Ensinamentos de um Cafajeste

32 Rachel - Praça central


Bastille era localizada na puta que pariu virando a esquerda.

Era uma cidade minúscula, no interior do estado, era aquele tipo de cidadezinha onde todo mundo se conhece, o ponto de encontro dos amigos é a praça central, e o ponto turístico é a única boate mais ou menos do lugar. Ah espera, havia também mais um ponto turístico nos últimos tempos: o maldito festival de Bastille.

Quem é que faz um festival para ouvir batuques sem ritmo saindo de latas e afins? Só o pessoal de Bastille mesmo.

A entrada da cidade era bem charmosa, confesso, na verdade por todo lugar que passamos haviam canteiros bem cuidados daquelas flores bonitinhas que predominantemente saem em lugares frios, como Bastille. Em alguns lugares parecia ter nevado, o que só melhorava meu amor por aquele lugarzinho no cu do mundo.

Nosso hotel parecia um chalé para gigantes, e ao entrar lá só comprovei minha teoria. Ele ficava em frente a praça central – aquela que eu disse que o pessoal ia para se encontrar – que por sua vez tinha como atrativo hotéis e barzinhos a rodeando. Pelo menos era uma praça grande. Bem, voltando ao hotel, sua fachada era de madeira e pedras, assim como seu interior, depois do balcão da recepção, havia uma grande sala com lareira e grandes sofás de couro, algumas mesinhas de centro com revistas e coisas do tipo, e ao chegarmos ao hall fomos informados de que devíamos fazer duplas do mesmo sexo para dividir quarto, eu naturalmente dividiria o meu com Riley e portanto lá fomos nós, subindo cinco andares até nosso quarto.

Nosso quarto tinha uma cama de casal no centro, uma grande janela em frente a cama e a vista dava para a praça, um banheiro razoavelmente grande, e uma TV com canal aberto, o que era ótimo porque eu estava louca para dar prejuízo naquele fim de semana.

Depois que eu e a loira largamos nossas malas em um canto qualquer do quarto, o celular de Riley começou a tocar loucamente e enquanto ela atendia eu disse que ia procurar o quarto das meninas.

Por sorte o quarto de Alex e Amber era no mesmo andar que o meu e de Riley, mas as duas estavam ocupadas demais fazendo esqueminhas sobre os garotos solteiros na excursão para me dar atenção, então fui sozinha atrás do quarto de Edmund.

Minha tática para procurar o quarto de Ed era fácil: era apenas parar em todos os andares e gritar “Edmund tem um loiro gay te procurando!” e ver de onde ele sairia, mas sequer precisei fazer isso.

Bem, na verdade eu o fim no quinto andar apenas por diversão, já que sabia que ele estava predominantemente tomado apenas por garotas, mas ao chegar no quarto andar eu caminha até o meio do corredor e estava pronta para gritar quando ouvi vozes familiares algumas portas a frente:

– Ela ainda está chateada comigo – disse uma voz rouca e eu franzi a testa. Era a voz de Aaron, mas com quem ele estava falando?

– Sim ela está, bastante chateada na verdade Aaron – disse a outra voz. Ed. Mas o que aquela Gazela fazia no quarto de Aaron? Caramba, eles estavam falando de mim não estavam? Que mundo paralelo é esse onde Aaron e Ed se dão bem e falam sobre mim?

– Eu sei cara, mas eu... Não consigo – disse Aaron e eu sorri irônica. Sem dúvidas o assunto era sobre mim, e agora Aaron dizia ao meu melhor amigo que nunca conseguiria sentir algo pela pirralha que morria de amores por ele apenas para que Ed me desse o recado depois. Claro que Aaron faria aquilo, não fazia parte de seu papel de cafajeste isso afinal?

Dei meia volta me recusando a ouvir o que mais ele estivesse falando, com certeza boa coisa não podia ser.

. . .

– Não é problema meu se você não quer ir minha flor, você vai e ponto – disse Alex sorrindo meigamente e me jogando meu coturno que eu desviei por pouco.

– E você vai me obrigar senhorita Ramirez? – bufei.

– Ela não, mas eu posso apelar – disse Riley sorrindo maldosamente para mim do seu reflexo no espelho do banheiro.

– Para o que? – perguntei entediada. Pelo o que eu sabia Riley não tinha nada contra mim.

– Para a sua curiosidade.

– E o que teria nessa praça que poderia me deixar curiosa, Riley?

– Se eu te contar, você não vai mais estar curiosa – ela sorriu sapeca e eu bufei.

– Você está me enganando.

– Você que sabe, não vou ficar implorando nem nada Rachel, mas te garanto que vai perder algo grande se não for conosco – Riley deu de ombros e saiu do banheiro.

– Vaca – murmurei empurrando-a com o quadril e peguei a roupa que Alex separara para mim, então fui me trocar.

Riley nunca me enganava – ou quase nunca, se formos considerar o episódio sobre ela ter feito com que eu contasse sobre Aaron – então se ela dizia que eu devia ir porque algo aconteceria, é porque algo realmente aconteceria. Eu só esperava que esse algo fosse algo bom, e não Aaron comendo Sophie Connor no meio da praça.

Depois de devidamente vestida com o vestido de mangas compridas marrom, a meia-calça e os coturnos, deixei Amber me maquiar e pentear então desci com as meninas que estavam animadas e logo me obrigavam a participar do diálogo e deixar minha melancolia de lado.

– Certo, cadê o grande acontecimento? – perguntei a Riley que riu e balançou a cabeça em negação.

– Ainda não apareceu, daqui a pouco acontece fique calma – ela pediu e me puxou para um dos barzinhos que cercavam a praça.

. . .

Aparentemente, naquela cidade ninguém tinha problemas em vender álcool para menores de idade, mas é claro que eu não reclamei daquilo quando meu terceiro drinque de frutas chegou.

– Alguém viu o Ed? – perguntou Amber varrendo o lugar com os olhos. Fiz o mesmo.

O bar em que estávamos era um tanto quanto rústico, as mesinhas altas eram feitas de madeira, assim como os bancos e quase todo o resto naquele lugar, incluindo o balcão de bebidas e aparentemente até a porta da geladeira. Vigas de madeira também apareciam aqui e ali, não soube exatamente se era para sustentar o teto ou apenas decoração, os garçons se vestiam com roupas antigas como camisas de linho e calças com suspensórios, e no palco do fundo do grande galpão uma banda desconhecida tocava rock. Não fazia muito sentido.

– Vou seqüestrar o baixista – murmurei encarando o rapaz moreno dos olhos verdes, que sempre tinha um sorriso enorme no rosto enquanto tocava.

– Alguém viu o Ed? – repetiu Amber.

– Ok Rach, você seqüestra o baixista, eu seqüestro o baterista e dividimos o vocalista, o que acha? – sugeriu Alex dando aquele sorriso provocador típico para o vocalista que vinha a encarando há umas três músicas.

– Quero o guitarrista – cantarolou Riley.

– Certo – falei para Alex que deu um sorriso enorme e me estendeu a mão para selarmos um trato.

– Alguém viu... – Amber começou de novo, mas eu interrompi.

– Ninguém viu ele – falei ríspida.

As meninas me olharam assustadas e eu tomei mais um gole do meu drinque.

– Certo, o que foi agora? – suspirou Riley cansada.

– Nada.

– Nada? Não é o que parece, Rachel – a loira dos cabelos curtos semicerrou os olhos para mim e eu bufei.

– Não posso dizer que há alguma coisa enquanto não conversar com Ed.

Elas pararam de me importunar depois daquilo, mas alegria de pobre dura pouco e como foi só eu sair para o banheiro, para quando eu ter voltado ter um rapaz de cabelos loiros cacheados sentado em meu banco, de onde eu estava eu podia ver perfeitamente seu rosto, mas se o visse de longe também reconheceria. Tyler era do tipo inesquecível, e agora seus olhos se encontravam com os meus e aquele sorriso de arrasar quarteirão se abria em seu lindo rosto.