Enquanto Estivermos Juntos
2 Capítulo 1 - Teoria do Caos
Era para ter sido só mais uma festa do pijama no dormitório, mas quando Zara insistiu que levaria uma de suas companhias especiais para deixar a noite mais engraçada, eu precisei intervir dizendo que todos acabaríamos bêbados e em quartos desconhecidos, e bem, ninguém pode dizer que eu estava errado. Desde que conheci Zara, meu mundo virou de cabeça para baixo. Para começar, ela diz que meu jeito correto de falar é certinho até demais para um garoto bonito de cidade pequena e depois ela confirmou que eu não tenho forças para vencer uma garota como ela no jogo do vira, vira. Claro, não é como se nos conhecêssemos a vida inteira, já que fazem exatos trinta dias desde que por acaso nos esbarramos durante o passeio para conhecer o prédio dos dormitórios da faculdade S. Mas sempre que estamos juntos Miguel diz que parece nos conhecemos desde o colegial e que desconfia que estamos tendo um caso secreto e ele até poderia estar certo, se Zara não fosse adepta da igualdade gênero, uma alcoólatra compulsiva, louca e mulher completamente controladora. Mas ela é bonita, sexy, chama atenção de qualquer cara quando passa ao meu lado e acho que até de algumas garotas. Mesmo assim, Tô fora dessa relação.
Neste exato momento, enquanto tento me lembrar dos detalhes sórdidos da noite anterior, estou cheirando a álcool, com os cabelos negros totalmente bagunçados e calçando os sapatos de corrida de outra pessoa o mais depressa possível.
Não, não estou no meu quarto, acordei jogado na cama de algum colega da Zara e ele foi até gentil em me emprestar algumas roupas para que eu chegasse à aula antes que o sinal tocasse. Parker estava no terceiro ano do curso de jogos digitais e além de ter dinheiro suficiente para alugar um quarto sozinho, não gritou comigo por dormir bêbado e fedendo em sua cama, acho até que ele se lembrou dos seus primeiros anos na cidade universitária e graças a ele, estou salvo de receber uma bronca da minha mãe.
— Cê sabe que usar roupas limpas e chupar bala de menta não vai tirar esse cheiro né? — perguntou ele, sentado do outro lado da cama de casal abotoando calmamente a blusa social branca da faculdade S. — Você tinha que tomar um banho, arrumar o cabelo, se perfumar e depois ir a aula.
Eu olho o relógio digital da Marvel em cima do criado mudo mostrando que faltam quinze minutos para minha aula começar e me apresso ainda mais com os sapatos.
Não é como se eu não me importasse com meu cheiro. Minha mãe sempre diz que para eu arrumar uma esposa, preciso sempre estar cheiroso e bem vestido, mas não tenho tempo agora.
— Se eu me atrasar pela quarta vez em um mês e minha mãe descobrir, vou conhecer Deus mais cedo — disse apressado.
— Ela vai fazer o quê? Pegar um avião de Seattle e viajar até aqui só pra te matar? — perguntou ele, rindo como se suas palavras não passassem disso, palavras sem fundamento ao invés sugestões do que minha mãe estaria disposta a fazer. — Ela não vai fazer isso né?
— Bem provável que faça — respondi rindo. — É Parker, certo?
Eu sabia o nome dele, só não querer fazer parecer importante o suficiente para ficar gravado na memória.
— Sim. Parker King — respondeu ele, suspirando fundo e deixando bem claro que estava inconformado por eu fingir ter esquecido o nome dele. — Você já disse meu nome várias vezes esse mês, então acho que está bem gravado nessa caixa cerebral que você tem e quase não usa. Grave na memória antes de morrer, Parker King.
Ri um pouco da situação, antes de pegar algumas folhas do caderno dele e uma caneta em cima da mesinha do notebook do pequeno dormitório.
— Ok, Parker King, muito obrigado por me ajudar noite passada, mas estou sem dinheiro no momento, então fico devendo uma. Pode me cobrar mais tarde. — respondi saindo do quarto, sem ao menos me despedir do garoto.
O prédio dos dormitórios era dividido em quatro blocos. O primeiro bloco, o bloco A, ficava a cinco metros de onde estava, geralmente era o quarto dos calouros da faculdade S, mas por alguma confusão do ano passado acabou ficando vazio esse ano, então os calouros forram obrigados a dividir vários quartos no bloco B. Eu estava correndo pelas escadas do bloco C. O bloco C era o bloco de quarto dos veteranos; quase todos aqui são mais velhos e raramente dividem os quartos para rachar o aluguel ou por problemas internos da faculdade. Tinha aproximadamente dez andares e cinquenta e três quartos no total. Parker morava em um dos últimos andares, não que eu estivesse notando por muito tempo, mas descer oito lances de escadas por causa de um defeito no elevador parecia muito para qualquer estudante atrasado para a primeira aula.
Ou esse problema era somente eu que estava sentindo finalmente o efeito da ressaca por beber mais do que o necessário na noite anterior. Odeio essa sensação.
Acompanho a multidão de estudantes que como eu, corriam atrasados para a primeira aula da manhã. Os copos de bebida da festa da noite anterior estavam jogados por quase todo o bloco c e alguns estudantes estavam acompanhados da reitora Yancei e de alguns seguranças do campus. Passei a mão arrumando um pouco os fios do cabelo e desejei mais do que nunca que o aglomerado de estudantes de ressaca fosse o suficiente para passar entre a reitora e os seguranças sem que eu fosse visto.
Era uma chance mínima, mas era melhor do que nada. Três corridas! E eu finalmente estaria livre. Duas corridas! Uma corrida. Passei!
Mas o aglomerado de estudantes estava indo para o lado errado. As salas de aula são à esquerda e não à direita. Não queria ir ao bloco b, não queria passar no meu quarto e muito menos ser carregado pela multidão, eu só queria chegar a aula antes do professor, mas pelo visto, vou chegar atrasado mesmo. Se eu soubesse que seria assim, teria ficado no quarto de Parker e dormido até mais tarde.
— Ela vai pular!
Os adolescentes de ressaca corriam cada vez mais. Gritos vinham da direção do bloco a. Eu corri sentido fluxo e quase fui pisoteado quando escorreguei nos degraus de pedra. Acho que alguns calouros até me xingaram por isso, mas os gritos de agonia de algumas garotas me fizeram desligar e correr ainda mais em direção ao bloco b.
O prédio estava completamente aberto, algumas garotas gritavam do térreo, enquanto alguns veteranos do curso de teatro subiam os degraus apressados. Os vidros refletiam o sol sobre meu rosto, incomodavam mais do que o normal, mas não incomodavam o suficiente a ponto de me cegar e impedir que eu visse um corpo se jogar do décimo andar para o chão. O barulho foi abafado pelos gritos dos calouros, mas a imagem da garota morta ficaria em minha mente por tanto tempo, que talvez eu não voltasse a dormir tão cedo.
Me aproximei ainda mais, tomando a frente da multidão e percebendo o mesmo tom de cabelos negros que os meus encharcados pelas marcas de sangue. A garota não era caloura, cursava teatro assim como eu e tinha um péssimo gosto para homens, pior do que isso, a garota era minha irmã.
— Melissa — sussurrei. — Para de graça, levanta! — uma lágrima escorreu de meus olhos, mas não conseguia acreditar, era apenas uma piada idiota, ela era expert em fazer esse tipo de coisa. — Levanta agora! Para de graça.
Entre soluços e lágrimas eu senti uma vibração no peito. Eu senti meu corpo pesar e por alguns segundos o tempo parar. Foi então que eu apaguei.,
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