Enigma - Segredos e Mentiras
32 Capítulo 31
Notas iniciais
Naquela noite durante o banho, Bella descobriu que a falta de apetite, assim como a dor de cabeça e na base de seu ventre não estavam somente relacionadas à “iluminação” quanto ao seu péssimo comportamento; ficara menstruada. Finalmente algo para animá-la. Era hora de começar a tomar as pílulas que ganhou da ginecologista. Com a recordação percebeu como fora imprudente todas as vezes que se ofereceu a Edward sem estar devidamente medicada; por sorte nada aconteceu.
Com um humor melhor, ela se trocou e desceu. Encontrou toda sua família reunida, somente a esperando para se sentarem à mesa. Antes que se juntasse a eles, Renée apontou seus joelhos com as sobrancelhas unidas.
– O que foi isso? Durante o café não comentei seus cotovelos lanhados, mas agora vejo seus joelhos nesse estado...
– Eu caí ontem à noite. – disse prontamente. Já tinha até mesmo se esquecido dos arranhões. – Aqui em frente quando chegava de minha aula de dança.
– Ultimamente os jovens dessa cidade andam tão trôpegos... Primeiro o padre, depois Jacob e agora você. Sorte não ser de nenhum telhado, não? – Charlie indagou sério.
– Nem brinque com isso Charlie. – Renée exclamou se aproximando da filha, preocupada. – Tratou disso direitinho?
Tratou na mesma hora com os beijos de Edward, pensou saudosa. Ignorando o comentário do pai, falou para tranquilizar a mãe.
– Do jeitinho que a senhora sempre ensinou. Lavei com água e sabão e passei antisséptico. Não se preocupe, são somente leves arranhões.
– Todos bem, então vamos jantar? – Rosalie pediu em tom estranho. – Trabalhei o dia inteiro, estou com fome.
– Todos nós estamos Rosie. – Jasper retrucou tomando-a pelo braço para seguirem até a mesa.
Com todos acomodados, Bella procurou pelos olhos da irmã à procura de alguma indicação para o mau humor evidente, sem encontrar nenhuma. Quando ela lhe sorriu, chegou à conclusão óbvia. Rosalie sempre teria suas recaídas e se ressentiria por ser a filha do meio com complexos de inferioridade que não suportava ver a caçula receber maior atenção; tonta. Esquecendo-se dela, a moça se ocupou de comer, mesmo que pouco. Não sabia quais as reações que o remédio lhe provocaria então não queria tomá-lo sem estar alimentada.
– Bella – seu pai a chamou a certa altura durante o jantar – eu quero que convide Emmett para vir almoçar conosco no domingo. Ainda não tive a oportunidade de agradecer a ele pelo excelente trabalho que fez em meu barco.
– Vou ligar para ele assim que terminar o jantar. – respondeu com um sorriso antes de novamente olhar para a irmã. Daquela vez o sorriso que recebeu foi realmente sincero. Voltando sua atenção ao pai, Bella perguntou. – O senhor gosta mesmo dele, não?
– Confesso que antes não dava muita coisa nem mesmo por seu pai, mas vi estar enganado com relação a todos os McCarty. Eles têm visão empreendedora, são dedicados ao que fazem e cresceram em pouco tempo. Fico feliz em reconsiderar e mais ainda que tenha de acertado com Emmett. Vou gostar de tê-lo na família.
– Bom saber. – ela comentou piscando sorrateira para a irmã. Tarde demais percebeu que Jasper lhe acompanhou na troca de olhares. Por sorte ele não tinha por costume se meter em assuntos particulares entre as duas; perturbava-as separadamente como fazia com ela. Apenas deu de ombros como se não lhe importasse entender, porém antes que Bella se tranquilizasse, falou ao pai sem desviar os olhos dos dela.
– Deveria chamar o senhor Cullen para o almoço. Afinal na segunda ele irá abençoar nosso barco. Seria uma forma adiantada de agradecimento.
– É uma boa ideia. – Bella ouviu seu pai dizer, muito concentrada em não esboçar nenhuma reação que pudesse dar ao irmão a certeza para suas desconfianças. – E você pode convidar sua noiva, assim poderemos dizer que a família ficará completa. Pena que James ainda não tenha voltado.
O pai não tinha ideia do quanto estava certo em sua assertiva; apenas um único detalhe destoava. Rosalie pareceu seguir seu pensamento, falando antes que ela o fizesse.
– Quando vão aceitar que possa ter acontecido alguma coisa mais séria com James? – levemente embargada, acrescentou. – Talvez ele nunca mais apareça.
– Não diga isso querida. – a mãe pediu ternamente. – Logo ele estará de volta.
Bella quis fazer coro com a irmã, contudo considerou que seria inútil. Quando os Swan fechavam seus olhos ao óbvio muito pouco poderia ser feito. Movendo a cabeça em uma negativa quase imperceptível desmotivou a irmã a prosseguir. Rosalie suspirou exasperada, mas a atendeu.
– Sim... Ele aparecerá. Eu é que perco a esperança às vezes.
– Não perca. – o pai falou duramente. – E reze para que ele volte, pois corre o risco de ficar solteira caso não aconteça.
– Ás vezes eu também me pergunto se esse seria um grande problema e chego à conclusão de que não. – ela retrucou deixando os talheres sobre a comida inacabada. – Se me der licença, perdi o apetite.
– Fique onde está Rosalie! – Charlie ordenou ao vê-la se levantar antes que a liberasse.
– Hoje não, senhor. – a filha falou desafiadoramente. – Vou para meu quarto rezar pela volta de James, afinal ele é a única esperança de eu ter minha própria família perfeita e feliz.
Bella precisou travar o maxilar para que seu queixo não despencasse. Enquanto seu pai bufava irritado e sua mãe saltitava sobre a cadeira indecisa entre ficar ou ir consolar a filha, seu peito se enchia de orgulho pela inédita ousadia da irmã. Na verdade tinha que reconhecer sentir certa inveja por Rosalie ter a coragem de contrariar o capitão Swan abertamente quando ela própria o fazia sempre de forma indireta. Para Jasper nada aconteceu. A moça também se orgulhava dele, sempre a salvo em seu mundo particular. Viva as famílias perfeitas e felizes, Bella pensou ao beber sua água num brinde zombeteiro e mudo.
– O que deu em você. – perguntou à Rosalie ao entrar no quarto logo após o término do jantar silencioso e tenso.
– Estou cansada. – a irmã falou sinceramente. – O machismo de papai me irrita. E sua maldade também. É necessário me dizer aquelas coisas?
– Não é, mas... Acreditaria se eu dissesse que acho que ele não faz por mal?
– Acreditaria. – falou rancorosa. – Você é puxa-saco. Por isso é tão paparicada, mas eu simplesmente não tenho estômago.
– Não se trata disso. – a moça falou na defensiva. – E não concordo com ele, nem estou dizendo que você deva. Só acho que justamente por ser machista ele fale o que acredita sem imaginar o quanto magoa.
– Se é feliz pensando assim, bom para você. – Rosalie deu de ombros. – Agora vamos ao que interessa. Já ligou para minha segunda opção contra a solteirice quase certa?
– Nem vou. Pensei que seria melhor a segunda namorada convidá-lo. – ao falar pegou um romance qualquer de sua coleção de livros e levou à varanda para se ocupar até a hora de dormir. – Diga que eu mandei um oi.
Para Edward o sábado foi longo e enfadonho. Depois de passar o dia anterior em silêncio tentando evitar novas brigas com Carlisle, este lhe sinalizou com uma nova trégua. Aceitou-a de pronto, realmente cansado de argumentações inúteis. Visto que nenhum dos dois iria ceder o melhor era viverem em harmonia até que todas as verdades não pudessem ser encobertas.
Mesmo com a paz estabelecida, cada um cuidou de seus afazeres separadamente. O tio passou metade do dia recolhido preparando seu sermão como ofereceu fazer durante o café da manhã. Ocupou-se dele depois de cuidar de suas plantas e dar um passeio breve pela praça. Edward por sua vez ouviu confissões à tarde e se preparou para a missa da noite; a última que ministraria naquele dia visto sua baixa frequência. Ele estava em sua sacristia quando recebeu o pai daquela que não deixava seus pensamentos.
– Boa noite Charlie. – retornou o cumprimento recebido. – Posso ajudá-lo em alguma coisa?
– Não quero atrapalhá-lo, senhor... Vim apenas convidá-lo para almoçar em minha casa amanhã.
Edward não considerava boa ideia. Uma vez que o tempo da mútua provocação havia passado, queria estar com Bella longe de todos quando não seria preciso se policiar a cada instante. Antes que pudesse declinar, Charlie prosseguiu.
– Seria uma honra recebê-lo. É minha forma de lhe agradecer pelo o que fará segunda.
– Sabe que não precisa me agradecer pela benção. – Edward falou ainda tentado a recusar.
– Sei, mas ainda assim eu insisto. – o capitão retrucou incisivo. – Leve seu tio. Serão somente os da família.
– Já que insiste, está bem! – aquiesceu sem saída. – Obrigado pelo convite. Vai assistir a missa hoje?
– Como sempre somente eu e minha esposa. As crianças preferem se divertir.
Edward sentiu a nota de reprovação daquele pai obtuso e conservador. De crianças nenhum de seus filhos tinha qualquer traço. E a caçula menos ainda, acrescentou levemente consternado. Para onde ela iria? Não poderia perguntar então lhe restou sorrir complacente e pedir que Charlie Swan o deixasse para que pudesse se aprontar. Logo seu tio o ajudava a arrumar a estola sobre os ombros, caracterizando-o como o padre impoluto que sempre quis fazê-lo ser.
– Amanhã temos um almoço para ir. – Edward comunicou em italiano para se livrar do ressentimento que ameaçava tomá-lo de assalto. Antes que Carlo dissesse qualquer palavra avisou. – Na casa dos Swan.
– Posso ficar em casa? – o tio perguntou sem tom especial. – Finjo melhor que não sei o que se passa quando fico longe de vocês.
– Fingir é sempre muito importante. – o padre retorquiu sem conseguir domar o gênio ruim. – Ainda mais em nossa posição.
– Até quando vai me torturar? – Carlisle perguntou visivelmente cansado.
– Já que estamos tentando viver em paz, pare de fazer suas insinuações que eu também deixo as minhas de vez.
– Qualquer coisa que o deixe feliz Edward. – o tio falou contrito. – Saiba que para mim isso é tudo que importa.
O jovem padre não soube o que responder após a declaração. Já no púlpito, novamente ministrou uma missa automaticamente, mas não disperso. Não a estendeu e em uma hora estava livre para dispensar as quinze pessoas que compareceram; decididamente aquela seria a última.
Edward dormiu mal naquela noite imaginando os programas que uma moça teria num sábado quando não havia bailes no galpão onde poderia dançar com todos os homens disponíveis, sorvetes na lanchonete com namorados de mentira ou um strip-tease no qual se exibiria. Qual outra atividade o abalaria tanto quanto aquelas sua Bella poderia ter? Talvez nunca soubesse. Ou devesse se acostumar o quanto antes a não dar importância ao que ela fazia em seu tempo livre já que não poderia obrigá-la a ficar em casa quando não pudessem estar juntos. Raramente; como ele mesmo salientou.
Como poucas vezes acontecia, despertou de seu sono agitado livre de desejo. Não dispensou as flexões e depois de seu banho, foi se juntar ao tio e a senhora Williams na cozinha. Tomou uma xícara de café amargo e nada mais antes de seguir para a igreja. Não carregava muitas esperanças então foi com satisfação quase explícita que apertou a mão de sua amante à entrada da igreja.
– Bom dia senhor padre. – sua diaba particular disse em voz muito mansa. – Sua benção.
Abençoou-a lamentando não poder aproveitar as mãos unidas e levá-las em direção à boca rosada, mas se valeu do calor vindo com o olhar fortuito e o sorriso muito breve. Seguiu com os cumprimentos com o corpo ciente da proximidade e o peito pequeno para o prazer quase maldoso por se saber transgressor. Errado se sentir daquela forma; inadmissível apreciar tais sensações, mas nunca antes se sentiu tão vivo!
Já diante da assembleia lotada, depois de saudar o altar, Edward evitou descer os olhos sobre Bella e iniciou a missa. Para sua surpresa, logo nos primeiros minutos, antes da primeira leitura, toda a alegria malfazeja por ludibriar a todos desapareceu completamente, restando apenas o desejo de cumprir o papel ao qual fora moldado, exortando seus fieis a cantarem e orarem para enaltecerem ao Senhor. Esteve tão imbuído em sua obrigação que nem ao menos se abalou ao ouvir seu tio e assistente citar os Provérbios 7 onde se observava os cuidados para com as mulheres adúlteras, numa livre alusão à Faith; hipócrita. Em seus ouvidos as palavras caíram no vazio. Apenas o alertaram para o teor do sermão preparado no dia anterior. Caso fosse seu desejo aproveitar o melhor dos dois mundos – assim como o padre ao seu lado tão bem o fazia – tinha que manter o foco em todos os momentos sem repassar o que era de sua competência fazer.
Ao assumir a palavra tomou a liberdade de falar o que lhe veio ao coração e sua missa transcorreu sem mais incidentes. Carlisle não se mostrou satisfeito, mas ele sempre poderia se queixar com Esme quando tivesse a oportunidade. Aquele foi todo o pensamento maldoso que Edward se permitiu ter durante toda a celebração dominical onde seu ponto alto foi ver com satisfação que Bella novamente se manteve em seu lugar durante a comunhão, não vindo até ele para receber a hóstia; havia algum respeito nela afinal.
Com os ritos cumpridos e após liberar a todos para voltarem à suas casas desejando boa viagem àqueles que partiriam na manhã seguinte, o jovem padre saboreava o prazer do dever cumprido. Livre de sua obrigação poderia dar espaço ao homem que tinha um encontro marcado com a infiel que um dia haveria de perfumar sua cama com mirra, aloés e canela e o convidaria para se saciarem de amor até a manhã. Sim, seu pérfido tio não era o único que poderia fazer citações.
– Você nem ao menos leu o que preparei. – Carlisle acusou ao entrar logo após ele na sacristia.
– Não foi necessário. – falou calmamente retirando suas vestes litúrgicas; não iria se despedir à porta, pois tinha pressa. Contudo não tanta que o impedisse de deixar sua igreja organizada e devidamente fechada após a saída de todos. Durante o tempo que permaneceu nela Edward teve Carlisle em seus calcanhares, ora rogando que tivesse algum juízo e parasse imediatamente o que estava fazendo, ora ameaçando-o com novas citações que ele mesmo conhecia de cor, até que por fim conseguiu a atenção do sobrinho de volta ao perguntar:
– Já que está decidido a desviar de seu caminho, poderia ao menos ser discreto?
Edward parou abruptamente, exatamente no meio da nave central; estava ali algo que lhe dava o que pensar.
– Seja específico quanto ao desvio que cita. – falou encarando o tio sem qualquer desafio no olhar. – Devo ser discreto no tocante ao quê?
– Você sabe. – o velho padre retrucou. – Não me obrigue a falar; não aqui.
– Que diferença faz? Aqui, em nossa casa, na praça... Onde essa conversa seria menos imprópria?
Com um suspiro resignado, aceitando que não havia lugar onde pudessem ocultar o que seria dito Daquele que era onipresente, falou.
– Estou me referindo à moça. Se estiver disposto a... “estar” com ela, ao menos se mantenha acima de suspeitas.
– Devo tomar suas palavras como uma dica dada por experiência pessoal?
– De novo não Edward. – Carlisle pediu sério. – Pela última vez lhe digo que jamais tive qualquer envolvimento com Esme, então tome como conselho. Não imagina o quanto me custa dizer-lhe isso, mas... Sei que continua interessado na moça e está disposto a ficar com ela, então faça de forma que nunca percebam... Não jogue fora sua vida.
– Era nesse ponto que eu queria chegar. – Edward comentou sério. – De onde vem essa certeza? Saio da cidade, brigo na rua, volto tarde cheirando a cigarro e a bebida... E disso deduz que estou com Bella?
Carlisle travou o maxilar e o encarou muito rígido; como alguém descoberto de súbito a cometer algum delito. A postura, contudo logo se desfez antes que ele dissesse em tom casual.
– Sair da cidade e agir como um homem do povo nada mais é do que consequência desse caminho que deseja seguir. E se está nele foi conduzido por ela...
A explicação fora fraca, porém Edward não tinha tempo – nem ânimo – para tentar extrair o que quer que fosse que garantia ao tio um envolvimento até pouco tempo somente ansiado. Seja como for, não estava disposto a endossar suas conclusões certeiras.
– Se isso é uma aprovação, saiba que não preciso. Assim como o senhor em relação à Esme, nada tenho com Bella. Agora me dê licença, acho que me atrasarei para o almoço caso nossa conversa se estenda muito mais.
– Então vá... – Carlisle o liberou. – Ficarei aqui um pouco mais.
Talvez para se desculpar por suas palavras, Edward cogitou ao deixá-lo. Ou apenas pedisse perdão pelas constantes mentiras; não lhe concernia. O que lhe competia era se trocar e partir. Logo seguia para a casa dos Swan, levando no peito a vontade de estar novamente junto à Bella. Com a devida aprovação do padrinho, o padre escarneceu. Seu meio sorriso mordaz morreu antes de ganhar força ao reconhecer um dos dois carros estacionados diante do sobrado de madeira; o namorado estava presente. Nem mesmo saber a verdade dissipava um crescente mau humor. Não ajudou que a primeira a recebê-lo tenha sido Renée.
– Senhor padre! – ela exclamou satisfeita como se não o tivesse visto a pouco mais de meia hora. – Entre.
– Boa tarde. – cumprimentou aos demais que estavam na sala; Rosalie, Jasper e sua noiva. E mais ninguém.
– Sente-se senhor e fique à vontade... – a anfitriã lhe indicou o sofá depois que todos lhe responderam. – Sabe que essa casa é sua. – e sanando sua curiosidade silente, falou. – Bella e Emmett estão com Charlie no quintal. Logo eles virão... Jasper converse com o senhor Cullen enquanto eu termino de arrumar a mesa.
– Eu ajudo. – Rosalie anunciou se levantando para segui-la, depois de sorrir leve para o visitante.
– Eu poderia oferecer alguma bebida, mas sei que o senhor não a aceitaria. – Jasper falou incerto. Edward bem seria capaz de beber algo que diminuísse sua ansiedade, mas aquela também seria uma mudança acentuada.
– Não. – confirmou apenas; desconfortável com o olhar insistente que recebia de Alice. Para quebrá-lo, comentou. – Não a vi na missa.
– Cheguei tem pouco tempo. – ela respondeu resumida. – Como vai o Senhor?
– Vou bem. – disse seguro, estranhando o tom. – E a senhorita?
– Infelizmente atarefada. – falou encarando-o. – E forçada a ficar longe de minhas amigas mais queridas talvez quando elas mais precisem de mim. Ou de meus conselhos...
– Lamento. – retrucou ainda sem a entender. Não cria que a amiga necessitada fosse Bella mesmo assim acrescentou sustentando-lhe o olhar. – Se eu desmerecesse os bons conselhos estaria indo contra ao que prego, mas se vale para acalmar seu coração, saiba que todos têm livre arbítrio. Por mais que tentemos poupar nossos entes queridos de algum dissabor, no final das contas, eles farão o que bem entendem de suas vidas.
Antes que ela ou o noivo pudessem replicar, os três faltosos vieram do jardim. Vinham rindo; Charlie e o casal de amigos de braços dados logo atrás. Com o peito atacado por finas pontadas, o padre somente ouvia os sons que vinham dela; sua Bella. Não se lembrava de outra ocasião que a tenha visto tão descontraída. Quando estava com ele eram somente provocações, tensão e choro. Independente do ciúme que sentia, desejou um dia alegrá-la daquela maneira.
– Senhor! – Charlie exclamou sendo o primeiro a vê-lo. – Finalmente chegou!
– Sì. – disse automaticamente vendo a leveza deixar a moça tão logo seus olhares se cruzaram; ela estava de volta à tensão que os prendia. Bella apenas lhe acenou discretamente enquanto Emmett se adiantou para lhe apertar a mão.
– Padre Cullen! Eu queria ter ido à sua missa, mas me atrasei ao sair de casa e cheguei há pouco.
– Não faltarão oportunidades. – Edward se obrigou a formar um sorriso cortês.
– Com certeza que não. – Charlie exortou com o mesmo bom humor que acessou a sala. – Ainda mais quando voltar a morar aqui.
– Ah!... Está pensando em voltar Emmett? – Jasper poupou o padre de fazer a pergunta.
– Sempre pensei, mas...
– Ele voltará quando se firmar com sua irmã. – Charlie o cortou.
– Papai, não... – Bella tentou detê-lo sem ser ouvida.
– Acho que deveriam morar em Sin Bay depois do casamento.
– Teremos mais casamentos? – novamente o padre fora livrado de externar seu espanto, mesmo que Rosalie não parecesse compartilhar do mesmo que o abalava. Em tom jovial, ela os chamou. – Deixem para contar quando estivermos à mesa... Mamãe está chamando.
De repente Edward se viu levado para a sala de jantar sem muito perceber em seu entorno. Ainda tentava juntar as informações quando outra novidade surgiu. Daquela vez não fora colocado ao lado de Bella. A cadeira à esquerda do anfitrião estava reservada para Emmett. A ele coube se sentar no lado oposto, diante do casal. Que bela visão para lhe abrir o apetite, zombou.
– Senhor – Charlie o trouxe à mesa – seria muito abuso se...
– Absolutamente. – Edward o interrompeu ao entender o que queria. Sem demora juntou as mãos e fechou os olhos. Pouco preocupado se o imitaram ou não, fez uma oração breve em agradecimento pela oportunidade de estarem todos àquela mesa e pelo alimento tão generosamente fornecido.
– Bella, sirva Emmett, o senhor padre e seu pai. – Renée pediu, já tomando o prato da futura nora para servi-la. A moça fez como recomendado e até mesmo o ato simples de servir primeiro a Emmett trouxe certo ressentimento a Edward; ele não era o visitante especial. Quando Bella tomou seu prato pôde encará-la livre de qualquer temor; esperava que ela notasse o quanto não estava satisfeito com o que era obrigado a ver.
Como era possível que Edward estivesse aborrecido? A moça se questionou ao devolver seu prato e novamente receber um duro olhar das contas escurecidas. Acaso ele levou aquela conversa de casamento a sério? A oportunidade de confirmar suas suspeitas veio tão logo todos estavam servidos e Rosalie retomou o assunto.
– E então? Teremos mais casamentos na família?
– O quê?! – Renée maximizou os olhos. – Como assim?
– Não é nada disso. – Bella tomou a palavra. Talvez para incentivá-la a prosseguir, Emmett segurou-lhe a mão disposta sobre a mesa; nada bom ela pensou antes de esclarecer. – Papai que veio com essa conversa, mas nós mal começamos a namorar... Ainda é cedo para usar a palavra com C.
– Nunca é cedo para se falar em casamento. – o capitão retrucou e se voltando para o padre, indagou. – Não é mesmo senhor?
– Na verdade – começou após um pigarro – sua filha tem razão. A junção de duas pessoas é algo que precisa ser pensado para se ter a certeza do passo dado. Matrimônio é um sacramento que santifica a união indissolúvel entre um homem e uma mulher para formarem uma nova família cristã. Não pode ser tratado levianamente ou decidido no calor das paixões. – mirando as mãos unidas sobre a mesa, acrescentou. – Se os jovens se amam devem se conhecer melhor antes de tomarem tal decisão.
Era fato, Bella pensou alarmada, Edward comprou o absurdo dito por seu pai. Podia sentir no tom firme da voz melodiosa. Assim como Emmett inocentemente complicava sua vida ao prender sua mão, Charlie estava disposto a ir além, pois prontamente replicou.
– Concordo com o senhor, mas não gosto de namoros ou noivados muito longos. Tudo isso que falou talvez fosse importante anos atrás. Hoje esses jovens já vivem como se fossem praticamente casados. Veja Jasper...
– Ei... – o filho protestou.
– Fiquei quieto, pois não vou inventar nada. – o pai o calou. – Quando estamos em terra ele fica mais tempo na casa da noiva do que aqui. Qualquer um dos dois podem dizer que dormem em quartos separados? Não. – respondeu por eles. – Não seria melhor que fossem casados do que viver em pecado?
– Nem vou comentar o quanto seu pensamento é antiquado senhor Swan. – Alice falou entre uma garfada e outra, sem se abalar por suas palavras.
– Nem pode. – ele retorquiu e novamente incluiu o padre na conversa. – O senhor vai dizer que é certo o que fazem?
Nesse momento o casal se mostrou interessado em sua opinião; todos à mesa, na verdade. E aquele era o momento de colocar sua melhor máscara de hipocrisia e responder de forma que seu tio se orgulhasse.
– De maneira alguma. Viver em concubinato é pecado perante Deus mesmo que hoje em dia seja tão aceito pela sociedade.
– Há! – Charlie exclamou satisfeito.
– Agora “eu” sou a concubina? – a pergunta de Alice não fora feita a ninguém em especial, mas Bella tomou-a para si. O que ela esperava que Edward dissesse afinal?
– Revele meu marido querida. – Renée contemporizou dando tapinhas nas costas da mão da futura nora. – Ele apenas quer que todos se casem logo... Ninguém está julgando ninguém.
Bella podia sentir os olhos em si; os de Edward, os de Alice e até os de Jasper. Somente Rosalie parecia não se importar com a conversa, segura de seus planos com Emmett.
– Justamente isso. – Charlie anuiu. – Com o devido espaço entre eles para não ir à falência, quero casá-los todos... E com sorte o senhor ordenará a cerimônia.
E novamente Edward foi visitado pelo sufocamento ao ver-se casando o casal a sua frente; não aconteceria. Alimentando uma raiva crescente por Charlie lhe impingir tal incômodo, falou sem conseguir desviar os olhos de sua amante.
– Será um prazer.
– O casamento de Jasper viria antes – o capitão prosseguiu, animado ideias –, mas resolvi que antes será o de Rosalie.
Incapaz de sustentar o olhar intenso que o padre inadvertidamente lhe dirigia, Bella finalmente desprendeu sua mão da de Emmett e baixou os olhos para seu prato. Nesse exato instante Rosalie lembrou ao pai.
– Isso se James já tiver aparecido, não é mesmo papai?
– É claro que terá. – Charlie afirmou como se competisse a ele decidir.
Livre de qualquer apetite que possa ter sentido antes de pisar os pés naquela casa, Edward se interessou pelo dialogo tenso entre pai e filha.
– Perdão, mas... O que quis dizer? – perguntou diretamente à Rosalie. – Onde está seu noivo?
– É o que todos nós queremos saber. – Bella aproveitou para falar com ele, mesmo um assunto que nada lhes acrescentaria; apenas precisava daquela troca de palavras. – Ele está sumido há alguns dias? Pensei que alguém já tivesse lhe dito.
– Eu não sabia. – ele lhe respondeu. – Não vi nenhuma nota no jornal. Ou talvez tenha estado ocupado demais com outros assuntos para reparar.
– Pois eu lhe digo agora senhor. – Rosalie falou. – James está desaparecido desde a noite do baile. Seus pais estão feito loucos sem nenhuma notícia nem fazem ideia do que possa ter acontecido. Até a polícia está a sua procura.
O comentário final fora desnecessário. Depois de tanto tempo era certo que a polícia estivesse envolvida, Edward pensou já alheio a todos ao seu lado. Seu último contato com o noivo desaparecido havia sido no baile citado, quando ele veio lhe dizer de onde o reconheceu; ou o confundiu. E em sua última lembrança havia James dançando de forma intimista com a moça. De um jeito que ele próprio jamais poderia fazer. O que poderia ter lhe acontecido?
– Senhor? – ele ouviu chamarem de longe. – Senhor Cullen?
– Sì. – falou olhando em volta até identificar ter sido Renée a chamá-lo.
– Perguntei o que está achando da pasta que fiz especialmente para o senhor. Parece que não está gostando.
– Não... – falou sem compreender como haviam mudado o assunto. Ao perceber que sua vaga negativa abalou o espírito prendado de sua anfitriã se corrigiu. – Digo, sim... Estou gostando... É que ficamos conversando...
– O senhor tem razão. – Charlie aproveitou o ensejo. – Devemos comer em silêncio.
Ninguém retrucou. Todos dispensaram a atenção ao próprio prato e fizeram como o sugerido. Edward almoçou com a mente em outro lugar. Um onde não se importava com desaparecimentos inexplicáveis e acalentava o ódio por pais ditadores. Onde também se sentia só sem ter uma perna ladina roçando a sua e era assombrado pela possibilidade de ser obrigado a celebrar casamentos indigestos. Como era próprio aos egoístas, o padre mastigou a comida irreconhecível no eixo de seu próprio umbigo.
Apesar dos convites, Edward se negou a ficar muito além de terminada a refeição. Depois de dispensar a sobremesa – igualmente irreconhecível como a pasta em sua homenagem – tomou apenas uma xícara do café preferido de Charlie e partiu. As despedidas foram breves então o padre nem ao menos levava o calor da palma de Bella na sua. Considerou melhor daquela maneira; não precisava de mais detalhes para atormentá-lo. Bastava toda aquela estória de casamento que o recordou quão sagrada era a união de um casal. Era um fato; o pai da moça possuía uma habilidade impar de aborrecê-lo. Assim como seu tio, pensou ao entrar em casa e encontrar Carlisle a sua espera.
– Por favor, senhor... – rogou com a mão erguida, passando diretamente por ele. – Chega de discussões.
– Espere. – ele pediu firmemente. Algo no tom, talvez uma leve ansiedade, fez Edward parar e encará-lo. – Só queria saber como foi o almoço.
– Sinceramente não o entendo. – não queria brigas, mas a curiosidade levou o padre a perguntar. – Está interessado em saber como foi o almoço na casa daqueles que faz questão em não se misturar?
– Não querer aproximação não me impede de desejar que todos estejam bem. – ele retrucou com o mesmo tom falsamente casual de antes. – Então... Como foi?
– Agradável. – se tirasse todas as partes ruins, emendou em pensamento.
– Todos estavam presentes?
Edward refreou a vontade de citar a falta de Esme, mas se conteve. Se não queria argumentação não deveria iniciá-la. De toda forma a pergunta lhe trouxe uma leve consternação quanto o lugar vago deixado pelo futuro membro da família.
– Infelizmente não. – disse sinceramente. Não que James lhe fizesse falta, mas não queria que nada de grave tivesse acontecido a ele. – Lembra-se do noivo de Rosalie?
– Acho que não. – Carlisle falou vago.
– O senhor se lembra. James foi aquele que me reconheceu em um retrato falado.
– Ele não o reconheceu. – o tio negou veemente. – Apenas o confundiu com alguém muito parecido. Isso se não for somente impressão. – desmereceu a comparação, então indagou. – O que tem ele?
– Está sumido desde aquela noite. – Edward colocou as mãos nos bolsos. – Acho tão estranho.
– O quê? – a pergunta sussurrada chamou a atenção do sobrinho. Sem motivo aparente Carlisle de súbito estava lívido, vacilante a procura do sofá. Edward correu para ajudá-lo. Ao sentá-lo notou sua testa suada.
– O que está sentindo? – perguntou preocupado, imaginando se poderia ser alguma fraqueza ainda provocada pela operação tão recente. – Precisa de algum remédio?
– Um copo com água, por favor.
Sem demora Edward o atendeu. Voltou da cozinha rapidamente e entregou-lhe a água pedida. Ajoelhou-se numa das pernas e esperou até que o tio esvaziasse o copo para inquiri-lo.
– O que aconteceu? – pareceu que não o via por dias. Achou-o mais magro, o rosto tão parecido ao seu, marcado. – O senhor almoçou?
Antes que lhe respondesse o padrinho ensaiou um sorriso e, receoso, pousou a mão sobre seu rosto.
– Nem me lembrava de como era tê-lo atencioso comigo. Sinto falta desse meu Eddie.
Ele também sentia falta do tio que confiava cegamente; ao que parecia, nenhum dos dois jamais voltaria. Contudo aquelas duas pessoas diferentes poderiam aprender a viver pacificamente. Desferindo leves tapas sobre a mão ainda pousada em seu rosto, Edward falou.
– Seu Eddie está um pouco mudado, mas ainda se preocupa. E não me respondeu. O senhor almoçou?
– Sim. – disse recolhendo a mão; a cor voltando à face.
– Então o que aconteceu?
– Deve ter sido uma queda de pressão. Vou deixar um pouco e descansar... Mas antes, me diga o que considera estranho no desaparecimento do rapaz.
– Sei lá... – Edward exalou se pondo de pé. – Não é que eu considere coincidência nem nada disso, mas... Não acha esquisito que ele tenha sumido logo depois de reconhecer um fugitivo?
– Veja o absurdo que está dizendo... – Carlisle pediu. – Ele não disse sobre o que se tratava o retrato falado e você não é nenhum fugitivo. O rapaz ter desaparecido naquele dia foi coincidência.
– Está bem. – o jovem padre anuiu ainda preocupado. – Agora vá se deitar, por favor. Não quero que tenha uma recaída.
Deixando o sorriso de antes ganhar forma, o tio se levantou. Uma vez de pé voltou a ficar sério e depois de um suspiro cansado, falou.
– É reconfortante saber que mesmo mudado você ainda se preocupa.
Depois de retribuir o breve sorriso, Edward o assistiu deixar a sala. O tio parecia subitamente envelhecido, andava arqueado como se carregasse o peso do mundo em suas costas. Também sentia falta do homem forte que ele sempre fora, mas nada poderia fazer para ajudá-lo quando tinha suas próprias cargas. Gostaria de seguir seus passos e se refugiar no quarto, mas ainda tinha uma tarde inteira pela frente. Como alegou a guisa de desculpa para se retirar da casa dos Swan, aquele era o último domingo antes da pescaria e pretendia deixar as portas da igreja abertas para receber quem viesse procurá-lo.
Ocupou-se de suas obrigações até que fosse hora de se recolher, dispensando até mesmo o jantar. Já no seu limite, finalmente se recolheu e, depois de uma série extra de flexões, tentou conciliar o sono. Pouco mais de duas horas, sem nem ao menos cerrar os olhos, o quarto começou a sufocá-lo obrigando-o a se levantar. Havia tentado bloquear o que viu ou ouviu durante o almoço, mas naquele momento pareceu impossível calar as palavras de Charlie
Precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa. O que não podia era ficar ali andando de um lado ao outro como um animal enjaulado. Decidido, Edward vestiu apenas a camisa usada e, depois de verificar que seu padrinho dormia a sono solto, saiu pela porta dos fundos. As ruas estavam vazias; tanto melhor. Ainda assim tomou o devido cuidado, certificando-se que não seria visto. Não encontrou o carro conhecido ao chegar ao seu destino. Ignorando o fato, seguiu para a lateral da construção indo direto para os fundos onde sabia ficarem os quartos.
Antes de entrar naquela parte do quintal, prestou atenção aos ruídos a sua volta. Como não ouviu nada que demonstrasse ter alguém na varanda, seguiu em frente, porém sempre pelas sombras que a noite muito clara formava. Todos dormiam o sono dos justos. Talvez a única que não o merecesse fosse Bella, pensou rumando até a armação de madeira pela qual a moça assegurou que costumava sair. Depois de testar sua firmeza, subindo na primeira ripa, escalou com certa facilidade até a varanda.
Chegando ao segundo andar se deu conta de que não sabia como faria para chamar a atenção da moça; inferno. Considerava desistir quando percebeu a porta de um dos quartos entre aberta. Com cuidado, aproximou-se e a empurrou lentamente. Satisfeito, sem crer na própria sorte, viu que havia duas camas dispostas lado a lado; o quarto das moças. Decidido a entrar, empurrou o restante da porta vagarosamente.
Dentro do quarto, descobriu ter outro obstáculo. Em qual das camas a garota estava? A pouca luminosidade no interior do cômodo não era suficiente para distinguir seus corpos; e não ajudava que o tom de cabelo fosse o mesmo. Á um pensamento insano, escolheu uma das camas e se abaixou o suficiente para farejar o ar á volta da moça adormecida; talvez reconhecesse o odor floral. Mal havia se curvado ouviu a voz conhecida vir da cama oposta.
– O que pensa que está fazendo aqui? – ela murmurou. O choque o fez suspender a respiração. Ele expirou o ar somente ao endireitar o corpo antes de ir até ela. Agachando-se num dos joelhos, falou próximo ao seu rosto.
– Precisamos conversar.
– Agora?!... – inquiriu atônita. Bella esperava por aquilo, mas não que ele invadisse sua casa no meio da noite. – Não poderia esperar até amanhã?
– Não. – respondeu simplesmente. – Poderíamos sair? Eu...
– Bella?... – Charlie chamou batendo a porta. Imediatamente Edward se pôs de pé e saiu para a varanda; praguejando intimamente pela intromissão.
– Sim, papai... – ela respondeu depois de um instante de hesitação em que viu seu padre ir embora apressadamente.
– Queria falar com você.
– Claro... – resmungou aborrecida. – Todo mundo resolveu que agora é hora de papo.
– O que disse? – seu pai perguntou do corredor. Aumentando a voz, ela falou.
– Perguntei se não poderia ser pela manhã... Estou indisposta.
– É justamente por isso que desejo lhe falar. Percebi que ficou estranha com minha ideia de noivado. – ele insistiu. Nesse momento a moça desejou que o padre realmente tivesse ido embora. Queria explicar que ainda estava presa ao plano infantil para que não tirasse conclusões equivocadas.
– Não fiquei, sabe que gosto muito de Emmett.
– Tem certeza? Sabe que quero o melhor para você, não?
– Eu sei papai... Agora vá descansar. Temos que levantar cedo.
– Está certo. – Charlie anuiu. – Boa noite querida!
– Boa noite papai...
Tão logo o som dos passos se afastou no corredor, a irmã sussurrou-lhe sem se mover.
– Obrigada! Prometo que vamos achar um jeito de consertar essa confusão.
– Não me agradeça... – ela murmurou de volta, olhando apreensivamente para a posta da varanda. – Agora volte a dormir... Teremos mesmo que madrugar.
Estava claro que a irmã não viu seu visitante inusitado, contudo Bella não conseguia controlar os saltos de seu coração. Seu pai tinha um timing prefeito. Queria sair e se certificar que Edward havia partido sem ouvir o que disse, mas temia que a irmã também acreditasse que aquela era a hora de conversarem a respeito de Emmett e a seguisse. Respirando fundo, voltou a se deitar, tentando ouvir algum ruído que denunciasse uma presença além de sua porta. Fora o refluxo das ondas e o farfalhar das folhas das árvores ao lado da casa, nenhum outro som era ouvido.
Minutos depois, passado o susto, Bella sentia certo prazer ao associar a invasão a um rompante possessivo; desesperado. Para alguém que não a namoraria, seguir um impulso era o mais próximo de um ato romântico que ele poderia ter. Aquela comparação fez a adrenalina correr por seu corpo eliminando de vez as chances de conciliar o sono. Eletrizada, saltou da cama e partiu para a varanda. Tendo o mar por paisagem, especulava se seu não namorado havia perdido o sono assim como ela quando teve sua boca tapada e seu corpo seguro firmemente por trás. Trêmula pelo novo susto ouviu a voz muito baixa e irritada em seu ouvido.
– Por que demorou? – ao indagar, ele lhe libertou os lábios, mas não a soltou.
– Eu não sabia que estava esperando. – Bella se justificou num sussurro ansioso. Todo seu corpo consciente do outro às suas costas.
– Eu disse que precisávamos conversar. – ele ciciou em seu ouvido. – E também que não poderia esperar.
– Desculpe-me. – Bella pediu cada vez mais temerosa de que até mesmo Jasper, que dormia como uma múmia dopada os ouvisse. – Acho que é melhor sairmos daqui... – sugeriu indicando sua escada alternativa.
– Eu vou primeiro. – Edward anunciou, soltando-a. Descer se mostrou ainda mais fácil do que subir. Impaciente esperou por ela evitando olhar as pernas nuas que o short curtíssimo do pijama deixava a mostra. Não havia ido até ela e esperado por mais de meia hora para se deixar distrair pelos atributos que conhecia tão bem.
Ela ainda se encontrava a um metro do chão quando foi colhida da cerca por mãos poderosas em sua cintura. Foi preciso morder os lábios para não deixar transparecer sua surpresa enquanto era levada para a área abaixo da varanda, próximo a porta de seu atelier. Ao ser solta, girou a maçaneta eternamente destrancada e o puxou para dentro. Lamentando não poder acender a luz para ver a expressão de Edward, perguntou.
– Por que a pressa?
– Nem eu mesmo sei. – ele disse sinceramente recostando-se a porta. – Só que eu precisava entender o que foi tudo aquilo durante o almoço. Sexta me disse que não tem nada com o rapaz e hoje praticamente concorda com um casamento? – não era sua intenção que a pergunta sussurrada soasse com tal rispidez, mas não pôde dosar seu tom; estava irritado.
– Não concordei com nada. – refrescou-lhe a memória, sentindo-se menor descalça diante dele. – Eu disse que era encenação esqueceu? É algo idiota, mas agora não tenho como recuar sem prejudicar minha irmã.
– Então essa ideia absurda surtiu efeito? – Edward indagou atônito. De todas as infantilidades inconsequentes de Bella aquela era a que mais considerava imbecil e lhe espantava que ao contrário de todas as outras, desse certo.
– Sim, mas eles não sabem como anunciar que estão juntos... – murmurou sem desviar os olhos do rosto escurecido. – E para piorar tem o desaparecimento de James. Rosalie espera que durante esses dias que nosso pai está fora, cheguem à alguma conclusão. Por ora temos que deixar como está. Desculpe-me se causei algum transtorno, senhor.
Era um tolo apaixonado. Ele constatou mordaz que ser abalado por tolices pueris era o esperado quando se envolvia com adolescentes. Então recordou que Bella já era uma mulher e não tão mais nova do que ele. Talvez o esquema dos amigos não fosse assim tão infantil, apenas o considerasse por ser sério em demasia; endurecido pelo esquecimento de suas próprias armações e pela seriedade agora esperada por sua idade e posição. Valendo-se de autocondescendência, despejou a culpa de toda aquela confusão em Charlie. Não fossem por sua intolerância, suas filhas não precisariam usar de falsos expedientes para serem felizes.
– Já admiti meu ciúme. – falou sério, odiando-se por demonstrar sua fraqueja. – E também já disse que não consigo acreditar completamente em você então...
– Então achou que eu estivesse mentindo quanto a Emmett. – ela completou; mais envaidecida do que propriamente ofendida. Novamente consciente do corpo próximo.
– Basicamente. – Edward confirmou rouco já sob o efeito da mudança no clima entre eles e da moça que se aproximou languida, apoiando-se em seu peito. – Não pode me culpar.
– Não posso. – ela concordou, erguendo a cabeça para depositar um beijo na curva acentuada do queixo. – E devo agradecer à sua descrença que o fez vir aqui a essa hora. – e ficando na ponta dos pés beijou-lhe a boca rapidamente antes de sussurrar sobre ela. – Estava com saudade meu senhor.
Quando a instruiu a usar o tratamento formal, que a princípio o incomodava, esperava que este criasse um afastamento entre eles. Jamais poderia atinar o quanto as duas palavras ditas por ela surtiriam o efeito contrário, inflamando-o inteiramente. Também sentira a falta dela e talvez essa fosse a verdadeira razão de ter invadido seu quarto. Estar com Bella sem poder tocá-la se mostrava ser uma tortura maior do que aquela aplicada com seu chicote em noites de lascívia; com certeza era mais doloroso. E presenciar os carinhos trocados com outro – mesmo que apenas encenados – tornavam o castigo ainda pior; sem atenuantes.
Não importava o que o moveu. Aquele era um dos raros momentos que estavam juntos e deveria aproveitá-lo antes que fossem interrompidos. Dando o assunto por encerrado a segurou pela cintura, trazendo-a junto de si. Verdadeiramente saudoso, cobriu a boca que o beijou timidamente para requerer um pouco mais de paixão, forçando passagem entre os lábios com sua língua até capturar a dela e convidá-la á uma dança compassada.
Com um gemido baixo Bella o enlaçou pelo pescoço e se emoldurou mais ao corpo forte e quente de seu padre. Com mãos afoitas, acariciou-lhe os cabelos da nuca sofregamente, satisfeita ao também ouvi-lo exalar um gemido manso que findou em sua boca. Logo sentiu mãos tão ansiosas quanto às dela, invadirem a parte superior do baby-doll para tocar seus seios avidamente. Ao ter os mamilos já túmidos, espremidos descuidadamente entre os indicadores e polegares de Edward, choramingou de dor e prazer, arqueando o corpo em direção ao dele.
– Machuquei você. – perguntou não muito preocupado, no fundo desejando torturá-la por tê-lo tornado tão dependente de seu corpo antes mesmo de provar sua completude.
– Não meu senhor. – ela exalou muito baixo, passando a desabotoar-lhe a camisa; apressada. Logo corria as mãos por seu peito fazendo-o perceber que estava igualmente viciado naquele toque explorador que não se contentava em passear por seu dorso. Beijava a curva delicada de seu pescoço quando uma mão pequena descobriu a gravidade de seu desejo.
Edward abafou o urro naquela pele que rescindia a flores, lamentando antecipadamente ter que impedi-la, pois o risco de serem descoberto era real, contudo, ao ter sua masculinidade comprimida sem cuidado, calou qualquer negativa. Na verdade, começava a considerar muito atraente a ideia de quebrar seu voto de castidade naquele cômodo mínimo, abaixo de um pai controlador; Bella não se negaria. A expectativa o fez estremecer fortemente e anunciar rouco contra a boca arfante.
– Quero-a aqui... Agora!
– Agora? – Bella repetiu sem encobrir o lamento. Sua intenção era aproveitar o momento, pois sabia que nada poderiam fazer. Principalmente naquela noite em que ainda sangrava. Entristecida pela chance perdida e por decepcioná-lo, anunciou sem receio. – Hoje não podemos senhor... – então explicou a razão.
Saber o motivo do impedimento não o enojou ou desestimulou; apenas o deixou mais ansioso por ela que maldosamente ainda o incitava mesmo tendo se negado a ele.
– Se está impedida pare, por favor. – pediu sem muita convicção.
– Se me deixar posso compensar. – ela silvou contra sua boca como a serpente tentadora que era.
– Como seria? – se ouviu indagar muito inclinado a ser ressarcido. Em resposta teve o maxilar beijado antes de a boca macia vagar de seu pescoço ao peito. Deleitou-se com um mordiscar em seu mamilo e então Bella desceu mais seus beijos, passeando os lábios úmidos por seu abdômen, provocando-lhe novos calafrios que se instalavam todos na porção que não seria atendida. Antes que pudesse lamentar a sentiu livrá-la sem restrições. Edward se entregava completamente às novas sensações quando sentiu um beijo improvável e completamente amoral. Arfante e incrédulo indagou.
– O que está fazendo?
– Compensando meu senhor.
Então ela demonstrou em ação sua ideia de reparação. Acaso não estivesse recostado, Edward teria caído ao ter o ar roubado de seus pulmões. Lutando para se manter de pé, fechou os olhos e se obrigou a respirar enquanto era conspurcado irreversivelmente bem abaixo das barbas de certo capitão. O ato libidinoso e altamente transgressor o estimulava mais. Como uma droga promitente de muitos prazeres vindouros, pois era evidente que seria levado a muitas quebras de conduta pela moça experiente; pensou esperançoso e enciumado.
– Maledetta... – praguejou segurando-se bravamente à madeira em suas costas. Em resposta obteve um lamento baixo. Ouvi-la gemer o enlouqueceu de vez. A mensagem clara fora enviada a cada poro, a cada célula nervosa e sem saber exatamente o que fazia, apenas intuindo que precisava de mais; que “havia” mais, ele a prendeu pelos cabelos com o punho fechado e moveu o quadril de encontro à boca torturadora.
Sentia que logo alcançaria plenamente sua satisfação. Uma parte dele, a cônscia e gentil, queria afastar-se para que ela não recebesse seus fluídos impuros. Porém a outra, a estrangeira que o incitava à violência e trazia familiaridade ao desconhecido, avisou que seria mais prazeroso se não o fizesse. Como sempre a porção irracional ditou a ordem e deixou que Bella recebesse o prêmio que fez por merecer.
Com olhos turvos, Edward a viu cair sem forças. Desejando poder ver com clareza a boca arfante que segundos antes esteve em si, recompor-se. Somente então a levantou, trazendo-a direto para seus braços. Levemente trêmulo, apertou-a com força, aproveitando o calor daquele corpo muito quente que silenciosamente lhe prometia muito mais prazer. Mesmo com a pouca luminosidade, o jovem padre – jubiloso com a corrupção – procurou pelos olhos castanhos e, sem receio sussurrou.
– Perdoe-me por não saber o que fazer agora.
Impossível não rir satisfeita com a sinceridade simplória vinda de um homem com aquele porte. Animada, estimulada pela loucura que acabara de cometer, sussurrou sorrindo manso junto aos seus lábios.
– Agora o senhor me beija.
Edward titubeou. Beijá-la lhe parecia errado; sujo. Ainda assim tão atraente. Segurando a nuca delgada fez como recomendado, beijando-a profundamente para dizer, livre de palavras, o quanto era agradecido. Comprazendo-se enquanto os ecos do gozo ilícito corriam suas veias, alimentando um sentimento reconfortante de vingança concluída por toda angustia que Charlie Swan o fez passar durante o almoço e a tarde, ao desejar que casasse sua adorada amante com um pirralho qualquer.
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