Na verdade, minha mãe falara muito pouco da irmã. Havia ligeiras semelhanças entre as duas: Esme tinha o mesmo cabelo ondulado que balançava em cachos em volta do rosto e baixava os olhos do mesmo modo melancólico que minha mãe. Vistas lado a lado, ninguém acharia que eram irmãs. Minha mãe, casada com um agricultor pobre e beligerante, escondia sua força sob uma postura acuada e uma forma cautelosa de falar.

Esme, mulher de um rico negociante de tecidos, portava-se com a segurança de quem sabe que suas palavras serão obedecidas. Mantinha a ordem entre uma equipe de criados atarefados, três filhas e o marido sem nunca elevar a voz. Meu tio podia ser o chefe nominal da família, mas era minha tia quem exercia o poder entre aquelas paredes.

Durante as duas semanas que vivi sob seu teto, aprendi que a bondade espreitava por trás dos modos bruscos de minha tia. Ela me pôs para dormir na mesma cama que sua filha Alice, poucos anos mais velha que eu e já comprometida para se casar, e insistiu que eu tomasse banho de água quente todos os domingos, como faziam seus filhos. Meus primos, acostumados a tais privilégios, eram educados, mas indiferentes à minha presença, e desconfiei que minha falta de refinamento tivesse me transformado em objeto de pilhéria por trás das portas fechadas. Se eles soubessem aonde eu chegaria, será que haveriam me tratado de outra maneira? É tentador imaginar castigos para quem nos menosprezou. No entanto, sabendo o que a família deles viria a sofrer em anos vindouros, não posso guardar ressentimentos. É uma verdadeira bênção sermos poupados do conhecimento prévio de nosso futuro e nosso fim.

Esme, que havia trabalhado no castelo com minha mãe antes de se casar, instruiu-me sobre a etiqueta da corte e sobre as hierarquias da criadagem. Mandou ajustar um dos vestidos velhos de Alice para mim e fez um ruído de desaprovação ao ver meus sapatos. Eu possuía um único par, feito de madeira e cortiça pelo meu pai. Em casa, andava descalça durante a maior parte do tempo.

— Você não pode ser vista usando isso – declarou tia Esme. – Marcel lhe fará um par.

Marcel, logo vim a saber, era o sapateiro cuja loja ficava no térreo da casa de minha tia. Era comum os proprietários alugarem o primeiro andar de suas casas, já que nenhuma família de bem queria transeuntes olhando por suas janelas. O alto da cabeça de Marcel mal batia em meu ombro, mas ele compensava a baixa estatura criando sempre um escarcéu a seu redor e falando alto e depressa.

— Minha sobrinha precisa de um par bom e resistente – disse-lhe Esme, quando fomos à loja. – De couro, é claro, mas nada extravagante.

— Sim, sim, compreendo – disse , assentindo com a cabeça. – Algo que resista ao uso constante. Ainda assim, uma jovem merece um toque de beleza, não é? Um bordado, talvez? Esme balançou a cabeça com firmeza.

— Não há necessidade de enfeite nenhum.

— Bem, neste caso, tiremos as medidas. Félix!

Um rapaz atravessou as cortinas penduradas no fundo da loja. Eu gostaria de poder dizer qual foi a impressão exata que ele me causou à primeira vista; se esta fosse uma história diferente, eu poderia relembrar seus olhos comoventes ou o anseio esmagador que me deixou desnorteada ao olhar para seu rosto ou alguma outra tolice. Mas jurei dizer a verdade.

Naquele dia, notei apenas que ele tinha mais ou menos a minha idade e era consideravelmente mais alto que o pai, porém menos efusivo. Não disse nada ao se ajoelhar diante de mim e estender as mãos para minhas pernas. Fiquei tão surpresa com o gesto que recuei, me encolhendo, e quase perdi o equilíbrio.

— Deixe a menina sentar-se primeiro! – exclamou Marcel, rindo.

Então o homenzinho me conduziu a um banco encostado à parede e fez sinal para que Félix se aproximasse.O rapaz puxou cuidadosamente um de meus pés de baixo da minha saia e tirou o chinelo que tia Esme havia me emprestado. Mal senti o peso de suas mãos através das meias quando ele pôs meu pé sobre um pedaço de madeira plana, entalhado com traçados de pés de vários tamanhos. Olhou para o pai e apontou para a linha correspondente ao meu, depois tirou do pescoço uma tira fina de couro e a enrolou em meu pé, de baixo para cima, e em meu tornozelo. Retirou a tira e meneou a cabeça para o pai. Continuou sem dizer nada. Eu me perguntei se seria mudo. Ou talvez houvesse perdido a esperança de se fazer ouvir acima da tagarelice paterna.

— Pronto? – perguntou Marcel. – Ótimo. Agora, vejamos a cor – continuou, apontando para várias amostras de couro penduradas em ganchos acima da minha cabeça.

Esme examinou as opções e apontou para uma peça marrom-escura.

— Aquela.

Enfiei a mão no bolso do avental e retirei uma das moedas que minha mãe me dera.

— Isto chega? – perguntei.

Esme segurou meus dedos e os fechou em torno da moeda.

— Isto é um presente meu para você. Que bela tia eu seria, mandando-a para o castelo com aqueles tamancos de madeira.

— O castelo? – disse Marcel, cujos olhos se iluminaram de surpresa.

— A senhorita vai visitar o castelo?

— Ela deverá trabalhar lá – retrucou Esme.

— Nós dois iremos lá, dentro de alguns dias – informou Marcel. – Uma das senhoras mais finas da corte compra seus sapatos conosco, dez pares de cada vez. Quisera eu que todos os meus fregueses fossem tão liberais nos gastos!

— Talvez os senhores possam acompanhar Branca quando forem, não?

— Seria um prazer. Ela chegará sã e salva, dou-lhe minha palavra.

Eu havia pensado que minha tia me levaria pessoalmente ao castelo e senti uma ponta de decepção quando ela me confiou ao sapateiro. Como é que eu encontraria o caminho naquelas fortificações maciças sem a orientação dela? Egocêntrica como costumam ser as meninas daquela idade, nunca me ocorreu que Esme deveria ter uma boa razão para evitar o local.

Quem já ocupou o lugar de criada pode se tornar um tanto sensível à posição subalterna de antes, como eu viria a saber muito bem um dia.

— Avise-me sobre a sua partida e eu providenciarei para que ela esteja pronta – disse Esme.

— A senhorita chegará ao castelo como uma dama – assegurou-me Marcel.

— Seus sapatos serão de confecção tão refinada quanto qualquer um, se bem que os da rainha, ao que dizem, são incrustados com diamantes...

Após uma descrição amorosa dos calçados da rainha, Marcel passou a um exame detalhado da moda na corte, ignorando as tentativas de Agna de se retirar. Voltei-me momentaneamente para Félix, que deu um sorriso quase imperceptível, apenas o bastante para me fazer notar seus olhos escuros, franzidos de diversão com a tagarelice do pai. O bastante para me fazer pensar que ele poderia ser mais que o filho mudo de um sapateiro.