Ensinamentos de um Cafajeste
31 Rachel - Parque
Notas iniciais
Eu adorava neve. Mas odiava aquela temporada de frio que vinha antes, aqueles ventos frios e cortantes, que fazem você repentinamente não amar tanto assim o frio caso não esteja devidamente coberta. Aquele dia era um desses pré-inverno.
Eu estava com um casaco pesado de Ed, mas não parecia ajudar muito, o vento ainda era cortante e minhas bochechas pareciam que iam descolar do meu rosto a qualquer instante. Will corria entre os brinquedos do parque, ora atrás de outras crianças, ora indo de um brinquedo ao outro.
Ed já me olhava bobo a cerca de cinco minutos, eu havia lhe contado – mas não detalhado muito, por motivos óbvios – sobre minha visita a casa dos pais de Aaron, e de nossa noite juntos, e desde então Edmund não se recuperara do choque.
– Eu nunca imaginei que você, fosse aquela que perderia a virgindade com o professor gostosão, Rachel, sempre achei que talvez Alex sim, mas não você...
– Isso é uma repreensão? Porque olha eu sei que foi errado, mas... – ele me cortou.
– Não, não é uma repreensão, eu só... Estou só muito, muito, chocado.
Bufei e desviei os olhos dele para Will, que vinha correndo em minha direção com os braços abertos, o peguei no ultimo momento, em pleno no ar e o garotinho gargalhou.
– Você está pesado Will – falei rindo também e ele negou com a cabeça, depois pulou do meu colo para o chão de novo e voltou ao playground atrás das outras crianças.
– Ok, agora volte para mim – pediu Ed acenando em frente ao meu rosto e eu sorri voltando a olhá-lo – você só ficou com Aaron por ficar?
Franzi a testa. Oi? Como assim?
– Está me chamando de vadia Edmund?
– Não, claro que não – disse desesperado-, só estou dizendo que pode ter só acontecido sabe? Quando o clima esquenta e tudo o mais.
Ponderei por um momento. Eu podia dizer a ele que era exatamente aquilo, eu tinha sido levada pelo momento, mas era verdade? Eu só tinha dormido com Aaron porque achei o momento favorável?
Não... Eu não era esse tipo de garota, eu não ficaria com ele só por ficar. Pode me julgar, mas não sei ficar só por ficar, se eu fico é porque eu gosto então podemos dizer que eu realmente gosto de Aaron, e muito.
– Eu gosto dele – despejei –, do tipo muito mesmo.
Ed calou-se, ele olhava boquiaberto algo as minhas costas... Céus, alguém me diz por favor que essa não é uma daquelas cenas de série onde a mocinha assume seus sentimentos para a melhor amiga, e sem querer o cara que ela gosta ouve tudo. Não, por favor não.
– Acho que eu não devia ter ouvido isso não é? – murmurou ele e eu gelei. Porque essas coisas só acontecem comigo? Meu Deus.
Me virei a contragosto para o moreno parado atrás de mim, ele estava sério, a expressão era fria, os olhos castanhos não tinham aquele brilho brincalhão de sempre.
– Vou chamar o Will – ouvir Ed tropeçar em suas palavras e senti ele se afastando atrás do sobrinho.
– Acho que não devia – falei abaixando a cabeça. Se isso era como uma série em alguns momentos, porque ele não podia ser o cavaleiro da armadura brilhante que agora me diz como está perdidamente apaixonado por mim? Então podemos nos casar e ter vinte e cinco filhos.
– Rachel eu... – ergui a cabeça para ele, que me olhava com aquele olhar de quem sente muito. Piedade, é tudo do que eu preciso agora, é claro – Desculpa.
Revirei os olhos tentando evitar as lágrimas que eu sabia estarem prestes a se formar, minha garganta já doía com o nó que crescia lá dentro.
O que você esperava Rachel? Que isso tivesse futuro? Céus! Ele é seu professor, ele é o cafajeste do bairro, da escola, da cidade, ele é o cara que pode comer a menina que quiser a hora que quiser. Achou realmente que ele se interessaria por você? Pela ruiva baixinha e chata que vive dando patadas nele e o recusando? A ruiva idiota que entregou sua virgindade a ele sem pensar duas vezes? A ruiva que agora vai ser jogada para escanteio, porque agora ele já cumpriu sua meta machista idiota de comer até as mais complicadas? Não acha que já foi idiota o suficiente por todo o ano Rachel Anneline Heart? Já pode parar de se iludir. Aaron nunca vai mudar.
Pigarrei tentando desfazer o nó em minha garganta, mas não funcionou, então só forcei um sorriso e acenei para ele, lhe dando as costas louca para voltar para os braços de Ed, de Will, louca para voltar para casa, para voltar para quem quer que me dissesse que Aaron Balzer era um idiota, para quem quer que me amasse e me fizesse sentir menos pior. Mas eu também sabia que nada adiantaria, que aquele sentimento de inutilidade no mundo só poderia ser consertado por uma pessoa, e essa pessoa não estava sem um pouco interessada em me alegrar agora.
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