Notas iniciais
(…) Just watching the DVD, smoking illegal weed Getting high as two kites, we needed to breathe We'd used each other's air just for the people to see And stay up all night like when we needed to sleep We'd go anywhere our minds would take us And I'd say you were beautiful without your make-up And you don't even need to worry about your weight 'cause We can all be loved the way that God made us And time's the only reason that we could break up (…) (Nina - Ed Sheeran)

Eu tinha dezesseis anos quando conheci Nina. O dia estava nublado e eu acabara de sair do colégio, junto de Stella (nessa época estávamos sempre juntos), do outro lado da rua havia um grupo de quatro pessoas, todas usavam preto e estavam fumando.

Já estávamos um pouco afastados quando uma voz feminina gritou.

“Ei, garoto do piano, você mesmo de mochila cinza”

Virei-me para ver quem gritava, era uma das garotas daquele grupo de fumantes. Ela atravessou a rua correndo, sem se atentar aos carros que passavam. Ela usava calça jeans preta, bota e uma jaqueta de couro, um pouco grande para o seu tamanho, por baixo da jaqueta lembro de reparar que ela usava uma camiseta meio gasta do Queen. Seus cabelos eram compridos e ondulados, castanhos assim como seus olhos. Ela segurava um cigarro na mão esquerda.

E era assim que eu geralmente via Nina, jeans preto, botas, uma camiseta qualquer, a jaqueta se estivesse frio e um cigarro na mão esquerda.

“Eu te conheço? ” perguntei quando ela se aproximou.

“Para o seu azar ainda não” ela gesticulava com a mão na qual segurava o cigarro. “Mas, eu conheço você, de certa forma” ela deu um trago “Você e a loirinha aí” apontou para Stella enquanto soltava a fumaça pela boca e nariz “Stella, não é? A bailarina. Você é realmente muito boa” sorriu.

“Não quero parecer grosseira, mas de onde nos conhece? ” perguntou Stella. Eu conseguia ver em seus olhos ela julgando a aparência da garota a nossa frente.

“Já assisti algumas apresentações sua” sorriu “dos dois na verdade” tragou novamente o cigarro.

“Nina, vamos logo! ” gritou um cara do grupo do outro lado da rua enquanto acenava.

“Fica calmo aí cuzão” ela gritou de volta e deu o ultimo trago no cigarro. “Bom, como bem devem ter ouvido sou a Nina” falava soltando a fumaça que tragara “Sou musicista também na real, bom estou me esforçando em ser” ela deu um sorriso meio nervoso.

Ela jogou a bituca do cigarro em um lixo próximo a nós e olhou ao redor.

“Bom” ela jogou o cabelo para trás “outro dia nos falamos, até mais meus pequenos prodígios” e acenou sorrindo.

Então novamente atravessou a rua correndo sem prestar atenção nos carros, dessa vez ela ganhou uma buzinada, que foi retribuída com seu dedo do meio. Ao chegar no grupo de pessoas o cara que tinha gritado por ela falou algo e recebeu um empurrão. Então o grupo começou a caminhar para o lado contrário que eu e Stella iriamos.

“Garota doida” comentou Stella.

“Pois é” sorri “pelo menos parece que ela só queria nos elogiar”

Passaram-se pelo menos duas semanas que tínhamos sido abordados por Nina e sua figura ainda me intrigava. Confesso que esperava que ela aparecesse novamente. Logo eu teria um concerto, será que ela iria? Esperava que sim. Mas, um dia saindo do colégio (sem Stella pois ela estava em casa de repouso devido a uma torção que teve durante um ensaio), eu vi aquela figura toda de preto encostada no muro, fumando. Dessa vez ela estava sozinha.

“Finalmente, estou te esperando já faz um tempo” disse ao me ver.

“Por que? ”

“Eu não te disse que nos falaríamos outro dia? ” ela olhou em volta “Cadê a loirinha? ”

“Stella se machucou durante um ensaio. Ganhou alguns dias em casa”

“Ah, que pena” ela tragou o cigarro “seremos apenas nós dois então”

Ela jogou o cigarro fora.

“Vamos”

“Para onde? ” perguntei.

“Apenas me siga garoto”

O tempo estava nublado. Ouvia alguns trovões. Certamente estava próximo de chover. Mas eu apenas segui Nina, para onde quer que ela estivesse indo.

Chegamos a um bosque, seguia Nina pela trilha, até que ela se embrenhou entre as arvores.

“Para onde esta indo? ” gritei ainda parado na trilha.

Não houve resposta. Então a segui.

Avistei-a sentada recostada a uma arvore.

“Sente-se” ela gesticulou para mim.

Acredito que aquela foi a primeira vez que a vi sem estar com um cigarro em mãos.

“Por que me trouxe até aqui? ” perguntei enquanto sentava-me ao seu lado. “Logo vai começar a chover”

“Exatamente” ela recostou as cabeça no tronco da arvore e fechou os olhos.

Fizeram-se alguns segundos de silêncio e então, após o barulho estrondoso de um trovão, Nina perguntou:

“Qual sua relação com a loirinha?”

Eu sorri ao ouvir tal pergunta. Estaria aquela garota excêntrica interessada em mim?

“Ela é minha melhor amiga” eu olhava para Nina que ainda permanecia de olhos fechados. “De infância” completei. Observei-a sorrir.

“Interessante”

Outro trovão.

“Sabe eu gosto muito de dias chuvosos” disse abrindo os olhos e virando a cabeça para mim “Já tomou banho de chuva? ”

“Todo mundo já deve ter tomado”

Ela acenou a cabeça negativamente. As primeiras gotas começaram a cair e rapidamente a chuva foi tomando forma.

“Nem todo mundo sabe como tomar banho de chuva” ela levantou-se e puxou-me pela mão.

Nina me fez segui-la por entre as arvores. Nós corríamos e gritávamos. Feito duas crianças que se divertem numa chuva de verão. Exceto que era inverno e aquela brincadeira provavelmente nos deixaria doentes. A chuva deve ter durado uma meia hora, até diminuir e tornar-se uma fina garoa. A garota de cabelos castanhos, completamente encharcada, jogou-se na grama molhada e acenou para que eu fizesse o mesmo. Deitei ao seu lado.

E foi assim que Nina me ensinou a tomar banho de chuva.

“No primeiro dia que nos encontramos você disse ser musicista também” olhei para Nina que olhava fixamente para o céu. “O que você toca?”

“Sou multi-instrumentista na verdade” ela deitou de lado olhando para mim. “Arranho um pouco no piano, mas toco violão, guitarra claro, baixo, um pouco de bateria, e quando criança tocava flauta” ela sorriu. “Para isso não devo mais ter folego. Mas, minha verdadeira paixão, é o violoncelo”

“Violoncelo? ” sorri “Está ai algo que não consigo imaginá-la tocando”

“Ei” ela disse empurrando meu ombro. “Modestamente eu sou muito boa no violoncelo”

“Será mesmo? ”

Nina levantou-se, sentou em cima de mim e segurou firmemente meus pulsos.

“Esta duvidando de mim, garoto do piano? ”

Seu rosto estava próximo do meu. As pontas dos nossos narizes quase tocavam-se. Sentia sua respiração quente. Apenas alguns centímetros separavam nossos lábios.

“Eu acredito vendo” respondi.

Ela sorriu e levantou. Tirou um cigarro do bolso e o acendeu. Me perguntei como ela manteve os cigarros secos após aquela chuva. Observei-a tragar e então soltar a fumaça pela boca e nariz. Parecia refletir sobre algo.

“Sábado minha banda vai tocar no Eden. Claro que não vai ser nenhum concerto, nada que pareça fazer muito seu estilo, é uma banda de rock” outro trago “Mas, poderá me conferir no baixo” a fumaça saindo dela. “Se quiser claro, começaremos as 22h.”

Nina estendeu a mão para que eu me levantasse.

“Estarei lá. ”

Ela sorriu.

“Até sábado então. ” Começou a caminhar.

“Mas já vai embora? ”

“É hora de ir garotinho, pode acabar ficando doente depois de toda essa chuva.” Outro trago.

Eu sorri.

“Até sábado, Nina. ”

Ela apenas acenou e voltou a caminhar. Observei-a afastar-se por um tempo. Então segui meu caminho, que infelizmente era contrário ao dela.

Aguardaria ansioso por sábado.

Obviamente eu peguei um resfriado. Fora o resto da semana de cama. Mas, sábado estava no Eden para vê-la tocar. Ansioso como sou cheguei lá bem antes do horário da sua apresentação, ela e a banda ainda não haviam chegado. Aquele definitivamente não era o meu lugar, não tinha nada em comum com as pessoas que o frequentavam.

“Você veio mesmo”

Nina gritou e correu em minha direção. Abraçou-me. Os outros membros da banda apenas ficaram olhando, a única outra garota deu um pequeno aceno.

“Precisava conferir se é tão boa quanto diz.” Sorri.

“Querido, sou ainda melhor” ela empurrou meu ombro de leve. “Nós já vamos começar, senta na nossa mesa, é bem na frente.”

Nina guiou-me até a mesa antes de subir no pequeno palco do bar.

Todos tomaram seu lugar no palco. Nina no baixo, a outra garota de cabelo preto e curto era a baterista, o cara loiro na guitarra e o moreno nos vocais.

Nina começou a tocar a introdução de “Another one bites the dust” do Queen. Aquela garota parecia em casa. Nina pertencia ao palco.

A apresentação foi relativamente longa, tocaram outros sucessos do Queen, assim como de outras bandas. Até algumas que eu mesmo não conhecia. Quando comentei com Nina depois ela disse que ainda haveria muito tempo para ela me apresentar tudo o que eu não conhecia.

Todos estávamos sentados em volta da mesa, outra banda tocava – não era tão boa quanto eles – eles bebiam e fumavam. Notei que o vocalista não parava de me encarar, com um ar incomodado, perguntou:

“O garoto aí não bebe? ”

“Ah Leo, com essa carinha de santo? O que você esperava? ” disse Nina apertando meu rosto com a mão livre do cigarro. “Meu pianista é menor de idade, então é melhor assim” um trago “alias, quantos anos você tem? ” ela perguntou para mim.

“Dezesseis” respondi um pouco nervoso. Até o momento não havia parado para pensar que todos ali deveriam ser mais velhos que eu.

O vocalista gargalhou.

“Nina está indo ao maternal para caçar pintos agora? ”

“Leo, não seja um babaca” o guitarrista disse.

“Tudo bem. Tudo bem.” Disse Leo levantando-se “Não quis ofender ninguém. Vou buscar outra cerveja, alguém quer? ”

“Não, na verdade eu e Miranda já vamos” o guitarrista levantou-se puxando a baterista pela mão.

“É cara, vai transar, esta precisando mesmo relaxar” o vocalista riu.

“O único que anda passando vontade aqui é você.” Disse o loiro “Tchau Nina, até o próximo ensaio”

Tanto ele quanto Miranda apenas acenaram para mim. Leo foi em direção ao balcão do bar sem dizer mais nada.

“Não de atenção para o Leo, ele é um completo cuzão, ainda mais sabendo que a gente precisa dele no vocal.” Nina tomou um gole de cerveja.

“Ele me pareceu um pouco enciumado. ”

“Você é bastante perspicaz” ela sorriu olhando para mim. “Está mesmo, ficamos algumas vezes, não aceita que não vai mais rolar.”

Nina acendeu outro cigarro.

“Não dá pra envolver trabalho com essas coisas. Para Miranda e Diego esta dando certo. Na minha opinião tiveram sorte.”

Permanecemos um tempo em silêncio. Apenas a observava fumando.

“E por que você e o Leo não tiveram? ” perguntei, não deveria, mas a situação me deixara inseguro.

“Quer dizer além dele ser um cuzão?! ” ela riu. “Fode mal pra caralho.”

Senti minhas bochechas ferverem.

Nina jogou o resto do seu cigarro dentro de uma das garrafas de cerveja vazia sobre a mesa.

“Você é virgem, não é?”

Não a respondi, mas ela estava certa.

Nina passou uma de suas pernas sobre as minhas e então sentou-se no meu colo de frente para mim. Nossos lábios quase se tocando. Senti suas mãos envolverem meu pescoço. E nossos lábios se tocaram. Lembro do nosso primeiro beijo como se tivesse acabado de acontecer. A boca de Nina tinha um leve gosto de cigarro, misturado a cerveja e cereja.

“Vamos sair daqui” ela disse quando nossos lábios afastaram-se, então levantou-se e puxou-me pela mão.

Confesso que fiquei nervoso com o que ela iria fazer em seguida. Mas, apenas caminhamos pela cidade. Vários beijos. Até que Nina decidiu que era hora de irmos embora.

Após este sábado, Nina sempre estava me esperando quando não tinha ensaio com a banda. Caminhávamos pela cidade. Até que um dia convidei-a para minha casa, disse que tocaria piano para ela. Suas visitas passaram a ser frequentes, ela conheceu meus pais, meu irmão – que a adorava. Fumávamos maconha juntos. Algumas vezes bebíamos, mas ela nunca me deixou exagerar.

“Você não é do tipo que bebe, meu pianista” ela dizia.

Mas, ainda sim, eu não sabia muito dela, da sua vida, além da banda e dos shows em bares da cidade.

“Você e a Nina, é sério? ” perguntou Stella certo dia.

“Sinceramente eu não sei, eu quero que sim, mas não sei o que esperar dela.” Respondi.

“Vocês são um dos casais mais improváveis que já vi” ela riu “como uma pessoa que os vê de fora, posso dizer que parece ser sério para ela. Mesmo Nina sendo essa pessoa” fez uma pausa “digamos, peculiar”

Depois dessa conversa com Stella o assunto martelou na minha cabeça por dias. Até tomar coragem e perguntar a Nina o que exatamente éramos. Ela apenas sorriu e disse:

“Vamos para minha casa. Finalmente tocarei violoncelo para você. ”

Nina estava certa – como sempre esteve. Aquela garota era espetacular no violoncelo.

“Então, como me sai?” perguntou guardando o instrumento.

“Incrível”

Foi tudo o que consegui dizer. Nunca encontrei outra palavra para definir aquela garota.

Nina caminhou em minha direção, eu estava sentado em sua cama. Ela beijou-me intensamente, dos lábios desceu ao meu pescoço e começou a abrir o zíper da minha calça. Quando ela ficou de joelhos a minha frente, senti meu corpo estremecer, meu coração estava acelerado, nervoso, ansioso, não saberia dizer, minha cabeça rodava. Senti ela tocar-me, um calafrio me subiu a espinha, seguida pela sensação de sua boca quente tocando em mim, quando ela começou a movimentar-se sabia que aquilo terminaria logo. Tentei puxar a cabeça de Nina para cima, mas ela pressionou-a mais contra mim. Gozei dentro da sua boca.

Nina levantou-se e empurrou meu corpo para traz, fazendo-me deitar. Ela ficou sobre mim, com seu rosto próximo ao meu e sorriu.

“Gostou? ”

Eu sabia pela sua expressão que ela queria me provocar. Sentia meu corpo todo fervendo, mas meu rosto queimava de vergonha.

“Eu sei que está nervoso e não tem nada de errado nisso”

Eu não conseguia falar. As palavras travavam em minha garganta.

“Não precisamos tentar mais nada por enquanto. Ainda teremos muito tempo, meu pianista.” Ela sorriu e beijou-me a testa. Então deitou-se ao meu lado.

Passamos longos minutos em silêncio.

“Onde estão seus pais?” perguntei.

“Meu pai, quer dizer? Trabalhando provavelmente, mesmo morando na mesma casa não nos vemos muito. O que é bom, evita brigas”

“E sua mãe?”

“Minha mãe já não está entre nós tem muitos anos.” Ela suspirou “Doze para ser exata, eu tinha nove anos quando um câncer a tirou de nós.”

“Sinto muito”

“Tem sido muito mais difícil para meu pai do que foi para mim. Já faz tanto tempo e ele continua incapaz de superar”

“Não sou capaz de imaginar como deve doer passar por isso”

Nina virou-se para mim.

“Você é um doce sabia?” sorriu “merece uma garota que seja tão gentil quanto você é, mas tá aqui perdendo tempo com uma pirada”

“Eu acho que gosto de você justamente por ser tão diferente de mim. São suas maluquices que me encantam”

Ela soltou uma gargalhada. Ouvi-la rir daquela forma era como ouvir uma bela canção.

Eu estava completamente apaixonado por Nina e só desejava saber como ela sentia-se. Será que ela poderia sentir o mesmo por mim? Por que aquela garota espetacular estava comigo?

“Quando perguntarem o que somos você pode dizer que somos namorados” ela acariciou meu rosto. “Eu sei que você tocou no assunto porque alguém te perguntou. Você não é do tipo que chegaria a esse assunto sem um estimulo externo. Nós somos um casal, sim, é isso que você deve dizer a quem quiser saber”

Eu a beijei.

Aquela garota poderia mesmo ser capaz de sentir-se como eu sentia-me?!

Eu nunca cheguei a conhecer o pai de Nina. Eles não tinham uma boa relação. Ela contou-me que a mãe também fora musicista, tocava violino, e os talentos de Nina acabavam fazendo com que o pai rememorasse toda sua história. Ele não queria que ela seguisse o caminho da música.

“Mas eu nunca poderia fazer algo diferente. A música é quem eu sou. Você compreende isso, não compreende?”

Eu apenas assenti.

Era uma tarde como muitas outras que passei com Nina. Ou parecia ser. Fumávamos maconha na sacada da minha casa. Ela estava mais calada do que o normal. Nunca a vira assim. Deveria ter previsto o que estava por vir.

Nina apagou o cigarro e notei que encarava-me.

“O que foi?” disse sorrindo.

Como resposta ela me beijou. Aquilo lembrou-me nosso primeiro beijo. Ela parecia cautelosa. Quando passei a mão por seus cabelos ondulados, ela pressionou seu corpo contra mim, projetando-me para traz. Seus beijos tornaram-se mais intensos, senti suas mãos por baixo da minha camisa, até ela a tirar.

“Alguém pode nos ver aqui” disse, mas ela continuou em silêncio. Beijou-me novamente, então tirou a própria camiseta, revelando-me seus seios.

“Nina..” insisti.

Nenhuma resposta.

Então ela fez sinal me pedindo silêncio. Beijou meu pescoço, desceu pelo meu peito – onde deixou algumas marcas – chegou em minha barriga. Nina olhou para mim e sorriu. Abriu o zíper da minha calça.

E foi ali no terraço que minha primeira vez aconteceu. Com Nina, aquela garota estranha que um dia apareceu fumando em frente ao me colégio, só para elogiar a mim e a minha amiga.

Eu não sabia que seria a única.

Enquanto vestia-me, Nina, ainda nua, abriu uma carteira de cigarros, tirou um e o acendeu. Ela continuava quieta. Eu apenas observei-a fumar naquele terraço, com o sol iluminando sua pele clara.

Ela terminou o cigarro e vestiu-se.

“Eu preciso ir” disse finalmente.

“Mas, ainda é cedo, Vitor nem chegou. Sabe que ele vai ficar chateado por não te ver”

“Ele vai superar isso” ela riu um pouco sem graça e estendeu a mão, entregando-me a carteira de cigarros que acabara de abrir. “Eu realmente preciso ir”

“Por que esta me dando seus cigarros? Sabe que não fumo isso”

“Eu sei” ela aproximou-se e mexeu no meu cabelo – o qual deixara crescer desde que a conhecera. “Mas, eu não vou precisar mais deles, faça o que quiser”

Ela guardou a carteira de cigarros em meu bolso.

“Adeus meu garoto do piano” ela sussurrou em meu ouvido e em seguida beijou-me. “Não precisa me levar até a porta” precipitou-se antes que eu pudesse dizer algo.

Eu apenas a observei sair. Não tinha entendido o que aquilo queria dizer. Nunca esperaria que aquele “Adeus” fosse algo real.

Observei-a do terraço enquanto descia a rua, até perde-la de vista.

Então esperei. Por muitos dias esperei que Nina aparecesse novamente.

Não apareceu.

Nunca mais a encontrei.

A carteira de cigarros ficou esquecida no fundo de alguma gaveta.

E essa era Nina, a completamente improvável Nina. Como uma canção, que não ouço mais, mas ainda lembro perfeitamente a letra.

Notas finais
Aguardo por alguma alma viva.