Notas iniciais
(...) La Belle de Jour Era a moça mais linda De toda a cidade E foi justamente pra ela Que eu escrevi o meu primeiro blues Mas Belle de Jour No azul viajava Seus olhos azuis como a tarde Na tarde de um Domingo azul (...) (La Belle de Jour - Alceu Valença)

Eu tinha quatorze anos quando conheci Isabela, ela parecia ser mais velha, mas nunca tive certeza disso.

Depois da minha desilusão com Stella eu havia beijado outras garotas, só que nunca sentira nada de especial – assim como acredito que essas garotas também não. Era só a pressão de ser adolescente.

Até que, em uma viagem para a praia, conheci Isabela. Ela ajudava seu pai em um quiosque na orla da praia, vendendo água de coco, e foi comprando um coco para minha mãe que a vi pela primeira vez. Isabela tinha a pele bronzeada de quem passa longas horas na praia, seus cabelos eram compridos, lisos e castanhos e seus olhos possuíam o mais lindo tom de azul que já vira. Era mais belo do que o azul do céu em uma tarde ensolarada.

Durante vários dias eu buscava água de coco só para vê-la, mais vezes do que o necessário, mais do que a minha família aguentava beber. Eu tinha um plano em mente, pretendia conversar com ela, mas toda a vez que ela sorria para mim e vislumbrava o brilho de seus olhos eu só conseguia pedir por outra água de coco.

“Vocês bebem bastante disso” comentou ela certo dia.

Ali estava minha deixa para iniciar uma conversa.

“Sim, ela tem um alto poder reidratante” senti minha voz falhando a cada palavra. Seria mais um fracasso para a coleção.

Ela soltou uma leve gargalhada.

“Imagino como deve ser necessário para vocês que não são daqui. É difícil suportar esse calor quando não se está acostumado, não é? ”

A conversa começou a me parecer promissora.

“É sim” Como deixar de ser monossilábico e não dizer nenhuma bobagem?

“Olha, imagino que você e sua família não conheçam muita coisa por aqui, então vou tomar a liberdade de convidar vocês para um luau que vai acontecer amanhã. Ele ocorre todo o ano, imagino que possam se divertir. Meu pai sempre toca lá” ela abriu um largo sorriso.

Outro cliente chegou nesse meio tempo onde eu encarava seu sorriso e ela foi atende-lo. Enquanto me afastava para ir embora ouvi ela gritar “Ah, eu sou Isabela, pode me procurar”.

Não foi exatamente fácil convencer minha família a ir ao luau, no fim foram apenas minha mãe, meu irmão caçula e eu.

Avistei Isabela de longe. Ela dançava próxima ao seu pai que tocava e cantava.

Quando musica terminou todos em volta aplaudiram. Foi quando Isabela me viu e sorrindo caminhou em minha direção.

“Que bom que vieram” ela dizia cada palavra sorrindo.

“Claro, esse bobo passou o dia todo falando no nosso ouvido sobre vir pra cá pra ver a menina dos cocos” meu irmãozinho, Vitor, falou emburrado. Senti minhas bochechas fervendo. Lembro dela ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha olhando para mim depois de ouvir as bobagens do meu irmão.

“Não liga pro que ele diz, esse garotinho aqui só gosta de provocar” disse nervoso.

“Meninos, eu vou me sentar ali” minha mãe disse apontando para um banco na orla da praia “só tentem não se perder”

“Eu vou com você mamãe, não quero ficar junto desse bobão e da namoradinha dele” ele mostrou a língua para mim e saiu correndo em direção ao banco na orla.

“Esse menino não tem jeito” minha mãe riu um pouco sem graça e foi atrás de meu irmão.

“Então você me acompanha em uma caminhada pela praia? ” ela sorriu.

“É claro” respondi ansioso.

A caminhada começou em silêncio e estranhamente fui eu quem o quebrou.

“Aquela música, que seu pai tocava, de quem é? Nunca ouvi antes”

“Ah, é dele, papai gosta de compor. É muito bom nisso. Sempre digo para ele buscar fazer algo profissionalmente, quem sabe um dia deixar o quiosque, mas ele não me dá ouvidos”

“E por que não? A música era incrível. Eu tenho mais conhecimento sobre música clássica, mas me agradou muito”

“Papai acredita que arte não deve ser comercial, a música faz parte dele, não deve ser vendida”

Ficamos em silêncio durante uns longos segundos.

“Música clássica é? ”

“Eu toco piano. Já participei de alguns concertos”

“Nossa, que fino” ela gargalhou.

“É como qualquer outro estilo de música”

“Mas, não é muito popular né” ela ajeitou uma mecha do cabelo atrás da orelha. “Isso atrai muitas garotas? ” sorriu.

“Não muitas, elas preferem coisas mais populares, como guitarristas. Estrelas do rock em ascensão são muito mais requisitadas” disse rindo.

“Bom, acredito que qualquer musico me encanta” houve uma pequena pausa. “Sabe, eu reparei que sempre quando aparecia no quiosque esperava para ser atendido por mim. Não posso fingir que essa preferência não me agradou”

Sentia meu rosto ferver. O que eu poderia dizer? Minha garganta estava seca. Não tive reação.

“Até quando vocês vão ficar na cidade? ”

“Só mais dois dias”

Então eu percebi o tempo que havia perdido. Desperdicei minhas férias inteiras indo apenas comprar coco para observá-la. Poderia tê-la chamado para conversar há muito tempo. Talvez saíssemos diversas vezes. Talvez aquelas férias fossem muito melhores.

“Que bom que eu o convidei para o luau então, ou a gente nunca teria essa conversa” enquanto falava ela entrelaçou seus dedos com os meus. “Você queria falar comigo, não é? Só não sabia como”

“Estava bem obvio né? ”

“Só um pouco” ela riu. “Já que você é musico, gostaria de saber, já compôs algo? ”

“Eu não me chamaria de musico, eu apenas toco piano. Reproduzo a criação de músicos que realmente tinham o talento”

“Você pode ter esse talento também, só não se convenceu ainda. Assim como fez comigo, você poderia falar comigo, mas não tinha se convencido ainda”

“É, foi você que me convenceu”

“Agora vou te convencer a tentar isso. Quem sabe um dia eu possa ouvir uma composição sua”

Continuamos a caminhar por um tempo, ainda de mãos dadas. Eu sentia meu coração acelerado em meu peito, meus dedos suando entre os dela. Isabela enxergava todo esse nervosismo em mim, mas não se importava.

“Eu preciso ir” ela parou de caminhar em determinado momento “Já esta tarde, sua mãe não deve estar mais aguentando esperar”

“É, ela deve estar preocupada”

Ela sorriu.

“Imagino que ainda não esteja convencido que pode tomar essa atitude, então eu vou”

Foi aí que Isabela me beijou. Seus lábios eram macios. Entrelacei meus dedos em seus cabelos, que eram tão macios e possuíam um cheiro frutado que nunca esqueci. Quando nos afastamos ela sorriu.

“Amanhã vai comprar mais água de coco? ” perguntou sorrindo.

“Pode ter certeza que sim”

Foi então que nos separamos. E eu nunca mais me encontrei com a bela da tarde.

Nos dois dias que se seguiram eu tentei de tudo para ir até o quiosque do pai de Isabela, mas minha família não me permitiu nenhuma brecha.

E foi para aquele par de olhos azuis que eu compus minha primeira canção.