(Enquanto) Não Estamos Juntos

2 Ouvindo o meu coração.


Notas iniciais
Música do dia: Listen to Your Heart. Ahhh... tenho que correr antes que dê meia noite.

“Jellal... Jellal... Acorde, querido...”.

− Erza?! – o jovem acordou sobressaltado, suando frio.

Ele estava em uma caverna fria, úmida e escura, com pedras cobertas de musgo ao seu redor. Não muito longe, jaziam os restos de uma pequena fogueira, feita para afastar o frio durante a noite. E, na sua frente, estava nada mais, nada menos do que sua companheira de guilda.

− Por mais que eu saiba que não era isso que você quer ouvir, sou só eu. – Ultear ironizou.

O Fernandes pôde sentir a face esquentando. Tentou disfarçar seu desconforto ajeitando a postura – notou que havia dormido de modo torto, apoiado sobre uma grande rocha – e espreguiçando-se. Ela, no entanto, continuava a o encarar com um olhar provocador.

− Quem manda você me acordar assim?

− E quem manda você sonhar com ela todas as noites?

Jellal se calou. Ele não sabia como ela havia percebido.

− Ah... Agora eu acertei, né? Ponto fraco?

Antes que ele pudesse desviar o assunto, retomando a discussão a respeito da situação de urgência em que a cidade que eles iriam “salvar” estava, uma baixinha de cabelos rosa entrou pela abertura da gruta. O azulado finalmente notou então que o sol já havia nascido, o que significava que tinha dormido demais. Para eles, era sempre melhor sair e fazer o trabalho durante a noite. Chamavam nenos atenção.

Meredy tinha em seus braços algo parecido com um peru assado, o que despertou nos outros dois toda a fome que vinha sido encoberta por alguns dias. Quando muito trabalho aparecia, eles deixavam coisas como alimentação e higiene em segundo plano. Salvar vidas era muito mais importante. Por isso, desde que ouviram a respeito de uma Dark Guild que vinha saqueando cidades pequenas, levando as mulheres e matando os homens, os três praticamente viveram à base de migalhas e frutos que encontravam em seu caminho.

− Do queh vocês estão falhando? – sua voz saiu diferente, visto que com os dentes segurava uma coxa do animal.

Nenhum deles falou muito até que só tivessem sobrado os ossos do que um dia fora um ser vivo. Meredy estava extremamente contente, e contara que um velhinho de uma dessas lojas de estrada o vendera para ela pela metade do preço habitual.

Segundo o que o homem a dissera, depois do saques, as pessoas pararam de vir à seu estabelecimento.

− Mas conseguiu descobrir alguma coisa? – ele indagou-a enquanto ajeitavam suas capas antes de saírem à luz do dia.

− Só que parece que tem algum mago envolvido, o prefeito fez um pedido oficial logo antes da cidade ser invadida.

− Alguma ideia de quem?

− Só que deve ser bem forte. Alguns jovens me disseram que esse cara era capaz de botar os criminosos para correr só com um estalar de dedos.

”Pode até ser.”, pensou Jellal, “Mas provavelmente quando ele chegar nós já vamos ter dado conta do recado.”.

Enquanto eles desciam a colina que levava ao centro da cidade, Meredy voltou-se para ele.

− Mas do que vocês estavam falando naquela hora?

Ultear riu, e não havia mais tempo de impedi-la.

− Da terra dos sonhos deles.

− Claro. Erza... Erza! Desculpe-me! – a rosada fez uma péssima imitação de uma voz masculina, enquanto forçava um biquinho.

Jellal desviou o olhar. E riu. Metade por causa do constrangimento, metade por querer esquecer da situação.

Ele não tinha o direito de pensar nela assim. Não enquanto não pudesse lhe dar tudo o que ela merecia. Não enquanto não tivesse toda a coragem de que precisava. Não quando ele tiveram um amor tão inocente e ele deixara o pequeno paraíso deles se tornar uma escuridão. Ele ainda tinha que reaprender a ser luz.

As garotas sabiam muito bem disso e faziam a brincadeira para amenizar a tensão constante, mas ainda sim isso às vezes trazia de volta parte da melancolia que ele tentava deixar de lado. Por um lado, ele considerava isso bom: era um modo do aprender a conviver com a sua tristeza.

Bem, fora o modo convencional de esquecer todo o indesejável.

Que era simplesmente se concentrar totalmente em derrotar aqueles que se encaminhavam e idolatravam a Zeref.

Foi disso que ele se lembrou enquanto caminhava para dentro da cidade, procurando pelos homens com tatuagens de caveira à mostra. Até o dia anterior, ele os vira caminhando pelas ruelas livremente, como se o território lhes pertencesse, mas as vielas e ruas estavam estranhamente vazias. Não era possível ver nem os moradores locais. Barracas e vendinhas estavam abandonadas, inclusive com sacolas de produtos largadas pelo chão. E havia um rastro de destruição de onde eles estavam até uma grande mansão no fim da rua (provavelmente a prefeitura).

− Com licença, mas você poderia nos dizer o que está acontecendo? – Ultear parou a primeira e única senhora que eles viram passando pela rua onde estavam.

Ela estava apressada e andava com dificuldade, mas exibia um sorriso orgulhoso.

− É a nossa salvação! Finalmente enviaram alguém que preste para nos salvar!

Jellal franziu as sobrancelhas.

− Um mago? – a senhora assentiu. – Mas o pedido foi feito três dias atrás, e as principais guildas ficam longe demais para alguém chegar tão rápido. – ele não pôde evitar a desconfiança.

A velha deu de ombros, não parecendo dar muita importância ao detalhe.

− Tudo que eu sei é que o prefeito pediu por uma tal de Fairy Tail. E ela é a mulher mais forte que eu já vi.

O tom da idosa e as informações dadas foram o suficiente para suas duas colegas de viagem lhe lançarem olhares sugestivos. “Ela?”

Ele só conhecia uma mulher capaz de acabar com uma guilda negra inteira sozinha. E tinha de confirmar se estava certo. Sem agradecer à moradora ou avisar às suas amigas, ele correu para dentro da prefeitura o mais rápido que seus poderes lhe permitiam.

Assim que entrou, avistou pilhas de homens desmaiados pelos cantos, pilastras reduzidas a pó, e uma cratera enorme no chão, onde uma mulher ruiva terminava de espancar o chefe da guilda. Sem dúvidas, aquela era Erza Scarlet.

− Você deveria parar de agir apenas pensando nos lucros, meu senhor. Se ouvir bem o seu coração, aposto que saberá qual a coisa certa a fazer.

Jellal sorriu, acreditando que ela não tinha a menor noção de que ele estava por perto.Em alguns segundos, a luta estava terminada. Ou era o que parecia para os dois.

Quando ela estava se encaminhando para a saída, no entanto... Alguns homens começaram a se levantar. Por mais forte que ela fosse, por mais que ela soubesse esconder sua dor, ele podia ver que ela tinha sido ferida. O lado esquerdo de seu corpo sangrava. Sabia que Erza poderia dar conta daquilo, mas... Também não queria deixar aqueles homens serem presos antes que ele pudesse ao menos sentir um gosto do que era nocauteá-los. Não quando eles a tinham machucado.

Antes que ela pudesse se esquivar do ataque que vinha por trás, Jellal usou sua magia para derrubar todos de vez, em uma velocidade que o permitiu voltar à sua posição anterior em menos de um segundo. A maioria das pessoas não perceberia nada de estranho nesse fato. Os homens já estava feridos, poderiam desmaiar a qualquer momento.

Ele ouviu uma risada. A mais agradável de todas.

− Você podia ao menos avisar quando estivesse por perto. – ela sussurrou, logo antes de sair.

O garoto ficou do lado de dentro, sorrindo por mais minutos do que o necessário. Ele estava sujo e fedido, mas se sentia estremamente leve.

“Desculpe, Erza. Às vezes, apesar de ouvir muito bem meu coração, eu ajo indo de encontro ao que ele pede.”

Ele sabia que a amava. Só não era a hora certa.

Ainda.

Notas finais
Comentários? Por favor?