Ensinamentos de um Cafajeste
16 Aaron - "Tio A!"
Notas iniciais
– Onde você vai? – ouvi a voz de Chole enquanto vestia minha camisa preta.
– Não te interessa. Preciso ir, quando sair bate a porta e por favor, não demore pra ir embora – falei pegando um embrulho prateado, completamente enfeitado em cima de minha mesa de trabalho.
– Você devia me tratar melhor – ouvi ela resmungar mas nem me importei, só saí do estúdio pegando as chaves do carro.
Domingo era dia de visitar minha mãe, bobo eu sei, mas era uma... Tradição. Todo domingo eu e meu irmão, George, íamos até a casa de nossos pais, almoçávamos lá, falávamos da nossa vida, etc. geralmente era entediante, mas se um de nós perdêssemos aquela reunião semanal, tínhamos que ouvir reclamações de mamãe pelo resto da vida dizendo que havia criado os filhos a toa, que éramos dois brutamontes que tínhamos abandonado-a...
Entrei no carro jogando o embrulho no banco do passageiro e acelerei. Eu havia faltado no ultimo domingo, e minha intenção agora era comprar o perdão de minha mãe com uma pulseira que eu tinha visto ela babar na vitrine na ultima vez que foi a minha casa – apesar dela odiar ir lá, já que dizia que um cômodo onde se enfia sala, cozinha e quarto tudo num só, não pode ser considerado casa. Isso quando ela não reclamava que meu estúdio fedia a porra mofada. É, minha mãe não é exatamente... Normal-. De todo modo, aquela pulseira seria provavelmente o pedido de desculpas perfeito, ou eu esperava que fosse já que eu tive que vender um rim pra comprar aquilo. Ok, exagerei um pouco, mas foi tão caro que eu realmente considerei a possibilidade de vender meu rim pra comprar aquela porcaria que eu sabia que ela não usaria por mais de duas horas, já que ela ficava aflita se algo frio tocasse sua pele por muito tempo.
Eram duas horas até a cidadezinha no interior, onde nasci e cresci, então quando cheguei à grande casa de madeira de dois andares e uma varanda enorme, já era hora do almoço. Peguei o presente de mamãe esperando que Nicole não tivesse ido daquela vez, se não ela ficaria chateada por não receber presentes também.
Entrei na casa sem bater, de fora a casa parecia quieta, mas lá dentro o cheiro do inconfundível frango assado de mamãe já impregnava todo o lugar.
– Boa tarde família feliz – eu disse entrando na cozinha, onde todos já se reuniam ao redor de uma grande mesa retangular.
– Aaron! Achei que nem fosse vir, de novo – mamãe falou e eu sorri para sua figura pequena e enrugada, na cadeira de rodas a ponta da mesa. Seus olhos eram azuis, como os de George, mas sua pele era morena como a minha, ela era uma bela indiana, e antigamente tinha longos cabelos negros lisos, porém agora sua cabeça era coberta por um lenço colorido e feliz.
– A senhora sabe que eu adoro fazer um mistério, deixar todos pensando se vou aparecer ou não – falei abraçando-a rapidamente, ela estava tão fraca que parecia poder quebrar a qualquer momento, como se meu abraço fosse esmagá-la.
– Você é um filho da puta atrasado, isso sim – ela me deu um tapa fraco na cabeça e eu ri.
– Trouxe isso para a senhora – falei lhe entregando o embrulho e ela me olhou de olhos semicerrados, como se soubesse que eu queria comprá-la.
Ela abriu o embrulho e então tirou de lá a pulseira, depois sorriu para mim.
– Sempre tentando me comprar não é?
– Claro que não! Só quero fazer um agrado para minha adorada mãe.
– Ah tá bom – ela revirou os olhos e eu ri, mas ela se esticou e me abraçou novamente, me dando um beijo na bochecha – obrigada querido.
Sorri para ela e depois de me desvencilhar delicadamente dela, fui cumprimentar meu pai, Paul, a esposa de George, Ruth, e finalmente meu irmão que não se parecia em nada comigo. Sua pele era branca como a de nosso pai, seus olhos azuis como os de mamãe, mas diziam que só éramos diferente nisso já que ambos tínhamos os cabelos pretos – mas os dele eram mais curtos-, e o mesmo “formato de rosto”, e George era mais velho que eu, sete anos mais velho, então já era casado e tinha uma filhinha de três anos, Nicole.
– Cadê a Nick? – perguntei me sentando, e pouco depois a própria apareceu correndo em minha direção com os braços abertos.
Nicole era uma cópia perfeita de sua mãe, os cabelos eram cacheados, a pele era ainda mais branca que a de George e ela tinha sardinhas que quase não apareciam, mas os olhos tinham o mesmo dos do pai.
– Tio A! – ela gritou pulando e eu a segurei no ar, abraçando o protótipo de gente.
– E aí pirralha – baguncei seus cabelos com a mão livre e ela riu, batendo em minha mão.
– Cadê meu presente? – perguntou com os olhos brilhando e eu ri.
– Como você é interesseira – balancei a cabeça em negação-, o tio está aqui, pra quê mais presente?
– Ele trouxe presente pra vovó... – cantarolou George para irritar-me e eu revirei os olhos.
– Também quero – ela fez biquinho.
A sentei no meu colo enquanto ela me olhava magoada.
– Não tive tempo de comprar seu presente, mas semana que vem eu trago um presente enorme pra você pode ser?
– Não precisa Aaron... – Ruth começou.
– Precisa sim, eu quero – Nicole fez bico e eu ri. Aquela definitivamente era das minhas, se ela queria simplesmente pedia, sem falsas modéstias.
– Nicole! – Ruth repreendeu.
– Fim de semana que vem eu trago um presente enorme pra você – prometi a ela que bateu palmas feliz.
– Promete?
– E eu sou do tipo que não cumpre com a palavra?
Ela balançou a cabeça em negação depois de contorceu para voltar ao chão, então a coloquei de volta onde ela estava antes e a menina sumiu casa a dentro, provavelmente indo até seu quarto de bagunças.
O frango foi posto na mesa por meu pai, e então todos começamos a comer em silêncio, como sempre. Depois da refeição, eu e meu pai fomos para a sala enquanto George levava mamãe para seu quarto e Ruth ia brincar do lado de fora com Nicole.
– Como ela está? – perguntei a meu pai, referindo-me a mamãe.
– Cada dia pior – ele suspirou cansado e massageou as têmporas-, o médico quer que ela volte para a capital pra voltar à quimioterapia, mas ele mesmo já disse que seria praticamente inútil, não há muito mais o que fazer por ela Aaron.
Abaixei a cabeça enquanto sentia o nó em minha garganta aumentar. Porra porque coisas são ruins aconteciam a pessoas são excepcionais como a minha mãe? Ela fora diagnosticada há um ano com câncer de mama, e já estava num estágio bem avançado, mas ainda assim ela fez as cirurgias e foi exposta a todas as radiações e remédios possíveis, mas nada parecia vir adiantando muito de uns tempos pra cá.
– Mas devíamos tentar, certo? – olhei para meu pai, mas eu podia ver em seus olhos que ele já estava cansado daquilo tanto quanto todos nós, inclusive minha mãe.
– Ela não quer ir, ela disse que prefere passar os últimos dias acordada e com a saúde que lhe resta do que num hospital triste – ele falou.
– Mas podemos obrigá-la...
– Não, nós não podemos Aaron. Não acha que ela deve ter seus pedidos respeitados pelo tempo que lhe resta?
– Em outras ocasiões sim, mas estamos falando da vida dela pai...
– Exatamente, é a vida dela, e ela não quer mais ser submetida a mais sofrimento, vamos respeitar isso ok?
– Mas pai... – comecei de novo, mas ele me interrompeu.
– Não tem mais o que falar sobre isso, Aaron – gritou exasperado.
O fitei sem semblante algum.
Então era isso? Ele estava desistindo de minha mãe? Desistindo de lutar pela vida dela? E todo aquele amor que ele sempre jurou a ela?
– Acho melhor eu ir embora – falei me levantando impaciente.
– Mamãe acabou de dormir... – disse George entrando na sala naquele momento.
– Ótimo, diga a ela que deixei um beijo – eu disse já indo em direção porta ignorando o chamado de meu pai e meu irmão.
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