Notas iniciais
(...) Whatever happens, I'll leave it all to chance Another heartache, another failed romance On and on, does anybody know what we are living for ? I guess I'm learning (I'm learning learning learning) (...) (The Show Must Go On - Queen)

Fazia por volta de um mês que Nina desaparecera. Passava meus dias no quarto encarando o vazio. Era meu aniversário de dezessete anos e continuaria ali. Mas, a campainha tocou. Não iria atender a princípio e não havia mais ninguém em casa para isso. Só aguardei que a pessoa desistisse. Ela era insistente.

Desci e atendi a porta só para o barulho parar e eu pudesse voltar a ter a paz da minha fossa. Mas, quando abri a porta, vi aquela garota baixinha de cabelos pretos curtos. Miranda, a baterista da banda de Nina. Não consegui dizer nada.

“Quer fumar um pouco?” ela perguntou.

“Eu não f-” antes que terminasse a resposta ela puxou um pacote com erva da bolsa.

“Eu sei que Nina e você passavam muito tempo fumando juntos” ela riu e foi abrindo espaço para poder passar pela porta.

A maluca dos meus sonhos acabara de sumir e do nada outra batia em minha porta.

“O que faz aqui?” perguntei enquanto ela subia as escadas em minha frente.

“Só queria companhia para fumar” respondeu.

Não fazia ideia de como sabia para onde estava indo, mas ela acertou meu quarto na primeira tentativa.

“Primeiro, como soube onde eu moro?” perguntei.

“Nina me contava tudo, ou quase tudo, sobre vocês especialmente.” Disse sentando-se em minha cama. “Ela falava muito de você.”

“O que aconteceu?”

“Se quer saber para onde ela foi, não adianta perguntar para mim, apesar de tudo também não sei. Foi uma surpresa”

“Eu sinto como se não soubesse nada sobre ela”

“Acredito que ninguém nunca soube”

Miranda me fez companhia durante todo meu aniversário. Compartilhamos a maconha e várias histórias sobre Nina. Elas se conheceram no ensino médio, disse que Nina ficou completamente obcecada ao saber que ela tocava bateria. A banda foi ideia de Nina. Ela que organizava tudo, cuidava dos shows, do dinheiro. Miranda disse que Nina precisava do dinheiro, ela sempre dizia que esse era o jeito que mais a agradava juntar o dinheiro para conseguir fazer as coisas que planejava. Que coisas? Miranda nunca chegou a saber. O sumiço dela provava que ela conseguiu o que precisava.

A baterista falou brevemente sobre os problemas da Nina com o pai, os confrontos que estavam praticamente relacionados ao futuro dela. Mas, assim como eu, Miranda não sabia muito além do ‘Nina quer ser musicista, seu pai quer que ela faça algo diferente de sua mãe’.

“Mas, você poderia imaginar? A Nina realizando qualquer coisa que não tivesse relação com a musica?” Ela perguntou jogando a fumaça para o alto.

Ninguém conseguiria. Talvez, nem mesmo seu pai. Outra que também não sabia para onde ela fora.

Nina sumiu sem deixar rastros.

“Eu preferia que ela dissesse algo. Não precisava me deixar para onde estava indo se não quisesse, queria que ela se despedisse.” Me joguei na cama. “Eu estava apaixonado. Estou. Não sei, ela inda não saiu da minha cabeça e sei que preciso esquecê-la.”

Miranda deitou-se ao meu lado.

“Ela é uma pessoa difícil de esquecer, não precisa se forçar, essas coisas levam tempo e passam na hora certa.” Ela suspirou. “Sei que Nina gostava muito de você, pois nunca a vi ficar tanto tempo com alguém.”

Ela segurou minha mão.

E ficamos ali. Deitados em silêncio. Acabei adormecendo. Não sei se Miranda dormiu também, mas quando eu acordei ela ainda estava lá. Ainda segurava minha mão. Quando olhei em seu rosto notei lagrimas escorrendo. Não soube reagir.

“Eu achava que pelo menos para mim” ela falava entre lagrimas “pelo menos em mim, ela iria confiar para contar seus planos para o futuro.”

Eu sequei suas lagrimas.

“Tenho certeza que você era a pessoa que ela mais confiava no mundo” estava tentando encontrar as palavras certas. “Mas, somos provas de como ela é inconstante, não é?”

Miranda sorriu em meio as lágrimas. Ela me beijou nos lábios.

“Você é mesmo um doce” sorriu. “Vou embora agora, tenho que encontrar o Diego.”

Acompanhei-a até a porta. Recebi um abraço de despedida.

Houveram vários dias que Miranda apareceu lá em casa. Fumávamos. Contávamos nossas histórias sobre Nina.

Não nos beijamos novamente.

Com o tempo Miranda deixou de aparecer.

Isso pode não parecer uma história de amor. Mas, encontramos conforto um no outro.

Às vezes, isso também é amor.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.