Enigma - Segredos e Mentiras
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Seguiram para o banco que sempre era ocupado pela família do líder comunitário. Bella se deliciava com o visível embaraço do padre, aquele era o troco por ele ter o poder de amolecer suas pernas sempre que o via. Ainda reprimia um sorriso vitorioso quando a mãe perguntou num sussurro.
– O que foi aquilo?
– Aquilo o quê? – Bella sussurrou de volta.
– Por que beijou a mão do padre?
– A senhora viu porque, não estou entendendo a pergunta... – retrucou inocentemente.
– Acaso fiz algo errado?
– Sim! – a mãe sibilou. – Não há a necessidade de tocá-lo. Não percebeu que o deixou constrangido?
– Desculpe-me, eu não sabia.
– Ah... Tudo bem!... Apenas não faça novamente. – depois que acomodaram Rosalie e se sentaram ela resmungou. – Você nunca participou de uma missa de bom grado. Fez a primeira comunhão por imposição de seu pai... Não sabe nem se comportar... Não vejo como possa ajudar substituindo sua irmã.
– Festa é festa e eu somente vou colocar em prática tudo que Rosalie já determinou. Se eu fizer alguma coisa errada ela me corrige, não é mesmo, Rosie?
– Claro que sim. – a irmã firmou distraidamente enquanto olhava em volta.
– Vocês é quem sabem. – retrucou a mãe, dando de ombros.
Esquecendo-se das implicâncias de Renné, Bella sussurrou ao ouvido da irmã.
– Ele não está aqui. Nem poderia, não é mesmo?
– Não sei do que você está falando. – Rosalie retrucou séria.
– Tudo bem Rosie!... – Bella tomou a mão da irmã, apertou-a acolhedoramente e murmurou para que a mãe não ouvisse. – Eu também sinto saudade.
A irmã nada disse, apenas olhou para ela com os olhos lacrimejantes antes de fechá-los e deitar a cabeça em seu ombro.
– O que foi? – a mãe perguntou com as sobrancelhas unidas.
Passando o braço pelos ombros da irmã, Bella explicou.
– Ela queria que James estivesse aqui.
Acreditando em sua mentira, Renné desviou a atenção delas e iniciou conversa com a senhora Stanley que acabava de se sentar no banco de trás com sua filha Jessica. A moça não se interessava por nenhuma delas, no momento a dor da irmã era a sua dor. “Amar era uma droga”, isso é que era. Principalmente quando não se pode ficar com que se ama.
Bella nutria verdadeira adoração pelo pai, mas considerava seu atraso cultural uma anomalia. Era praticamente inadmissível que em pleno século XXI ele fosse tão arcaico. Somente por acreditar que James White era um “bom partido”, praticamente obrigou a filha mais velha á noivar com ele quando este anunciou seu interesse pela moça. Submissa como toda boa senhorita do século XVII deve ter sido, Rosalie não se opôs. Bella sabia que boa parte dessa aceitação resignada se dava ao fato de Emmett McCarty ter se mudado da cidade.
E não havia mentido; sentia falta de seu amigo de infância. Ambos tinham a mesma idade e foram amigos desde que Bella poderia se lembrar. A amizade não era extensiva á Rosalie. Com ela o interesse sempre foi outro mesmo sendo quatro anos mais velha do que ele. Como cresceram juntos, Rosalie demorou á notar que o menino mirrado que corria pela praia com sua irmã caçula havia se tornado um belo rapaz. Quando finalmente aconteceu e ambos iniciaram um namorico secreto, a família McCarty se mudou de Sin Bay.
Emmett sempre vinha á cidade, mas depois do noivado de Rosalie as visitas ficaram espaçadas. Era ingenuidade de sua irmã acreditar que ele estivesse ali naquela manhã. O que poderia haver de especial em uma missa que, com certeza, ele nem ao menos sabia que iria acontecer?
“Idiotices dos apaixonados”, Bella pensou. Por isso se apaixonar não estava nos seus planos. Preferia continuar como estava, namorando sem compromisso, beijando os interessantes – mesmo que não sentisse coisa alguma – até que perdesse a graça comandá-los ou quisessem o que não lhes daria.
Ao pensamento Bella ergueu os olhos e encontrou Edward diante de si; à frente do pulpito. Não ouviu o que ele dizia, apenas levantou com todos os outros e o seguiu fazendo o sinal da cruz. No mais, acompanhou seus gestos sem perder um único movimento, lutando para não permitir que seu queixo caísse sempre que o considerava irresistível naquela batina. Sem que pudesse evitar começou á vislumbrar todas as formas possíveis e imagináveis de tirá-la enquanto se beijassem.
Sentindo a temperatura do corpo aumentar, Bella disse á si mesma para se comportar. Edward era diferente. Sabia desde o primeiro dia que não poderia brincar com aquele italiano como fazia com todos. De toda forma, depois das reações que ele despertou em seu corpo somente por se aproximar ou quando a tocou, ela nem ao menos sabia como agir. E ele ser padre limitava suas chances de conquista.
Justamente por isso não pensou duas vezes depois que Rosalie, já medicada e engessada, comentou sobre a necessidade de encontrar alguém que assumisse seu posto na organização do piquenique. Sem se importar com a especulação materna, afinal, nunca fora afeita aos assuntos religiosos, Bella retrucou que apenas queria ajudar a irmã, já que dispunha de tempo livre.
A verdade era que havia visto uma boa oportunidade de se aproximar do italiano. E porque não?... Passado o choque da descoberta, a apatia condescendente que o desculpou por não ter se apresentado corretamente e depois de quase se tocar pensando nele, a moça descobriu que nada havia mudado; ainda o queria. E ali, diante dele, percebia que ser padre – mesmo que dificultasse – até dava um sabor a mais á sua conquista. Ela acreditou que aquela seria a prova de que era merecedora de tê-lo para si caso saísse vitoriosa da disputa com sua vocação.
Talvez fosse pecado desejá-lo, mas ela não tinha culpa se aceitavam homens como ele na vida eclesiástica. Devia ser proibido por lei como atentado violento contra a preservação e manutenção da qualidade da espécie. E Bella tinha certeza que não era a única ali á pensar o mesmo ou ter pensamentos impuros com o novo padre. Nem era preciso olhar em volta para saber que a capela estava com sua capacidade esgotada. Podia sentir nas vozes vigorosas do coro feminino, a necesidade de demonstrarem o quanto eram devotadas.
“Bando de safadas oferecidas”.
Inconformada com a constatação, Bella pensou maldosamente que depois daquele dia a fila para o confessionário seria extensa. Que todas fossem para o inferno por desejarem seu italiano. Ela as encontraria nas trevas, mas seria a única que iria por ter verdadeiro merecimento. A moça sabia que, se conseguisse seu intento, não se negaria á ele. Dar-lhe-ia tudo que Edward aceitasse tomar. Inevitável não sentir nova onda de calor ao imaginá-los juntos.
– Bella? – uma voz chamou á distância. – Bella o que há?
Só então a moça percebeu que a voz estava ao seu lado. Rosalie a puxava pela mão, chamando sua atenção.
– O que foi? – perguntou aturdida.
A pronta resposta da irmã foi desnecessária. A missa havia acabado. Todos os presentes começavam á se retirar da pequena igreja falando entre si animadamente. Apenas ela e a irmã permaneciam sentadas; Rosalie esperando que ela ajudasse a mãe – já de pé – á levantá-la. Recompondo-se, Bella fez o esperado e logo as três seguiam para a saída. Renée nada comentou de seu desligamento. “Tanto melhor”, não saberia o que explicar.
Quando saiu á rua, nem o vento manso lhe aliviou o calor. Estava excitada como raramente acontecia; a imagem de Edward sobre o altar gravada em seus olhos. Diante da algazzarra nem ao menos se deu conta de quando a missa acabou e ele saiu de seu campo de visão. Agora não o via em parte alguma. Imaginava se deveria levar a irmã até em casa e voltar com a desculpa de tratar dos preparativos, quando ouviu a voz feminina ao seu lado.
– Bella!... Estava com saudades de você amiga!
E então foi abraçada esfuziantemente pela futura cunhada. Retribuindo o abraço, disse.
– Também senti sua falta Alice!
– Ah... A faculdade está me matando! – reclamou num muxoxo. – Não tenho mais vida social... Não nos vemos mais como antes... Sento sua falta... Quando vai voltar?
– Acho que até já passou da hora de voltar. – Renée retrucou.
– Não sei Alice. – Bella respondeu sem dar ouvidos á mãe. – Sinceramente não me interessa ser contadora.
– Ah... Não tem problema!... Podemos conversar sobre isso hoje á tarde. Resolvi que vou passar o dia com minha futura família.
– Que ótimo... – Bella exclamou sem real entusiasmo.
Sua mãe e irmã ficaram felizes. Gostavam de Alice como se já fizesse parte da família. Bella também gostava; ela era sua confidente e cúmplice sempre que precisava de algum álibi. De seu círculo de amigos de Sin Bay, ela era a única que sabia de suas atividades das noites de quinta – fora Jacob –, pois estava na casa noturna no dia de seu primeiro strip-tease. Todos os outros eram colegas sem nenhuma intimidade de Wells e cidades distantes que pouco se importavam com o que ela havia feito. E Marcus, o namorado preterido.
Para todos esses a apresentação da garota bêbada e despudorada foi um fato isolado. Bella precisou envolver a amiga em mais aquele rolo porque precisava dar veracidade ás aulas de dança. Para todos os efeitos Alice havia começado á frequentar o curso com ela e desistido logo depois. Sim, gostava dela, mas alimentava a vontade de ir ter com o padre. Agora teria que ficar em casa e fazer sala á amiga; “paciência”!
Edward terminava de guardar sua batina quando Carlisle entrou na sacristia.
– Todos já foram embora. – anunciou.
– Que bom! – foi a resposta simples.
– E então... O que achou?
– Correu tudo como eu esperava. – Edward sério, disse seguindo para a porta.
– Para onde vai? – o padrinho inquiriu franzindo o cenho.
– Para minha corrida.
Sem dar tempo do tutor dizer qualquer coisa, Edward partiu para seu quarto. O padrinho não o seguiu e quando já estava pronto, saiu para a rua rumo á praia. Ao chegar á ela correu até que se sentisse esgotado então, quando o ar já lhe faltava, sentou sobre a areia e fitou o mar.
– Alguma coisa está errada! – disse para si mesmo.
“Tinha que estar”. Seria a única explicação para o desconforto visceral que sentiu durante toda a celebração. Nos primeiros passos do missal acreditou que a inquietação fosse causada pela presença de Bella sentada exatamente á sua frente. Bella em seu vestido amarelo, sem desviar os olhos descaradamente adoradores de sua direção, mas com o passar do tempo até mesmo ela desapareceu para ele. Edward fez aquilo que fora preparado durante anos para fazer “mecanicamente”. Como se fosse um autômato programado, não um padre jovem récem ordenado, convicto de sua vocação e entusiasmado diante de sua primeira assembléia.
Lá, de pé diante do pulpito, chamando á todos para rezar com ele, sentiu a batina lhe queimar o corpo como á lhe dizer que verdadeiramente era um impostor. Aquele não era o seu lugar, pensou apertando a cabeça fortemente entre as mãos e fechando os olhos enquanto corria os dedos pela cicatriz em seu couro cabeludo. Se ao menos pudesse se lembrar de toda sua vida. Ficaria satisfeito se recordasse de quando sentiu o desejo de ser padre; apenas isso já facilitaria seu entendimento.
Ter sua vida contada por outra pessoa era uma droga, pensou enraivecido. Há praticamente nove anos tinha que se contentar com as histórias que Carlisle lhe contava. Ele era o único que preenchia a falha entre sua infância e seu despertar depois do acidente. Agora Edward sentia a necessidade de ser ele mesmo capaz de se lembrar dos assuntos importantes. E no momento o desejo de ser padre – coisa que não sentia ser – era o mais importante á ser lembrado, mais até do que se lembrar dos últimos dias de sua mãe.
– Venha!... venha!... – ordenou batendo nas laterais da cabeça ainda de olhos fechados.
Contudo, como sempre, nada aconteceu. Nenhuma mísera recordação, nem mesmo dos primeiros dias que esteve no hospital; nada. Inconformado com a inutilidade de seu cérebro, olhou o mar á sua frente. Mesmo que estivesse esgotado, ainda sentia o mesmo bolo compacto em seu estomago que o acompanhou durante toda a missa como uma bomba prestes á explodir. Se pudesse se lançaria nas ondas á sua frente e nadaria até desaparecer, mas não podia.
Desaparecer era para os covardes e mesmo que tivesse dúvidas sobre quem verdadeiramente era, sentia, sabia que não era um deles. Fechando os olhos mais uma vez, Edward fez uma prece muda, jurando á si mesmo que descobriria o erro. Voltaria para casa sem respostas; voltaria à personagem que – segundo Carlisle – ele mesmo havia escolhido para si, mas dessa vez não se conformaria como nos últimos anos. Cumpriria suas obrigações, contudo, tão logo tivesse á chance, sairia á caça de sua história.
Como aconteceu na manhã de sexta, não se sentia compelido á dividir suas incertezas ou a recente determinação com o tutor. Suas aflições eram basicamente as mesmas e conhecia o discurso de Carlisle de cor. Na melhor das hipóteses o padrinho novamente lhe diria que era somente insegurança diante do desconhecido. Na pior, mais fervorosa e irritante de todas, que era tentação do demônio para tirá-lo da retidão. O padrinho talvez não soubesse, mas o único demônio que o impedia de ser completo e verdadeiro tinha um nome; amnésia.
E como se não bastasse esse turbilhão de emoções que o confudia, agora havia a bella Bella. Ao pensar na moça seus dedos beijados novamente fervilharam e a inquietação em seu peito estranhamente arrefeceu, como se para mostrá-lo que ela na verdade era um problema menor. Sem dúvida era um mais agradável, pensou olhando para a mão direita. Se as indicações de seu corpo estivessem certas e estivesse vivendo uma vida equivocada, sua atração por ela era um delito menor do que ter se tornado padre sem ter verdadeira vocação.
Isso não significava que iria conceder o que ela lhe pedia com o olhar, afinal “era” padre. Havia sido enviado para Sin Bay para comandar uma paróquia, não um homem do mundo numa “balada” á procura de diversão ou compromisso. Certo!... Seria hipocrisia negar que ela o perturbava, mas pararia por ali. Não mandava em sua mente ou nas reações de seu corpo, mas dominava suas ações. Jamais lhe faltaria o respeito ou reincidiria no erro.
Ficaria atento á ela, pois estava claro que a bella era somente uma menina inexperiente e inconsequente; confusa diante de um padre jovem. Ainda assim, ao menos deixaria que ela ficasse á sua volta, despejando um pouco de sua juventude e leveza sobre ele, distraindo-o de aflições muito mais perturbadoras como naquele momento. Que ela desse andamento ao que a irmã iniciou. Na vida, nada acontecia por acaso, e mesmo que sua carne fosse fraca, se o destino quis que seus caminhos se cruzassem, amém.
– Você o quê?! – Alice exclamou alarmada.
– Fale baixo! – Bella pediu beliscando-lhe o braço.
– Ai sua maluca! – a amiga saiu de perto dela esfregando o local dolorido. – Como não vou me espantar com você dizendo que...
– Não repita. – Bella ordenou.
– Quer “pegar” o padre?! – Alice completou em um sussurro sem se importar com o olhar fulminante que recebia.
Estavam no quarto que Bella dividia com a irmã; sozinhas. Rosalie descansava na sala juntamente com a mãe, após o almoço. Bella sentia-se tão sufocada por não ter conseguido sair que achou ser boa ideia dividir sua angustia com a amiga; agora tinha suas dúvidas enquanto via a moça pequena de cabelos longos e lustrosos, andar de um canto á outro de seu quarto.
– Não vou participar disso, fique avisada. – a amiga disse apontando-lhe o dedo.
– Não estou pedindo... – a moça retrucou indiferente.
– Ah tá... – Alice debochou sem parar de andar nervosamente. – Você “sempre” me envolve... Quando quis ir ao cinema com Seth quando tinha apenas quinze anos e seu pai havia proibido, me envolveu. Disse que sairia comigo, foi ao encontro e chegou ás duas da manhã... Até hoje levo a fama de irresponsável. No último ano do colegial quis se esfregar com o professor de biologia no estacionamento, me usou para dizer que estava na biblioteca estudando. Anos depois quis dar um “banho de língua” no Marcus; e por favor, ainda não quero saber o que isso significa... Quem ficou de plantão na porta do refeitório da faculdade?... Euzinha... E o que é pior, ouvindo o pobre fazer barulhos que até hoje tenho pesadelos. Isso tudo sem lembrar esse seu fetiche de ficar pelada na frente dos outros.
De repente a amiga parou e a encarou com as sobrancelhas unidas e as mãos na cintura, perguntou séria.
– Você tem problema sabia?... Mas dessa vez eu estou fora!... Não tenho intenção de ir para o inferno.
– Ninguém vai para o inferno... Eu só quero dar uns beijinhos nele. – Bella mininizou o interesse dando de ombros.
– Num padre sua maluca?!... Tanto homem por aí e você cisma com um padre?
– Eu sei o que Edward é, não precisa ficar repetindo. – Bella disse ficando séria.
– Edward?!... – a amiga inquiriu admirada. – Já está íntima!... É “senhor” Cullen, sua herege.
– Deixe de frescura Alice. – Bella pediu firmemente. – E venha se sentar antes que caia lá na sala depois de cavar um buraco no meio do meu quarto.
– A informação foi demais para mim. – Alice explicou indo se sentar ao lado da amiga sobre a cama. – Você disse que se lembra, mas acho que não está entendendo... “O-homem-é-padre”!
– Dessa frase só me interessa “o homem”... o resto é detalhe. E não se preocupe que não vou pedir sua ajuda para nada. Só quis contar porque você é minha melhor amiga?- arrematou a declaração com um sorriso.
– Nem vem!... Posso ser sua melhor amiga, mas não vou visitar o senhor das trevas com você... Preferia que não tivesse me contado. – anunciou em tom resignado, então perguntou. – Não existe uma lenda, acho que brasileira, onde dissem que mulher de padre é uma mula sem cabeça?... Então... Á mim bastaria vê-la em quatro patas e ácefala desfilando pela praça.
– Há-há... Muito engraçada... – Bella retrucou começando á ficar de mau humor.
– Sério Bella. – Alice começou tocando a mão da amiga. – Desista disso... Agora não se trata de amassos ou sacanagens comuns... Com padres não se brinca.
– Não é brincadeira, Alice... É só uma coisa que eu sinto que “preciso” fazer... Ele é diferente dos outros...
– Evidente que é difente; ele é padre! E você não precisa fazer nada... É capricho! Tudo bem que ele é lindo... Seu irmão que não me escute, mas o “padre Cullen” é um dos homens mais bonitos que já vi. Ainda assim não está disponível e no compromisso dele não cabem amantes.
– Já disse que não quero nada disso... Juro que me contento com um beijo. Um beijinhozinho e o deixo em paz.
– Tá vendo? – Alice exclamou. – Capricho puro e simples.
Não era capricho, Bella pensou irritada. Estava apenas tentando consertar o mal feito. Realmente não deveria ter contado nada. Ainda mais quando nem ela própria sabia o que queria. A única coisa que tinha intenção era a de não se envolver, mas se o conquistasse, ficaria com ele enquanto valesse á pena. Enquanto ele a fizesse sentir as coisas que nenhum outro foi capaz. Somente por se lembrar seu corpo queimava.
Quando o viu pela manhã suas pernas amoleceram como aconteceu na praia e ela adorava aquela sensação de leveza e agitação no estomago. Como explicar essas coisas á Alice sem que a amiga viesse com a definição romantizada de que estava apaixonada? Se ouvisse tal disparate explodiria com a amiga de vez. Decididamente não deveria ter dito nada. O seu interesse no italiano era um segredo seu e ninguém tinha nada á ver com isso. Somente o criador caso lançasse um raio sobre sua cabeça; como ainda não havia acontecido, iria até onde pudesse.
– Acho que você tem razão Alice. – disse para tentar colocar um ponto final no assunto. – Ás vezes eu cismo com alguma coisa ou alguém e fico sem medida.
– Ai meu Deus!... É pior do que eu imaginava!... Se está concordando comigo é porque está decidida á ir até o fim...
– Você me pegou! – Bella exclamou derrotada. – Então vamos apenas mudar o assunto?
– Tudo bem! – Alice concordou. – Só me prometa que não vai fazer nenhuma besteira.
– Prometo.
– Certo... – a amiga começou; depois de pensar por alguns minutos em que o silêncio se instalou entre elas, comentou. – ainda está passando o segundo Sherlock Holmes no cinema de Wells. O que acha de irmos eu, você e Jasper no próximo sábado?
– Acho ótimo... – disse Bella tentando reestabelecer o clima leve entre elas. – Sempre foi meu sonho servir de vela para meu irmão.
– Não seja chata... Até lá arrumamos uma companhia para você... Ou podemos chamar o Jacob... Ele vai de todo jeito, pode ir “com” você e não “seguindo” você só para variar.
Sem que a amiga pudesse esperar, Bella pegou o travesseiro ás suas costas e a atingiu com toda força na cabeça.
– Não se atreva á chamá-lo. – pediu contendo o riso diante do assombro de Alice.
– Sua maluca!
Depois de gritar e fugir do ataque, Alice pegou o travesseiro de Rosalie e tentou revidar. Ainda tentaram se atingir algumas vezes até que o riso roubasse suas forças. Depois da brincadeira infantil toda tensão do assunto anterior se foi. Quando mais tarde, a amiga anunciou que iria embora, Bella realmente sentiu sua partida.
O restante da noite passou rápido. Rosalie apenas fez sala ao noivo que tentava á todo custo levá-la para a varanda. Enquanto isso, Bella e a mãe falaram com o Charlie pelo rádio. Depois de contarem as novidades da vila – e de ouvirem sua surpresa com a chegada de um novo padre – ficaram sabendo que na manhã de sexta feira ele estaria de volta com o barco carregado de lagostas e peixes, assim como todos os outros. Naquele momento Bella se deu conta do quanto sentia a falta do pai. Ele era sua referência de determinação. Sempre fora um homem forte e rígido, qualidades que usava nos dias que comandava a cooperativa. Todos o respeitavam, alguns o temiam. Mas todos de sua casa sabiam que por baixo da carranca ele conseguia ser homem amoroso e dedicado á esposa e aos filhos.
Bella era sua preferida. Por mais que o pai tentasse não fazer distinção entre ela, Rosalie e Jasper, suas atitudes falavam por si só. Entre todos de sua casa, o pai era o mais difícil de encarar nas manhãs de sexta ou sempre que mentia sobre algum assunto. Era como se ele pudesse ver nos seus olhos que havia feito algo errado. Se fosse descoberta, ele seria o único que lamentaria estar magoando. Algum dia pararia de ir ao “The Isle” e nesse dia, com certeza sua história com o padre – se desse certo – já teria terminado. Bella acreditava que o pai, nunca saberia sobre suas faltas mais graves.
Renée já havia se recolhido quando James foi embora visivelmente inconformado com Bella que não o deixou um segundo sequer á sós com sua noiva. A moça até simpatizava com ele, mas já que sua irmã não estava feliz com o arranjo e não tinha coragem de dar um fim á ele, ajudaria no que pudesse. Tão logo ouviu o portão sendo fechado, Bella ajudou a irmã á subir para o quarto. Depois de acomodá-la na cama, já trocada, fez o mesmo e, sem sono, pediu mais informações sobre suas ideias para o piquenique.
– Faremos o de sempre. Já conversei com Quil, ele vai fornecer os descartáveis e alguma bebida. Não consegui falar com todas as senhoras, mas pelo que vi na missa de hoje todas estão dispostas á ajudar.
– Estão? – Bella perguntou por reflexo.
– Sim, você não ouviu? Praticamente todas disseram que farão seus bolos e tortas favoritos tão logo o senhor Cullen expôs a ideia. – Bella não havia ouvido nada, mas não diria. Por sorte a irmã prosseguiu. – Como havíamos combinado, deixaremos uma lista na sacristia onde todas que forem participar podem deixar seus nomes e o que levarão. Você precisa falar com Sam para ver se ele arruma os cavaletes e as madeiras que usamos como mesas para os doces e salgados... Ele sempre empresta, então não será problema. Enfim, está tudo definido, só precisa colocar em prática.
– “Só isso” eu consigo fazer. – Bella comentou revirando os olhos.
Rosalie riu de sua careta e então, subitamente séria agradeceu.
– Obrigada por me ajudar.
– Imagina que eu ia deixar todos os seus preparativos se perderem e...
– Com James. – ela explicou, interrompendo-a. – Ficando conosco... Sinceramente eu nem sei mais o que conversar com ele.
Bella olhou para a irmã com pesar.
– Se é assim tão ruim, devia terminar esse noivado... Já pensou como será depois que se casar?
– Penso nisso todos os dias. – a moça disse depois de um suspiro profundo. – Ele não é de todo ruim... É bonito, tem um bom emprego na prefeitura de Wells... Papai gosta dele.
– Mas você não gosta. Se pudesse estaria com outro. Por que não liga para Emmett e conversa com ele? Sei que já se passou algum tempo, mas talvez...
– Emmett foi embora Bella. – Rosalie exclamou embargada. — Por minha culpa... Quando vem á cidade mal fala comigo. Além do mais, nada mudou. Sabe que papai jamais concordaria com nosso namoro. Ele acha um absurdo quando vê casais onde a mulher é mais velha. Por isso namoramos em segredo, sabe disso.
– Apenas quatro anos Rosie. – Bella lembrou com vontade de chacoalhar a irmã.
– Agora a diferença não é visível, mas quando namoramos Emm tinha dezesseis e ainda não era o homem que é hoje.
– Tudo bem!... Entendo que “naquela“ época papai não aceitaria, mas hoje?... Como você mesma disse, a diferença nem se nota.
– Você conhece a cabeça de Charlie Swan... Para ele Emmett sempre será o garoto mirrado e eu sua filha mais velha. Ele acredita em casais perfeitos. James combina comigo e Emmett talvez combinasse com você.
– Nem vem... – Bella protestou. – A cabeça de Charlie Swan não me governa e Emmett seria o último homem com quem eu me casaria.
Ao comentário sua mente traiçoeira lhe colocou ao lado de um homem alto, com mais de um metro e oitenta, cabelos curtos e olhos azuis, como se fossem um casal. Ainda abanava a cabeça para desfazer o pensamento fora de hora quando a irmã comentou séria.
– Então ele não é bom o bastante para você?
– Não!... Ele é perfeito para “você”. E tão logo os mal entendidos se resolvam, tenho certeza que serão felizes juntos... Papai não poderá fazer nada para mudar isso.
– Acho difícil, mas espero que esteja certa. – Rosalie suspirou finalmente se deitando encerrou o assunto. – Boa noite Bella.
– Boa noite.
A moça não insistiu. Sabia o quanto a irmã sofria pelo amor perdido. Como prova, ouviu seu choro baixo até que o sono a vencesse. Bella ainda demorou algumas horas para acompanhá-la. Seu sono foi agitado. Durante ele teve sonhos quentes onde o italiano sussurrava palavras doces em seu ouvido e a tomava nos braços apaixonadamente, mostrando para ela que por baixo daquela batina agourenta havia um homem de verdade.
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