Ensinamentos de um Cafajeste

21 Aaron - See the flame


Notas iniciais
Essa música é do Ed Amorzinho Sheeran, o nome é I'm a Mess, flw vlw

– Alô? – falei com o telefone ao ouvido enquanto saía do meu carro, no estacionamento do colégio.

– Aaron? Sou eu – ouvi a voz de meu pai do outro lado da linha e paralisei por um momento. Meu pai nunca me ligava.

– Oi pai, o que aconteceu? – perguntei girando nos calcanhares e ficando de frente para o meu carro de novo, incerto se já devia correr para onde quer que fosse. O sinal já tinha batido há alguns minutos, eu ainda estava em tempo de entrar na aula, ou de sumir para minha cidade natal caso necessário.

– Sua mãe... – ele disse o que eu temia e senti minhas pernas bambas. Não! Nada tinha acontecido com ela certo? – Ela teve uma crise ontem de madrugada, Aaron.

Me aproximei a passos rápidos do carro, sentindo algo crescer em minha garganta. Vontade de chorar? Talvez.

– Em que hospital ela está? – falei entrando no carro de novo.

– No St. Peter, mas não queremos que venha para cá, sabemos que você trabalha filho, só te liguei para informar mesmo.

– Como não querem que eu vá para aí? Que se dane o meu trabalho! Estarei aí em meia hora.

– Aaron, não! – ele disse severo e eu recostei no banco derrotado. – De verdade, ela já está melhor e está me olhando brava agora por ter te ligado.

– Pai, não minta pra mim – pedi sério.

– Não estou mentindo, filho. Sua mãe vai ficar muito chateada se você largar seu trabalho para vir aqui.

– Que diferença faz eu ficar aqui? Não vou conseguir me concentrar em nada de qualquer jeito!

– Sinto muito por isso, eu não queria te atrapalhar, só queria que soubesse da situação de sua mãe, mas por favor, não venha.

Suspirei.

– Certo pai, mas a noite estarei aí – prometi.

– Estaremos te esperando, garotão.

Passei minha mão livre no rosto e inspirei fundo, olhando para o teto.

– Preciso desligar pai, mande um beijo para mamãe.

– Vou mandar. Nós te amamos, Aaron.

– Eu também, tchau – falei e desliguei jogando meu celular no banco do passageiro.

Estava muito indeciso entre ir embora, já que eu com certeza não conseguiria mais me concentrar em nada naquela escola. Droga minha mãe estava mal e eu estava a horas de distancia!

Duas batidas no vidro do meu carro me pegaram de surpresa, e eu olhei confuso para o vidro. Rachel estava debruçada ali, com as mãos em forma de concha ao lado dos olhos, tentando ver algo pelo vidro fumê.

Liguei o carro e abaixei o vidro, confuso. Ela me olhava preocupada.

– Você está bem? – indagou ela ainda debruçada sobre o vidro – Você não me pareceu muito bem, estava meio verde, resolvi checar...

– Obrigado – sorri um pouquinho. Até aparentemente me odiando, ela ainda se preocupava comigo.

– Você não me respondeu – ela notou e eu soltei o ar pesadamente.

– Não, não estou bem, mas não quero falar sobre isso.

– Certo... Você vai entrar?

– Entrar onde sweetheart? Em você? – provoquei um pouco e ela bufou.

– Desisto, até quando eu tento ser legal você fode tudo – ela desencostou do carro e começou a andar em direção a escola.

Saí do carro cansado, o tranquei e coloquei as mãos no bolso enquanto a seguia quieto em direção a porta, mas ao chegar lá, a ruiva se virou para mim e me encarou do topo da pequena escadaria que levava a porta.

– Ok, você realmente não está bem, não ouvi nenhum comentário safado sobre minha saia, então certamente ou você está na bad, ou foi abduzido por alienígenas e na verdade agora estou conversando com um clone do verdadeiro Aaron – falou cruzando os braços e me encarando séria.

Então olhei rapidamente para o que ela falava. Aquela diminuta criatura não tinha dó mesmo de mim, não usando aquela porra de saia xadrez na escola. Eu até podia não reclamar muito dela usar aquilo fora da escola e perto de mim, quando eu poderia agarrá-la se quisesse, mas na escola tínhamos que manter as aparências o máximo possível, e aquele pedaço de pano não ajudava muito.

– Sinto muito decepcioná-la, sweetheart – dei um sorriso sem graça. Nem mesmo meu lado mais safado estava conseguindo tirar meus pensamentos de minha mãe, e de como ela devia estar.

– Tem certeza de que não quer conversar, Balzer? – ela se aproximou me olhando nos olhos, compreensiva. Vadia, porque não podia me tratar como se eu fosse um lixo? Seria mais fácil tentar me afastar se ela me tratasse assim, ao invés de me tratar daquele jeito dócil.

– Não está muito atrasada para sua aula, Rachel?

– Foda-se o senhor Smith – ela deu de ombros e eu sorri, me aproximando em mim dela e abri a porta da escola, para que ela entrasse, e ela o fez relutante.

– Não tem ideia do quanto eu adoro quando você fala assim – falei abraçando-a pelo ombro e beijei o topo e sua cabeça rapidamente-, obrigado sweetheart.

Então entrei na sala dos professores para pegar minhas coisas e explicar enfim meu motivo de atraso.

. . .

O sinal do intervalo tinha tocado e todos os meus alunos sumido porta a fora, até mesmo as meninas pareceram não querer ficar muito mais por perto. Eu devia estar entediando-as com aquele ar melancólico.

Fui pegar os copos plásticos que tinham sido usados para as apresentações dos meus alunos, haviam copos e violões por todos os lados. Depois de todos os copos e demais instrumentos guardados, peguei um violão e dedilhei as cordas enquanto me sentava ao lado da porta, tocando a melodia de uma música que tinha começado a escrever alguns dias atrás.

– See the flames inside my eyes it burns so bright I wanna feel your love – cantei e desviei os olhos rapidamente do violão quando vi alguém entrando na sala e sentando-se ao meu lado. Rachel. Mantive os olhos nela enquanto continuava a cantar – Easy baby maybe I’m a liar, but for tonight I wanna fall in love, put your faith in my stomach...

Abaixei a voz e deixei a frase morrer, Rachel num gesto inesperado me abraçou. Demorei algum tempo para devolver seu abraço, confuso por aquilo. Ela nunca tinha me abraçado, na verdade todo o contato que tivemos foi puramente atração, mas aquele sentimento, aquilo de que eu não precisava estar desejando uma mulher – não que eu não desejasse Rachel, eu e você sabemos que eu a desejo- simplesmente para abraçá-la.

– Seu filho da puta, porque eu me importo? – ela resmungou indignada e eu ri baixo, apertando-a mais contra mim, até que se tornou desconfortável pelo violão entre nós e ela se afastou, ajeitando-se novamente ao meu lado e me olhando a espera de algo.

Suspirei e tirei o violão de meu colo.

– É a minha mãe – falei por fim, esticando as pernas. Não sabia porque queria contar aquilo a ela, talvez porque eu sabia que ela não desistiria fácil, talvez porque eu só quisesse falar com alguém. Porra esse sentimentalismo ta fodendo comigo.

– O que aconteceu com ela?

– Ela está com câncer – falei por fim, passando a mão nos cabelos-, e hoje quando eu ia entrar na escola, meu pai me ligou dizendo que ela teve uma crise de madrugada.

Rachel parecia não saber o que falar, então ao invés disso ela me puxou pelos ombros em sua direção e eu deitei em seu colo depois que ela arrumou a saia.

– Sinto muito, Aaron.

– Eu também. Minha mãe é a mulher mais incrível que eu conheço, não merecia isso.

– Já ouviu dizer que as vezes coisas ruins acontecem a pessoas boas? – ela disse e eu senti uma de suas mãos passeando em meus cabelos.

– Já, e não entendo qual é a graça de ser uma pessoa boa se no fim você se fode também.

– Eu tenho uma teoria – ela disse. Eu não estava com muito saco para ouvir, mas ela foi mais rápida e disse antes que eu sequer abrisse a boca-, cale a boca e me escute, sweetheart – ela me provocou com o apelido que eu tinha criado para ela, e eu sorri -, acho que isso de coisas ruins acontecerem a pessoas boas, é só o modo do mundo mostrar a pessoa que ela é mais forte do que imagina.

Franzi a testa. Não fazia muito sentido.

– Digo – Rachel continuou, pousando a mão livre em meu peito, e eu comecei a brincar com seus dedos para me distrair do verdadeiro motivo daquela conversa -, as pessoas boas merecem ter sua luta lembrada até o fim, sei que seria muito melhor simplesmente morrer dormindo ou coisas do tipo, mas assim não teria graça, você só seria qualquer outro. As pessoas realmente fortes, são desafiadas com doenças do tipo, e tem a missão de lutar até vencer a doença...

– Ou até a doença vencer a pessoa – resmunguei mal humorado e ela me deu um tapinha na testa com a mão que antes mexia em meus cabelos. Fiz careta.

– Pensamento positivo é sempre bom, Balzer. E de todo modo, Deus, o Destino, o mundo, ou sei lá no que você acredita, nunca daria a alguém um desafio maior do que acha que a pessoa é capaz de suportar.

Parei um momento para pensar. Aquele parecia ser o fim da teoria de Rachel, e o modo como ela falara fez tudo parecer muito mais bonito.

– Não quero perder minha mãe, Rach – falei com a voz entrecortada e a vontade de chorar de novo.

– Você não vai Aaron, não importa o que aconteça com ela, ela sempre será sua mãe. O que conta é o sentimento, não a presença – ela disse e senti seus lábios sobre minha testa enquanto ela passava a mão pelo meu rosto, limpando algo molhado que escorria por meu rosto. Quando eu tinha começado a chorar?

– Estou com medo, Rachel – admiti com a voz embargada.

– Eu sei, mas não precisa ter medo, eu estou aqui – ela disse e voltou a mexer em meu cabelo e a cantarolar uma música qualquer.

Sabe aquela história de não se apegar a mulher alguma? Aquilo parecia ter ido para o espaço.

Notas finais
QUEM SÃO AS LEITORAS MAR LINDAX DESSE MUNDO QUE VÃO COMENTAR? O/ ok, voltei ao normal '-' ou n