ruivo e gorducho de olhos azuis e uma barba rala que começava a crescer em seu rosto. Ele conversava empolgado com Riley.
– Edmund! – gritei e corri até o garoto e o abracei com todas as minhas forças, ele riu e me abraçou de volta.
– E aí tocha? – provocou bagunçando meus cabelos.
– Achei que tinha ido para Irlanda! – falei empolgada – Ah meu Deus, achei que seria de novo a única ruiva desse lugar!
– Não se depender de mim – ele sorriu e se levantou -, esse é o seu lugar não é?
– Pode ficar se quiser – ofereci.
– O quê? – Alex gritou de olhos arregalados – Rachel Annelise dando seu lugar a alguém? Meu Deus, espera aí que vou gravar para por no Instragram porque isso é realmente inédito.
– Exagerada – cantarolei e Edmund riu, mas se levantou do meu lugar e foi se sentar um lugar à frente.
– Edmund é a única pessoa com quem Rachel divide alguma coisa – falou Riley e eu bufei.
– Céus, pareço até uma egoísta pelo modo como vocês falam – resmunguei me sentando.
– Você é, Anne – alegou Edmund e eu lhe dei um peteleco.
– Senti sua falta, mas não comece a se folgar Gazela.
Edmund riu e balançou a cabeça, então arrumou a blusa perfeitamente engomada e olhou para o professor que já falava algo, mas eu não lhe dava atenção alguma.
Edmund era o meu melhor amigo no jardim de infância, até a segunda série éramos só nós dois contra o mundo, “Tocha e Foguinho” como dizia papai ao nos ver correndo por aí, até que Riley se juntou ao grupo na terceira série, e então éramos nós três. Um ano antes de terminamos o Ensino Fundamental, Edmund se mudou para a Irlanda com seus pais, então quando chegamos ao Colegial, Amber e Alex se juntaram a nós, portanto elas não tinham a mínima ideia de quem era Edmund, só de me ouvir falar mesmo.
– Senhorita Heart... Se não vai prestar atenção a minha aula, pode se retirar.
– Sério? – ergui os olhos em expectativa ao homem, que me fuzilou com o olhar.
– Sério.
Peguei meus livros e me levantei, eu já ia sair quase saltitando da sala quando o professor ergueu um dedo, pedindo que eu esperasse, então foi até sua mesa, rabiscou algo em um papelzinho rosa e me entregou com um sorriso debochado nos lábios.
Nem precisei olhar no papel para saber que era Detenção.
Até quando eu tento ser a garota certinha me dou mal.
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