Enquanto o Sol se Pôr

2 Um dia nem tão ruim.


Dava pra ver de longe a multidão que estava na porta da velha casa da minha avó. Eram parentes de tudo quanto é jeito. Uns grandes, outros muito pequenos, uns velhos, outros novos. Brancos, pretos... Eu sempre ria da minha família. Não havia uma outra com tanta diversidade. Eu fui o último a descer do carro, eu não queria mesmo sair dali. Agarrava o cinto como se fosse a minha última esperança. Não demorou muito para que eu fosse notado.

_Marquinhos, meu querido! – Era uma tia, bem, eu nem sabia o nome dela direito

Sorri, tentando ser agradável, mas não querendo chamar atenção. Meu tio Aquiles já estava completamente à vontade, sem camisa... esbanjando alegria e um tremendo suor pela grande barriga. Minha mãe pareceu nem reparar quando foi abraçá-lo, para entregar a “lembrancinha”.

_Não precisava. – Ele disse, ninguém nunca precisa

Demorou algum tempo até que eu conseguisse entrar para a casa, seguido do meu pai que já trocava risadas altas com um conhecido da família. Estava tudo como deveria estar naquele dia, os mais velhos no sofá, conversando uns com os outros, sempre com as mão sobre o joelho alheio, as crianças mais novas no meio da sala, ou chorando ou gritando, já aqueles que eram da minha idade ficavam num canto, perto da escada, fofocando, mais as meninas que os meninos. Eram sempre os mesmos, primos, irmãos... Mas não naquele dia. Tinha alguém de diferente. Bem ali, encostada na parede. Eu podia dizer que já tinha visto aquela menina antes... só não sabia onde. Era uma sensação de cumplicidade inexplicável, estranha. Como seu eu a conhecesse por toda a vida. Ela era clara, não tão branca, e dos cabelos extremamente negros. Os olhos igualmente escuros, brilhavam a todo momento, talvez mais que o sorriso, dos dentes muito brancos. Era diferente, não era linda, só era... diferente.

_Marcos. – Minha mãe me chamou de repente _Vai lá cumprimentar seus primos. Olha, o Flavinho ta ali, ta vendo? Lembra do Flavinho? Filho da tia Rita? Ele sempre ia brincar com você de manhã... ele dormia lá em casa pra vocês jogarem bola de manhã...

_Olha! O nariz dele não ta sangrando hoje!

Minha mãe fez uma cara séria, olhando nos meus olhos. Esse era o sinal pra eu sair antes que ela começasse as gracinhas.

_Oi. – Eu disse, mais baixo do que era pra ser _Como ta? Lembra de mim, o do... futebol?

Silêncio. Parecia que eu era o único que sabia falar daquele grupo, talvez da sala, o grupo dos adolescentes estava todo me olhando, curiosos. Me deu uma vontade de correr, pelo caminho que eu havia chegado... Até a garota tava me olhando, de um jeito estranho... o sorriso de sempre quase se desfazendo.

_Claro que lembro! – Finalmente uma resposta

Sorri, desconcertado. O Flavinho passou um dos braços pelo meu pescoço e fez questão de me virar para que os outros vissem meu rosto. Ou ele pretendia me matar de vergonha, ou (graças a Deus) eu não estava mostrando que eu estava tão sem graça.

_Esse aqui é o Marlon!

_É Marcos. – Ele pareceu nem ligar, me passando um copo de suco _Esse povo todo você já conhece, e aquela ali... é a Maria.

Então era aquele o nome dela, um nome tão simples, pra alguém tão... diferente. Ainda vou achar um outro adjetivo pra ela, mas esse é perfeito. Ela sorriu, ainda mais, e me estendeu a macia mão. Era segura e muito simpática.

_Prazer. – A voz era igualmente simpática

_Prazer — Eu respondi, numa voz rala e fina. Malditas horas de ter vergonha. Não tinha como, eu sempre era assim.

É o mau do filho único, de não ter muita gente pra conversar. E aí não procurar também... e aí ficar assim, sem saber quando aparece alguém novo. Pelo menos era assim comigo. Naquela hora me veio na cabeça em perguntar de onde ela havia saído. Porque da família ela não era. Era amiga de alguém, namorada? Mas pegaria muito mau: “O que você ta fazendo aqui?” Preferi ficar calado mesmo.

Depois disso o tempo correu como em todas as festas na casa da minha avó, lento, mas já haviam acontecido festas piores. A conversa não estava muito ruim ali perto da escada. Com alguns minutos eu já sabia que Maria era uma amiga de um primo mais velho meu, que ela morava até perto da minha nova casa, e até também, que ela gostava muito de cachorros, e tudo isso sem trocar uma palavra com ela. Na verdade eu só havia dito, até aquele momento, três palavras: sim, não e talvez. Claro que dei algumas risadas, forçadas, confesso.

Umas horas depois o bolo chegou, pro meio da sala. Parecia muito pequeno pra quantidade de pessoas. Coloquei na cabeça que não queria comer, pela fome que me faltava mesmo. Uma mulher, muito animada não parava de gritar, por ali:

_Eu quero o primeiro pedaço do bolo! Ele é meu!

Senti vergonha por ela. Era daquelas tias, bem arrumadas, que não agüentava um copo de cerveja sequer, sem dar um vexame pra todo mundo. Erguia os braços, e gritava com a força dos pulmões. Alguns riam, mas também tinham aqueles que achavam a coisa mais feia do mundo. Não preciso dizer que realmente ela ganhou o primeiro pedaço do bolo, e o segundo também, antes de sair gritando casa afora:

_Cadê o banheiro? Ai meu Deus, vai ser na roupa!

Por não comer eu preferi ir pro jardim que ficava atrás da casa. Era o único lugar que ainda gostava da casa da minha avó, era bem meu, mais do que dela. Me lembrava de cada pedaço daquela grama, ou galho daquelas árvores... Era o meu lugar preferido na infância. Engraçado como aquele espaço parecia tão maior quando eu era pequeno. Como aquelas árvores eram tão mais interessantes. O ar continuava o mesmo, divertido. Como era bom ficar ali, passar o dia ali, todo o tempo que eu quisesse, brincando, correndo, me machucando. Eu era feliz. Poxa... Eu não havia percebido que havia mudado tanto. Deu saudade de pular naquela grama e me molhar na fonte lá no fundo. Tudo muito limpo, tudo muito feliz.

_Como é bonito aqui! – Maria havia chegado bem perto de mim e eu nem havia me dado conta

_É... é mesmo. – Por um instante eu havia me esquecido que existiam outras coisas no mundo além do jardim e eu

_Aquele balanço ali... – Ela me disse, apontando o balanço na árvore _Deve ter brincado muito nele, não é?

Eu ri, mais à vontade. Ela me deixava assim, como se fôssemos muito amigos.

_Sim, mas o que eu mais gostava era aquela casa ali, na outra árvore. – Respondi, apontando também

E lá era o melhor pedaço do quintal, era uma casa que cabia umas quatro pessoas, toda em madeira, pendurada em alguns galhos grossos, pintada de vermelho e preto como eu tinha pedido ao meu pai, quando eu havia feito cinco anos. Sinceramente, dali eu tiro as minhas melhores lembranças.

_Uma casa na árvore. Todo garoto sonha com isso, não é? Talvez mais que o futebol. – Maria falou me lançando aquele sorriso denovo

_Eu nem gosto de futebol. Sei lá, não faz o meu tipo. – Respondi

Ela franziu a testa quando me perguntou:

_Mas você não é o Marcos do futebol com o Flavinho?

Eu ri, cada vez mais sincero:

_Eu tinha uns seis anos... todo menino nessa idade é obrigado a jogar futebol. Mas gostar eu nunca gostei.

Ela riu, abrindo um pouco a boca, e depois colocou os cabelos atrás da orelha. Gostei de ver aquilo.

_Eu posso subir lá ? – Maria me perguntou caminhando na minha frente

Eu duvidei:

_Você vai conseguir subir nessa escadinha?

Ela não respondeu, só chegou em frente a árvore e se pendurou na escada. Foi rápida, tão rápida que eu até me assustei. E logo já tava lá em cima, balançando os braços pra mim.

_Mas como... – Nem quis terminar de perguntar e logo tratei de subir também, mais devagar que ela, claro, mas consegui

A gente se sentou por ali, não tinha como ficar em pé na casinha. Fazia muito calor, mas o vento que entrava pela janela de vez em quando era bastante bom. E iniciou-se ali o que seria a minha maior conversa com uma garota. Ficamos ali a tarde toda, esquecemos a festa, esquecemos tudo. Foi muito bom. Eu pude ser eu mesmo naquele momento, contei da minha vida, da minha casa, mas também a escutei. Era engraçado como que, apesar de muitas diferenças, a gente tinha muito em comum. O sol estava fraco quando eu escutei de lá debaixo:

_Marcos! Marcos, meu filho, cadê você? – A voz da minha mãe conseguia ser cada vez mais irritante

Eu cheguei a cabeça pra fora da janela da casa da árvore. Ela estranhou:

_Mas o que...? – E ameaçou correr até a árvore, o salto alto na grama não deixou

Aí Maria apareceu na janela também, bem perto do meu rosto, dava pra sentir o seu cheiro. A expressão da minha mãe mudou drasticamente, um misto de constrangida com “não acredito nisto que está acontecendo”. Eu fiquei exageradamente sem graça, era bom nisso, mas Maria sorriu, um sorriso que nem a pessoa mais fria do mundo conseguiria rejeitar. Respirei aliviado quando minha mãe sorriu também.

_Então você é a mãe do Marcos, escutei muito de você aqui! – Maria parecia realmente gentil, mas nem assim minha mãe saiu do desconcerto, afinal era a minha mãe também... isso era de família

_Meu filho, a gente... a gente já ta saindo... é, casa, sabe.... a nossa casa... não a velha, aquela nova, aqui perto... agente tem que ir... que...

_Tá bom mãe. – Eu cortei _A gente já vai.

Ela levantou os braços, sem saber pra que, e disse, se virando:

_Eu vou... esperar lá dentro.

Eu me virei para olhar Maria, e ela dava gargalhadas, sacudindo os ombros. Eu ri também. Não demorou pra gente descer a escada e ir até a porta.

Logo mais eu fui embora, marcando de encontrar com a Maria mais tarde. No carro ninguém tocava no assunto da casinha da árvore, foi até divertido. Fiquei feliz pela festa, fiquei mesmo. Não pela festa, mas o que aconteceu nela. Aquele sorriso da Maria não saía da minha cabeça. E eu sentia que ia ficar por ela por um bom tempo.

Notas finais
Preparando o terceiro capítulo. ~ COMENTEM que eu escrevo mais ráápido - bgz