Enquanto Estivermos Juntos

3 Capítulo 2 - Eu Beijaria Você e Você


Miguel é calmo uma formiga e silencioso como um elefante. Não importa o quão bêbado eu esteja, nunca consegui ser tão barulhento como ele, o que para meus vizinhos pode ser um verdadeiro incômodo, já para mim, nenhum barulho do mundo consegue substituir o som dos ossos se quebrando. Ele e eu compartilhamos um quarto no bloco b, não tínhamos muito o que usar para decorar o lugar, mas era suficiente para que mal tivéssemos espaço para andar. Minha mãe tinha concordado que eu deveria trazer algumas coisas importantes comigo, então, eu trouxe minha estante de livros completa, Miguel tinha trago os quadrinhos da dc comics e o vídeo game; eu trouxe meu computador e mesa de centro que ficava perto da varanda por falta de espaço, ele trouxe o frigobar e ficou responsável por reabastecer quase todas as noites, claro que eu trazia uma coisa ou outra para guardar, mas nada que fosse demais para tirar o espaço dele. Zara insistiu em colocar luzes de natal e pôsteres de terror em nossa janela, mesmo que ela se quer more aqui, mas foi o suficiente para deixa-la sorrindo durante muito tempo.

É dia do trabalho, a cidade universitária ficaria lotada de adolescentes bêbados e pais babões que insistiam em ver se os filhos estavam bem, eu por outro lado, não iria ao enterro de Melissa e nem fiz questão de chamar minha mãe ou meu irmão caçula, eles já têm problemas demais para se preocupar no momento. Meus planos para o dia eram simplesmente ficar na cama e detonar no street fighter durante a tarde com Miguel, mas os gritos eufóricos da cama ao lado foram o suficiente para me acordar.

Miguel venceu, quebrou minha agenda. Abri meus olhos odiando o sol que invadia sem permissão, os gritos antes únicos, agora se tornam distintos e não estou preparado para encontrar Parker sem camisa e suado chutando o ar enquanto o boneco na tv o imitava; Miguel estava pulando em cima da cama com os braços próximos ao rosto enquanto o boneco na tv se defendia. Zara estava sentada por cima do criado mudo, os porta-retratos e copos estavam jogados no chão, ela ouvia música alta em seu Ipod, mexia em meu notebook e por algum motivo não parecia incomodada com o calor que estava fazendo já que usava jaqueta preta e bermuda bem colada ao corpo, enquanto os cabelos ruivos estavam presos em um longo rabo de cavalo.

— Acho que acordamos seu colega de quarto! — disse Parker, sorrindo ele deu um último chute no ar antes que o personagem de Miguel caísse no chão e o jogo finalmente fosse encerrado. — Eu peço desculpas borboletinha.

— Idiota — respondi calmo, passando as mãos sobre o rosto e me sentando na cama. — O que fazem aqui? São... Nove da manhã! Vocês não têm nada melhor pra fazer não?

Ok, eu estava com raiva, mas minha voz não deixava isso transparecer, acho que estava tão cansado dos últimos dias que não tinha forças para mais nada. A propósito, estou com fome.

— É dia do trabalho, meus pais estão trabalhando — responde Parker. — Um simples feriado não é nada pra eles, então tô preso ao cabeçudo aqui. — ele aponta para Miguel. — Além do mais, Gustavo me fez prometer que ele estaria pronto pra derrotar a faculdade K no próximo torneio de street fighter.

Gustavo e Parker são os veteranos de Miguel no curso de jogos digitais da faculdade S e pelo que Zara tinha me atualizado nos últimos dias, Parker estava ocupado demais construindo uma banda para tocar na virada do ano e quase não tinha tempo para ficar indo as aulas, mesmo assim, suas notas eram tão altas que pensavam na hipótese dele estar hackeando o sistema da faculdade para ter as provas antes de todos. Loucura, eu sei.

Parker tinha uma pequena parte asiática, mas nada que chamasse atenção das garotas além dos olhos de peixe morto, um corpo comum como o meu, porém, com tantas tatuagens que fica difícil até de contar. Os cabelos deveriam ser castanhos, mas estavam pretos com algumas partes em prateado ou dourado, sei lá. Acho que ele precisa refazer o penteado, mas não vou dizer isso a ele já que Zara sempre me faz rir o chamando de cachinhos dourados.

— Isso é coisa de criança — respondi. — essa disputa que vocês fazem ente um faculdade e outra.

Zara olhou para nós e sem importância, voltou toda sua atenção para o notebook.

— Palavras do garoto que é apaixonado por livros, mas cursa teatro, invés de literatura — disse Parker. — Dormiu bem pelo menos?

— Se bem, você quer dizer com calor, sim, dormi muito bem — respondi calmo. — Teria dormido bem melhor se vocês não ficassem fazendo barulho por causa de um jogo idiota.

A tela estava no menu de personagens, mas nenhum dos dois estava disposto a mais uma partida, então cutscenes de cada personagem passavam aleatoriamente.

— Primeiro: Não chame essa obra prima de idiota — respondeu Parker se aproximando tanto que quase colou nossos rostos. — Segundo: sempre que quiser pode ir até meu quarto dormir comigo. Não seria a primeira vez!

Empurrei o rosto de Parker para longe, antes que ele chegasse perto o suficiente para me beijar e então respondi:

— Naquele dia eu estava bêbado e acho muito injusto que o bloco c tenha ar condicionado e o bloco b, tenha um ventilador que mal funciona — rebati. — Por que não convida uma das suas amigas veteranas pra dividir a cama com você, ou comigo?

Não que Parker fosse bonito ou coisa parecida, mas as garotas ultimamente estão gostando cada vez mais de asiáticos. Eu não via nada demais neles. Tinham olho puxado, cabelo extremamente liso e alguns tinham quadradinhos pela barriga, mas nada demais.

— Bram! — sussurrou Miguel pela primeira vez, um alerta de que eu disse algo que não deveria.

Miguel era baixo, gordinho, brasileiro e moreno. Tinha os cabelos negros cacheados o bastante para que os nerds do curso de games o chamassem de Tim Maia, um falecido cantor brasileiro, mas ele não se importava muito com isso já que os principais veteranos do curso estavam sempre ao lado dele. Em contra partida, por estar sempre com Gustavo e Parker, alguns estudantes diziam que Miguel também era gay, mas eu sabia que não era, além do mais, quando Zara sugeriu que ele me beijasse no primeiro dia que nos conhecemos para confirmar sua teoria que sou no mínimo bissexual, ele quase vomitou, eu por outro lado, estava disposto a fazer, desde que depois eu pudesse beija-la também.

— Tá tranquilo! — disse Parker. — Isso não é novidade pra ninguém.

— O fato de você ser gay? — perguntou Zara.

Os fones estavam jogados por cima do notebook e o mesmo estava no chão. Zara por sua vez, estava com uma perna cruzada, enquanto seu corpo tentava se sustentar com a outra. O olhar intimidador dela conseguiria domar até o mais feroz leão, mas eu estudava ao lado dela há quase um mês e sei que ela só está atuando, como sempre!

— Zara! — disse Miguel, entre dentes. — Parker, você precisa desculpar meus amigos, eles não sabem ficar com a boca fechada.

— Tá tranquilo! — Parker riu e se sentou na cama de Miguel. — Na verdade, eu não ligo se quase todo mundo na faculdade acha que sou gay, porque eu sei a verdade e isso já é importante o bastante.

— E que verdade seria? — perguntou Zara.

— Que eu beijaria você! — respondeu ele apontando para Zara com um sorriso que eu mesmo fazia quando pensava nessa possibilidade. — E também beijaria você. — ele apontou para mim. — Você ou você, eu não me importo, já passei dessa confusão mental no colegial.

— Nossa — começou Zara, assentindo com a cabeça. — Fiquei surpresa.

— Eu não beijaria você, mas beijaria a Zara, sem pensar duas vezes — ri comigo mesmo.

— Eu não beijaria nenhum dos dois, mas acharia sexy se vocês fizessem isso — disse Zara. Parker e eu nos entreolhamos por alguns segundos antes de finalmente voltarmos nossa atenção para a ruiva que continuava com a mesma postura confiante de antes. — Por favor, meninos! Vocês podem ver duas garotas se beijando e ficarem excitados por achar sexy, mas eu não posso ficar excitada com um beijo gay? Estamos em 219, por favor!

— Eu nunca disse isso — comentou Parker. — Ainda bem que nunca disse, porque você é assustadora. — completou.

Concordei com Parker antes de finalmente levantar da cama. Esse dormitório estava uma verdadeira bagunça e talvez se continuarmos insistindo nesse assunto vamos acabar irritando o frágil ego feminino de Zara.

— Eu sei disso, mas gostei de saber que você não tem uma masculinidade frágil igual meu amigo aqui — disse Zara.

— O quê? — perguntei. — Eu tenho a masculinidade frágil?

— Tão frágil que não aguenta a possibilidade de se imaginar num beijo com esse homão da porra — respondeu Zara. — Talvez isso seja você no armário, lutando para manter um lado seu adormecido.

Peguei alguns papéis do chão, enrolei como se fosse um bastão para adestrar um cachorro desobediente e acertei a cabeça de Zara.

— Acho que está na faculdade errada, troque pra psicologia — disse enquanto ela coçava a cabeça. — Agora vou tomar um banho. Estou suado, usando só uma cueca e com muita fome.

— Vamos tomar café juntos, acho que tem alguns restaurantes abertos na cidade — disse Zara. — Você paga?

Imitei o mesmo olhar de felino que ela faz sempre que os direitos dos homens são colocado acima do dela e sorrindo, eu simplesmente disse:

— Nem nos seus sonhos mais promíscuos.

Ela olhou para mim como se estivesse chocada, colocou a mão na boca e sorriu.

— Nos meus sonhos mais promíscuos você não tem noção do que estamos fazendo, mas eu aceito que você pague, porque meu ticket refeição ainda não virou e estou com fome — ela mudou a expressão para uma que talvez fosse para me fazer sentir pena dela. — Depois eu pago um jantar pra você.

— Ele vai pagar sua parte — disse Parker nos cortando. — Porque ele me deve um favor e nós vamos comer as custas dele hoje.

Parker passou os braços pelo meu pescoço e só então conseguiu sentir o peso daquelas palavras.

Talvez, ter acordado bêbado no quarto dele tenha seu preço e pelo visto, é um preço bem caro já que vou ter que usar o cartão de emergência da minha mãe, mas tudo bem, Parker King venceu dessa vez.

Eu separo uma roupa bem leve por causa do calor e ignorando os gritos convencidos, sigo até o banheiro. Demoro mais que o normal para sair do banho porque não quero que eles achem que vão vencer assim tão facilmente, mas as batidas incômodas na porta me apressam a cada minuto que a água fria cai sobre meu corpo. De verdade, preferia que hoje fosse apenas mais um dia de aula ao invés de um feriado estúpido, preferia que Melissa estivesse viva e que minha mãe pudesse vir nos visitar ao invés de estar enterrando ela hoje. Estou acostumado a não ser o pobre coitado e gosto disso, mas esses últimos dias foram horríveis. Pelo menos hoje vai ter uma festa e eu vou ter a chance de ficar com alguma garota que provavelmente não me conhece, o que significa, sem perguntas sobre Melissa.

Essa festa promete!

Notas finais
N/a: Então, o que acharam desse capítulo? Sério mesmo, quero muito ouvir a opinião de vocês. Se você leu até aqui e deseja me ajudar, por favor, deixa um comentário e um voto no capítulo que já me ajuda muito. Até a próxima!