Enquanto o Sol se Pôr
1 Nova Casa, Nova vida!
O sol estava bem no meio do céu quando o último móvel foi colocado no canto da sala das paredes de cor pastel. Minha mãe estava por ali, servindo uma boa dose de limonada para os dois vizinhos que haviam ajudado na mudança. Dois gordos, com metade da barriga saltando da camisa... Eram tão parecidos que eu os diria gêmeos, senão soubesse que nem eram da mesma família. Seus nomes não me lembro bem,Alfredo ou André e Roberto ou Renato ! Algo bem do tipo.
Logo subi as escadas para espiar os quartos. Não era lá aqueles quartos como fui acostumado na infância, grandes, imensos... mas devia bem caber umas duas camas de solteiro. Ou uma de casal... (como se eu fosse precisar!). Mas eu já tinha dezessete, não precisava de tanto espaço... se coubesse uma mesinha cheia de livros e um abajur, para minha mãe estava perfeito ! “É, dezessete é a idade de só pensar em estudos... nada mais!” dizia.
A janela era uma maravilha. Grande, bem posicionada, veria dali pra frente por ela a rua inteira, todos os dias. Aquela vista me tomou um bom tempo naquele dia. E eu só saí dali quando o sol se despedia por trás de uma montanha bem verde, e o céu ficava rosado.
Quando eu desci minha mãe já era outra, por cima de um salto que colocava medo até nos palhaços de perna-de-pau. E cambaleando para meu lado, ela disse:
_Olha, querido, eu vou sair com seu pai para dar uma olhada numas coisinhas... não demorarei muito!Eu posso trancar a...
_Não, eu fico por aqui vigiando, você pode deixar a porta aberta. – Eu disse me jogando em uma poltrona.
Ela ainda tentou um beijo antes de sumir pela porta. O som agudo dos pneus do carro correram pela rua, até sumirem esquina à fora. Pronto, eu estava sozinho na sala vazia, de um bairro estranho, de uma cidade insuportável... Coloquei na cabeça que pior não podia ficar.
_Nada de TV, nada de computador, nada de pessoas... o que mais eu posso querer? – Resmunguei indo até a porta
Antes de batê-la com força vi que as luzes dos postes começavam a se acender. Bem, de qualquer forma, aquilo era sinal de que estava na hora de arrumar alguma coisa pra comer.
_Tomara que por aqui eles entreguem comida em casa. – Falei metendo a mão no bolso para pegar meu celular. Tinha sinal e um restinho de bateria.
Liguei pra uma lanchonete de nome japonês cujo papelzinho de propaganda eu havia achado na varanda da nova casa. O preço da comida era bastante tentador, o que me preocupava muito ao pensar na qualidade. Sempre fui um pouco desconfiado com essas lanchonetes de preço baixo, nem sei bem porque.
Quando foi chegar a comida a lua brilhava pela janela há tempo. E eu já me distraía com alguns pedacinhos de madeira ali mesmo, pela sala. Mal esperei a campainha tocar e fui abrir a porta. Um rapaz estava em pé na varanda com uma caixinha azul em uma das mãos e o capacete na outra. Sorriu ao me ver:
_Boa noite!
_Boa noite! Aqui está o dinheiro,demorou um bocado, hein?
O rapaz sorriu novamente e me passou a caixinha, falando:
_Muitos pedidos hoje. – E olhou para dentro da sala, curioso – Bem-vindo !
Eu ri estranhando:
_Como?
O sorriso do rapaz logo se tornou uma risada com bastante vontade, deixando todos os dentes à mostra:
_Você acaba de se mudar, não é? Ninguém teria uma casa tão desarrumada como essa!
Eu sorri meio sem vontade,mas que entregador bem... bem folgado, acho que é essa a palavra. Porém, bastante amigável.
_Ah... obrigado ! – Obrigado por ficar espiando a casa dos outros, pensei.
Ele já tinha o dinheiro, eu já tinha a comida, mas ele parecia não querer ir embora, emendou logo a conversa, passando a mão no cabelo loiro:
_Eu moro no fim da rua. Meu nome éRodrigo. – E me estendeu a mão
_ O meu é Marcos. – Sorri mais amigável do que achei que poderia ser
Ele percorreu os olhos pela sala atrás de mim denovo. Não sei se estava esperando que o chamasse para entrar, mas não o fiz. E o fato dele estar trabalhando era um dos motivos... Talvez era por isso que ele demorava tanto nas entregas, nunca havia visto um entregador de comida tão falante.
_Então? – Eu disse
_Então o que?
Silêncio. Depois demos mais uma risada, a dele mais próxima de uma gargalhada. Ele era bastante sorridente, isso eu tinha certeza.
_Eu tenho que ir – O Rodrigo disse por fim vestindo o capacete e batendo a mão forte no meu ombro.
_Está bem... aparece aqui uma hora dessas, Rodrigo. – Respondi, tentando ser educado, que não era o meu forte.
_Apareço mesmo! – O tom me pareceu um tanto que verdadeiro demais, ele não estava sendo apenas educado, voltaria mesmo.
Entrei com o fantasma do Rodrigo na minha cabeça e o barulho da moto atrás de mim. Havia me enganado quanto a comida, estava muito boa. A melhor comida japonesa que eu havia comido. Não, não era pra tanto, acho que era a fome... Mas estava tão boa! Me segurei pra não pedir mais uma vez, usei como desculpa para mim mesmo a demora da entrega. Não pedi.
Nem vi quando meus pais chegaram, havia cochilado ao lado da caixinha azul da comida japonesa e nem havia me dado conta. Os dois estavam animados.
_Filho, pediu comida?– Meu pai me disse atravessando a sala sem olhar pra mim
_Sim. Estava com fome. – Respondi baixo
_Meu querido, trouxemos um lanche tão gostoso pra você! – Minha mãe disse recolhendo a caixinha vazia do chão
Não respondi e só levantei para caminhar para o meu quarto.
_Vou pedir para o seu pai colocar o colchão no seu quarto, está bem? Você já escolheu em qual quer ficar? – Minha mãe insistiu em falar comigo
_Já!
Meu pai voltou à sala:
_Marcos, amanhã quero que você me ajude a montar uns móveis bem cedo, está bem?
Olhei pra trás, meio sonolento:
_Não pode ser à tarde?
_Não! À tarde iremos à casa da sua avó, é aniversário do seu tio Aquiles, não lembra? Vai estar todo mundo lá, inclusive sua mãe, você e eu! – Ele respondeu seco
_Mas pai... – Eu não tinha armas pra lutar, por isso subi as escadas quieto, eu sempre odiei as festas em família, cansava de ouvir os meus tios me chamarem de Carlos, ou Marlon, ou até Lucas... mas nunca Marcos ! Aquelas festas eram a pior coisa, pior até que... que... estudar!
Assim que minha mãe mandou, meu pai colocou o colchão num canto do meu quarto, onde a lua iluminava bastante. Era lua cheia, uma lua tão grande e redonda que não parecia real. E a janela me mostrava bem onde ela estava. O céu não tinha uma nuvem sequer. Deitei e fiquei olhando-o. As estrelas piscavam pra mim, num silêncio confortador, e num ritmo lento... O vento frio invadia meu quarto de quando em quando, trazendo arrepios intensos, me enrolei num cobertor e adormeci.
Naquela noite tive sonhos engraçados, onde eu comia inúmeras caixas azuis de comida japonesa e depois saía correndo do Rodrigo por não ter dinheiro para pagar. Mas ao invés dele me xingar, ele gritava: “Bem vindo! Bem vindo!” a todo momento.
Quando eu acordei o sol já cobria metade do meu colchão, e uns passarinhos faziam uns barulhos engraçados do lado de fora da janela. A cidade parecia bem alegre pela manhã pela vista da minha janela. Tudo muito vivo, tudo muito verde.
_Marcos ! – Era minha mãe entrando pelo quarto apressada._O café já está na mesa! Vamos que o hoje o dia é grande.
Ela me empurrou umas roupas que ela havia escolhido. Algo bonitinho para festinhas de família. Tratei de vestir, com a cabeça em coisas bem longe dali. Ela saiu reclamando de algum vazamento no banheiro debaixo da casa, os saltos cantando corredor à fora.
Desci as escadas e tudo por ali já estava bem arrumado, o armário bem colocado num canto, uns quadros tortos pela parede... Tudo como deveria estar. Meu pai secava o suor da testa com as costas da mão, quando me avistou:
_Bom dia Marcos! – Foi o que disse _Me ajude aqui com essa mesa!
_Maso café... – Não insisti,não funcionava com meu pai.
Arrastamos a mesa umas dez vezes pra todos os lados da sala, e ela acabou ficando no primeiro lugar que escolhemos. Coloquei umas coisinhas insignificantes em seus lugares. Pronto, a sala estava arrumada. E eu havia perdido duas horas da minha manhã.
Fui para a cozinha, o cheiro do almoço dançando pelo meu nariz. O café havia desaparecido da mesa, e minha mãe já preparava a comida por ali. Puxei uma cadeira e sentei.
_Mãe. – Eu disse _Você já conhece alguém daqui?
_Não! – Respondeu-me, uns tomates nas mãos _Você já conhece?
Eu cocei a cabeça repassando a lembrança da noite passada.
_Conheci sim! Um cara aqui de perto! Rodrigo! Meio doido, mas gente boa.
_Legal filho! – Ela disse me olhando _Fazendo amiguinhos...
Eu odiava quando minha mãe falava como se eu tivesse oito anos de idade. Até parei de conversar, por mais que ela insistisse. Só olhava umas formigas pelo canto da cozinha, pareciam muito mais interessantes.
Não deu muito tempo até que meu pai se sentasse à mesa para o almoço. Comeríamos até rápido, sem conversas, se minha mãe não estivesse preocupada com a festinha do Tio Aquiles. Tudo por causa do presente, que ela havia esquecido de comprar.
_Mas é só uma festinha mãe, ninguém vai levar presente! – Eudisse
_Será? – Ela sempre soltava essa palavrinha insuportável
Bem, todos nós estávamos perfumados e prontos para sair em vinte minutos, eu já esperava perto do carro, enquanto minha mãe embrulhava um de nossos porta-retratos para levar para o Tio Aquiles, e o meu pai havia subido para trancar bem as janelas.
Minha mãe foi a última a entrar no carro, ainda preparando o embrulho do presente, e falando:
_É só uma lembrancinha...
Sempre era uma lembrancinha. Eu ri baixinho. Meu pai deu a partida no carro, o som do motor assustou um cachorro que passava por ali, e o carro começou a andar, pegando velocidade.
Foi quando estávamos virando a esquina, que de longe avistei, parando em frente à varanda da minha casa, uma moto, e um rapaz loiro descia dela. Era o Rodrigo, que ia apressado em direção à porta. Ele voltara mesmo. Eu não comentei nada, só fiquei com aquilo na cabeça o resto do caminho até a casa da minha avó. Me senti mal pelo Rodrigo, mas logo passei a sentir mal por mim mesmo, que haveria de agüentar uma tarde inteira de sorrisinhos falsos e piadas de bêbado!
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