Enquanto você dormia
3 Capitulo 2
Dois dias depois, espremida na traseira de uma carroça sacolejante que transportava um sortimento de porcos e carneiros, cheguei a St. Eugene.
A sorte havia acelerado minha viagem, pois eu não tinha caminhado nem 2 quilômetros quando um camponês e sua mulher, que seguiam na mesma direção, me ofereceram uma carona. Minha expectativa elevou-se a tal ponto que a primeira visão do nosso destino chegou como uma decepção esmagadora: as construções decrépitas nos arredores da cidade não eram muito diferentes dos casebres humildes da zona rural que eu havia deixado para trás. Mas então a carroça dobrou uma esquina e eu a vi.Uma gigantesca fortaleza de pedra, cercando o topo de um morro escarpado. O castelo.Daquela distância, apenas os muros externos eram visíveis com clareza, mas assim mesmo meu coração deu saltos. Pude ouvir as palavras de minha mãe, tão nítidas que parecia que ela estava sentada a meu lado: Era o lugar mais maravilhoso que eu já tinha visto.Que saudade senti dela naquele momento! Só agora percebo que minha ansiedade para atravessar aqueles portões era impulsionada pela tristeza. No fundo, eu tinha esperança de que restasse algum vestígio do espírito da minha mãe naqueles salões grandiosos.Seguimos adiante e as casas modestas foram dando lugar a construções sólidas, imprensadas umas nas outras. A quantidade de tabernas começou a superar o número de igrejas. Nossa carroça passou a andar bem mais lentamente ao disputarmos a passagem com outros veículos e cavaleiros, e tive a inquietante sensação de que o mundo se fechava a meu redor. As pessoas se apinhavam nas ruas, abrindo caminho por entre cascos e rodas. Os edifícios tornaram-se cada vez mais altos, encobrindo o céu. Por mais que curvasse o pescoço para trás, eu continuava sem ver os telhados.— Aqui estamos – anunciou o fazendeiro, Sr. Condor, que agira como meu protetor durante a viagem. Paramos numa praça grande, para onde convergiam ruas vindas de todas as direções, num espaço amplo e aberto, cercado por lojas e por uma grande igreja de pedra. O centro, pavimentado com tijolos, abrigava animais de todos os tamanhos e formas: bois de um lado, porcos de outro, galinhas e aves canoras no meio. O barulho, tanto humano quanto animal, era ensurdecedor. Desnorteada e boquiaberta, fiquei encostada na lateral da carroça. A Sra. Condor pôs a mão no meu ombro e disse algo que mal consegui ouvir: – Vou perguntar por sua tia. Não iremos embora até resolver isso.Assenti com a cabeça, aturdida, e permaneci onde estava, enquanto o Sr. Condor descarregava seus animais. À minha volta as pessoas se acotovelavam, suas vozes agredindo meus ouvidos numa cacofonia de gritos. Como é que algum dia eu me orientaria sozinha naquele lugar?— Você está com sorte, minha menina – disse a Sra. Condor, reaparecendo a meu lado. – O fabricante de fitas me informou como chegar à casa do seu tio. Vamos, vou levá-la.Senti-me grata pela pressão de sua mão nas minhas costas enquanto avançávamos às cotoveladas pela praça, passando por cavalos irrequietos e compradores impacientes. Tínhamos acabado de atravessar uma ruela escura e estreita quando, de repente, a Sra. Condor jogou um braço no meu peito e empurrou-me para o lado, fazendo meu corpo bater num muro. Um líquido espirrou perto de nós e, ao levantar os olhos, vi um jarro sendo puxado para dentro de uma janela, acima da minha cabeça.— Consegue acreditar nisso? – disse ela, indignada. – Eles são metidos a aristocratas aqui na cidade, mas nunca se viu gente do campo esvaziar urinóis pela janela.Contornei a poça imunda com uma careta. À medida que percorríamos um caminho sinuoso após outro, as ruas e casas começaram a se tornar maiores. Em vez de passarmos por trabalhadores salpicados de lama ou mães de expressão carregada puxando seus filhos encardidos pelo braço, agora andávamos em meio a damas e cavalheiros em trajes refinados, que caminhavam com a pose da boa educação.— Deve ser esta de tijolos e com a porta vermelha – disse a Sra. Condor, apontando com a cabeça a construção à nossa frente.À minha direita havia uma gravura de um sapato pendurada acima de uma porta simples de madeira; do outro lado, duas janelas cobertas por grades de ferro. Ergui os olhos e vi que a casa tinha três andares. Intimidada pelo tamanho da construção, perguntei-me se teria sido um erro chegar à casa de minha tia sem avisar. Ela era uma mulher que não havia oferecido abrigo à própria irmã quando esta se achava mais desesperadamente necessitada de ajuda. A Sra. Condor bateu e, quase de imediato, um homem de meia-idade de túnica preta curta e meias da mesma cor abriu a porta. Fitou-nos com expressão impassível, e fiquei pensando se seria meu tio. Mais hábil que eu em interpretar a posição social a partir da roupa, a Sra. Condor dirigiu-se a ele como a um criado: — Essa é a casa de Esme Swan? Essa menina é sobrinha dela. O homem me examinou como se eu fosse para qualquer entrega vinda da feira e abriu mais a porta.
— A senhora está em casa. Vou anunciá-la.Cautelosa, dei um passo para dentro e me virei, tornando a olhar para a Sra. Condor. — Boa sorte para você – disse ela, dando-me um rápido tapinha nas costas e se retirando. O homem que havia aberto a porta já ia a meio caminho pelo corredor e me apressei em alcançá-lo. Dei uma olhada para a sala pela qual passamos: uma área formal de recepção, com cadeiras de madeira entalhada dispostas em frente a uma lareira grandiosa. Do lado oposto, vislumbrei uma mesa reluzente, cercada por mais cadeiras do que consegui contar. Hoje em dia um lugar como aquele não me intimidaria, depois de todas as riquezas que vi, mas na época pareceu-me assombroso que uma pessoa com quem eu tinha laços de sangue vivesse em tamanho luxo. Mais adiante, no final do corredor, ouvi vozes que vinham de um par de portas fechadas. — Espere aqui – ordenou o homem, abrindo as portas o suficiente para sua passagem.Permaneci imóvel, as mãos cruzadas com firmeza para me tranquilizar, enquanto o homem fechava as portas às suas costas. Ouvi sons abafados, mas não consegui distinguir as palavras. Seria possível que minha tia se recusasse a me receber? Nesse caso, o que eu faria? Nauseada com a preocupação, aguardei para descobrir meu destino.Então as portas se abriram e o homem fez sinal para que eu o seguisse. A cozinha em que entrei não se assemelhava a nada que eu já tivesse visto. Estendia-se por toda a largura da casa, num espaço que tinha facilmente o dobro do tamanho da choupana em que eu fora criada. À minha direita ficava uma enorme lareira, grande o bastante para comportar dois caldeirões enormes e um espeto para carne. Das paredes pendia uma fartura de alimentos de dar água na boca: cebolas, cenoura e alho-poró em cestos, ramos de ervas secas, pedaços de carne curada. À minha esquerda, uma moça lavava uma pilha de panelas em uma bacia. Eu nunca tinha visto tantos pratos num lugar só: seriam suficientes para pôr a mesa para toda a minha aldeia. Encostados na parede a meu lado havia barris cheios de aveia e farinha, e qualquer um deles teria alimentado minha família durante meses.O centro do cômodo era ocupado por uma enorme mesa. Numa das cabeceiras, uma jovem abria um disco de massa, torcendo e girando o rolo com a facilidade alcançada pela prática. No centro estavam duas mulheres, ambas me olhando diretamente. A primeira, toda vestida de preto a não ser pelo avental e pela touca brancos, era a pessoa mais gorda que eu já tinha visto; sua barriga imensa era a prova de que ninguém passava fome naquela casa. O ar de autoridade e o elegante vestido amarelo da outra mulher a destacaram como a dona da casa. Fiquei surpresa ao ver que ela segurava uma pena; além da minha mãe, eu nunca conhecera uma mulher que soubesse escrever. — Tia Esme? – perguntei, nervosa.— Branca, não é? – disse ela, olhando-me com suspeita. Tinha feições a que as pessoas se referem como agradáveis em vez de belas, com a testa pronunciada e o queixo pontudo. Os lábios uniam-se numa linha apertada e fina. — O que a traz aqui?— Minha mãe... – comecei, e me descobri sem palavras. — Como ela tem passado? O desespero que me inundou o rosto transmitiu a mensagem que não consegui enunciar em voz alta enquanto era sacudida por soluços silenciosos. Tia Esme acenou devagar com a cabeça, sem alterar a expressão ressabiada. – O que aconteceu? – indagou. Funguei e me recompus. — A varíola. Ela também levou quatro dos meus irmãos – expliquei. Tia Esme contornou a mesa e me deu um tapinha desanimado no ombro: — Pobre Carmem. Ela merecia um destino melhor.Falou depressa, sem emoção. Continuou a manter os pensamentos para si, como se ainda não houvesse decidido o que fazer comigo. — Eu vim com a esperança de encontrar um lugar no castelo, como minha mãe um dia fez – expliquei, nervosa. – Se eu puder abusar da sua hospitalidade por esta noite, talvez amanhã a senhora possa me dizer qual a melhor maneira de agir. Esme balançou depressa a cabeça: — Bobagem. Com essa aparência, eles nunca a aceitarão. Passe um período conosco e providenciarei para que você seja preparada adequadamente. — Obrigada.Meu alívio foi tão intenso que por pouco não tornei a me desmanchar em lágrimas. — Foi desejo da sua mãe que você me procurasse? – perguntou Esme. — O seu nome foi uma das últimas palavras que ela disse – respondi. A revelação rompeu momentaneamente a reserva de Esme, que deu um suspiro profundo. Vi em seus olhos a dor que nasce de arrependimentos que jamais desaparecerão. — Ela disse uma outra coisa antes de morrer – acrescentei. – Talvez a senhora saiba o que significa. Uma palavra parecida com “pel”, embora isso não faça nenhum sentido...— Pelyna – interrompeu-me Esme. – Era amiga de Carmem no castelo, mas sua sorte melhorou muito desde então. Agora ela é conhecida como Sra. Norton e é a chefe da criadagem.Compreendi então por que minha mãe tanto se esforçara para proferir mais essa palavra. Com seu último suspiro, ela me dera permissão para ir embora, dirigindo-me à pessoa que poderia guiar meu caminho na corte. Uma pessoa que seria capaz de proteger-me depois da partida dela. Ou assim pensei na ocasião. Hoje, com a sabedoria da idade, não posso deixar de ver os atos de minha mãe sob outro prisma, por um ângulo que é mais compatível com seu caráter. Ela passara a vida inteira me dissuadindo de imaginar uma vida no castelo, mudando de assunto toda vez que eu o trazia à tona. Seria provável que houvesse mudado de ideia no instante da morte? Ou teria ela evocado o nome da amiga como última e desesperada tentativa de me salvar, na esperança de que Pellyna Norton fosse a única pessoa capaz de me fazer desistir da ideia de entrar naquele mundo traiçoeiro? Jamais saberei.— A primeira coisa que devemos fazer é deixá-la limpa – disse Esme, olhando com reprovação para minha roupa. – Se você espera ser contratada no castelo, deve ter a aparência apropriada, além de compreender como as coisas são feitas por lá. Eu lhe direi tudo o que você precisa saber, no devido tempo. Aliviada, porém ainda insegura do meu lugar na casa, aguardei outras instruções. Deveria ficar nos aposentos da família, no andar de cima? Ou num dos quartinhos de criada que vislumbrei da cozinha, como conviria a uma órfã sem nenhum centavo? — Venha, vou apresentá-la a suas primas – disse Esme, segurando-me pelo braço. Seus lábios curvaram-se num sorriso irônico. — Não fique com esse ar tão preocupado. Não sou uma desalmada, não importa o que tenha dito sua mãe.
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