Ensaio sobre elas
1 Stella
Notas iniciais
Começarei contando sobre meu primeiro amor. A bailarina Stella. Eu tinha oito anos quando a conheci, começaria minhas aulas de piano, e fora aquele pequeno anjo a abrir a porta da casa do meu mais novo tutor.
Stella tinha os cabelos loiros e encaracolados que desciam até seus ombros, seus olhos eram castanhos, tinham um leve tom de mel. Ela havia puxado grande parte das características de seu pai.
Minhas aulas de piano eram toda a quarta-feira. Aguardava ansioso pelo momento no qual aquele pequeno anjo abriria a porta e sorriria para mim dizendo “Papai te aguarda na sala de música”.
Com o passar do tempo nos aproximamos, haviam muitos interesses em comum devido à música. As vezes tinha o prazer de observá-la ensaiar para seus recitais de balé. Como todo primeiro amor inocente de uma criança eu nunca desejei mais que isso. Eu a amava por sua companhia, seus passos de balé e as músicas clássicas.
Esse sentimento perdurou por alguns bons anos. Nossos pais se tornaram amigos. Éramos convidados para recitais de balé, e eles assistiam aos meus concertos.
Mas, as coisas mudaram entre nós em seu aniversário de onze anos. Todos fomos convidados para a festa na casa de Stella. Eu ainda me sentia perdido no meu amor infantil e acreditava que deveria dar algum passo. Eram anos carregando esse sentimento. Ela tinha o direito de saber.
Estávamos sentados nas escadas de sua casa, apenas eu e ela, conversando. Parecia o momento certo para dar um passo. Foi então que eu a beijei, de maneira ansiosa, cortando a frase que dizia. A reação que se seguiu não foi nem um pouco parecida com o que eu esperava, ou melhor, fantasiava. Stella levantou-se abruptamente e subiu as escadas correndo.
Durante um mês ela evitou-me. Não atendia mais a porta nos meus dias de aula, parecia se esconder pela casa para não me encontrar.
Então esse foi meu primeiro amor fracassado. Era o que eu acreditava na época pelo menos.
Depois de algum tempo Stella voltou a falar comigo, disse que gostava de mim, que eu era muito especial. Mas, não era daquela forma que ela me enxergava. Eu era seu melhor amigo – e posso dizer que ela também era minha melhor amiga – mas ela não queria nada além disso vindo de mim. O fato de eu ter roubado seu primeiro beijo a deixou muito chateada. Ela me contou sobre toda a idealização que uma garota de onze anos pode ter sobre esse momento. Mas, pensando bem, não havia sido tão ruim por ser com alguém que ela amava de verdade.
E no fim foi isso. Havia amor ali. Ele só possuía formas diferentes. Mas, de modo algum, amor pode ser ruim. As vezes ele dói, mas sempre dá um jeito da dor passar.
Essa é minha história de amor com minha melhor amiga. A linda bailarina Stella.
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