Notas iniciais
Oie... Bom dia! Bom, vamos adiantar um capítulo... =) Espero que gostem... Ahhh... Obrigada pelos reviews... vcs como sempre tão lindas!... =) Agora "bora" ao padreco... BOA LEITURA!

– Tia... Já terminei!

A menina de sete anos exibia sua obra prima com orgulho para uma instrutora alheia á sua presença.

– Tia Bella! – a criança chamou novamente, agora ofendida com o descaso.

Somente então a moça focou o olhar na figura emburrada á sua frente. Carla, uma de suas “promessas” do mundo artístico chacoalhava a folha de papel sulfite contendo a pintura em guache ainda recente, mirando-a com os pequenos olhos acusadores.

– Você não gostou não foi? Odiou! – concluiu fazendo menção de rasgar o desenho.

– Imagina! – a moça exclamou.

Temperamental como todo artista, Bella pensou deixando-se divertir pelo gênio forte da pequena aprendiz. Imediatamente abriu um sorriso amistoso e segurou as mãos pequenas antes que danificassem o trabalho.

– Ele está lindo! – então se inclinou na direção da menina e segredou ao ouvido da jovem pintora. – Acredito que seja o mais bonito de todos...

Animada pelo tom conspirador, a Carla aproveitou as cabeças próximas e sussurrou.

– Também acho... O da Stephany está horrível!... Ela não sabe pintar, tia...

Rindo abertamente do comentário maldosamente precoce, Bella a pediu que voltasse para seu lugar e iniciasse outra “obra de arte”. Quando a menina a obedeceu, feliz em ser a preferida da instrutora de artes, a moça olhou em volta. Apesar de vir de má vontade ás vezes, Bella gostava da ocupação de meio período. Distraia-se com a algazarra das crianças, além de receber um salário satisfatório para fazer o que mais gostava; desenhar e pintar.

A má vontade se dava pelas discordâncias do dia-a-dia, pelas pequenas brigas com a mãe e irmã quando ela desejava sumir daquele fim de mundo em que vivia, mas sempre eram esquecidas tão logo estivesse diante de “suas crianças”. Contudo, naquela tarde a proximidade com seus futuros talentos não estava surtindo o efeito desejado. Não conseguia esquecer a forma fria com que foi tratada pelo padre Cullen. Já havia vasculhado sua mente á procura do que poderia ter feito ou dito para distanciá-lo, sem sucesso algum.

Sabia que não havia feito nada; nem mesmo se insinuou como intencionava fazer quando estivessem á sós. Apenas respondeu á uma proposta feita por ele e só. A ambiguidade do comportamento do sacerdote a irritava, contudo, depois de acalma-se, nem assim conseguia deixar de desejá-lo. A imagem dele, rígido e altivo por detrás da mesa, não saiu de sua cabeça durante todo o restante da manhã em que visitou os poucos comerciantes locais e a seguia até aquele momento.

Quando Carla a tirou do devaneio, estava justamente imaginando como ele ficaria lindo retratado em uma tela. Com certeza seria a versão masculina da Mona Lisa, com o sorriso tão enigmático quanto seu olhar penetrante e anil. Novamente presa na especulação artística, Bella imaginou que talvez o italiano ficasse mais bem retratado como a versão masculina do “Nascimento de Vênus” de Sandro Botticelli. Seria algo como “O despertar de Apolo”.

Sim, a moça nunca havia visto o padre nem mesmo sem camiseta, mas sua visão aguçada sabia reconhecer todas as formas ocultas pelas camadas de tecido e poderia dizer sem sombra de dúvidas: Edward Cullen era um deus coberto com roupas mortais. Pelo menos fisicamente, pois no que se referia á suas ações, pensou novamente contrariada, ele era tão comum e bipolar quanto qualquer freqüentador dos consultórios psiquiátricos.

Obrigando-se á se esquecer do pároco, Bella se concentrou no aluno que se aproximava para exibir seu trabalho como Carla havia feito minutos antes. Ela não pode deixar de se perguntar se o menino não havia entendido a ideia proposta de passar para o papel o lugar em que viviam e tivesse acreditado que a pintura era para ser feita sobre ele próprio. Finalmente se distraindo com suas crianças, Bella mal percebeu o passar das horas. Quando chegou ao carro de seu pai, tudo o que desejava era correr para casa e tentar esquecer definitivamente a forma que foi tratada.

– Oi Bells. – ela ouviu a voz de Jacob sussurrada em seu ouvido.

Depois de respirar profundamente se virou para encará-lo.

– Acaso agora monta acampamento ao redor de minha casa? – perguntou sem cumprimentá-lo.

– Como? – ele indagou aparentemente confuso.

– Não se faça de desentendido. – ela sibilou abrindo a porta da pick up, enraivecida. – Eu o vi essa manhã.

O rapaz segurou a porta para que ela não entrasse e retrucou.

– Essa é nova, pois eu não te vi.

– Agora vai começar á negar? – ela perguntou batendo na mão que segurava a porta. – Vai me dizer que não foi á praia essa manhã?

– Fui á praia, mas não a vi... Pensei até que você não tinha ido. – ele explicou.

Bella o encarou por um instante e analisou seu rosto. Jacob era irritante e grudento, mas nunca havia negado suas perseguições. Não havia motivos lógicos para começar á fazê-lo. Talvez o movimento que acreditou ter visto tenha sido fruto de sua imaginação já sugestionada pela presença sempre constante. E fosse como fosse, Jacob não teria como saber que iria á praia antes das seis horas da manhã.

– Tudo bem! – disse por fim. – Acredito em você. Desculpe minha grosseria.

– Essa também é nova! – o rapaz exclamou. – O que está acontecendo com você? Nunca se desculpa comigo... E a que horas foi á praia que não a vi?

– Sinceramente eu não queria brigar com você Jake. – ela falou após um suspiro cansado.

– Também não quero brigar com você Bells. – o rapaz disse amolecido antes de acariciar-lhe o rosto ternamente.

Incomodada com o toque Bella retesou-se, fazendo com que ele recolhesse a mão rapidamente. Depois de um suspiro resignado Jacob afastou-se um passo e lhe deu passagem para que entrasse no veículo.

– Melhor irmos embora. Não precisa me dar satisfação de sua vida, não é mesmo?

– Isso. – ela replicou simplesmente antes de se acomodar ao volante.

– Tudo bem... – ele falou fechando a porta. – Mas pelo que vejo serei obrigado á montar a porra do acampamento.

Sem responder-lhe a moça ligou o carro e arrancou, deixando o estacionamento ainda em tempo de ouvi-lo dizer mais alguns palavrões por não esperá-lo. Logo ele a seguia como sempre enquanto guiava rumo á Sin Bay. Na tentativa de se distrair também da conversa com Jacob, Bella ligou o rádio e colocou em uma freqüência conhecida para ouvir as dez mais da programação. À certa altura, a sequência musical foi interrompida para a notificação de que um dos criminosos mais perigosos do país havia deixado a prisão após oito anos de reclusão. Como assuntos como aquele não interessavam á ela, Bella não lhe deu nenhuma importância.

Depois de se separar de Jacob á entrada da cidade, a moça seguiu para casa fazendo esforço para não olhar na direção da igreja ao passar por ela. Satisfeita com sua força de vontade, estacionou a pick up e, depois de cumprimentar Renée e Rosalie, subiu ao quarto para se banhar antes de descer para lhes fazer companhia. Apesar das agruras do dia, a noite se mostrou agradável. Como James não tinha o costume de aparecer durante a semana, a irmã estava especialmente animada. Após o jantar, desfilou manca pela casa, ridicularizando o gesso que a limitava enquanto recebia broncas inflamadas de sua mãe, sem se abalar por nenhuma delas.

Bella riu da cena familiar antes que as três se juntassem em frente á TV para assistirem um filme romântico. Talvez por ter ido para a cama influenciada pela temática da estória, Bella tenha sonhado novamente com o padre. Dessa vez, porém o conteúdo não teve nenhuma conotação erótica, sendo talvez, o sonho mais doce e romântico do que o filme assistido. Contudo a leveza das imagens criadas por sua mente fértil não impediu que ela rolasse pela cama e acordasse no início da madrugada com o corpo em chamas, inflamado pelos beijos apaixonados que recebeu de um Edward participativo.

Recusando-se á levantar fora de hora novamente, Bella permaneceu em sua cama até que fosse vencida pelo cansaço e conciliasse o sono mais uma vez. Quando desceu para o café da manhã – horas após seu horário habitual que a atrasou até mesmo para sua ida á praia – já estava vestida para cuidar de suas funções de “promotora de eventos”. Apesar de entristecida por ter perdido a oportunidade de encontrar com padre onde ele se mostrava mais acessível, não pode deixar de rir do nome pomposo – e pouco condizente com a realidade – que se autodenominou. Não era promotora de nada, apenas uma pecadora em vias de descer ao inferno com uma estrelinha dourada pelo empenho.

– Qual a graça? – a mãe perguntou despertando-a do devaneio.

Pega de surpresa, ela respondeu rapidamente.

– Estava me lembrando de Rosie desfilando ontem á noite.

– Isso não é engraçado. Sua irmã deveria estar repousando aquela perna, não brincando com lesões sérias.

– Não se preocupe tanto mamãe... Se estivesse doendo ela não brincaria. Rosalie deixou de ser criança há muito tempo. – observou revirando os olhos aos exageros de Renée.

– Ás vezes eu tenho minhas dúvidas quanto á isso! – a mãe retrucou indo até a pia para lavar a pouca louça que havia usado antes da filha caçula se juntar á ela.

Como Bella nada comentasse, ela prosseguiu.

– Não consigo entendê-la. Quando o noivo está aqui ela fica com cara de velório e quando não está fica feliz como se todos os dias fossem dias de festa. Qualquer hora James desiste diante de tanta má vontade... Ele é um rapaz tão bom... Seu pai ficaria mortificado caso rompesse o compromisso.

– Ah... Deixe disso senhora Swan. – Bella exclamou antes de ir ao auxilio da irmã mais velha. – James ama Rosalie desde que a viu e não vai deixá-la por causa de seu embaraço diante dele.

– Acha mesmo que é isso? Embaraço? – a mãe perguntou, vindo até a mesa para baixar a voz. – Ás vezes eu acho que sua irmã não está feliz.

– E se ela estivesse infeliz. – Bella testou. – A senhora a apoiaria caso resolvesse desmanchar o noivado?

– Vire essa boca para lá! – a mãe pediu aflita. – Não brinque com isso. Como disse, seu pai surtaria caso sua irmã deixasse passar um bom partido como James.

Bella sabia muito bem qual seria a reação do pai. Era seu sonho deixar as filhas casadas e bem estabelecidas na vida. E um jovem assessor com ambições de seguir a carreira política era talvez, o melhor partido que ele poderia desejar para uma filha que já considerava velha demais para o matrimônio. Charlie sempre comentava com orgulho o fato de sua avó ter casado com dezesseis anos e ele próprio ter desposado Renée quando ela tinha dezenove.

“É quando as mulheres estão aptas para cuidar do marido e gerar filhos” – ele dizia. – “As mulheres de hoje se preocupam demais em serem iguais aos homens e nessa ânsia acabam se perdendo nos escritórios. Quando resolvem casar e ter filhos parecem mais suas avós do que mães. Tudo tem o tempo certo para acontecer.”

Diante do discurso batido, Bella não tinha dúvidas que o pai simplesmente enfartaria caso Rosalie sequer esboçasse o desejo de se livrar de James. O que aguçava a curiosidade da moça no momento era saber como sua mãe agiria. Depois de dar um gole no café preto que bebia, ela voltou á carga.

– Não perguntei sobre papai, quero saber o que a “senhora” faria.

Sem nem ao menos pensar, Renée respondeu.

– Eu ficaria do lado de seu pai. Amo meus filhos, mas é com ele que vou ficar quando todos se forem então tenho que zelar para que tenha uma velhice tranquila, sem aborrecimentos ou lembranças amargas.

– Entendo... – a moça disse secamente.

– Não me julgue mocinha. – a mãe pediu enraivecida. – Fui criada para apoiar meu marido e é assim que deve ser. Quando você formar sua família me entenderá... A esposa tem que seguir as determinações do marido... Tem sido assim desde que o mundo é mundo!

– Discordo! – Bella retrucou e sem se importar com o olhar reprovador que recebeu da mãe, acrescentou. – Foi assim durante algum tempo, mas o mundo evoluiu e as pessoas também. Não espero que a senhora vá contra as determinações do papai, mas também não acho certa essa sua forma submissa e devotada de segui-lo. “Se” um dia eu formar uma família, quero seguir “ao lado” e não “atrás” do meu marido.

– Como assim “se”?!... – Renée perguntou alarmada dando mostras de que nem ao menos ouviu o restante do discurso idealista demais para suas convicções. – Acaso acha que não se casará?

– No momento não acho nada... – Bella respondeu em tom descontraído na tentativa de apagar o incêndio que se anunciava. – Foi só um comentário... Quando meu príncipe encantado aparecer começamos á tratar dos preparativos para o grande dia, até lá...

Bella se interrompeu para dar um último gole no café e comer o derradeiro naco de pão. Depois de engolir a massa mal mastigada, completou.

– Até lá é melhor eu cuidar da minha vida!... Já estou atrasada para visitar as doceiras da vila.

– Não pense que vai...

– Tchau mamãe... – Bella a cortou dando-lhe um beijo ruidoso na bochecha antes de sair em disparada para a escada.

Tão logo escovou os dentes e pegou o caderno com as anotações de Rosalie juntamente com seu material usual, saiu do quarto sem acordar a irmã e fez o caminho contrário. Agradecendo o fato da mãe não a estar esperando no pé da escada, saiu rumo á garagem. Tomaria o devido cuidado de nem ao menos voltar para a casa no almoço. Comeria algo na lanchonete da Esme antes de viajar para Wells. O melhor á ser feito era esquecer o assunto ou logo colocaria luzes de neon sobre a irmã e denunciaria sua inconformidade com o compromisso.

Como na manhã passada, Bella desceu em frente á igreja e caminhou até ela já com uma leve moleza nas pernas. Novamente se preparou para o choque quando visse o padre, contudo ele não se encontrava em seu campo de visão. A porta se encontrava aberta, os bancos novamente tomados, mas Edward não estava em parte alguma. Sem saber se agradecia ou lamentava o fato, seguiu até a sacristia mais uma vez se preparando psicologicamente para o encontro.

A sala mínima estava vazia. Á essa nova decepção, ela soube que lamentava não tê-lo encontrado. Poderia nomear o que sentia como saudade. Já havia perdido a oportunidade diária quando não foi á praia então, mesmo que estivesse ainda carrancudo, seria melhor enfrentá-lo do que ficar sem vê-lo. Suspirando entristecida, a moça vagou pela sala distraidamente. Depois de correr os olhos pelos objetos velhos á sua volta, ela soube que nada ali lhe interessava. Nunca gostou de igrejas; estava ali apenas por gostar do padre. E como ele não estava o melhor á fazer era cuidar de visitar as senhoras da cidade.

Á esse pensamento ela se lembrou da desculpa que a levou até ali, visto que Edward havia deixado claro que não a queria em sua igreja sem um bom motivo. Ela não sabia quais casas deveria visitar, então precisava da lista com os nomes que Rosalie disse que o padre faria após a missa. Encontrou-a sobre a mesa, deixada á um canto com uma caneta esferográfica por cima. A moça conhecia todos os nomes dispostos ali, então os anotou mentalmente antes de pegar a caneta e escrever no mesmo papel.

“Já peguei os nomes das senhoras que se dispuseram á fazer os bolos e tortas.

Irei até elas agora, se precisar de alguma coisa, amanhã procuro o senhor.

Bella.”

O recado ela sucinto, mas cumpriria sua função de informar ao padre que ela estava cuidando de sua festa mesmo ele sendo tão mal agradecido. Enquanto deixava a igreja, dizia á si mesma que talvez fosse melhor não tê-lo encontrado. Enganou-se dessa forma até sua segunda visita. Logo conversava com todas as senhoras das redondezas automaticamente, sentindo o coração fundo no peito por não ter ouvido um mísero “ciao”.

– Está me ouvindo Bella?

Piscando algumas vezes, a moça focou o olhar na mulher de meia idade á sua frente.

– Perdão senhora Doyle. O que disse?

– Disse que não vou fazer o bolo de chocolate que fiz das outras vezes. Sei que foi que escrevi na lista, mas ontem encontrei uma receita especial na internet... Meu neto me deu um computador sabia?

– Não, não sabia senhora Doyle. – ela respondeu em tom condescendente, pensando com seus botões que não era de sua conta se a idosa havia ganhado um computador novo. Em voz alta comemorou sem muito entusiasmo. – Que legal!

– Não é mesmo? – perguntou animada. – E então, acha que tem algum problema se eu mudar esse ano?

Bella duvidava que alguém ainda se lembrasse do bolo doado no último piquenique, mas não era sua intenção magoar a mulher verdadeiramente preocupada á sua frente.

– Problema algum... – tranquilizou-a. – Se eu não encontrar alguém para fazer um bolo de chocolate, eu mesma o farei. Não vamos privar as pessoas de provar sua nova receita.

– Obrigada minha jovem!

Depois de recusar um novo convite para entrar, Bella retornou para a pick up. Era vergonhoso que estivesse praticamente quicando de casa em casa á bordo do veículo, mas não confiava em suas pernas para fazer o percurso. Não queria admitir, mas esperava á todo momento que seus olhos caíssem sobre uma figura vestida de preto a zanzar pelas mesmas ruas que ela. Maluquice; sabia. Mas simplesmente não conseguia se desligar do pensamento recorrente.

Ao meio dia e meia, já havia confirmado a doação de todos os bolos e tortas que as respectivas quituteiras haviam anotado na lista. Na verdade esperava que estivesse tudo certo, pois ela não decorou as iguarias, somente os nomes das doadoras. Bom, havia anotado o que elas disseram, então, tudo estava de acordo. A última em sua lista era a dona da lanchonete á qual parava a caminhonete na porta. Depois de descer, tentando não olhar na direção da igreja, mas burlando sua própria determinação, seguiu até a entrada decepcionada por novamente não ver o padre.

– Bom dia Bella! – Esme cumprimentou tão logo entrou. – Como está Rosie?... Ela está fazendo falta aqui.

– Acredite, ela sente falta daqui também... Em dez dias ela se livra do gesso e volta.

– Tomara! – a mulher exclamou, colocando-se ao seu lado quando escolheu a mesa que ocuparia. – Vai almoçar aqui?

– Vou!... Estou com pressa... O que tem hoje?

– Atendendo à um pedido de Sam, hoje fiz cação refogado, arroz e salada... É o que tenho!... Ou se preferir pode escolher um sanduiche.

Subitamente Bella se deu conta de que não estava com fome. Contudo sabia que a tarde era longa e até á hora do lanche seu apetite poderia ter voltado, deixando-a faminta.

– Acho que prefiro um sanduiche... – pediu somente para se precaver. – Um hambúrguer simples, sem maionese e para beber uma coca, por favor.

– É para já gracinha!

Esme se foi deixando a moça á rir brandamente do tratamento que lhe dispensava desde que era criança. Bella tinha consciência de que naquela vila parada no tempo, ela também havia estacionado. Para todos ainda era a mesma criança que corria pelas ruas quando voltava para casa vinda da pequena escola primária.

“O que pensariam dela se soubessem que a menina deles não só se contorcia seminua sobre um palco semanalmente, como agora cobiçava o padre da cidade?”

– Eu seria queimada em praça pública e minhas cinzas lançadas á privada mais próxima, isso sim... – murmurou divertida.

– Sempre fala sozinha Bella? – ouviu a voz cantada ao seu lado.

Antes de responder, fechou os olhos por alguns segundos na esperança de que seu coração se aquietasse no peito. Como não aconteceu e a demora começava á ficar injustificável, ela engoliu em seco e ergueu a cabeça na direção do recém chegado.

– Sempre que não tem alguém por perto para ouvir. – retrucou já se colocando na defensiva.

– Está em um local aberto ao público, sempre tem alguém que pode ouvi-la. – foi a resposta amistosa. Então, abrindo-lhe um sorriso conciliador, Edward pediu. – Desculpe-me a pouca educação... Buon pomeriggio!

Deduzindo que a tentativa de assassinato lenta e indolor tenha sido o equivalente ao seu boa tarde, respondeu.

– Para o senhor também!... – e olhando-o de esguelha, perguntou. – O que ouviu?

– Algo como ser queimada em praça pública e ter as cinzas lançadas em local pouco usual... – respondeu ocultando um sorriso. – Só não consigo imaginar o que tenha feito para merecer um destino nem mesmo dado ás bruxas durante a inquisição.

– Falou um representante da instituição encarregada de dar o devido destino ás livres pensadoras e amantes das artes ocultas. – a moça debochou.

Bella se arrependeu do comentário ao ver a diversão deixar os olhos azuis e uma veia do queixo masculino se mover freneticamente. Antes que pudesse se desculpar, o padre retrucou sério.

– Já reconhecemos nosso erro. O santo Papa João Paulo II pediu perdão em 2004 publicamente por todos os excessos cometidos... Considero seu comentário não só maldoso como antiquado e de muito mau gosto.

– Ah... me perdoe! – ela pediu alarmada quando percebeu que ele a deixaria intempestivamente como sempre e dessa vez com razão. – Eu não quis ser grosseira; juro!

Quando ele olhou em sua direção, ela emendou com a verdade.

– Estava apenas me defendendo do senhor... Ontem pela manhã não foi o que se pode chamar de cavalheiro comigo.

Diante do pedido de desculpas tão eloqüente, Edward refreou o súbito mau humor diante da menção mordaz sobre um dos episódios mais vergonhosos para a igreja que ministrava. Percebendo a ansiedade nos olhos castanhos da moça seu gênio se acalmou. Havia sentido a falta dela cedo na praia e o breve instantes em que a viu cruzar a nave da capela enquanto a deixava naquela manhã, não havia sido suficiente para aplacar sua...

“Saudade?”

Não, o padre pensou. Não acreditava que chegasse á tanto. Preferia crer que estivesse apenas acostumado com sua presença todos os dias em sua vida. Era apegado á rotina e qualquer mudança nela o aborrecia. Desde que havia chegado naquela cidade deixou de encontrá-la apenas um único dia. A tarde de domingo não contava, então, não tê-la visto naquela manhã – ainda com seu convite sobre as corridas diárias sendo válido – ia contra as situações que já considerava obrigatórias. Tanto que ele estendeu sua corrida alguns minutos na esperança de ela aparecer tardiamente.

Como não aconteceu, voltou para casa com o peito oprimido e o gênio facilmente irritável. Cumpriu suas obrigações de forma vaga, dessa vez nem sequer ouviu o que suas confessadas lhe diziam. Quando sentiu o perfume floral, espiou pela fresta da cortina do confessionário, dizendo á si mesmo que procurava desculpas para distrair-se. Cogitava voltar á sua posição sobre o assento, quando a viu sair apressadamente da sacristia. A imagem de uma Bella jovem e decidida o acompanhou durante todas as confissões seguintes.

Quando finalmente anunciou a última penitência, saiu até a calçada fiando-se na esperança improvável de que ainda pudesse vê-la. Ao completar a meia volta por onde seu olhar alcançava no perímetro da praça, seus olhos pousaram diretamente nos dos inquiridores do tutor que ao que tudo indicava, tentava manter uma conversa satisfatória com Sam. O padrinho o encarou com o cenho franzido antes de altear a voz num inglês carregado e perquiridor.

– Procurando por alguém Eddie?

– Não. – respondeu azedo, voltando ao interior da igreja e seguindo á sacristia.

Lá, sobre a mesa, encontrou o bilhete dela. Curto e direto; impessoal. O que esperava depois da forma que a tratou?... E antes disso... O que esperava que a moça lhe escrevesse mesmo que estivessem ás boas?... Estava perdendo completamente o senso, essa era a verdade. Justamente por isso elevou seu pensamento durante o restante da manhã, tentando encontrar um equilíbrio para os sentimentos novos que o visitavam e se convencer á ficar longe dela.

Iludiu-se acreditando que conseguiria seu intento até que certa pick up preta cruzasse a rua em frente a praça e estacionasse diante da lanchonete. Estar na ali, parado de pé ao lado de Bella, no meio do salão ocupado por mais três pessoas – curiosas com o que acontecia na mesa próxima á delas – era a prova de que não haveria oração eficaz o bastante para impedi-lo de ir até ela. E mesmo que aquele “senhor” pronunciado pela moça o lembrasse de que não deveria estar ali, se pegou novamente sorrindo em sua direção antes de se sentar á mesa sem se importar com os olhares que recebia.

– Tudo bem... Acho que também lhe devo um pedido de desculpas por ontem.

– Que tal começarmos de novo? – ela propôs amistosamente. – Boa tarde senhor padre!... A sua benção.

Edward percebeu que até mesmo o pedido inocente na voz suave começava á instigá-lo. Culpado por seu pensamento lascivo a abençoou num sussurro antes de comentar o que o atormentou durante a primeira parte de seu dia.

– Não a vi na praia essa manhã.

– Perdi a hora.

Em um súbito ataque de egocentrismo, Edward duvidou das palavras e as considerou apenas desculpa para não encontrá-lo. Sem que pudesse se conter, perguntou seriamente.

– Ou não desejava me ver?

A moça não identificou o tom masculino ou o motivo do palpitar de seu próprio coração à pergunta inesperada.

– Não! – exclamou rapidamente. – Jamais faria isso. Dormi mal novamente, mas dessa vez, ao invés de levantar cedo permaneci deitada e acabei dormindo até tarde.

O padre deveria se contentar por saber que, depois de despertar de sonhos perturbadores, a moça havia tido o descanso merecido, mas não pode deixar de se ressentir por ter corrido sozinho enquanto ela dormia o sono dos justos; não era justo.

Va bene! – disse em voz alta, então corrigiu. – Está bem!

Bella mirava os olhos azuis tentando decifrar o que eles diziam; definitivamente era algo que não condizia com as palavras serenas e cantadas. Poderia ser maluquice da sua cabeça, mas á ela parecia que o padre travava uma luta interna. O silêncio que se estabeleceu entre eles, terminou por se mostrar a prova irrefutável de que estava certa. Acreditando que novamente seria deixada quando Edward ergueu os olhos para a dona da lanchonete que se aproximava com seu pedido, disse apressadamente para distraí-lo.

– Já falei com todas as senhoras dispostas á doar as tortas e bolos para serem vendidos no piquenique.

– Ah, sim? – ele perguntou novamente olhando em sua direção.

– Sim. – ela confirmou enquanto Esme depositava a coca e o prato com o sanduiche á sua frente. – Só falta confirmar com ela. – acrescentou indicando a mulher com o olhar.

– O que quer confirmar comigo Bella? – então, se voltando para Edward, disse. – Bom vê-lo novamente. Hoje não vi seu padrinho...

– Ele está descansando.

Providencialmente, pensou. Caso contrário o padre não poderia estar ali.

– Desculpe-me Bella. – Esme pediu voltando a atenção para a moça. – O que tem para falar comigo?

– É sobre o piquenique. Queria só confirmar se vai levar a... – ela se interrompeu para que a mulher completasse; não sabia o que Esme levaria.

– Meu bolo de nozes?... Sim, levarei. Farei um maior esse ano.

– Beleza! – Bella exclamou consigo mesma antes de marcar um “X” ao lado do nome. – Ah... Também quero saber se vai emprestar as mesas e cadeiras.

– Tudo que você precisar gracinha... – ela assegurou apressadamente. – Agora preciso ir, estou sozinha e tenho outro pedido para atender... Venha na quinta á noite, estarei livre então acertamos tudo.

– Eh... Na quinta não posso.

Bella lamentou, subitamente sem coragem de olhar na direção do padre. Sentia que ele a observava enquanto conversava com Esme e citar a noite de quinta, a desconcertou como se ele fosse adivinhar o que fazia durante sua avaliação nada velada.

– É verdade... Esqueci de suas aulas... Venha amanhã então.

– Certo! Amanhã acertamos tudo.

Quando Esme se foi, Bella ainda não tinha coragem de encarar o padre; nem tão pouco conseguiu comer. Sua garganta estava travada. Por isso, apenas bebericou sua coca-cola sem oferecê-la.

– Que tipo de aulas tem ás quintas?

E lá estava ela, a pergunta esperada. Depois de beber mais um gole da bebida borbulhante e gelada, ela disse a resposta ensaiada.

– Tenho aulas de dança de salão... Comecei á uns seis meses. Alice, a noiva de meu irmão costumava ir comigo, mas desistiu então agora eu as faço sozinha.

“Era mentira”; o padre pensou.

Edward podia ver nos olhos castanhos – que a todo o momento desviavam dos seus – que ela mentia sobre as tais aulas. De imediato não conseguiu atinar o que ela escondia, mas disse á si mesmo que descobriria. Ao analisar seu discreto desconforto, o padre deixou de considerá-la uma menina perdida. Talvez estivesse enganado, mas Bella tinha plena consciência do que fazia e em seu favor, possuía as armas para fazer bem feito; um rosto angelical aliado á sua compleição frágil. Contudo, todos na cidade poderiam cair na sua estória, menos ele.

– Seis meses de aulas de dança! – disse admirado. – O que aprendeu até agora?

“Droga! Porque ele tinha que ser tão curioso?”

– Eh... – Bella começou á dizer em voz alta. – Aprendi salsa, tango e...

Nervosa pelo olhar invasivo e claramente desafiador que recebia, a moça teve um branco total. Não conseguia se lembrar de danças simples que com certeza eram ensinadas em qualquer estúdio, desde o mais chinfrim até o mais sofisticado. Impacientando-se com seu entrave e tentando ganhar tempo levou o canudo á boca e sorveu o liquido extremamente gelado de uma só vez. Imediatamente seu cérebro reagiu ao que considerava uma agressão ao seu palato, então sentiu a dor aguda no centro da testa, entre os olhos.

– Ai! – exclamou largando o canudo e cobrindo o rosto com a mão direita, comprimindo-o na tentativa de aquecer o local.

O padre ainda se comprazia com o embaraço quando a moça levou a mão á face. Ele havia visto toda ação. Sabia que ela sofria de dores intensas, mas a única imagem que sua mente registrou foi a boca arfante e entreaberta; os olhos tampados. Em choque diante da visão e pela descarga de adrenalina que correu sua coluna, Edward demorou bons sessenta segundos até esboçar alguma reação.

– Comprimelafaccia... Aperte olocal... Acho que ajuda!... – opinou tardiamente.

– Já está passando. – ela garantiu. – Obrigada!

– Tem certeza? – inquiriu preocupado.

– Tenho...

– Se é como diz... – disse se pondo de pé apressadamente. – Faço votos que melhore. Vim somente saber como estavam indo os preparativos e dizer que pode ir á igreja á hora que desejar... Agora preciso ir. Ciao...

E então Edward se foi; da mesma forma abrupta de sempre. Daquela vez Bella não lamentou. Se antes não conseguia se lembrar de todas as danças de salão, agora que ainda sentia dores na face seria praticamente impossível. Quando conseguiu abrir os olhos, ainda pôde vê-lo cruzar a praça e seguir para sua igreja. Talvez nunca o entendesse, mas com certeza, sempre o admiraria. O padre era lindo e ficava ainda mais quando a encarava intensamente. Pena que os olhos azuis agora denunciassem sua descrença quanto suas supostas aulas e carregassem a promessa de desmascará-la.

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Notas finais
Bom... Espero que tenham gostado... Vou ficar quietinha esperando me contarem... =) Só não reparem se eu demorar á responder, certinho... Demoro, mas respondo á todos... Agora, vamos ao spoiler básico: O padre andava em seu quarto, de um lado ao outro, como um animal enjaulado. Não conseguia dormir; nem mesmo foi capaz de terminar de ler seu breviário que jazia ainda aberto aos pés da cama. Aquela seria a primeira vez que deitaria sem completar suas orações. Isso se dormisse. A imagem dos olhos cobertos e da boca entreaberta não o deixou um único minuto desde que saiu da lanchonete. Interagir com o padrinho que vez ou outra lhe lançava um olhar perscrutador e com as frequentadoras assíduas de sua igreja havia sido uma tortura. Não era normal. Não deveria se sentir dessa forma. Talvez não estivasse vivendo sua verdadeira vida, mas ainda assim era um homem adulto ciente de suas obrigações. Nada justificava a atração que sentia por Bella, muito menos aquele desejo incontrolável de estar junto á ela e que sempre o colocava em situações contrárias ás que determinou, fazendo com que sempre a deixasse abruptamente, fugindo como um bicho acuado. Bella é somente uma mulher. Agoniado, Edward foi até a cômoda e retirou seu chicote da primeira gaveta. Segurando-o com as duas mãos o encostou contra o rosto e fechou os olhos com força. Se acreditasse por um segundo que impingir dor ao seu corpo o ajudaria, afoitar-se-ia. Contudo, não seria eficaz. E baseado em seu estranho relacionamento com a dor, acreditava que ferir-se talvez somente piorasse sua leve excitação. Mais uma vez se pôs á andar pelo quarto, agora açoitando a perna direita, branda e distraidamente. Uma vez que não tirava a moça do pensamento desistiu de lutar e deixou que ela o invadisse de vez. Analisando todos os detalhes do rosto inocente que sua mente projetava, Edward tentou decifrar-lhe a alma. Que segredos uma criatura tão jovem poderia esconder que justificasse mentir para todos?... Não saberia dizer, mas como determinou, descobriria. Nem que fosse em confissão. Todas as outras vinham até ele; ela também viria. Será que ela vai?... O_o Bjus amores... Até segunda...