(Enquanto) Não Estamos Juntos
1 Eu sempre estive te observando.
Notas iniciais
Espero que gostem.
Para Jellal Fernandes, quase tudo tinha uma ligação com a dama de cabelos escarlate. A cada rua que passava, cada flor que via, tudo de bonito que existia o lembrava dela. Mesmo depois do que o mundo e ele tinham imposto a ela, a jovem tinha mais vivacidade do que Jellal teria, provavelmente, durante a vida inteira. Isso é, diante do projeto de vida que a sua existência era. Mas isso fora uma escolha que ele fizera, e a merecia.
Ele não gostava de pensar muito em si mesmo. Fora preocupar-se com suas necessidades básicas e as guildas ilegais, a dama ocupava o seu pensamento sempre que havia uma abertura. Não só encantado, o homem a admirava. Por isso, as coisas tristes o lembravam dela também. Da sua força, coragem, compaixão e acolhimento. Os dois últimos itens eram o que lhe provocavam sonhos e pesadelos, que o atormentavam com a ideia de tê-la.
Por mais que não quisesse lembrar-se da possibilidade de se render, esquecer o mundo, e apenas existir com ela, seu subconsciente o traía. O fazia lembrar-se dos sentimentos dela, tão mal escondidos quanto o seu desapontamento quando ele lhe dizia que eles não eram para ser.
“Ela deve viver na luz, enquanto eu, na escuridão, devo proteger tudo aquilo que para ela importa.”
Ajuda-la deveria ser o maior contato que eles podiam ter. Todavia, a cada vez que a via ele imaginava o dia em que poderia se considerar perdoado, o dia que poderia voltar para ela.
Jellal tinha pessoas importantes em sua vida. Pessoas que o entendiam, que haviam sido tão ruins quanto ele e que compreenderam e o mostraram o caminho que ele deviam seguir. Uma delas havia, finalmente, alcançado o perdão. A humanidade devia a ela, sem saber disso. Ninguém considerava a ideia de uma garota oferecendo sua vida em troca de alguns segundos a mais.
Ele queria algo assim. Mas não tinha a coragem ou a oportunidade de fazê-lo, e, bem no fundo,ele não queria. Não queria pensar na possibilidade de nunca mais vê-la.
Era difícil fugir de onde quer que ela estivesse. Em outra vida, talvez ele se juntasse a sua guilda. Imaginava-se bebendo, gritando e rindo, assim como os outros membros da Fairy Tail. Era o que ele sonhava para ele. E era para onde, um dia, queria poder levar Meredy. Ela tinha o coração bom demais para viver na escuridão, sabia que em breve teria pagado seus pecados.
Já ele... Toda vez que passava por Magnólia ou redondezas, espiava a guilda sem que ninguém, exceto Meredy, soubesse. Normalmente a via comendo bolo ou brigando com seus amigos. Ele daria tudo para estar ao seu lado. E lamentava não estar ali a todo o momento, para poder apreciá-la. Se culpava imensamente depois, mas nunca resistia à ideia de espiá-la durante a noite. Naquele dia, resolveu fazer isso mais uma vez.
Já sabia da rotina da dama: banhar-se, escovar o cabelo, polir as armaduras, ler, dormir. Sempre tinha uma sensação estranha quando ela sorria ao deitar-se. Nas primeiras vezes que a visitara, escondido na árvore próxima à sacada, e expressão fora mais irônica. Desde então, fora se tornando cada vez mais amável e natural, como um ritual antes de fechar os olhos e descansar. A ideia de que ela notava sua presença já passara pela sua cabeça.
Honestamente, ele queria que ela soubesse − por mais que não devesse. Aquele era o único momento em que, sem palavras, ele podia transmitir tudo o que sentia. Sem palavras, ele esperava que ela entendesse. Não durava muito, mas era o suficiente para fazê-lo relembrar-se do porque o mundo precisava ser um lugar melhor. Para ela.
Antes de ir embora, ele se arriscou a pôr o rosto para dentro do cômodo. Levaria mais tempo do que o normal até a sua próxima visita, e ele desejava criar mais lembranças. A dama dormia tranquilamente, e ele a analisou, parado ao lado de sua cama. O desejo de tocá-la era quase incontrolável.
Passou as mãos sobre o seu cabelo, a lembrança mais antiga que ele tinha dela. Continuavam a brilhar, tão bonitos quanto antes de ele destruir parte de seu mundo. Provavelmente continuariam assim. Ela era uma sempre-viva.
A garota sorriu quando a mão de Jellal deslizou sobre sua tez, e posicionou-a sobre seu peito. Foram os segundos de maior contato entre eles em meses. Ao garoto, parecia errado e certo ao mesmo tempo.
E ele tinha que ir embora.
Jellal sentia cada segundo longe dela. Lamentava não poder vê-la todos os dias. Amargurava-se por conhecer tão pouco dos seus pequenos hábitos. Cada passo que ela dava, cada palavra que dissesse, cada riso.
“Eu queria estar aqui para observar cada respiração sua.”.
Recolheu sua mão. Antes que pensasse em voltar atrás, pulou da janela do quarto da dama.
Saindo de onde ele sonhava estar para onde deveria estar.
“Até, Erza.”.
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